Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, outubro 24, 2017

20, o número cabalístico das monas-ocas


A so called Miss Kiwi, aka Madame Cristas da Coxa Grossa, já nos tinha surpreendido a todos. E não me refiro às sessões fotográficas em que nos brinda com as suas toilettes que um ar tão distinto lhe dão.


Não. Refiro-me a surpresas de outra natureza: surpresas metafisicas, daquelas que abalam a nossa compreensão.

Explico-me.


Saída da alçada do Láparo -- durante a qual tinha alinhado na austeridade doa-a-quem-doer e TINA, ou melhor, TEE (que é como quem diz: toma e embrulha) -- eis que a digna sucessora do Paulinho das Feiras solta a franga e, para espanto colectivo, propõe que se danem as contas e a racionalidade económica e que se abram não 1 (uma), não 2 (duas), não 6 (meia dúzia), não 12 (uma dúzia)... mas 20 (vinte!) novas estações de metro.


A malta nas outras bancadas e a malta em casa deixou cair o queixo. 20? 20 novas estações de metro, ó Sãozinha...? Não será demais..?

Mas ela nem pestanejou, firme nas suas convicções. Que não, são 20 mesmo -- e que já chega de pelintrice, que está na hora é da esbórnia e os que gostam de se armar em tesos que se vão catar. E, resoluta, sacudiu a crista.

Pensámos: Surtou de vez. Nem vale a pena dar troco. É deixá-la ficar a falar sozinha. Não foi à toa que se uniu à Ágata para se afirmar no mundo da política pimba. Aquela mona vai mas é oca.

[É como agora isto da moção de censura. Armou-se em dominatrix, que matava e esfolava, e agora, com o apelo do Marcelo ao pacto de regime em torno do tema, não vai ter outro remédio senão ver se sai airosamente da saia justa em que se enfiou. Vai, outra vez, ficar a falar sozinha. Ela e mais o outro tal do cabelo oleoso, os dois re-béu-beuzinho, de rabinho entre as pernas a caminho da casota.]
Mas, enfim, ainda mal tínhamos conseguido repor a posição do queixo, e eis que já nos aparece na ribalta o Menino Guerreiro. Sabe que, para se safar, o melhor é ter bué de likes, é alimentar as cenas do Face, organizar eventos, puxar pela língua aos comentadores, criar casos, aparecer onde estique o biquinho para dar beijinhos.  E, então, não é de modas. Sai um debate com o bota de elástico do Rui Rio. Os comentadores a adivinharem o que ele vai dizer, a malta toda a deitar palpites ao ar, e ele, todo galã, a imaginar as rasteiras matreiras que vai passar ao outrozinho. 

E está nisto, a ensaiar a pose, quando desce nele uma epifania. Qual 1 debate...? 2. Dois debates, um a norte e outro a sul. 

Depois, pensando melhor: qual 2? 3! Três! uma norte, outro a sul e outro na Kapital. 

Mas logo: 3 o caraças. Meia dúzia! E distribui os outros: o 4º na Praia dos Tomates, o 5º na Figueira da Foz e o 6º à escolha do outro zinho. 

E, enquanto se embevecia com a sua generosidade, teve segunda epifania. Ná. Meia dúzia é coisa pouca, coisa de forretas como o zinho. Uma dúzia! Uma dúzia de debates! Boa. Logo ligou à namorada: Olha, bem, já o entalei. Uma dúzia de debates. O que é que a menina acha? Não vai aguentar, não acha? Já ganhei, é o que lhe digo. Vá-se preparando para ser primeira-dama, ouviu?

Mas, mal desligou, cofiou o queixo e lembrou-se da sua rival. Gaita. Não vou ficar atrás da Kiwi da Coxa Grossa. 20. Vão ser 20. E logo emitiu um press release: 20 debates com o Rio. 20.

E riu. Riu, riu. A gaja julgava que se ficava a rir com as 20 estações de metro? É para aprender. Uma coisa é o tanso do láparo, outra sou eu. Comigo vai ser assim: taco a taco. E que não apareça de pernão ao léu que eu cubro a parada e desabotoo os botões da camisa. 

Até que Rui Rio lhe estragou a festa e liminarmente lhe disse que fosse dar banho ao cão. 20 debates? Só se for nas 20 estações de metro da outra. Ahahahah. -- terá ele dito, rosnando baixinho e deixando as santanettes preocupadas com o beicinho que o Menino Guerreiro agora vai fazer. Mas, pronto, lá terão que consolá-lo. Estão habituadas a isso, é sempre um corrupio de manos a darem pontapés na incubadora onde ele, tadinho, em vão tenta medrar. Não foram elas e os seus mimos e haveria ele de andar por aí sempre feito menino da lágrima.


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E assim vamos. Foi o que sobrou dos PàFs. Convenhamos: não é grande coisa.

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Bem. Adiante.

Para isto não acabar assim, de forma tão jururu, permitam que partilhe convosco um número de burlesco. Claro está que isto de burlesco não é indirecta para os fantásticos personagens acima mencionados. Nada. Mera coincidência. E aceitem as minhas desculpas por vos apresentar um corpo de baile tão limitado. Claro que também queria 20. Menos que 20, nos mediáticos tempos que correm, é o mesmo que nada. Mas, pobre de mim, só me apareceram 8. É o que há. A ver se me esforço para, da próxima, vos aparecer com um upgrade. Mas, para já, apenas tenho as seguintes dotadas bailarinas: Ginger LeSnapps, Cinnamon Twist, Honey Dew, Lucky Charms, Pumpkin Pie, Sassy Frass, Sugar Plum e Tobi L'Rone

Johnny got a boom boom



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Ah... parem tudo! Parem tudo...!

Encontrei. Bué. Se não são 20 andam por lá perto. Já ganhei. Já ganhei.


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As fotos da dupla extraordinaire, Cristas & Flopes, foram antes publicadas nas revistas da especialidade e, fruto da pegada digital, estão por todo o lado.

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NB

Não me pronuncio sobre aquela macacada de um tal Neto de Moura, um Juíz que é recorrente em desculpar violência a agressores traídos usando tiradas bíblicas, pois não aprendi a falar com animais irracionais nem consigo compreender os seus roncos. Portanto, esperando que o enjaulem, permitam que passe adiante.


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E um dia feliz a todos quantos por aqui passam.

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segunda-feira, outubro 23, 2017

Pedro Santana Lopes e Rui Rio vão sozinhos a votos no PPD/PSD?
Entre o bota de elástico trombudo e o enfant terrible engatatão, as hostes laranjas apercebem-se do vazio.
Começar uma nova era com ideias velhas, remoques, bafio e brilhantina...?
Bahhh... não é bem isso de que precisam, pois não...?





O PSD até que não começou mal. Olha-se para trás, para aqueles tempos de saudável tumulto e ilimitada esperança, e vê-se um grupo de gente com cabeça e savoir faire. Falavam bem, impunham um certo respeito. Bons tribunos, gente boa de palavra, prosa alinhada, ideias escorreitas. Podia ou não concordar-se mas havia ali uma notória vontade de servir o País e sentia-se que havia elevação. Não eram uns quaisquer: era gente que se sentia ser, maioritariamente, gente de bem. 

Mais tarde, alguns, ao envelhecerem, vieram a anquilosar-se e percebemos que, desses tempos, pouco sobrou e que, na verdade, apenas um deles era o esteio do grupo. Dele vinha a nobreza de ideais, o risco desenhado a direito, o corte certeiro, o olhar de águia. Mesmo na forma como conduzia a vida pessoal, percebia-se o desprendimento de quem respeitava as paixões, as alheias e as próprias. Ele foi e é ainda a única e verdadeira referência. Sá Carneiro.


Depois da sua morte, o PSD não mais foi o mesmo. Desencontrou-se. Passou a ter como cola que unia os diversos interesses apenas a apetência pelo poder -- o central, o local, e as administrações nas empresas e institutos -- e, com isso, perdeu a capacidade e o gosto pelo golpe de asa, tornou-se ladino, rasteiro.

Diversas lideranças foram ensaiando estilos mas nenhuma se afirmou nas entranhas do partido. Marcante foi o período Cavaco. Foi a altura em que o PSD virou um saco de gatos que, de vez, aos princípios e aos costumes disseram nada e que, desprovidos de nobres ideais, videirinhamente esfregaram as mãos em torno de subsídios, apoios, formações, obras e mais obras -- para poderem participar na nobre causa de gerir o bodo aos pobres, ou seja, para poderem pôr a mão na massa. 


E foram-se sucedendo outros líderes. Nenhum a aquecer o lugar, nenhum a conseguir entrar no coração dos correlegionários, nenhum a estabelecer nova matriz cultural, nenhum a criar escola. Nem Marcelo conseguiu impôr-se tal o emaranhado que encontrou, com armadilhas e alçapões por todo o lado.


Mais recentemente foi Passos Coelho. Uma humilhação para os militantes. Um cadáver político que tarda em poder ser enterrado na cave mais escusa da memória do partido.


Mas não é o único. Lembremo-nos também de Durão Barroso. Outro mau passo. Na verdade, no cômputo geral, da história do PPD/PSD são mais os líderes que os militantes querem esquecer (ou que, mal saíram, logo foram esquecidos) do que os que deixaram saudades.


Neste partido exausto, desenraizado, com as prebendas e as nomeações a rarearem, os militantes de coeur que ainda sobrevivem são já apenas os expatriados intelectuais que sobraram de outras eras e mais uns quantos lunáticos que teimam em imaginar que, nas veias laranjas, ainda corre algum sangue do momento inicial. 

Se alguém quiser sequenciar o ADN deste partido não conseguirá fazê-lo: entre o Social e o Popular, as cadeias celulares dividir-se-ão e aquilo do Democrático não passa de uma velha abstração de quem ninguém saberá bem dizer o que significa.


Para conseguir fazer alguma coisa por este partido, tinha que aparecer alguém que viesse para sobressaltar as hostes, que as inquietasse, que fizesse a necessária incisão para daí fazer nascer um novo rumo.

Não será Rui Rio, o soturno homem do norte, nem Santana Lopes, o estroina da capital, que conseguirão fazer renascer o partido de forma a torná-lo, de novo, necessário ao País. Ambos têm os pés enterrados no passado e ambos pensam mais em si próprios do que no País. Querem afirmar-se, citando-se a si próprios, debicando nos outros, o olhar preso ao reflexo que o espelho lhes devolve e as mãos presas à vacuidade que os rodeia -- e isso é nada. Nada. 


Ou aparece alguém que consiga perceber que aquilo de que o País precisa é de uma visão moderna de um mundo que é novo e que se afirme com alguma ideia mobilizadora que, de alguma forma, o distinga do ideal humanista, social democrático e socialista (que já tem os partidos da so called geringonça a corporizá-lo), ou será mais uma oportunidade perdida -- e o PSD continuará na rota descendente que o conduzirá inexoravelmente à absoluta irrelevância, um partido de sombras inúteis com um saudoso fundador para sempre emoldurado nas paredes de uma memória cada vez mais longínqua.


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Pinturas de Francis Bacon

Max Raabe interpreta Oops I did it again

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domingo, outubro 22, 2017

Clara Ferreira Alves. João Duque. Raul Vaz.
Alguns dos vírus que intoxicam e estupidificam a opinião pública.


Claro que, depois de aqui ter estado a meditar, na maior tranquilidade, -- e, já percebi, para mim escrever é uma forma de descansar a mente e o corpo -- a última coisa que me apetecia era voltar ao tema da porcaria de comentadores e de jornalistas sub-dotados que não vêem um palmo à frente do nariz, que aparentemente são pagos para dizer apenas o que os mais descerebrados dos espectadores esperam ouvir e que intoxicam a opinião pública de forma viral.


Mas sentir-me-ia mal se não me pronunciasse sobre o que estou a ver, o Eixo do Mal, com a histérica e demagoga Clara Ferreira Alves a demonstrar, de novo, que, quando fala, desliga o intelecto.


Já no outro dia, aquando do despacho de acusação do processo Marquês, ela se tinha atirado a Sócrates de uma forma excessiva e desmiolada. Quando o Daniel Oliveira lhe perguntou se tinha lido o dito despacho para assim falar, engasgadamente reconheceu que não. Contudo, a esperteza ainda lhe chegou para dizer que não mas que tinha lido a narrativa que colegas do Expresso tinham feito sobre o assunto e que isso lhe chegava. Clara Ferreira Alves é isto. Come comida mastigada por outros e parece que isso lhe chega. Ou seja, com aquele seu ar emproado, não passa de uma catatua que papagueia o que outros dizem. Em primeira mão não sabe nada nem tem um pensamento consciente e bem informado sobre coisa alguma. Histriónica, descontroladamente excitada, ela é como muitos outros a quem a televisão dá palco: acham que é portando-se como caniches acéfalos que ladram constantemente e que se mostram prontos a morder as canelas de quem esteja debaixo de fogo por parte dos PàFs que garantirão o bem remunerado emprego de comentadeiros.



Claro que todos gostamos que não haja incêndios, todos gostamos que as linhas telefónicas não ardam, todos gostamos que haja bombeiros e aviões que cheguem e, sobretudo, todos lamentamos as vítimas, os danos, as perdas. Alguém duvida disso? Espero bem que não.

Mas, a bem do decoro e da inteligência, quem seja intelectualmente honesto compreende que as causas para estas desgraças são muitas, algumas fora de controlo humano (seca severa, trovoadas secas, ventos intensos), são profundas (terras abandonadas há décadas, habitações esparsas no meio da floresta), resultam de erros antigos (terras não limpas, linhas de alta tensão a tocar as árvores), de hábitos ancestrais (foguetes e queimadas em tempo quente e seco), de receitas erradas (redução de gastos na prevenção) -- e que não é em poucos meses que se revoluciona tudo e se consegue evitar ou controlar catástrofes de dimensão incomum. 

No entanto, aquela mulherzinha que ali está na televisão, grita contra António Costa e contra a ex-ministra Constança como se eles estivessem no governo há anos e fossem os responsáveis por tudo. Só uma mentecapta pode dizer o que ela diz. Gentinha como ela é perigosa pois pessoas assim recusam-se a compreender as coisas e apenas fazem barulho, quase incitando ao desmando. Assim se cria o terreno para o populismo. O populismo é isto que Clara Ferreira Alves aqui está a fazer. Assim se alimentam os mais primários e irrracionais instintos de vingança e justiça popular


Já antes, até ter feito um higiénico zapping, me tinha arrepiado com o ar arrogantezinho blasé de João Duque na SIC a pronunciar-se sobre as medidas do Governo.


À pergunta sobre o que tinha ele a dizer sobre o que tinha acabado de ser anunciado, responde o dito João Duque -- que, lembremo-nos, foi fervoroso apoiante de Passos Coelho e que assinava por baixo de tudo o que láparo decidia -- qualquer coisa como: 'O que se pode perguntar é porque é que o governo esperou tanto? Porque é que esperou tantos meses, depois de Pedrogão?'

E eu daqui apeteceu-me perguntar ao dito doutor-sapateiro-calceteiro: 'E porque é que não fez essa pergunta quando Passos Coelho era primeiro-ministro?' ou então: 'É isso que ensina aos seus alunos? Que tomem decisões sem estudar, sem fazer contas, sem analisar a sua exequibilidade?'

É que é muito fácil perguntar isto agora que aconteceram as desgraças mas nunca estes novos acusadores se lembraram de pensar no assunto quando, ao longo de quatro anos do anterior governo (e de muitos quatro anos de muitos outros governos de todas as cores políticas), nada foi feito para ordenar o território, limpar as matas, vigiar e proteger, etc, etc. 

Não digo que, nestes dias de desgraça, tenha sido feito tudo o que devia ter sido feito: o que digo é que não sou eu ou qualquer outro zé da esquina que sabe avaliar as causas do que aconteceu e saber como mitigá-las. Mas há quem o saiba.

O estudo que foi apresentado por uma comissão de sabedores, ao que ouço dizer, foi claro, exaustivo, abrangente. Segundo li, percorre de uma ponta a outra os aspectos a ter em atenção para prevenir e combater os incêndios florestais.

Ora, segundo António Costa disse, o Governo esteve à espera dos resultados do estudo para poder decidir como mais eficazmente actuar na raiz dos problemas, em profundidade, atacando o mal em várias frentes, de forma integrada e consistente.

E o que hoje ouvi no fim do Conselho de Ministros extraordinário parece revelar um conjunto de medidas inteligentes e abrangentes que parecem corresponder às necessidades detectadas aos mais diversos níveis.

Mas sobre o estudo das causas do incêndio de Pedrogão ou sobre as medidas agora decididas nem uma palavra de Clara Ferreira Alves. Nem dela nem do outro artista que se senta ao lado dela, o Luís Pedro Nunes. A estes dois zinhos apenas interessa se Costa chorou ou se a emoção que demonstrou foi genuína ou se não passou de uma lágrima política. Para estes zinhos, o exercício governativo não deve ser um exercício sério e honesto mas sim um exercício mediático para agradar aos comentadores.


Mas não são só eles. Não. A coisa é viral. Por todo o lado apanhamos disto.

Ao fim do dia, vínhamos no carro e ouvimos uma notícia na Antena 1. Dizia o jornalista que Marcelo tinha avisado o Governo: que os milhões que vão ser gastos nos apoios não deviam fazer esquecer a necessidade de manter o défice baixo. Ouvimos e ficámos perplexos. O meu marido exclamou: 'Este gajo... primeiro quer medidas e agora avisa para a aplicação das medidas não dar cabo do défice?'. Mas, logo a seguir, passaram as palavras do próprio Marcelo. Afinal não era nada do que o jornalista tinha dito. Marcelo concordava com as medidas de que já tinha conhecimento e referia apenas que a fórmula de cálculo do défice não deveria contar com estas verbas excepcionais e as palavras dele eram dirigidas sobretudo a Bruxelas e a quem monitoriza as contas públicas. Ou seja, o jornalista não tinha percebido nada. Mas, mais grave, logo a seguir passam a palavra a Raul Vaz. O que achava ele das palavras de Marcelo? Pois bem. Mostrando não ter ouvido as palavras de Marcelo mas apenas o disparate do jornalista, Raul Vaz, com voz assertiva, encheu a conversa de censura ao Governo, dos apelos de Marcelo para que não esquecesse o controlo do défice, para que não use o dinheiro que agora parece que salta das pedras para dar cabo do défice. Nem queríamos acreditar naquilo. Não se tinha dado ao trabalho de ouvir as palavras de Marcelo e ali estava a desfiar disparates, papagueando o que outro tinha dito. A desinformação espalhada pelos comentadores é uma mancha que alastra pelas rádios, pelas televisões e jornais.


Depois, o dito Raul Vaz continuou, pseudo-falando das medidas anunciadas -- e criticava o Governo por ter esperado tanto sem fazer nada -- e como se as medidas tivessem nascido ali, na reunião do Conselho de Ministros, sem preparação prévia, como se os ministros ali estivessem apenas a mando de Marcelo, e tivessem estado todo santo dia a inventar medidas à pressão. Num tom destrutivo, a conversa do dito Raul Vaz girou, sobretudo, em torno de, segundo ele, se ter quebrado o estado de graça do governo ou a boa relação entre Marcelo e Costa. Uma conversa de vizinha, a alimentar intrigas. Ouvíamos aquilo perplexos. Não quis saber das medidas e falava como se tivessem sido meros improvisos para calar o Marcelo. Então aquela criatura não percebe que, antes de as medidas irem a discussão e aprovação no Conselho de Ministros, são feitos estudos nos ministérios, que orçamentam verbas, que equacionam alternativas, que analisam a forma de implementar as iniciativas que referem...? Acharão que trabalho sério se faz em cima do joelho, sem bases? Sem antes terem negociado com Bruxelas verbas extraordinárias? Sem antes terem negociado que estas verbas não contam para o cálculo do défice?

E como se dá palco e se põe um microfone à frente da boca de gente que não pensa, não estuda, não se informa? Porque é que os contratam? Para quê? Com que intuitos? 

Não passam de uns vulgares maledicentes, ignorantes, populistas, incendiários sociais.  

Estes comentadores avençados estão a destruir a credibilidade do jornalismo e a intoxicar a opinião pública. 

São uma doença. São um perigo para a democracia. 

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[E queiram continuar a descer caso vos apeteça descansar o espírito: o outono in heaven é bem mais tranquilo do que isto]

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Hoje já vi marcas do Outono in heaven





Note-se. Quando cheguei estava como estava, de manhã cedo, na cidade: sol, temperatura amena, sol azul.

Logo à entrada, a glicínia -- enleada no portão -- já alourada como sempre acontece no Outono. Todas as estações do ano têm os seus encantos mas é por estas alturas que a doçura melhor se materializa, seja nas cores, seja na temperatura, seja nos cheiros. Seja também nos sabores.


Voltei a parar na senhora que, à beira da estrada, vende fruta. Trouxe um saco cheio: dióspiros, uvas, ameixas escuras, maçãs bravas de esmolfe, e, claro!, aquelas romãs rubras, dulcíssimas. O carro ficou perfumado com os cheiros da fruta madura. Tão bom.

Mas, se estava um solinho bom, à sombra ou se a suave brisa se avantajava para aragem, sentia-se já o fresco. E se me soube bem este frescor. E, aqui e ali, água. Pouca. Uma ou outra pocinha. Mas que alegria ver que choveu, que a chuva deve ter sido recente. Que visão boa.


No prato fundo que costumo deixar para os gatinhos e que, quando lá chego, está sempre seco, desta vez havia água. 

E se me soube bem o perfume que se desprendia da terra húmida, da folhagem pesada, embebida numa chuva que já não vi mas de que sinto vestígios por todo o lado. Não sei descrever este cheiro de que tanto gosto: é um cheiro orgânico, como se fervilhasse de uma vida invisível, como se a terra fosse o ventre de onde tudo brota, onde a vida se gera. Já o disse antes: um cheiro íntimo, feminino. 


Passo por baixo dos pinheiros, dos cedros, das aroeiras, dos eucaliptos, das azinheiras, piso a caruma rubra e molhada, e aspiro este cheiro tão bom, tão acolhedor. E as cores, tão bonitas. E a forma como o tempo que circula por entre a vegetação vai tingindo de luz a folhagem, os frutos, tão bonita, tão suave.


Sinto que este lugar me acolhe. Longe do mar e dos rios junto aos quais nasci, cresci e sempre vivi, é neste bocado de terra que sinto que estou verdadeiramente em casa.

Passo as mãos pelas folhinhas, vejo como, aos poucos, se vão tisnando, sinto a sua textura, aspiro o perfume. Ouço os pássaros. Estão felizes os pássaros.


De tarde estive a ler 'Da pintura' de Eduardo Lourenço. Uma felicidade. Leio com embevecimento palavras que há tempos não ouvia. O vocabulário corrente tem vindo a estreitar-se. As pessoas falam muito, falam a toda a hora, e, no entanto, as palavras escasseiam, esvaziam-se. Eduardo Lourenço usa um vocabulário rico. Mas usa-o com uma sabedoria elegante. Há beleza e uma sagesse muito consolidada nas imagens que constrói, nos raciocínios que vai desenrolando.


Eu que tanto gosto de ler sobre pintura e pintores, deleito-me com este rio de palavras que corre brandamente enquanto, deitada no sofá, vou olhando o tempo que delicadamente vai passando do lado de fora. Fico com vontade de fazer cópias destas páginas, quase como se, transcrevendo os seus textos, as minhas mãos pudessem aprender o caminho para o refúgio das palavras esquecidas.

Mas não o faço. Há coisas que não se aprendem assim. Então limito-me a deixar-me encantar, enquanto me encanto também com as cores que vejo estampadas no vidro, no qual se misturam os reflexos de dentro com a visão do exterior.


Estamos finalmente no Outono, o tempo da serenidade

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sábado, outubro 21, 2017

Evocações. Ficções.




Estou de volta a casa. A valise está desfeita, tudo devidamente arrumado. Também isto já está mais do que normalizado e faz-se e desfaz-se num minuto. Melhor: desfaz-se em menos de 1 minuto mas o fazer não é nada 1 minuto, é mais demorado pois várias toilettes são geralmente ensaiadas antes de emaladas. Isto, claro, depois de avaliar o clima nas paragens de destino e de equacionar se deve ir uma segunda alternativa para um just in case. Mas pronto, já fui, já vim, já não restam vestígios da minha ausência e já cá estou, de novo, no meu sofá de estimação. 

Num mail que recebi referia-se o autor à fastididiosa deslocação. Nada. Por vezes, são fastidiosas, mas não esta. Esta foi toda boa. Claro que há algum cansaço porque isto que andar de um lado para o outro não é a mesma coisa que estar de perna estendida. Mas não interessa. Foi bom. E o que me diverti e o que dancei soma ainda mais agrado à andança.

Além do mais, é um sossego estar longe de notícias. Rodeada de gente que se vê apenas quando o rei faz anos, toda a gente numa animação, a noite o que ontem já vos tinha contado, depois uma espertina, a seguir uma jornada e, agora, perdida e sono -- no news, portanto. Li que há dois ministros novos mas, quanto a isso, nada, não é tema. 

Ando com vontade de ir ao cinema mas não há nenhum filme que me pareça suficientemente aliciante. Não sei o que se passa para ser a indigência cinéfila que se vê. Que saudades de grandes filmes baseados em grandes obras, com grandes interpretações, grandes bandas sonoras. Que saudades de estar no escurinho do cinema a ver um grande filme, emocionada, deslumbrada. Que saudades.

Também ando com vontade de ir ver uma grande exposição e é a mesma coisa: nada. Estive a espreitar os sites de alguns museus e nada me atrai.

Por isso, sinto-me como se estivesse nas vésperas de ir fazer alguma coisa que me agrade mas com a frustração de não saber o quê.

Também já pensei: será que há por aí algum little passeio, bom a valer, e que me encha as medidas? Mas nada me ocorre. Ir visitar castelos, palácios, miradouros secretos, subterrâneos iluminados? Mas também nada de estimulante e novo se me chega à ideia. Lembro-me do lançamento do livro da Paula Rego e Antonio Tabucchi no Palácio Fronteira num belo fim de dia, a Paula Rego a olhar para mim muito atenta, a dizer-me uma coisa simpática. Uma coisa assim é que agora me apetecia. Um cocktail agradável, o jardim lindíssimo, lots of beuatiful people mas de tipo intelectual e artístico. Uma coisa deveras civilizada. Também me lembro da inauguração de uma exposição no Palácio Galveias, à noite, pinturas bonitas, as salas bonitas e tudo gente elegante. Uma coisa assim também me ia bem.

Ou aquele jantar gourmet, nova cozinha, ou melhor, cozinha de fusão, num palácio, servido e explicado pelo chef, tudo gente discreta como discretos são os verdadeiros burgueses. Depois a vir à noite, eu sozinha no carro, estradas estreitas entre intenso arvoredo. Podia calhar qualquer coisa assim mas, de preferência, desta vez com companhia.

Mas nada. Parece que me andam a rarear coisas assim.

No outro dia uma leitora escreveu num mail que não sabe se tudo o que escrevo é verdade. Não posso fazer nada quanto a isso. Percebo que surjam dúvidas.

Por exemplo, se eu agora escrever que me dói a cabeça vai soar credível, provavelmente ninguém duvidará -- e, no entanto, é totalmente mentira.

No entanto, este mail -- até aqui -- só tem verdades.

Mas se eu escrever assim: 'Vinha no comboio, a ler, quando adormeci. Ao acordar, tinha à minha frente um jovem que deveria ter pouco mais de metade da minha idade. Para meu espanto, lia o meu livro. Quando lhe pedi que mo devolvesse, insolentemente disse-me: se quer, venha buscá-lo. E quando eu lhe puxei o livro, ele agarrou-o com força e puxou-o na sua direcção, fazendo-me desequilibrar e quase cair para cima dele. Fiquei incomodada e com vontade de o esbofetear. Mas disse-lhe apenas: se não me dá a bem, faço-lhe cócegas até que o deixe cair. E, então, ele disse: se quiser pode fazer. Abri então a garrafinha de água, despejei-a na sua cabeça. Então ele perguntou: se tiver aí um pente, aproveitava para me pentear agora que tenho o cabelo molhado.', claro que é tudo inventado.

E agora que escrevi isto, ficou a apetecer-me ir por aí fora a inventar cenas. Podia inventar que esta sexta-feira almocei numa sala espectacular, um almoço espectacular, numa companhia se se lhe tirar o chapéu. Mas isso já seria verdade. Agora se disser: 'Às tantas o cavalheiro que estava ao meu lado, tirou uma flor do centro de mesa e ofereceu-ma e depois serviu-me um vinho que não era vinho nem licor e riu-se de eu não saber o que era', claro que talvez não seja nem uma coisa nem outra.

Enfim. Se não acontecerem para aí hecatombes ou manifestações de force majeure, talvez me dê para escrever uma coisa em que metade será meia verdade, outra metade será mais ou menos e outra metade toda inventada.
E como, nisto, até ver, metades só pode haver duas, cada um que escolha qual a que tem que ir borda fora.
Pronto. Estou para aqui a divagar em vez de ir dormir. Mas vou fazê-lo já antes que fiquem estupefactos, a olhar para isto tudo e a pensar: 'passou-se'.

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Fotografias de Olga Khokhlova* quitadas por Francesco Vezzoli

O pianista extraordinaire é Benjamin Grosvenor

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Bem, já agora, para que isto hoje tenha um mínimo de substância:

Quem é Olga Khokhlova...?





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Votos de um belo sábado a todos quantos por aqui me acompanham.

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sexta-feira, outubro 20, 2017

Prova de vida


Mesmo só isso: uma mera prova de vida. Fora do mundo das notícias, num retiro que não tem muito de espiritual e a partilhar o mesmo espaço que pessoas que quando cai a noite despem a pele que usam no dia a dia e viram umas folionas de primeira e com outras que toda a gente conhece e que, se eu contasse aqui algumas coisas, eram título de primeira página na certa, não tenho propriamente assunto que possa partilhar convosco. Mais: nem trouxe computador. Estou a escrever no telemóvel. O texto vai ficar todo desalinhado porque nem a ajustar as margens me estou a ajeitar.

Cheguei ao hotel não há muito, estive a preparar já a mala para o check out amanhã ser mais cedo porque esta gente parece que precisa menos de dormir do que eu. Devíamos poder ficar na caminha até mais tarde, tomar o pequeno almoço nas calminhas, tudo sem stress. Mas não. Madrugar é que é bom.

E agora vim integrada no grupo dos bem comportados porque aposto que os que ainda lá ficaram devem, a esta hora, andar a curtir a night aí pela cidade.

Mas, portanto, é isto. Não é muito, bem sei. Mas quem dá o que tem a mais não é obrigado. Certo?

E um dia feliz a todos.


quinta-feira, outubro 19, 2017

Assunção Cristas, Constança Urbano de Sousa, Hugo Soares, António Costa.
Culpas, desculpas. Responsabilidades, alarvidades.




De mim ninguém poderá dizer que sou insuspeita.

Sou suspeita, sim. Assertivamente afirmo a minha opinião e sabido é que, nas legislativas, regra geral, voto PS. Mesmo se não me apetece, voto PS. E faço-o não por masoquismo mas porque, na altura de votar, olhando à volta, não vejo melhor opção. Portanto, sou suspeita, sim.

Mas não é apenas uma questão de afinidade ideológica: é também racionalidade. É o resultado da avaliação do carácter dos personagens, das suas ideas e dos seus actos face ao que observo.

Portanto, ao pronunciar-me sobre esta crise, sobre a demissão da Ministra Constança e sobre o que se passou esta terça-feira na Assembleia, não pretendo fazer passar-me por distante e insuspeita. Sou suspeita, sim. E não sou humildezinha. Não. E é, pois, com consciência do que sou que também afirmo que não sou burra. 

E é sendo como sou, falando de frente, que defendo que não se deve transformar o desempenho governativo num guião de telenovela, a puxar ao sentimento, a cavalgar a onda da emoção colectiva para agradar à audiência. E é sem rodriguinhos que afirmo que, não sendo praticante de likes e dessas tretas a la facebook, espero que o governo não governe a contar likes, a distribuir abraços e beijinhos para a selfie. Portanto, sou suspeita, sim. Mais. Afirmo peremptoriamente que a mim o que me enojava era ver Passos Coelho a fazer porcaria todos os dias e, com aquela sua insuportável cara de pau, insultar a inteligência das pessoas, querendo convencer as pessoas que o mal que fazia era para o seu bem.


Portanto, sou suspeita, sim. Suspeita de sentir intolerância para com os papagaios e abutres a quem as televisões pagam para andarem a debicar na dignidade de quem se esforça por fazer o melhor, intolerância para com os avençados pagos para saltarem a pés juntos sobre quem está na mó de baixo. Tolerância zero para com essa gentalha que inunda as televisões. Tolerância zero para actuações de verme como a que acabei de ver a Vítor Gonçalves explorando a dor de Nádia, a senhora de Pedrógão que perdeu o filho, querendo que ela diga como soube que o menino estava morto, querendo que ela diga como foi que o menino morreu. Uma vergonha. Intolerância para com a fulana da SIC que anda a abrir o frigorífico das pessoas que, nas aldeias, estão sem electricidade, exclamando que já se sente o cheiro. Intolerância. Não suporto tanta estupidez.


E sobre a actuação de Assunção Cristas face aos incêndios, ela que foi ministra da Agricultura e nada fez, sobre o aproveitamento mediático que tem feito dos desastres e a guerra quase cruel que moveu à Ministra Constança Urbano de Sousa, a palavra que me ocorre é asco.


E sobre o seu apelo insistente, a quase exigência, de um pedido de desculpas por parte de António Costa, no que foi secundada por esse bronco feito deputado e chefe da bancada laranja que dá pelo nome de Hugo Alexandre, a palavra que me ocorre é a mesma: asco.


Democracia, humildade, sentido de dever, honestidade intelectual -- tudo isso é outra coisa, coisa que talvez apenas pessoas com alguma maturidade democrática e sentido de decoro consigam saber o que é. Assunção Cristas, Hugo Soares e seus comparsas não o sabem.


Quando vejo, no Parlamento, o friso do Governo a ser enxovalhado por badamecos desqualificados como o Hugo Soares ou a Assunção Cristas sinto pena. Pena. Pena por eles, rostos cansados e tristes, a serem insultados por gente que não tem categoria nem para varrer o chão da assembleia -- e pena pela democracia. A democracia carcomida por dentro por esta gente.


Não desvalorizo a dimensão da tragédia. Sinto uma dor de alma, que é muito minha, pela morte das pessoas, pela devastação da floresta, pelo fim de tantos animais. Mas porque assim sinto, mostro respeito pelo que se passou.

E naqueles dois pafiosos e nos seus correlegionários o que vejo é um indecente desrespeito. Sobre a complexidade dos problemas e sobre a dor dos que perderam familiares, casas, animais, árvores, aqueles dois o que fazem? Exibem impudor, alarvidade.

Eu, porque tenho perfeita noção da dimensão e diversidade das razões que levaram a que os incêndios fossem tão devastadores, não os desvalorizo nem sou estúpida a ponto de pensar que o que se passou foi culpa da Ministra.

Portanto, se querem que vos diga, hoje voltei a pensar que é uma pena que, para se entrar para deputado, não haja provas de aferição e testes psicotécnicos, entrevistas, avaliação da personalidade. Se tudo isso é necessário para desempenhar funções banais, como é que qualquer desqualificado pode ser deputado e decidir sobre a vida da população?

Gentinha com um baixo coeficiente de inteligência, sem moral, sem vergonha na cara e sem competência não devia poder ser admitida para exercer a função de deputado. Gente destas não representa o povo: pelo contrário, envergonha o povo.


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Pinturas do período escuro de Mark Rothko. De Profundis de Arvo Pärt.

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quarta-feira, outubro 18, 2017

Marcelo versus Costa -- o rei do Povo e o governante do País.
[Mas, antes, permitam-me umas coisas minhas, coisas de nada (mais para disfarçar do que outra coisa)]





Não que o dia tenha sido espectacular mas estou com vontade de estar bem disposta. Não foi espectacular mas também não foi deplorável. Um dia normal.

Se calhar devia dizer antes: vontade de estar mais bem disposta do que estou. A verdade é que ando um bocado impaciente. E exigente. E muito frontal. Alguns acharão que demasiado. Paciência. Vieram uns lá do norte do mundo para uma reunião e logo aos poucos minutos verbalizo aquilo que penso e que vários outros andaram a não querer ver durante meses, e logo um gelo se abate sobre a sala, e logo os outros se põem a falar baixinho uns com os outros. A coisa resolveu-se logo ali e não precisavam de ter vindo de tão longe. 

Ao fim do dia, por telefone, do carro, digo a outro que, se é para fazer só aquilo, mais vale não fazer nada. Silêncio do outro lado. Depois, pelo pigarrear, sinto-lhe o nervosismo. Fui dura. Mas é o que penso e não tenho paciência para meias palavras. Depois ouço que talvez eu tenha eu razão.

E, antes de sair, a dizerem-me que um outro anda triste, que acha que quase não lhe dou atenção. Confirmo. Mas é isso ou pôr-lhe um processo disciplinar. Silêncio, alguma inquietação. Depois reconhecem: 'Pois, de facto'.

De tarde, recebi convocatória para uma reunião. No texto, às tantas, esta pérola: '...para pudermos dar cumprimento a ....'. 


Fechei os olhos, numa de rejeição. Como: não, não quero ver. Pensei: vou rejeitar e explico que não poderei aceitar participar numa reunião em que o organizador não sabe escrever. Depois pensei: é um bom tipo, coitado, não vou envergonhá-lo desta maneira. Mas sei, ah se sei, que não perde pela demora. Erros ortográficos desta monta não digiro pelo que também não engulo. Portanto, na primeira ocasião, terei que dar-lhe uma aulazinha. 

Mais: fui convocada para outra que sei de antemão que não vai correr bem. Estou já a ver-me a fazer como se não soubesse o que estou ali a fazer e, na primeira oportunidade, a perguntar: 'Mas o que é isto? Estamos aqui a fazer o quê? Esperam que me pronuncie...? Como, se não percebo o que se está aqui a passar...?'.

Falta-me a paciência. Metade do dinheiro que se perde (ou se deixa de ganhar) nas empresas resulta da falta de jeito e/ou da falta de competências dos gestores. E estou a ser simpática para os meus congéneres porque, se quiser ser isenta, direi que é praticamente tudo. E só não é tudo porque uma parte tem a ver com a sorte ou a falta dela. 

Caraças, que falta de pachorra para tanto totó que não sabe o que anda a fazer.

Claro que também há os malucos, que não fazem coisa que se aproveite e que se acham os maiores e vá lá a gente dizer-lhes qualquer coisa, ficam a achar-se perseguidos e injustiçados. E aqui refiro-me aos malucos que há em todas as funções e não apenas na gestão. Falta de pachorra também para eles. Vontade de mandá-los para casa, para se tratarem. Mas como? Para começar, não reconhecem que estão malucos, acham sempre que os outros é que são maus e ingratos. Devia haver à entrada das empresa um detector de malucos. Aos que fossem detectados, a porta não se abria. Que felicidade que ia ser.

Enfim. 

Penso muitas vezes que isto da vida é uma mecha que se vai esgotando. Já não sou uma criança, já não tenho todo o tempo do mundo pela frente. 


O que falta é cada vez menos, pelo que há cada vez menos tempo redundante. Não me apetece gastar o tempo com tretas, com meias palavras, com enrolanços que não dão em nada. Prefiro fazer muitas coisas e despachar cada uma em três tempos. 

No outro dia estive com uma colega de quem gosto muito e que há bastante tempo que não via. Diz que está farta e a pensar atalhar a sua vida profissional. Gosta de viajar pelo mundo. Apetece-lhe isso e estar com a família e só fazer o que lhe apetece. Percebo-a tão bem.

Há aquilo dos velhos se marimbarem para a censura interna. Se calhar estou a ficar velha porque tenho cada vez mais prazer em dizer, às claras e em poucas palavras, o que penso. Percebo que a imprevisibilidade do que digo perturba um bocado. Mas tenho uma coisa a meu favor: acham que sou inteligente e, portanto, podendo o que digo deixar de queixo caído alguns dos que me ouvem, sinto-lhes o desconcerto por acharem que tenho razão.

Penso assim: 'Se não gostarem, ponham-me a andar'. E esse pensamento dá-me uma ainda maior sensação de liberdade.

E há outra coisa: enquanto aqui estou, chove copiosamente e este som refresca-me a alma. Tenho o estore de uma das janelas projectado e o vidro ligeiramente aberto. Fui até à janela. Cheira a chuva. 


Há bocado, ao jantar, o molho salpicou o top que tinha vestido. Não era um jantar de saladinhas mas, sim, um jantar apaladado. Depois de uma sopinha de legumes, tinha um gostoso osso buco estufado com abóbora, courgette, batata doce, alho francês, cebola e feijão verde. A sério: ficou muito saboroso -- não desfazendo. Mas, então, o caldo salpicou a blusinha. Nódoas. Quando acabou o jantar, pus a blusinha em detergente com tira-nódoas. Depois deu-me a preguiça de ir buscar outra e fiquei apenas de calçõezinhos. E assim estou, em topless, nesta noite chuvosa.


Então, quando fui ali à janela, senti a frescura da noite chuvosa directamente na pele e soube-me mesmo bem. Que saudades de sentir o ar fresco e molhado. Se estivesse no campo, saía porta fora e ia apanhar chuva. Bem, se calhar não porque é capaz de estar frio demais. Mas agora que falei nisto acho que vou ali pôr o braço de fora para sentir a chuva no corpo.

Já fui. Tão bom. A rua toda molhada, a água a correr no asfalto. Há quanto tempo. É bom estar aqui a escrever, a ouvir música, a ouvir a chuva. As terras precisam de água. Estão sedentas, queimadas. Penso que o ar já estava saturado de calor, a precisar de um refresco bom, limpo. E todos nós também.


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E num dia como o de hoje sei que este é um post que, provavelmente, não é o que deveria ser escrito. Mas não vi o discurso do Marcelo tal como não tinha visto a comunicação de Costa que agora vejo criticado por não ter mostrado emoção. Também não vi, senão agora mesmo, a observação infeliz da ministra na qual referiu que, se fosse demitida, iria fazer as férias que ainda não gozou. Não vi mas, se tivesse visto, também não viria para aqui pregar contra. Que a ministra tem sofrido com tudo isto não tenho dúvidas e o que me espanta é a capacidade anímica e física desta gente para, naturalmente aflita e triste, e sempre debaixo de fogo cerrado (ainda que um fogo metafórico), se aguentar. E compreendo que, num momento de descontrolo emocional, uma pessoa possa sair-se com uma frase infeliz. Também não tenho dúvidas que António Costa sente o peso da responsabilidade e sente tristeza pelos mortos e pelos feridos e não posso criticar se a forma que ele melhor encontra para se manifestar é assim, com secura, como leio que se mostrou. Cada um arranja as defesas que consegue. Deveria ter aparecido com a voz embargada, exibindo humildade e sensibilidade? Não sei responder. Cada um é como é. Não creio que alguém sinta menos apenas porque guarda para si o que é demasiado. profundo . 


Claro que Costa agora terá que fazer alterações, terá que fazer a vontade ao povo e aos políticos que preferem viver sobre a espuma dos dias a fazer trabalho sério. E terá que fazer a vontade a Marcelo, o rei do povo, que quer que alguém seja sacrificado pois sabe (é intuitivo, Marcelo) que isso aquietará a raiva popular.

Mas compreendo. São tempos difíceis em que muita gente, para melhor suportar a dor e melhor aceitar o imenso desastre, acha que é encontrando um culpado que melhor expiará a perplexidade e o sofrimento. Compreendo. Somos humanos, frágeis, temos destas coisas.

E parece que, polarizando a raiva contra a ministra, alivia mais quem sofre ou quem está solidário do que dirigir a raiva contra os criminosos que atearam os fogos. Contra esses não se ouve uma palavra. Compreendo. São muitos, não têm rosto, não nos são familiares. A ministra tem, está à vista, é um alvo fácil. É o cordeiro que deve ser sacrificado. Mas estranho. Não se vê vontade de compreender as motivações de quem atenta contra a natureza, contra a vida de pessoas e animais. A mim o que me intriga e que acho importante perceber (para melhor se tentar evitar) é o que leva tanta gente a andar pelos campos a atear fogos. Mas, lá está, isso sou eu.

E, a ser verdade o que leio e ouço agora, desagrada-me que Marcelo -- que, repito, não ouvi -- tenha alinhado com o facilitismo e a emoção primária. Se o fez, desagrada-me. Quer ser rei e tem alguma graça quando lhe dá para agir enquanto tal. Mas ser rei exige alguma elevação. A menos que queira ser o rei do chinelo no pé, a ampliar o que a rua diz, a explorar a emoção das massas, um rei de faz de conta, de carro alegórico.


Enquanto escrevo, agora, vejo a televisão a mostrar a terra coberta de cinzas, árvores cinzentas, campos esfacelados, casas derrubadas. E gente a chorar, a dizer que perdeu tudo, a descrever o medo e o horror. O sofrimento de quem viveu o horror explorado até à náusea para atiçar ainda mais o fogo da raiva. Contra isto também não vejo ninguém insurgir-se.

Mas, por não ter visto os discursos e a frase infeliz da ministra e porque, mesmo que o tivesse, pouco saberia dizer, aceitem que não me pronuncie e que me deixe, antes, estar para aqui a desfiar estes meus pequenos nadas. A mim a inquietação e tristeza não me dá para ter vontade de esbofetear aqueles que acho tão vítimas de tudo quanto as outras vítimas -- a mim dá-me para disfarçar (enquanto, cá por dentro, me recolho, num recolhimento só meu)

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In Flanders Fields de John McCrae é lido por Tom O'Bedlam

As fotografias provêm da Vogue parisiense.

A música é dos The Dead South - In Hell I'll Be In Good Company e está aqui porque a ouvi e vi o vídeo e achei piada

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terça-feira, outubro 17, 2017

Harvey Weinstein ou o fim da era dos machos-fornicadores





Nos Estados Unidos, como tema recorrente dos dias que correm -- para além dos que decorrem da estupidez e do narcisismo permanentemente exibidos por Trump -- há o escândalo que resulta das denúncias em catadupa de mulheres do mundo do cinema sobre o assédio sexual de que foram alvo por parte de um dos maiores produtores de Hollywood. 

Harvey Weinstein era o magnata da Academia que financiava generosamente as campanhas eleitorais dos democratas e que era sempre visto na companhia de belas actrizes, uma das quais a sua jovem mulher. Dir-se-ia que era tudo dele.

E, de repente, o céu do seu mundo veio abaixo e não há uma voz que se levante para o defender. 

Os casos sucedem-se e o comportamento apresentava um bizarro padrão: parece que convidava as jovens aspirantes às luzes da ribalta a irem até ao seu quarto de hotel, para discutirem aspectos contratuais ou para as aconselhar. Depois aparecia-lhes nu, pedia uma massagem, persuasivo, como se fosse normal. E muitas vezes, com receio de que, se se negassem, o seu sonho de carreira acabasse ali, elas acediam. Falam também de violações. Outras vezes fugiam. Fugiam até de Hollywood. E não o denunciavam pois sentiam vergonha. De alguma forma, sentiam-se envergonhadas, talvez envergonhadas por terem acedido a ir até ao quarto de hotel.


Até que o dique da auto-censura se rompeu e, de repente, todas falam nem que seja para dizerem que se envergonham por não ter falado. O irmão, seu sócio, abandonou-o, a mulher divorciou-se, foi saneado da sua empresa, França vai retirar-lhe a condecoração, os testemunhos sucedem-se, os cartoons gozam-no, a opinião pública despreza-o. O predador Weinstein é agora um bicho acossado. Ser um touro desembolado, um marialva desencabrestado, um fornicador incontinente já não é medalha que se exiba. A sociedade já não gosta de acolher no seu seio homens descompensados que tratam as mulheres como gado pronto para ser coberto.


E eu, vendo este homem, lembrei-me da única vez em que me senti francamente incomodada com a manifestação de interesse por parte de um homem. Penso que já o contei. Das altas instâncias veio a recomendação, oriunda do Ângelo Correia, para que recebêssemos um argelino, importante homem de negócios. Calhou-me a mim fazer as honras da casa.

Na altura, os gabinetes eram muito amplos. O meu tinha bem para cima de trinta metros quadrados, sofás de pele, bons quadros, um belo tapete turco de lã, uma mesa redonda pequena junto à janela, e uma sumptuosa vista sobre o rio.

A minha secretária trouxe-mo: era gigante, forte como um urso. Não gordo mas, todo ele, corpulento. Moreno, cabelos curtos encaracolados. Um homem de aspecto possante. Nitidamente não estava à espera de ser recebido por uma mulher e não escondeu a surpresa. O normal neste mundo é que, quem ocupa lugares destes, seja homem. E, desde o início, não despegou os olhos de mim. De forma insistente, fixava-me. Eu tentava levar a conversa para o que o trazia ali mas dir-se-ia que ele se tinha esquecido disso. Estava-se nas tintas para os seus negócios. Pediu para tirar o casaco. Transpirava. Tinha uma camisa branca sem gravata, aberta em cima. E transpirava como um touro. Limpava a testa impudicamente com um lenço que, por fim, deixava pousado sobre a mesa, quase como se fosse normal fixar uma mulher daquela forma e, enquanto isso, transpirar em bica. Uma coisa desconfortável. Não tirava os olhos de mim mas de uma forma mais do que insistente. E dizia: 'Vous êtes une femme très interessante'. Comecei a querer ver-me livre dele, a dar a conversa por acabada. Mas ele parecia hipnotizado. Levantei-me, liguei para a minha secretária e pedi que me mandasse uma outra colaboradora para me interromper, para inventar uma desculpa qualquer. Passado um bocado ela entrou, chamou-me, disse que estavam á minha espera. Em francês, expliquei-lhe que tinha que dar a nossa reunião por terminada. Ele nem se mexeu. Corpulento, o corpo inclinado na minha direcção. Ela disse-me: 'Credo, parece prestes a saltar-lhe para cima'. 

Não me lembro de tudo o mais tive que fazer para correr com o bicho. Fingi sempre que não percebia e tentei falar da empresa, dos produtos e serviços que poderíamos exportar para a Argélia. Pediu-me então que lhe arranjasse amostras. Obviamente não as tinha ali comigo mas disse que lhas arranjava, que esperasse noutra sala que alguém lhas levaria. Que não. E, então, descarado, escreveu o nome do hotel e o número do quarto, queria que eu fosse ter com ele. Respondi taxativamente que não e pu-lo fora do gabinete. Fui até ao elevador, seca, incomodada. Cruzei-me com um colega que ainda o viu com pouca vontade de se enfiar no elevador, especado a olhar para mim e a repetir que eu era uma mulher muito interessante. Mal me vi livre dele, disse a esse meu colega: 'Nunca mais me meto numa destas. Sempre que me apareça mais algum animal destes, ou alguém com origem num país destes, chamo-o para fazer de meu bodyguard'. E assim foi, com marroquinos, sírios e até, uma vez, com um chinês com ar suspeito, eu cravava sempre algum colega para ali estar a fazer figura de corpo presente. E simpáticos, eles acediam sempre a fazer esse papel.

E se isto me aconteceu uma única vez e já foi tão mau, uma sensação tão incómoda, imagino o que é passar por isto numa situação mais confinada, com menos escapatórias.

Por isso, acho muito bem a repercussão que este caso está a ter. Penso que pode ser que tenha um efeito pedagógico não negligenciável na sociedade ainda tão machista. Pode ser que os homenzinhos que se acham muito homens ao assediarem sexualmente as mulheres aprendam que isso já era.

Trogloditas no more!


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Sobre os incêndios deste fatídico dia 15 de Outubro falo no post abaixo.

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Tristeza e preocupação. E esperança.


Burning Oil Well at Night, near Rouseville, Pennsylvania
James Hamilton   ca. 1861


Há tantas e tão cruzadas causas -- há tanto acaso misturado com maldade com causas naturais extremas.

Há uma tal improbabilidade potenciada por elementos incontroláveis, há uma tal dimensão num desastre que se multiplica e projecta -- que é impossível, com meios humanos dimensionados para o provável, conseguir deter a besta sobre-humana que, como uma hidra de mil cabeças jorrando fogo, devorou algumas zonas do país.

Quando foi de Pedrógão já o disse e mantenho a opinião. Anos de incultura de toda a espécie, anos de abandono de terras, anos de redução de custos públicos, anos de laxismo e de más políticas, excesso de divulgação mediática dos incêndios num registo apoteótico, porventura um sistema judicial que não intimida os criminosos, porventura muito mercantilismo em áreas que deveriam estar ao abrigo de apetites espúrios, porventura estruturas pouco adequadas a situações limites, etc, etc, etc - não se resolvem de um dia para o outro, não se resolvem com a demissão de uma ministra, não se resolvem com uma competição entre comentadores a ver quem se sai com a tirada mais bombástica, não se resolvem com rostos piedosos e frases incendiárias.

Não vou, pois, alinhar em nada disso.

O momento é de consternação, desgosto, apreensão. E é de esperança de que tamanha mortandade e tamanha devastação sirvam para se parar para pensar, para equacionar de forma inteligente e equilibrada, o muito que há para fazer.

Não é tempo de atender à pressão mediática ou tempo de refregas partidárias. É tempo de seriedade e de mostrar que se ama, de verdade, o País.

de Mark Rothko

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E está a chover.

Enquanto escrevo, ouço a chuva. Ao fim de tantos meses de secura, finalmente a bênção da chuva.

Que bom. 

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segunda-feira, outubro 16, 2017

Carta aberta a José Sócrates


Caro José Sócrates,

Na tarde deste sábado, em família, houve acesa discussão em torno de si e do processo Marquês. Tratando-se de gente que considero informada e bem formada, devo dizer que tenho que encarar com seriedade as opiniões dos meus familiares e a convicção que já formaram sobre a sua culpabilidade.

Ao mesmo tempo tenho que constatar que a sua personalidade continua a polarizar opiniões extremadas que, facilmente, tendem para alguma irracionalidade.

Em concreto, enquanto a mim me acusam de cegueira por não querer ver o que para eles é óbvio, eu a eles vejo-os a misturarem opiniões de índole moral sobre o seu comportamento, opiniões sobre o regime que, às tantas, envolvem a relacionamento de Ricardo Salgado com Bava ou Granadeiro, a gestão da PT ou do GES, o compadrio endémico que sempre se soube existir entre certas castas -- ou seja, a misturarem assuntos que são periféricos em relação àquilo de que é acusado. 

Mas, porque dão por consistente o que se vai sabendo e cruzam informação que vai saindo na comunicação social com o que vai sendo confirmado em entrevistas (e, às tantas, já tudo aparece meio distorcido e já afirmam com convicção, por exemplo, que o seu amigo, de uma forma ou de outra, já lhe passou para as mãos vários milhões), consideram que é incontornável que a fortuna do Engº Carlos Santos Silva é, na verdade, sua e que toda aquela circulação do dinheiro entre contas foi urdida por si, e que, sendo aquele dinheiro seu, só pode ter resultado de corrupção.

Acresce que toda a gente conhece as escutas onde se ouve como as suas amigas lhe pedem dinheiro e se ouve a sua voz num registo que deixa poucas dúvidas de que a casa de Paris e o dinheiro seriam, de facto, seus.

Eu contraponho que é aos tribunais que incumbe provar se o dinheiro é seu pois tudo pode ser uma teia de conjecturas em que umas justificam as outras e em que parte delas pode ser ficção.

Contudo, apesar de me forçar a não querer formar juízos pois não estão provadas as linhas de raciocínio que o Ministério Público seguiu e não quero correr o risco de embarcar em falácias, tenho que confessar que gostava de ver esclarecidos alguns pontos.

Assim, penso que a bem da sua defesa (porque, como deve estar farto de saber, a comunicação social já o condenou e, portanto, a opinião pública também) e a bem da consciência de quem não quer juntar-se ao coro de acusadores, o meu Caro deveria esclarecer o seguinte:

1 - Ao todo, quanto é que o seu amigo lhe emprestou? E pode explicar minimamente isso? Ou seja, pode explicar porque é que, se o meu Caro não tinha dinheiro, pedia empréstimos para depois andar a passar férias à grande e à francesa (passe o trocadilho), a frequentar bons restaurantes, a comprar quadros ou decoração dispendiosa? E, ao ritmo a que gastava, como pensava poder alguma vez pagar ao seu amigo? Compreenda que, mesmo que o dinheiro não seja seu e que todo este processo gire em torno de um embuste, a ser verdade tudo aquilo dos empréstimos, fica o incómodo perante um comportamento que parece pouco transparente ou pouco razoável.

2 - Ao todo quanto é que emprestou àquelas três amigas? E pode explicar o contexto em que lhes emprestou dinheiro (porque, reconheça, não é normal uma pessoa andar a emprestar sistematicamente dinheiro a amigas a menos que seja um generoso benemérito com fundos quase ilimitados)? E, se os não tinha, qual o sentido de pedir dinheiro emprestado para depois o emprestar a elas?

3 - Há verdade naquilo de ter emprestado ou dado dinheiro a amigos e amigas para andarem a comprar livros seus (dinheiro que, ainda por cima, pedia emprestado ao seu amigo)? Se for verdade, isso foi o quê? Uma incontrolável vontade de aparecer como um 'vencedor' aos olhos da opinião pública? Agora que se sabe, arrepende-se? E aquilo de pagar a um blogger, ao Miguel Abrantes? Confirma? Ou é tudo mentira?

Não interprete estas perguntas como uma ingerência em assuntos pessoais seus. Tudo isto caíu na opinião pública e tudo isto causa perplexidade,  fazendo com que se levantem dúvidas sobre a sua idoneidade ou, de uma forma mais geral, sobre a sua maneira de ser.  E toda a acusação (pública) assenta em cima destes factos (factos ou conjecturas). Portanto, perceba que ajudaria à compreensão deste 'romance' se respondesse, com franqueza, a estas perguntas.

Não espero que me responda directamente a mim mas acredite que gostava que ver estas dúvidas esclarecidas. 

Resta-me desejar-lhe que a Justiça seja rápida e justa e que a sua dignidade seja sempre respeitada.

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