Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, agosto 19, 2017

Táctica e Estratégia
(para salvar a honra do convento)





Tinha fotografias da praia ao anoitecer e penso que capazes até de estarem bonitas. O pôr do sol na praia, neste verão quente que ajuda a projectar céus em fogo sobre as águas, vem com cores maravilhosas. E tinha 'cenas' para contar que foram relembradas ao jantar, causando gargalhar geral, os miúdos a quererem mais, mais 'piadas', e nós a dizermos que não são piadas, são situações reais.

Mas, acreditem, estes meus dias têm sido tudo menos fáceis. Cansada, cansada.

Para ajudar, estávamos a chegar a casa, dei por falta da sacola de pano, bordada com missanguinhas, que uso a tiracolo e que tinha lá dentro a minha carteira dos cartões (carta de condução, de cidadão, de crédito, de seguro, da fnac, de tudo o que se possa imaginar), com algum dinheiro. Ao sairmos do restaurante, no meio da confusão, agarrei no telemóvel, na máquina fotográfica, no poncho de renda que uso para me proteger da aragem do mar e, parecendo que nada me faltava, lá vim. Beijinhos, beijinhos, vão com cuidado, portem-se bem, beijinhos, e mais beijinhos. O meu marido, sabendo do que a casa gasta, ainda alertou: 'Trazes tudo? A máquina fotográfica?' Passei a mão pela máquina, 'Sim, tudo'. Sim, sim. Já estacionados, a sair do carro, pego nos óculos escuros que tinham ficado no carro, no telemóvel, na máquina, e... a sacolinha...? Susto. Liguei logo para lá. Sim, senhora, está cá. Lá fomos de volta. O meu marido: 'Já não digo nada...'. Cansado também. 
Acho que é a sacolinha que se presta a isto. Já na outra vez, na Zambujeira, ficou num restaurante. Dessa vez, só dei por ela às quinhentas da noite. Quando lá chegámos, estava o restaurante fechado. No dia seguinte, chegamos lá: fechado para férias. Foi o bom e o bonito. E isto no dia em que supostamente regressaríamos a Lisboa. As peripécias para conseguir entrar num restaurante fechado para férias, com os donos abalados para o Algarve, nem vos conto. Lá a resgatei. Pois hoje a sacana da maleca pregou-me a mesma partida.
Aqui chegados, cada um espapaçado em seu sofá, ele adormeceu de imediato. E eu também.

Queria falar do anibálico-canibálico Banner que talvez ainda venhamos a ver a ajudar no processo gangrenatório do trumpismo mas, senhores, as vezes em que caí a dormir... Vi jeito de não conseguir chegar ao fim.

E, agora, estou a ver se acordo para me deslocar até ao quarto e o esforço esgota-me as energias, deixando-me incapaz de ir buscar as fotografias da praia ou de deitar mãos às 'cenas' maradas que nos divertiram ao jantar.

Portanto, desculpem-me a falta de assunto, mas isto hoje é um caso perdido mesmo.

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Queiram mas é fazer o favor de descer. Ou melhor, se calhar não que aquele animal não é flor que se cheire.

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Mas deixem -- antes que se vão e para tentar que não maldigam este pobre convento que hoje tem tão poucas virtudes para oferecer -- que partilhe convosco um poema lido pelo autor


Táctica y Estrategía na voz de de Mario Benedetti


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Steve Bannon foi corrido da Casa Branca -- o que só prova a falta de inteligência do palhaço Trump.
Quem é que depois de ter enfiado uma besta canibálica dentro de casa, comete o tremendo erro de correr com ela?
Consta que o animal já anda a reunir tropas para preparar a vingança... e quem é que duvida disso?




Se eu soubesse o que se passa na cabeça de gente maluca talvez soubesse dizer quais as verdadeiras razões para a corrida em osso que Trump deu no estrategista Bannon. Ou talvez pudesse jurar a pés juntos se foi Trump que correu com Bannon ou se foi este que não suportou os negros e outros mal arraçados que andam lá pela Casa Branca e bateu com a porta. Assim, não sei.

O que sei é que gente sinistra, do calibre do cara-de-canibal Bannon, deve ser guardada debaixo de olho em vez de afugentada e deixada à solta a preparar das suas. Mas isso era se Trump fosse normal e se a cavalhada trapalhona a que se assiste na Casa Branca fosse a excepção e não a regra. Assim, no meio daquela permanente bandalheira, vê-se mais esta jogada e já mal se leva a sério. 

O que assusta, mas assusta mesmo, é pensar no poder imenso que tem uma cavalgadura como Trump que não sabe falar, que não diz coisa com coisa, que toma decisões de forma errática, inconsistente, imatura, que forma equipas com gente problemática, gente que alguém de bom senso quereria longe das esferas do poder.

Mas afinal quem é Bannon, o estranho homem que enriqueceu investindo em Seinfeld...? Vejamos.


The turbulent story of Steve Bannon – video profile

[The Guardian]


 

Steve Bannon has been a naval officer, an investment banker, a film producer and an executive at Breitbart News. He was made Donald Trump’s chief strategist and was arguably the most influential man in the White House, but has now been removed, ending his highly contentious career at the center of the Trump administration


Já agora, se me permitem, para ilustrar quem é o homem de quem se fala, opto também por dois vídeos made in Colbert.

As músicas do banho de Steve Bannon



Os diários de Steve Bannon




E alguns comentários à situação:

Steve Bannon out at White House




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E eu, que nada sei, o que sei é que a quantidade de gente que Trump já descartou é gente mais do que suficiente para dar cabo dele, tanto mais que são de idêntico calibre e lhe conhecem as paranóias, os vícios, os pontos fracos, os narcisismos, os passos em falso e etc. E isso não seria mal pensado.

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Um bom sábado a todos quantos por aqui passam.

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sexta-feira, agosto 18, 2017

Para onde vai o tempo





Sempre fui muito de me rir. Ria-me com tudo. Ria para as pessoas. Dizia-lhes adeus se as via ao longe, enquanto sorria rasgadamente. Diziam que era uma menina simpática. Muitos anos depois, quem me conhece desde essa altura e são cada vez menos essas pessoas, ainda recorda a minha contagiante alegria.

E traquinas. Era traquinas, as minhas preferências iam sempre para as companhias ainda mais traquinas que eu. Nunca fui de me deixar controlar. Brincar na rua era o que mais gostava. Mais crescidinha era isso ou ler. Mais crescida ainda, era namorar e ler.

Comecei a ler e escrever muito cedo e sei que os meus pais se orgulhavam disso mas disfarçavam e, por isso, aprendi a disfarçar o que sabia para além do me parecia ser normal. Ainda hoje tenho essa preocupação. Muitas vezes, mesmo sabendo faço que não.


Tinha boas notas e via que eles ficavam contentes mas não evidenciavam muito e, sobretudo, nunca deixaram que me envaidecesse por tão fraco motivo. Por vezes encontrava algumas pessoas que mostravam saber dos meus feitos académicos e percebia que o meu pai lhes teria contado e, nessa altura, ficava muito surpreendida ao constatar que, afinal, isso o orgulhava a ponto de vencer a sua natural reserva nos elogios filiais.


Eu também tinha orgulho nos meus pais, pelo que eles eram e também porque os achava bonitos. A minha mãe louríssima e de olhos muito azuis, sempre boa onda, e o meu pai, cabelo muito preto, bem arranjado, todo desportivo. Por vezes, enfrentava-os. Muitas vezes. Queriam controlar-me, enquadrar-me e eu queria andar de outra forma, voar, as asas bem abertas, tinha pressa, queria conhecer o mundo. E queria arranjar-me de forma criativa, era engraçada, dava nas vistas, eu sabia que dava nas vistas, e gostava disso -- e eles temiam. E eu não queria saber dos seus temores. Mas sempre correu tudo bem. Temiam que as minhas aventuras, o querer começar a trabalhar cedo, o casar cedo, que isso me impedisse de estudar. Não impediu. E num instante já a família estava a crescer.

O tempo passa.


Há lugares em que a gente vê todas as idades da nossa vida. A entrada de um hospital é um desses lugares. Chega gente feliz, com flores nas mãos, beijam-se, há parabéns e votos de felicidade entre os abraços que se trocam, e sobem pressurosos a conhecer quem acabou de nascer. Ou saem mulheres que se vê que são as novas-avós, e vêm com sacos a acompanhar a filha que ainda traz um ventre dilatado e que vem com um bebé num ovinho.


Ou chegam pessoas em cadeiras de rodas, um sem uma perna, o coto à vista, outra com oxigénio, passam macas com velhos com as bocas muito abertas e que parecem mortos, ou passam velhinhas muito velhinhas com andarilhos, ou homens muito magros, excessivamente magros, uma cor que dá medo, ou mulheres demasiado inchadas, mal podendo andar. Ou crianças que vêm despreocupadas pelas mãos dos pais ou dos avós. E ouvem-se conversas. Uma dizia que o psicólogo queria que ela não pensasse mais nisso mas que ela não conseguia tirar isso da cabeça. E disse isto vezes sem conta a uma outra que não dizia nada, apenas a olhava.

O tempo passa. 


Quando eu era pequena, os meus pais não me levavam a hospitais. Eu tinha pavor de ver pessoas doentes ou acidentadas. Sempre tão alegre e despreocupada, ficava em pânico, incapaz de olhar, quase sem respirar, se via alguém com ferimentos, deformações ou se os sabia doentes. Penso que seria resultado de ter presenciado a devastação que a morte do meu avô materno causou na minha avó e na minha mãe. O que se passou nunca consegui recordá-lo. Na altura, talvez para me pouparem, puseram-me em casa da minha outra avó; mas, forçosamente, terei percebido o que se passava. Não guardo uma única memória dessa altura. Tanto que eu gostava desse avô muito alto, muito louro, de olhos muito azuis e tão bem que me lembro ainda de ele me levar às cavalitas e, no entanto, não recordo nada sobre o seu desaparecimento nem nunca fiz uma única pergunta sobre isso. Já aqui o contei: por essa altura fiquei gaga. Depois passou. Mas ficou-me o pavor por tudo o que me parecia que pudesse causar sofrimento ou prenunciar um desfecho triste. Talvez por isso, os meus pais passaram a preservar-me.


Com os meus filhos, logo tentei que tivessem a coragem que a mim me faltava. E em boa hora o fiz. E agora, dos mais pequenos, há um que parece um pequeno médico. Desde sempre que se interessa por perceber a causa das doenças, que aconselha tratamentos, que investiga tudo ao pormenor. No outro dia, quando percebeu que o avô não comia caracóis, a curiosidade que aquilo lhe causou. Os outros todos nem aí mas ele, cinco anos acabados de fazer, quis saber porquê, que reacções causava, se havia outros alimentos a causar alergias, como se tratava, a que médico ia, etc. Talvez seja uma motivação genética e venha a ser o digno herdeiro do avô. Do lado da minha filha, é ela que gostava que um dos filhos fosse médico mas parece que, no melhor dos casos, um deles sairá veterinário já que adora ver uma série que mostra um veterinário a fazer cirurgias e outros tratamentos a animais. Eu nunca quis saber de algum dos meus filhos querer ser ou não médico, e, de facto, nenhum o quis. Para se ser médico é preciso muita coragem ou muito desprendimento e, de certa forma, tenho a ideia que o ser-se assim pode abalar os alicerces da alegria inocente que deve existir na vida de qualquer pessoa e que resulta da real ignorância de quão efémeros, frágeis, dispensáveis somos.


Há pouco soube do que se passou em Barcelona. Vi corpos caídos naqueles passeios largos onde as flores reinam e os pássaros cantam. É bom passear nas ramblas. Mas hoje, não lá mas pela televisão, vi gente a correr assustada, outros debruçados sobre gente inerte. Não sei se mostraram de perto, espero que não mas, quando o fazem, desvio o olhar, não suporto ver como alguém que antes era feliz, de repente fica transformado num corpo tombado na rua ou num ser indefeso, estropiado, à mercê de tudo. Vidas felizes atalhadas sem um propósito. Do que li, para treze pessoas o tempo parou. Para muitas outras é agora uma luta de vida ou morte nos hospitais, uma tentativa de que o tempo continue o seu caminho. Não pode haver compreensão para os loucos que cometem actos assim.

Mas o tempo passa.

E enquanto o tempo passa é bom que passe devagar, que o vivamos com gosto, que amemos e respeitemos a vida, que sejamos generosos, solidários, honestos, honrados, que gostemos verdadeiramente dos outros, que saibamos ficar felizes com as cores luminosas e perfeitas das flores, do mar, do céu, das montanhas, dos pássaros, com a alegria, a ternura e a inteligência dos animais, que saibamos contemplar as esculturas que o tempo modela nas rochas ou nas árvores, que nos sintamos bem a ver o buliçoso riso das crianças -- e que gostemos de nos ver ao espelho, o tempo a passar por nós, e nós a reconhecermos, por entre os sinais do tempo, o nosso sorrriso inocente de crianças.


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Lá em cima os A Great Big World interpretam Where Does the Time Go


As imagens que usei são fotografias de Steve McCurry


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Seven Ages of Man - All the World's a Stage de William Shakespeare 
dito por Benedict Cumberbatch


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Saúde e alegria a si que aqui está comigo.

Uma sexta-feira feliz.

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quinta-feira, agosto 17, 2017

Um bosque de árvores artificiais


Cheguei a casa há pouco tempo e não é seguramente às duas da manhã que vai aparecer-me inspiração ou esperteza para falar de coisas relevantes. Se quando estou fresca e acordada já é o que é, fará estafada e cheia de sono.

Por isso, vou limitar-me a ficar praticamente de boca fechada, partilhando apenas o vídeo que mostra as árvores feitas por homens, com jardins verticais, pontes entre elas e sei lá que mais -- todo um conceito em que vale a pena pensar.

Enquanto jantava, sem saber que teria que sair a seguir, estava a ver um interessante documentário sobre a razia que tem vindo a acontecer com os polinizadores. Entretidos que andamos com tretas nem nos damos conta de insignificâncias que, se descuradas, podem virar o mundo do avesso -- e o progressivo desparecimento de polinizadores é uma delas. Mostravam abelhas a morrer à mão cheia. Se não viram e puderem pôr a box a andar para trás, vejam o programa da 2, Vamos à Descoberta, pelas 21 horas. Aliás, se puderem, vejam sempre este programa.

O mundo deve ser uma coisa maravilhosa, cheia de mistérios e magias, maravilhosos milagres, encantamentos, diversidades. Temos que o preservar, reinventar, procurar acarinhá-lo, procurar agradar-lhe.

E, a esta hora, é o que me ocorre dizer.

In the center of Singapore, a manmade horticultural haven blooms. Supertree Grove is a man-made forest meant to enhance greenery and flora in the bustling city. The grove consists of 18 “trees” acting as vertical gardens, with trunks covered with over 200 varieties of orchids, ferns and climbing plants. Each tree reaches 80-160 feet high, and is connected by walkways that allow visitors to view the city from the treetops.

Tour This Stunning Grove of Man-Made Trees



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 Sobre o muito que há para dizer, tanto que não cabe na minha indisponibilidade, queiram, por favor, continuar a descer.

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Assuntos a mais e disponibilidade a menos


Não sei bem o que dizer. Não é falta de assunto, é o contrário. Montes de temas, desde o Passos Coelho no Pontal, a dizer palermices em catadupa, a Ágata na lista do CDS a mostrar às escâncaras a cabeça oca que é a Cristas e, por outro lado, os resultados do crescimento, da descida do desemprego e do aumento dos níveis de confiança. Duas soluções em confronto, uma perdedora, desgraçada, humilhante e indignificante e outra que transporta esperança, inclusiva, que mostra bons resultados.


Depois há o tema dos incendiários que parece pulularem por aí, pirómanos que não sei se não se sentem estimulados pelas over doses televisivas. 

A acrescer à desgraça das florestas a arder, mais a tragédia de uma árvore a vir desabalada para cima dos crentes e agora, que o mal aconteceu, ninguém a querer ser dono do terreno onde estava a árvore.

Lá por fora, é o anormal do Trump que, de cada vez que é deixado desencabrestado, o que é praticamente sempre, só faz porcaria, mas porcaria da grossa. Não sei dizer se ele é racista, xenófobo, estúpido, parvo, cretino, anormal, se é tudo junto em doses explosivas. O mundo sujeito a um estupor destravado à frente da sua principal potência. Ridículo e assustador.

E há a seca e os fenómenos climatéricos extremos por todo o lado: temporais, enxurradas, chuvas diluvianas, temperaturas insuportáveis. O ambiente a estrebuchar, o planeta em desequilíbrio. E meio mundo sem perceber o caminho que isto está a levar.

E, portanto, é isto. E mais cinquenta mil frioleiras a que, tivesse eu tempo e disposição, deitaria mão para lhes chamar um figo.

Mas não dá. Só consigo escrever se tiver tempo e disponibilidade para tal e esse, hoje, não é o caso.

Portanto, fico-me por aqui e, se conseguir, lá mais para o fim da noite, pode ser que cá volte. 


quarta-feira, agosto 16, 2017

Amar, verbo intransitivo




É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Pode ser que sim.

O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. Espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. A vida se aproxima. Repartem-na, pois quatro ombros podem mais que dois. 


-- Entendeu, Carlos?

Ela repetia sempre "Carlos", era a sensualidade dela. Talvez de todos... Se você ama, ou por outra se já deseja no amor, pronuncie baixinho o nome desejado. Veja como se moja em formas transmissoras do encosto que enlanguesce. Esse ou essa que você ama se torna assim maior, mais poderoso. E se apodera de você. Homens, mulheres, fortes, fracos... Se apodera.

E pronunciando, assim como ela faz, em frente do outro, sai e se encosta no dono, é beijo. Por isso ela repete sempre, como de-já-hoje, inutilmente:

-- Entendeu, Carlos?


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A língua que usei. Veio escutar melodia nova. Ser melodia nova não quer dizer que feia. Carece primeiro a gente se acostumar. Procurei me afeiçoar ao meu falar e agora que já estou acostumado a lê-lo escrito gosto muito e nada me fere o ouvido já esquecido da toada lusitana. Não quis criar língua nenhuma.

O importante não é aliás a vaidade de ter língua diferente, o importante é se adaptar, ser lógico com a sua terra e o seu povo. Falam que pra que tenha literatura diferente carece que tenha língua diferente... É uma semiverdade. Pra que tenha literatura diferente é só preciso que ela seja lógica e concordante com terra e povo diferente. O resto sim é literatura importada só para certas variantes fatais. É literatura morta ou pelo menos indiferente pro povo que ela pretendeu representar.


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Excerto, não sequencial, de 'Amar, verbo intransitivo - Idílio' de Mário de Andrade. A parte a itálico faz parte do Posfácio Inédito.



Lá em cima Marisa Monte interpreta Amor, I love you



As imagens pertencem ao filme The Graduate com Anne Bancroft e Dustin Hoffmann e, se lerem o livro, perceberão porque é que me lembrei de as colocar aqui


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Já agora: Mário de Andrade também poeta

Ode ao Burguês



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E, se aterraram agora aqui, aceitem a sugestão e desçam até à minha Estivália. É o post que se segue.

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Mas, se estiverem numa de entrar num outro comprimento de onda, então aceitem o convite e naveguem até ao meu Ginjal. Aí poderão contemplar o rio enquanto ouvem as minhas confissões: Porque escrevo no prazer eu incendeio-me. A música também é boa.

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terça-feira, agosto 15, 2017

Estivália





Agora em casa. Na televisão, o futebol. Desde ontem que eu estava a ser avisada que, desse por onde desse, a esta hora teríamos que estar em casa, que dava o sporting. Cá estamos. 

Estou de costas para a televisão. Trouxe o cadeirão baixinho para junto da janela que está aberta, trazendo do rio a aragem fresca.

Entardece devagar e a luz dourada vai pousando sobre a cidade. No outro dia, saindo pela Vasco da Gama, reparámos como estava branca a magnífica cidade. A luz branca, as casas brancas. Uma nesga branca ao longo do rio. Uma beleza flutuante de tão requintada e etérea.

Da família chegam-me notícias de férias. Está toda a gente de férias menos nós. Todos os que podem, claro, que a alguns a idade e a condição física já não dá para deslocações nem o conceito de férias se aplica na sua dimensão quotidiana.

Ontem ao fim do dia encontrámo-nos, nós e a ruidosa descendência, vinham eles da praia e nós do trabalho. Estivemos numa esplanada. Quatro meses juntas. Só se faz silêncio enquanto devoram caracóis, caracoletas, choco frito, pregos, bitoques. Logo que saciados, a tropa miúda levanta-se e correm e brincam e enchem de alegria todo aquele espaço que, felizmente, é amplo. E vá lá que estávamos numa ponta. Lembro-me, por vezes, que pode haver quem ali esteja querendo curtir a frescura do anoitecer em sossego. Mas é impossível mantê-los calados. So  o bebé ainda se porta bem-comportadamene. Ali mesmo comeu uma tigelona de papa, que lhe dei, consolada. De penalti despachou tudo. Sempre a rir. Já no fim, já todos de pé e os pimentinhas a brincarem, estavam uns quantos em cima de um banco de jardim. O meu marido agarrou num e ia dar-lhe um calduço, na brincadeira. Susteve-se à última hora, no justo momento em que, quem observava, o avisasse: 'esse não é nosso'. Era um outro miúdo que se tinha juntado à brincadeira.


Hoje fomos os dois caminhar na praia. Enquanto estava na água, reparei numa gaivora muito branca que dançava perto de mim. Depois veio à água e voltou a subir. A luz fazia-a recortar-se sobre o azul, ressaltando o branco reluzente. Tive pena de não poder fotografar. Também tive pena de não me pôr a fotografar os corpos transformados com que me ia cruzando. Espanto-me com a crescente invasão de tatuagens. Desfeiam os corpos. Uma rapariga com o corpo coberto com um pintura em negro, como uma renda. Podia ser bonito mas é tão estranho. Outros quase têm uma banda desenhada, tanta a bonecada. Um homem de aspecto normal, meia idade, com riscas às cores nas costas. Quase sinistro de tão louco. Não percebo esta moda.

Almoçámos por lá e, a seguir, já com máquina fotográfica, fomos fazer uma nova, embora curta, caminhada. As fotografias engraçadas que se conseguem fazer. Mas as mais engraçadas não as quero mostrar para que não pareça que estou a parodiar (quando, afinal, me limito a fixar o que vejo). Hoje vi uma rapariga gordinha, baixinha, com calções despropositadamente curtos e justos, com o cabelo pintado de fúcsia, com uns óculos escuros redondinhos. Parecia uma fantasia animada. Ao lado, um casal, também baixinhos e gordinhos, ar muito convencional e diria, vagamente provinciano e, no entanto, armados em góticos, todos de negro, quase siameses, de mão dada. Uma perfeita contradição dos termos. Se vestidos com trajes folclóricos haveria coerência mas, assim, qualquer coisa parecia não bater certo. E um homem de uns sessentas, muito pintas, todo muito arranjado, armado em atleta, com uma calmeirona, metade da idade dele, escultural, espampanante, muito morena, lábios inflados, completamente descapotável, cabelos pretos escorridos até à pela cintura que ela, ar pretensamente sexy, tombando a cabeça de lado, puxava para que se alojassem sobre um dos ombros. Não a ouvi falar mas juraria que era daquelas brasileiras que conseguem embeiçar portugueses babacas. E tantas mais figuras curiosas.


Começa a escurecer. Ainda não acendi a luz mas já não se vê lá muito bem. Tenho que parar de escrever.

Vou ler. Estou a gostar do livro que agora tenho em mãos. Leitura prazerosa, suculenta de boa. Gosto destes dias tranquilos, gosto de escrever e de ler enquanto sinto o frescor delicado que vem lá de fora. É época estival e eu já devia estar de férias. Mas, enfim, não tenho de que me queixar. Está-se bem.

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Lá em cima é Tell Me All About It interpretado por Laura Fygi & Michael Franks sobre fotografias de Michael David Adams.

Sobre os bacanos de pedra que aqui partilho convosco, transcrevo o que leio no Bored Panda:

In 2012 French photographer Leo Caillard partnered with the Louvre Museum for a project in which he makes classic statues "wear" modern-day clothing.

For the creation of "The Hipsters in Stone" art series, Caillard first photographed the statues, and then asked his friends to pose in the same position but with clothes like jeans, flannel shirts and even Ray Ban sunglasses. Then he finished his project with Photoshop.

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Até já. 

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A janela


Anni Leppälä -- Window (forest), 2009 



Encostas-te à janela e contemplas a noite mas não é à janela que te encostas nem a noite que contemplas. Fantasias. E, contigo, fantasias é verbo e é substantivo. As mãos cheias de letras, de palavras: de nada. A noite é lonjura. Em vão chamas mas não sabes por que nome deves chamar. Procuras o perdão para o remorso que te devora mas não é o perdão que procuras pois o orgulho devora-te o remorso. Frágil, frágil o teu amor. Forte, mais forte o teu orgulho. Mas dizes que não. Dizes que é saudade, simples saudade, que logo passa. E não sabes dizer de outra forma o que te toma a toda a hora, todos os dias, todas as noites, porque nada tem nome, nada tem hora.

Caspar David Friedrich -- Woman at the window

Alguém vive dentro de ti e invade a tua alma e agarra o teu coração e incendeia a tua carne. Espreitas pela janela. Do lado de lá apenas a noite por onde se arrastam os fantasmas, deixando vestígios de rosas intagíveis. Mas não são fantasmas, são sonhos, desejos. Fechas os olhos, inventas outras vidas, imaginas guirlandas nos cabelos do longínquo alguém que o teu coração ama. Flor a flor, carícia a carícia, colocas com desvelos afagos nos cabelos que nunca sentiste nas tuas mãos vazias.

De pé junto à janela. Os teus braços cruzam-se em torno de ti. Simulas o abraço que tarda em chegar. Lágrimas silenciosas que ninguém vê. Escreves cartas. Muitas cartas. Nunca as envias. Inventas vidas. Falas de ti e só tu sabes como tu, inteiro, ali estás, disfarçado de outro. 

Encostas-te à janela. Tu. Fechas os olhos. Sonhas que habitas a beleza que o distante alguém constrói no seu mundo onde tu não cabes. Frágil mundo, tão frágil. Frágil amor. Oh abençoado amor que tanto e tão sem esperança amas.  Oh amor feito de palavras, oh amor que não sabes amar. Vem contemplar a luz. Vem aprender a amar.

Victor Pasmore -- The Window
Why do you stand by the window
Abandoned to beauty and pride
And the whole broken-hearted host
Gentle this soul
And come forth from the cloud of unknowing
Then lay your rose on the fire
The fire give up to the sun
The sun give over to splendour
In the arms of the high holy one
For the holy one dreams of a letter
Of the word being made into flesh
Oh chosen love 


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E já que hoje me deu para transliterar letras de canções, e sem cuidados o fazer e sem pudor me apropriar de palavras que outros cantam, também sem pudor o convido a si a descer até ao que abaixo se segue, uma outra canção de amor. Stranger's Kiss

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In my dreams I miss you



Para todos os que sofrem por não estar juntos, para os que não sabem porquê mas não conseguem viver sem o outro, para os que vivem em carne viva porque lhes falta a pele daquele que o seu coração ama, para os que sonham sonhos vazios porque lhes falta a razão para sonhar, para os procuram nos outros o que só um tem -- o sorriso único, a palavra de amor, o toque das mãos -- para os que imaginam que o outro desapareceu para conseguirem suportar a sua ausência, para todos os que vivem pedindo que um dia o milagre aconteça e se reencontrem, para os que desejam ardentemente um abraço, um único abraço, o primeiro de muitos abraços, para os pedem um beijo, um único beijo, o primeiro de mil beijos, para os que chamam, para os que calam sem força para chamar. 


Para os que se sentem estranhos por tanto desejarem um amor impossível, para os que sonham com o que em sonhos parece possível. Para os que pedem a todos os anjos, a todos os santos, para os que em tudo querem acreditar, para os que se entregam às memórias em busca de alento, para os que fecham os olhos e ouvem músicas invisíveis, para os que são como crianças perdidas num mundo vazio, para os que sentem o tempo a passar sem que um vislumbre de esperança aconteça. Para....


Stranger’s Kiss


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As imagens são respectivamente parte de Danaë de Gustav Klimt (1908) e Angiolino musicante de Rosso Fiorentino (~1521)

Alex Cameron interpreta Stranger's Kiss em dueto com Angel Olsen

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Um feliz dia feriado.

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segunda-feira, agosto 14, 2017

Mark Zuckerberg (o Conquistador puritano), o Facebook e os mamilos e... a fúria da mamã...


Kate Moss, aos 43 anos, para a W Magazine


É sabido por quem por aqui me acompanha. Não tenho conta no Facebook nem tenciono vir a ter. Não há ali nada que me atraia. Pelo contrário, os potentes motores comerciais que movem a máquina do Facebook são de uma perversidade que acho assustadora. Gratuito para o utilizador normal, o Facebook é, na realidade, uma base de dados de interesse galáctico e desregulado e uma plataforma comercial que usa informação colhida nas preferências e comportamentos das pessoas para divulgar produtos e serviços, para induzir tendências, para manipular preferências.

Jean-François de Troy (1679 – 1752) -  Le bain de Diane

Por detrás do que parece um simples mural no qual as pessoas vêm fotografias alheias ou sabem de peripécias dos amigos ou exibem o seu prato de salada bio ou o seu sorriso de boca aberta enquanto dizem cheeese ou ba-ta-ta, há algoritmos a fazerem o seu trabalhinho para que a pessoa veja em primeiro lugar o que o Facebook decidiu ou para que a disposição do que é mostrado induza a reacção desejada.

Para além disso, há o valor incomensurável da infinita base de dados que é alimentada a todo o instante com toda a espécie de dados pessoais. O que pode ser feito a partir da comercialização desta base de dados já começou a ser visto aquando das mais recentes campanhas eleitorais e que conduziram aos efeitos que quem contratou os serviços da empresa de marketing político pretendia: a vitória dos clientes -- num caso a vitória do Brexit, no outro a vitória de Donald Trump.

Lucas Cranach o Velho (1472 - 1553) -- A Justiça

Mark Zuckerberg tem apenas 33 anos e, embora o seu ordenado seja de apenas 1 dólar anual, é já o ilustre detentor de uma fortuna que o torna a 5ª pessoa mais rica do mundo. Comprando as empresas que se mexem à sua volta, destruindo a concorrência e aventurando-se por caminhos que fazem tremer os que já lá estão, o jovem Zuck parece não conhecer limites.


Ao mesmo tempo que as suas empresas acumulam riqueza como se não houvesse amanhã, ele e a mulher resolveram criar uma fundação, a Chan Zuckerberg Initiative, dona de 99% das acções do Facebook, cujo objectivo é  "to advance human potential and promote equality in areas such as health, education, scientific research and energy". Na prática, uma poderosa empresa filantrópica, tão poderosa que assusta.


Jean Auguste Dominique Ingres (1780 - 1867)  - La Source

As movimentações do jovem Mark são seguidas com preocupação por quem sabe detectar sinais de potencial alarme. Leia-se, por exemplo, na Vanity Fair, o artigo Is Mark Zuckerberg Killing Silicon Valley?:

The exact nature of Mark Zuckerberg’s ambitions are a bit hard to pin down. At 33 years old, Zuckerberg has already built the world’s largest and most powerful social-media network; devoured the advertising and media markets; is threatening to put Hollywood out of business; amassed a $73 billion fortune and pledged to give most of it away in what could become the world’s most ambitious philanthropic enterprise. In two years, he’ll be old enough to run for president, a prospect that is being taken somewhat seriously in Silicon Valley, where various sources have told Vanity Fair he wants to be “emperor.”

Only Zuckerberg knows if those two impulses—to dominate the world and to save it—are in conflict. In the meantime, however, the Facebook founder and C.E.O. is not hesitating to ruthlessly expand his business empire in pursuit of whatever master plan he has in mind. (...)

Giorgione (1478 - 1510) -- A Vénus adormecida

No meio disto, parece até ridículo o puritanismo do Facebook. Quem por lá navega já deve ter sido informado das regras mas, ainda assim, transcrevo o seguinte excerto:

Nudez 
(...) Eliminamos fotografias de pessoas que mostram os genitais ou que se foquem em nádegas completamente expostas. Também restringimos algumas imagens de seios femininos se estas incluírem o mamilo. No entanto, permitimos fotos de mulheres a amamentar ou a mostrar seios com cicatrizes pós-mastectomia. Também permitimos fotografias de pinturas, esculturas ou outro tipo de arte que retrate nudez. As restrições na apresentação de nudez e de atividades sexuais também se podem aplicar a conteúdo criado digitalmente, a não ser que o conteúdo publicado se destine a fins educativos, humorísticos ou satíricos. São proibidas imagens explícitas de relações sexuais. Também podem ser eliminadas descrições de atos sexuais detalhados nitidamente.
Tiziano (1490 - 1576)  - Vénus com o Organista e com o Amor


No outro dia, o MCS (de No Vazio da Onda) dava conta que a sua conta no Facebook tinha sido temporariamente bloqueada por lá ter colocado uma fotografia do falecido Serge Gainsbourg (1928-1991) num dia de farra -- e tudo porque a fotografia mostra que, nesse dia, algumas foliãs estavam de mamocas ao léu.


Provavelmente essa fotografia ainda não almejou alcançar a categoria de 'arte'.

Mas o que é arte? Quem decide o que é arte ou não-arte? Não há pinturas de um classicismo irrepreensível e nas quais almas moralistas vêem pura pornografia?

Gustave Courbet (1819 - 1877) -- A Origem do Mundo

As imagens que aqui partilho -- com excepção da primeira que é, ela própria, um clássico entre as fotografias de Kate Moss -- as restantes são pinturas a que nenhum idiota ousaria negar a exibição. Contudo, algumas ou algumas deste tipo não podem ser expostas em galerias ou museus americanos por haver quem considere que ofendem a moral e os bons costumes.

O blogger, ferramenta da Google, que eu saiba, ainda não restringe a partilha de imagens com mamilos, nádegas ou que exprimam actos de amor (tanto mais que as disponibiliza no Google Arts & Culture).


No entanto, tendo recebido por mail um vídeo engraçado ('Embaraçoso...' ou 'Não chateiem a mamã') no qual a protagonista, no fim, aparece em nu frontal, quis inseri-lo aqui via youtube e o que aparece já é a versão coberta. Aqui o deixo na mesma.

Tudo é subjectivo, claro, mas o puritanismo e o moralismos nunca foram bons conselheiros e, em nome deles, grandes patifarias têm sido cometidas ao longo dos tempos. O que seria normal seria que as mentes fossem evoluindo mas, como se vê, a regressão é que parece estar a fazer o seu caminho.


Que mal fazia ver-se o corpo da mamã?

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E, em pós-post, aqui fica como recomendação, a resposta a um comentário meu n'A Matéria do Tempo. Com o Fernando aprendemos sempre.

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Se não fosse por coisas, nomeadamente por ser avessa a selfies, despedia-me com um auto-retrato meu. Assim, despeço-me com o mais parecido que arranjei. Só me falta o gato.

Mulher reclinada e nua com gato -- Pablo Picasso (1881 - 1973)

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E uma boa semana a todos quantos por aqui passam, a começar já por esta segunfa-feira.
Be happy.

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domingo, agosto 13, 2017

As flores, os frutos, o silêncio





Tínhamos um pessegueiro perto de casa que se enchia de pêssegos pequenos que, mal medravam, logo caíam. O chão sempre cheio de fruta imprestável. Depois apanhou uma doença, as folhas encarquilhadas, todo ele a pedir um fim. Fizemos essa caridade. Serrado pela base.

Anos depois, aparecem rebentos de pessegueiro por todo o lado. Vamos cortando porque despontam no canteiro do alfazema, no canteiro das rosas. A um dos rebentos deixei ficar. Está ao pé das sardinheiras, não estorva muito. É ainda um pé esguio, quase nem se dá por ele, Pois ontem, para minha surpresa, tinha vários pêssegos. Os meninos apanharam-nos e levaram-nos. Penso que sobram uns dois ou três. 


Subsiste o verde apesar do calor. Mal se vê o céu. A névoa persiste. Já não cheira a fumo mas o cinzento que oculta o azul deve ser feito de cinzas.

No entanto, não sei como, sobre as árvores e sobre os arbustos vejo a luz como se o sol conseguisse fazer brilhar a folhagem apesar desse véu.


Como habitualmente, estivemos a desbastar árvores e a limpar algum mato. Como não se pode usar máquinas, que poderiam fazer soltar alguma faísca, é tudo esforço braçal. Pelo meio, vou-me encantando com a perfeição das pequenas flores, com a simetria dourada que se oculta por entre a folhagem seca.

Fotografo, e é uma forma de descansar. A natureza tem uma força impressionante. E uma variedade infinita. Por todo o lado descubro maravilhas. Hoje, por várias vezes, senti bichos a mexerem-se à minha passagem, um rumor, um deslizar por entre as folhas secas. Não sei se são cobras, lagartixas, outros animais. Não sei como sobrevivem sem água, sem uma frescura, um orvalho. 


Fotografo tudo e, por onde passo, vou descobrindo como o tempo vai embelezando as coisas. Uma rocha acariciada pelos ventos, pelo sol, pela chuva, um tronco morto, uma raíz arrancada à terra, a madeira ganhando novas texturas e cores. Sendo que a beleza provoca um sentimento de satisfação em quem a contempla, imaginem como me sinto sempre tão encantada vendo beleza em tudo isto.

Agora estou a descansar. Tenho aqui comigo 'Amar, verbo intransitivo -- Idílio' de Mário de Andrade. Vou ler e, imagino eu, adormecer. Apesar do calor, o tempo hoje talvez não esteja tão quente. Convida ao sereno descanso. Está um silêncio suave. As cigarras não se fazem ouvir. Apenas de vez em quando, uma leve aragem que faz cantar a caruma. Há pouco, um sino ao longe pontuou este tão doce silêncio que os pinheiros perfumam.


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Ficha técnica do bailado lá em cima: 

Compañía Nacional de Danza Multiplicidad. Formas de Silencio Y Vacío 
Nacho Duato. 

J.S. Bach - Anner Bylsma-Suite No. 1 in G Major, BWV 1007/I. Prélude

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Who by fire


Mulher na Aldeia do Mato, Abrantes
by Rui M Pedrosa



Acordei com cheiro a fumo. Cheguei a casa dos meus pais e na rua um cheiro a fumo. Cheguei aqui, in heaven, e cheiro a fumo e uma névoa pardacenta no ar. De tarde, uma gigante onda de fumo crescia no céu, o cheiro sempre presente.

Muito calor, nenhuma humidade, um pasto perfeito para a besta. 

Vejo a televisão: fogo por todo o lado. O meu país em chamas. Mais de 4.000 bombeiros no terreno. Autoestradas fechadas.

Não é o calor e a falta de humidade que desencadeia os fogos, isso apenas ajuda a propagar. Isso e o vento. O rastilho tem mão humana: seja por incúria, distração, interesse económico, maldade ou loucura. Ouço as notícias: muito fogo posto. Muita gente detida, outros apenas interrogados. Um dos grandes incêndios, um que devorou serras e vales, e galgou estradas e rios e lambeu casas e cegou árvores aos milhares foi ateado por uma mulher de cinquenta anos. Chegou-se ao mato e com um isqueiro pegou-lhe fogo. Saíu de casa e deliberadamente provocou o incêndio que destruíu milhares de hectares de floresta e colocou em risco a vida de quem vivia naquelas aldeias e dos bombeiros que por lá andaram a consumir-se. Que razões terá a mulher? Que loucura ou desespero tomou conta dela?


Parece que o perfil típico dos incendiários se divide entre doentes com depressão ou alcoólicos. Por isso, não sei como se podem prevenir estas catástrofes quando os causadores são pessoas que não obedecem a comportamentos racionais.


Espanto-me com este fenómeno. Um país tão pequeno, gente aparentemente normal, pacífica, agora com o desemprego a diminuir, o poder de compra a melhorar, supostamente menos razões para se cair no desespero e, no entanto, isto que se vê. 

Parece não haver outro país na Europa onde tanto fogo seja ateado. Será que as televisões não deveriam mostrar tantas imagens de fogos e de gente aos gritos? Será que quem ateia fogos, por um motivo ou por outro, quer causar destruição e pânico idênticos aos que vê na televisão?
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Na Albânia também a braços com uma onda de calor
by Gent Shkullaku

Mas, enfim, de uma forma ou de outra, em maior ou menor escala, e fogo por incêndio ou por bombas ou rebeliões, parece que uma onda abrasiva está a invadir o mundo (e nem vou falar da anormalidade a que se assiste entre as aberrações que estão à frente dos Estados Unidos e da Coreia do Norte).

Bombardeamento aéreo em Damasco, Síria
by Ammar Suleiman

Nas ruas de Caracas, Venezuela
by Ronaldo Schemidt

Tomara que chova, que arrefeça, que tudo volte ao normal, que os ânimos serenem, que o bom senso e a saúde mental prevaleçam. Se isto dura muito mais tempo corremos sérios riscos de que o mundo se torne um lugar ainda mais perigoso.
E claro que isto que estou a dizer é uma banalidade mas, perante o que está a passar-se, não consigo formular ideias originais.
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Vi as fotografias que aqui usei no The Guardian e, para nos fazer companhia, lembrei-me da canção do Leonard Cohen embora a letra não tenha especialmente a ver.

And who by fire, who by water, 
Who in the sunshine, who in the night time, 
Who by high ordeal, who by common trial, 
Who in your merry merry month of may, 
Who by very slow decay, 
And who shall I say is calling? 
(...)
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E, a propósito ainda de fogo, lembrei-me de quando eu era pequena e, pelos santos populares, havia fogueiras nas ruas e da atracção pelo risco que aquilo me provocava, levando-me a saltar por cima, mesmo quando elas eram largas e estavam com fogo alto. Mas o dia foi algo cansativo (mas muito bom!) e eu estou aqui só a adormecer enquanto escrevo. Por isso, não sei se vou conseguir escrever sobre isso e chegar ao fim.

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Até já ou até amanhã

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sábado, agosto 12, 2017

Contos eróticos





Bem, hoje está a dar-me para isto, para coligir. A culpa é de um mail que recebi.

Resolvi, pois, colocar alguma organização para facilitar a vida a quem está na praia e se dá ao trabalho de tentar ler histórias que escrevi.

As coisas que eu já escrevi, senhores... Não dá para acreditar. É como quando olho para a quantidade de carpetes e carpetes de Arraiolos que já fiz: como foi tal possível? Terei sido mesmo eu? Acho que faz sentido duvidar.

Aqui tenho andado a garimpar... mas não é tarefa fácil. Já nem me lembro dos nomes que dei a várias histórias. Ao todo, já publiquei cerca de 4.500 posts. Um horror desencantar coisas no meio disto. Por vezes coloquei etiquetas mas em muitas não. Só com alguma minúcia e muita paciência conseguiria organizar isto. Mas isso são características que não integram o meu DNA.


Portanto, depois de ter compilado todos os capítulos de Lu, a mulher infiel e da Dindinha, cansei-me de andar à pesca e lembrei-me de ir à procura de contos mais ou menos eróticos, pensando eu que isso seria canja. Sim, sim... Acho que já escrevi montes deles mas, assim de repente, só desencantei cinco. Imagine-se. Mas lá está: quando me dedicar a escrever argumentos para seriados calientes, logo me embrenho na pesquisa a material histórico. Ou, então, deixo-me de compilar prosa vintage e escrevo mas é mais contos, sempre será material de apanha recente, da saison.


Aqui deixo os respectivos links para os cinco que consegui mondar no meio do matagal que é este blog. Enjoyez.

Contos eróticos



Perigosa sedução
(a 1ª parte do post não tem nada a ver; o conto começa onde se lê: Se eu contasse ninguém me levaria a sério)



Uma historinha de um erotismo muito inocente



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E queiram continuar a descer que, nos dois posts seguintes, como acima referi, há ligação directa a dois folhetins, o da Lu e o da Dindinha.

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Dindinha
- Todos os capítulos -





Embalada pela experiência organizativa do post abaixo -- no qual pus em ordem a vida de Lu, a mulher infiel -- fui-me à Dindinha. Acho que devia ter chamado a este folhetin Dindinha e a Prima; mas não dei, paciência. 

Gostei de escrever as peripécias daquelas duas (delas e do Tom) e, de vez em quando, apetece-me voltar a este trio maravilha. Ocorrem-me situações mirabolantes e, devo dizer, até a resvalar para o impróprio para consumo (isto na perspectiva, claro, de que, sendo este um blog de família, o que aqui escrevo deve poder ser lido -- sem embaraço -- por familiares meus, vizinhas ou meninas no convento). Mas, enfim, esses desenvolvimentos ficam para quando me tornar guionista de séries para televisão (ou netflix, vá). 


Para já fica a versão em português-suave do folhetim, em todos os seus fascículos, do primeiro ao último.

Dindinha










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Acrescentos da história à revelia da autora:





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[Espero não ter saltado nenhum capítulo. Caso descubram que me escapaou algum post, apitem, ok?]

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