Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, junho 14, 2017

Sem rasto





E outro dia veio e, de novo, o formigueiro nos dedos. Começou a habituar-se. Se olhava num relance para o espelho, pensava que as feições estavam outras. Mas também a isso começou a habituar-se.

Porém, um cansaço começava também a dobrar-lhe a vontade. Achou melhor tirar uns dias de férias. Ficava em casa, dormia, olhava pela janela, escrevia, ouvia música. Mal comia. Uma manhã pensou que podia aproveitar para arrumar algumas gavetas.

A casa estava quente e ela estava nua. 

Tirou tudo, espalhou no chão roupas, papéis. Quase não se podia andar, de tal forma a casa ficou caótica.

Foi buscar sacos grandes e começou a separar, para dar ou para o lixo, roupas antigas, extractos bancários, facturas da água, da luz. 

De vez em quando ficava parada a olhar, sem se lembrar de vestidos, blusas, documentos. Encontrou um envelope cheio de fotografias. Custou a reconhecer-se. Não tinha ideia de quando seria aquilo. Com um vestido preto, justo, de alças, muito decotado, todo brilhante, talvez revestido a lantejoulas. Os lábios, pintados de vermelho, pareciam mais cheios. Sorria e seduzia quem a fotografava. Mas quem? Olhou com atenção, tentando perceber onde tinham sido tiradas. Via uma lareira. Numas fotografias estava a dançar mas não se via mais ninguém. Pela pose e pela expressão, era notória a intimidade.

Fechou os olhos, tentando lembrar-se. Mas logo o pensamento deslizou para uma preocupação: seria normal não se lembrar? Estaria tudo bem com ela? Levantou-se, foi até ao espelho, olhou-se bem. Em voz alta, perguntou: Está tudo bem comigo? Ficou a olhar, como se esperasse resposta.

Foi, de novo, até aos armários que estava a tentar arrumar e, de repente, lembrou-se de um dia, muitos anos atrás. Um homem fazia-lhe uma festa no cabelo, abraçava-a, perguntava-lhe se ela não queria pensar melhor. Não. Não precisava. Estava certa. Admira-se agora de como estava tão segura da sua decisão. O homem segurava-lhe as mãos, queria que ela pensasse bem. Depois queria acompanhá-la. Não. Não queria.

Lembra-se bem. Foi sozinha. Quando ia a entrar vacilou. Mas não se deteve. Estava no início. Pensava que ainda não era gente. Nunca mais quis pensar no assunto. Só agora. Tenta recordar-se do ano em que isso teria sido. Teria agora vinte anos, vinte e qualquer coisa, talvez. Não sabe bem. Ocorreu-lhe que nunca tinha pensado se era menino, se menina.

Não sabe também desse homem tão gentil. Porque acabaram? Lembra-se dele. Encostava a sua cabeça à dela, De noite, beijava-lhe os ombros. Disso lembra-se.

Lembra-se que ele, anos mais tarde, lhe telefonava de vez em quando a saber se ela estava bem. Perguntava também pelos pais, pelo trabalho. E ela nunca lhe perguntava nada. 

Continuou a arrumar papéis. Encontrou um com um poema manuscrito.

Este é o labor
de fogo
nesta avidez insensata

de existir

entre a lírica
e o corpo
pela fundura do poço

a navalha da paixão
a rosa do alvoroço

Não reconheceu a letra. Quem o teria escrito? Tentou pensar mas o pensamento não fluía. Não se lembrava nem da ocasião em que o poema aparecera nem de quem poderia tê-lo escrito. Admitiu que podia ser a sua letra. Mas, se calhar, não. Um rosto perpassou-lhe, então, pela memória. Fechou os olhos. Releu. Sentiu que não continha as lágrimas.

Passado algum tempo, disse, então, quase em surdina: Uma vida sem rasto, cada vez mais sem rasto, o rasto a esvair-se.





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O poema que inseri no texto chama-se 'Fogo' e é de Maria Teresa Horta in Poesis, o livro que eu queria trazer, e trouxe, da Feira (e do qual é também o poema que serve de mote ao meu texto de hoje no Ginjal & Lisboa, a love affair)

Lá em cima, Bernardo Sassetti interpreta Noite


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O texto que acabei de escrever vem no seguimento de Naquele Dia.

E continua com Sou aquela que transgride o abismo da paixão

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