Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

quarta-feira, janeiro 17, 2018

Brinquedos sexuais para todos
(e não só para avozinhas: esta brincadeirinha pode ser feita em reuniões de amigos de todas as idades, credos, géneros e condições sociais)


Pronto. Reconheço. Hoje estou que não me recomendo. Nem sei porque será. O dia foi normal. Não fui atacada pelos rottweilers do costume, não inalei hélio, não vi nenhuma intervenção do futuro ex-saudoso Hugalex, não fui perturbada por nenhuma toilette neo-realista da Judite Sousa -- nada. Um dia normalíssimo.

O único momento que foi diferente, não propriamente poltergeist mas quase, foi quando, assistindo ao telejornal da rtp2, vi a Cristina Azevedo que, na qualidade de comentadora, nos apareceu encarnando a persona de Rui Rio. Falava na primeira pessoa como se fosse Rui Rio, respondia como se fosse ele, conhecia-lhe os pensamentos mais profundos, fazia inflexões de voz como se estivesse a exprimir a estratégia dele. Era o corpo da Cristina Azevedo mas possuída pelo espírito do Rui Rio. Um clone de Rui Rio com cabelo armado e corpo de mulher algo empertigada. Uma coisa algo estranha.

Mas não sei se foi isso que me deixou assim.

Também vi o Miguel Esteves Cardoso com o Bruno Nogueira e a Rita Blanco e foi aquela conversa solta, divertida, de sempre. Apenas um bocado estranha quando a Rita Blanco se exaltou contra incertos a propósito da educação que hoje já não é como era. Não sei se estava a comparar com o tempo dela mas, do que me lembro, não sei se nessa altura era assim tão melhor do que é hoje. Talvez estivesse a referir-se à educação no tempo da Maria Cachucha que aí, sim, parece que aí é que era mesmo boa. Era boa a educação, era boa a convivência e parece que era boa a própria Maria Cachucha. Para quem apreciava o género, claro.

Mas também não sei se foi isso que me deixou assim.

Assim: com vontade de me armar em prof. 

Ou seja, aqui me têm sem pecado e sem inocência: uma coisa na base Fräulein UJM ensina.


Há bocado foi uma aulinha prática de como não comer uma banana. Agora é uma aulinha prática de como se usam alguns brinquedinhos sexuais (e, atenção, nada de associações de ideias mal intencionadas que este é um blog de família).

Atendendo a que os meus leitores mais jovens já sabem tudo o que há para saber e que os velhinhos acabados (e as velhinhas também, claro!) já sabem até demais, este meu post destina-se aos Leitores de meia idade e de ambos os sexos. Para isso, apresento-vos um vídeo em que os intervenientes são de meia idade (mas uma meia-idade um bocado para o avançado e no feminino). Avozinhas.
Mas, se faz favor, concedam-me: avozinhas com idade quase para serem minhas avós. 
E nada de se assanharem comigo: sou míope, já o disse. Mais: poupo-me a desgostos. Ou seja, só me vejo ao espelho de vez em quando e é sempre de longe.
Adiante. O vídeo não está legendado mas é o que há. Quem não compreender, pode sempre arranjar um brinquedo daqueles e tentar perceber para que serve. Do que vi, alguns devem funcionar a pilhas (ou serão de dar corda?) e podem servir apenas para serem apreciados do ponto de vista lúdico e isto porque, como verão no vídeo, fazem gracinhas.

Quando eu era pequena, tinha um caozinho pequenino de peluche em que se dava corda e ele desatava a andar freneticamente e a dar à cabecinha, muito engraçado. Se calhar alguns destes toys são também assim -- e é bom que sejam porque brinquedos a pilhas são uma maçada.

Mas, enfim. Neste caso, o intuito da aula é o seguinte programa: ver os instrumentos, fotografá-los e ir a uma loja da especialidade adquiri-los. Na próxima reunião de família ou de amigos, reproduzir o que aqui abaixo se vê. Uma espécie de jogo de tabuleiro mas em 3D. Vão-se tirando objectos de um saco, põem-se em cima da mesa e os convidados devem adivinhar para que servem. Quem quiser pode exemplificar para que os que são de compreensão lenta consigam perceber. Há sempre quem precise de ver o boneco para chegar lá.

Até podia ser o ponto alto de um debate televisivo. No fim, qual factor-surpresa, a Ana Lourenço, com aquele seu ar levemente alienado, desatava testar os conhecimentos dos seus comentadores. Imagine-se, por exemplo, Manuela Ferreira Leite e Hugalex Soares de um lado, Mariana Mortágua e Francisco Assis do outro. Por exemplo, repito. Funcionaria bem com quaisquer outros. Penso que haveria um pico de audiência como jamais antes (e já sabem, jamais lido à francesa de Alcochete: jamé)

Ora vejamos, então, como se joga este jogo. 
Aqui foram as avozinhas que se reuniram para o jogar, enquanto aproveitavam para fazer confidências.


................

E queiram, agora, descer para a aula prática que Madame Bobone ainda não leccionou:

[No pun intended]

......................................................................

Como não comer uma banana


Quem for malicioso, mal intencionado ou convencido que é engraçadinho deverá fechar imediatamente o Um Jeito Manso. Este post destina-se apenas a pessoas puras de espírito.

Este post hoje não tem a ver com dress code nem com livros de estilo nem sequer vou ensinar a pegar num copo ao beber o vinho. Este post hoje é apenas para ensinar a comer uma banana. Mas é um ensinanço pela negação.

É assim como quando a gente pede uma informação na estrada e encontra alguém que parece apostado em despistar-nos: Ali à frente há um desvio à esquerda. Mas não vira aí. Depois há uma rua à direita mas não vira aí. Depois há uma subida mas não vai por aí. A seguir há uma curva à esquerda. Mas não vai por aí...

Assim eu agora:
Veja o vídeo e veja como aquele lambe a banana. Mas isso não se faz. Veja como a outra enfia a banana pela goela abaixo. Mas isso não se faz. Veja como o outro dá dentadinhas malandras enquanto faz olhinhos. Mas isso não se faz.
Ou seja, tudo o que ali se vê não deverá ser reproduzido enquanto come uma banana. Portanto, meu Caro Leitor (ou Leitora!), na próxima vez que pegar numa banana, lembre-se dos ensinamentos aqui da sua Sta UJM.

Maneiras, se faz favor. É tudo o que recomendo: maneiras.

(NB: Como abaixo verão, refiro-me a bananas a sério)


100 pessoas comem uma banana de forma sedutora

(Prática a evitar)


...................

PS: A ver se amanhã vou instruir-me sobre o que anda para aí a passar-se e que desconheço em absoluto: parece que uma tal Teresa Paula Marques anda a fazer-se passar por supernanny, a psicóloga barbuda. Bem, parece que não barbuda mas cabeluda. Cabeluda e parece que a fazer mal às criancinhas. Ou aos pais das criancinhas. Uoreva

......................

terça-feira, janeiro 16, 2018

Reuniões na base do Fear Pong
-- é a minha proposta para as tornar mais comestíveis


Reuniões e mais reuniões. De vez em quando stresso levemente mas, logo que caio em mim, tenho é vontade de rir. Muitas vezes, alguma vontade de gozar.
Uma vez estava na caixa do supermercado e a empregada referiu-se a alguém dizendo que tinha feito uma coisa 'à cara podre'. Percebi que significava 'no maior descaramento'. Gostei da semiótica da coisa.
Então, volta e meia, penso: E se eu agora, à cara podre, desatasse a fazer só perguntas inconvenientes, deixando a malta toda de cara à banda? Não seria lindo?

Não faço, claro, sou muito bem comportada. Isto é, sou mais ou menos. De vez em quando percebo que, quando estou calada, os outros estão à espera do que vai sair dali. Um colega meu dizia que eu gostava de atirar bombas para cima da mesa. Quando ele disse isso, fiz-me de inocente, que não percebia porque dizia ele aquilo. Fazer género de vez em quando faz parte da minha maneira de ser. Mas just for the fun of it. Mas agora já não estou numa de bombas, estou mais peace and love. Querem fazer de conta? Ok, façam. Estou mais noutro comprimento de onda. Por exemplo, ultimamente arranjei outra: quando acho que é pura perda de tempo porque daquelas pessoas não há muito mais a esperar digo que não estou disponível para participar naquela reunião que está a ser agendada. E bem podem os outros desesperar porque acham que é indispensável fazer aquela reunião. Não estou disponível para participar numa reunião dessas. E não saio dali. Uma autêntica mula. Aborreço? Azarinho.

Mas não sei se vá continuando a esticar a corda. Devia voltar a ter maior capacidade de encaixe. Não sei porquê mas acho que devia. Por vezes consigo disfarçar, fazer de conta que acredito que é na base da paciência e resiliência que a coisa lá vai. Outras vezes penso que vai é o tanas. Mas é um facto incontornável: vai-me faltando a paciência para aturar algumas coisas.

Para me ajudar a superar, no acto, volta e meia ponho-me a imaginar impropriedades que alegrariam o momento.


Por exemplo, hoje, toda a gente a medir forças, uns de um lado da mesa ao ataque, os outros, do outro lado, ao contra-ataque, naquele estúpido jogo em que perdem todos (a começar, por perder tempo), e eu a pensar que a coisa poderia ser ainda mais animada se a cada avanço correspondesse uma tentativa de encestanço com uma penalização à altura. Uma coisa na base do Fear Pong. E tive que me controlar para não rir porque, a concretizar-se, a coisa rapidamente se tornaria hilariante.
Atenção: eu seria a árbitra. O que é que estavam a pensar...? Ora. Passou-vos pela cabeça que a neguinha podia ser moi...? Ora, ora. Não aprenderam ainda que sou copinho de leite...?
Para quem não conheça o jogo, aqui vai um cheirinho:

______________________

E (não) queiram descer até ao post abaixo pois ali o tema é o capeta, o belzebu, o demo, o dialho -- e, imagine-se, vem o bicho pela mão da madrinha Nela Ferra Leitinho

(Está a dar-me para o carinho, estou toda diminutivos, por pouco não me ponho a mandar daqui uns miminhos à Nelinha)

_____________

A Manuela Ferreira Leite já vendeu a alma ao diabo?
Não é por nada mas é que, ao dizer aquilo, estava com uma cara mesmo diabólica.
Cruzes canhoto! Vade retro!


Andava tão bem comportada, tão moderada, a Manelinha. E, afinal, mal se viu livre do Passos Coelho e da ameaça de lá ter o Menino-Guerreiro, parece que se lhe soltou a franga e partiu para a desgraça.

Ela, tal como o não-saudoso láparo e o so called 'politólogo humilde', parece que ainda não perceberam que, para os portugueses em geral, a esquerda já não é aquele papão travestido de capeta que comia criancinhas ao pequeno-almoço. 

Por isso, de cada vez que fazem cara de possuídos e falam no diabo para o associarem aos malefícios das medidas da esquerda só não lhes cai um dentinho por acaso -- mas uma outra queda lhes acontece de certeza: a da credibilidade. Caem no ridículo.

Por isso, Cara Manuela, aceite um conselho: deixe-se estar sossegadinha durante algum tempo para não se sair com mais afirmações que mostrem o seu verdadeiro íntimo. Só vale a pena falar se for para incentivar a limpeza da bicheza com que o láparo infestou o seu partido (os Hugos Soares desta vida, por exemplo) que aquilo só dá má reputação à classe política. De resto, acredite, não volte a sair-se com conversas raivosas contra a esquerda que lhe fica mal. Desfigura-a ou lá o que é.

...................

A imagem provém, como se vê, da infinita arca do tesouro do We Have Kaos in the Garden

..............................

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Uma infância para esquecer
[Ainda a propósito das recordações de Emma Reyes]





Estou muito impressionada com o livro de Emma Reyes. São memórias de uma tal incompreensão e violência que custam a crer. No entanto, a forma neutra e mesmo, por vezes, irónica que ela usa para descrever aqueles seus anos tão estranhos (que quase parecem impossíveis) tornam a leitura quase viciante.

Interrompi agora a leitura para aqui vir desanuviar antes de me ir deitar. Emma e a irmã estão agora no convento onte viveram em regime de clausura e (parece-me, pelo que li até agora, também de escravatura) durante quinze anos.

E fico a pensar. Emma acabou por levar uma vida normal, feliz, criativa, bem sucedida. De facto, quando se vê uma pessoa 'normal' nunca se sabe que memórias guarda ou que tormentos passados guada dentro de si.

Tenho assistido a situações tão estranhas que não sei como as recordam quem delas teve igual ou melhor conhecimento que eu.


Por exemplo, estou a lembrar-me. Quando me casei vivia numa torre, lá bem no alto. Era um 15º andar com uma vista arrebatadora. Com sol ou tempestade, de manhã ou à noite, a vista era gloriosa. Lá em baixo, as pessoas, de tão pequenindas, perdiam qualquer significância. A paisagem sobrepunha-se a qualquer coisa mais. De um dos lados da nossa porta, vivia um casal simpático com duas filhas pequenas, gémeas. As meninas usavam tranças tal como a mãe e vestiam vestidinhos soltos, de tecido florido, tal como a mãe. O pai era simpático, um biólogo que eu via muitas vezes na televisão. A mulher tocava piano e tinham um piano branco na sala. Quando a mulher e as meninas não estavam em casa, o biólogo levava outras jovens mulheres lá para casa, uma de cada vez. Tinham ar de ser alunas pois ele era também professor universitário.

Uma vez a jovem mulher esqueceu-se ou perdeu a chave e pediu ao meu marido se podia saltar da nossa varanda para a varanda dela, já que tinha a porta que dava para a varanda aberta. O meu marido, cavalheiro, e sobretudo pensando nas duas meninas, saltou ele. Ainda hoje sinto vertigens e medo quando penso nisso.

Do outro lado, morava um outro jovem casal. Era um casal atípico. Não trabalhavam e tinham comportamentos muito estranhos. Uma ou duas por semana apareciam lá em casa duas crianças. Viémos a saber que eram filhos dela. As crianças tinham ar de serem bem tratadas. A casa deles estava praticamente vazia. Tinham um pano escuro pendurado do tecto, à laia de cortina, um colchão no chão, uma mesa e duas cadeiras. Sei disto porque passei horas espreitando lá.

Alguém me disse que era o pai dela que pagava a renda do apartamento e que os sustentava. Eram drogados. Anos mais tarde, soube que o pai tinha uma pequena loja e vivia com um grande desgosto pela vida que a filha levava. 

De vez em quando não sei se esses meus vizinhos se zangavam porque gritavam muito um com o outro, choravam, atiravam coisas. Havia noites em que ela chorava a noite toda. Outras vezes ouviamo-los a correr. Horas a correrem às voltas dentro de casa. Mas o pior era quando lá estavam as crianças e eles saíam deixando as crianças sozinhas. As crianças choravam de dar dó. E eu punha-me debruçada da minha varanda para a casa deles a falar com os miúdos, a tranquilizá-los, tentando distraí-los e sossegá-los. 


Quando penso nisto fico perplexa com a mentalidade ou com a consciência social daquela altura: nunca nos ocorreu chamar a polícia. Eu tinha vinte, vinte e um anos naquela altura mas a minha tenra idade não justifica isso. Creio que era mesmo a falta de conhecimento de que há situações que devem ser denunciadas como crimes.  Eu tinha imensa pena e preocupação por ver a vida infeliz que os meus vizinhos levavam, magros, mal encarados, incapazes de tomar conta deles, quanto mais das crianças, e tinha uma pena infinita das crianças que tanto sofriam com aquele abandono. Mas nunca nos ocorreu chamar a polícia, talvez porque achássemos que isso seria ainda mais assustador e traumatizante para as crianças. Situações tão dolorosas. 

Uma vez, de madrugada, tocaram à nossa campainha. Era ele. Embriagado, drogado. Não sabia da chave, queria saltar da nossa varanda para a dele. Tentámos impedi-lo e o meu marido queria fazer a mesma proeza. Mas eu agarrei-o, não o deixei. Como os miúdos não estavam lá, tentámos demover o meu agitado vizinho, que esperasse que fosse dia, que depois logo chamava os bombeiros. Mas ele estava frenético, trémulo. Não nos ouviu e num ápice, passou pelo nosso quarto, foi para a varanda e empoleirou-se, saltando para a dele. Pensei que ia cair e morrer desfeito no passeio, quinze andares abaixo, mas milagrosamente conseguiu passar. Eu tremia como varas verdes.

Depois, para nossa tranquilidade, saíram de lá. Respirámos de alívio mas eu pensava muito naquelas pobres crianças.


Os anos passaram.

A mulher recuperou-se, creio eu, porque de vez em quando a vejo. Continua a ter um ar triste mas perdeu aquele ar escanzelado e gasto, tem um ar normal. Vi uma vez que tinha as unhas muito roídas e que que fumava muito, e tem um ar que parece ansioso. Nunca deu mostras de me reconhecer. Ninguém deve imaginar o que era a vida dela naqueles tempos. Ao homem via-o, por vezes, drogado, acabado. Não sei se ainda vive, há muitos anos que deixei de vê-lo. Aos miúdos perdi o rasto.

Não sei se mais alguém para além de nós soube do que ali se passava. Eles dois, sempre tão drogados, não sei se percebiam o que faziam ou se guardaram disso alguma memória. Talvez apenas os miúdos, que já não são miúdos mas adultos uns três ou quatro anos mais velhos que os meus filhos, guardem a mágoa do que sofriam naqueles dias e naquelas longas noites em que ficavam entregues aos cuidados da mãe.


..........................

As fotografias são de Steve McCurry

.......................................................................................

e
mais abaixo ainda, tenho um passeio muito variado.

.................................................................................................

A hora mais negra -- absolutamente a não perder



Sobre a atribulada sessão de cinema, sobre algumas questões relativamente às quais aqui poderia dissertar -- a fragilidade da vida, a omnipresença dos mais variados acasos, a vulnerabilidade das relações humanas (e nada a ver com o filme mas sobre o que se passou no cinema, isto é, na sala de cinema) -- vou passar adiante. Talvez outro dia, quando alguns dos sucedidos estiverem mais distantes. 

E, se nem sempre falo dos filmes que vejo (como, por exemplo, não falei do último da Binoche, aquele do O meu belo sol interior, para o qual fui cheia de boas expectativas e de onde vim francamente desiludida), deste tenho que recomendar. A minha filha foi vê-lo no outro dia e, mal saíu, enviou-me uma mensagem dizendo que tínhamos que ir ver. Sendo amante e muito conhecedor de história, o meu marido não mostrou a mínima resistência. Filme muito bom, com todos os ingredientes. Empolgante, comovente, didáctico.

E depois não é só a história, o ambiente, o guião, os desempenhos: é também a caracterização do actor que faz de Churchill, uma caracterização total. E creio que até poderei dizer que não apenas a nível de aspecto físico: também a atitude, a expressão, a voz, o andar. Tudo nele parece ser Churchill. E é tudo tão mais extraordinário quanto o actor não tem nada a ver com essa imagem.

Muito boa também a interpretação de Lily James. Nem pitada de Cinderela ou de menina boneca. Estava, eu, até na dúvida de ser mesmo ela. Um desempenho sóbrio que a eleva como actriz.

Com Kristin Scott Thomas como mulher de Churchill não me admirei: sempre uma grande actriz.

Em suma: se puderem não deixem de ir ver. 

Verão como era um político como penso que já não há. Não quero ser daquelas que acham que no passado era tudo bom e que nada como vivermos presos a ídolos do passado. Não sou assim. Mas, cansada que ando das amélias e dos zinhos que pululam nos palcos actuais (salvo muito honrosas excepções!), naturalmente é com admiração que vejo a coragem e a cultura de políticos como Churchill. 


Lembrei-me de Mário Soares. Leões que rugiam com verdadeiro prazer mesmo quando o chão parecia faltar-lhes.



Já agora, caso queiram confirmar quão impressionante é a caractareização de Gary Oldman no papel de Churchill, queiram, por favor, ver o vídeo abaixo.


..............................

E, para um passeio à beira Tejo com danças, cantos e jardins, queiram descer até ao post seguinte.

(Eu, para já, vou continuar com O livro de Emma Reyes que me traz muito presa).

........................................

Passeios, pessoas, rios, veleiros, gaivotas, cantos, jardins
















domingo, janeiro 14, 2018

Para não pensar nesta trágica noite de chamas e morte, o azul





Estava eu a olhar a televisão para ver quem tinha ganho as eleições no PSD, quando o meu marido reparou no que passava em 'última hora' - uma vez mais as chamas estavam na origem de mortes, desta vez em Tondela, numa pacífica associação recreativa onde se jogava a sueca. 

Logo as televisões se apressaram para lá para mostrar carros de bombeiros e ambulâncias e para ouvir populares. Mais tarde, um senhor todo aperaltado, de chapéu, casaco novo e gravata, falava e, com o entusiasmo de falar para a televisão, até sorria ao relatar o aparato de viaturas e a confusão com feridos e cadáveres que, segundo ele, estavam a estorvar.


Dir-se-ia que a vitória de Rui Rio se viu logo ensombrada por factos tristes. Claro que não tem nada ver nem é nenhum mau augúrio. Só estou a falar disto pois, durante toda a noite televisiva, as reportagens em torno da vitória de Rui Rio eram intercaladas por reportagens a partir de Tondela.

Mas, enfim, não quero contribuir para mais angústias, assombrações, ou pensamentos tristes. Já basta o que aconteceu.

Por isso, deixem que, antes, traga para aqui o azul das águas, da serenidade e da leveza. Ou dos rostos do muro azul. Rostos vivos que habitam a rua e se pintam de azul ou que sonham em azul.
O muro do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa continua, continua, continua por 1 km. Em determinado ponto, um azul marinho e profundo começa a cobri-lo e os rostos surgem para nos encarar.

Poema azul de Sophia por Maria Bethânia


.....................

E este sábado in heaven estava assim, o céu azul e o reflexo da grande figueira numa pequena mancha de água no chão.


E os pássaros estavam em festa, cantando, cantando, numa alegria, numa euforia. As árvores eram palco de orquestra, uma música, uma cantoria.


......................................................................................................

Um belo dia de domingo a todos quantos por aqui me acompanham

...................................................

[Sobre a vitória de Rui Rio falo no post já aqui abaixo]

.......

Rui Rio, claro.
Os eleitores do PSD podem não ter uma visão extraordinária mas, vá lá, parvos de todo parece que, se calhar, também não serão.



Não me parece que Rui Rio seja alternativa válida face a António Costa. É menos arrojado e menos corajoso que Costa, é menos 'moderno' e aberto à mudança que o Costa, é menos cosmopolita e menos consensualizador do que Costa, é menos sensível a questões sociais e culturais do que Costa. Portanto, não vejo que os portugueses, entre Costa e Rui Rio, tenham dúvidas em optar por Costa.

Contudo, Rio é uma pessoa credível, não é estarola, não é populista, não é troca-tintas, não é ignorante para além da conta, não é gabarola, nem, em geral, incompetente. Portanto, poderá fazer uma oposição saudável à actual maioria e não envergonhará os eleitores laranjas. Penso, aliás, que poderá reorganizar o partido e dar-lhe alguma sustentabilidade, nomeadamente a nível ideológico, área em que aquele partido anda tão falho. Não será nunca brilhante pois não é um visonário e falta-lhe aquela bagagem ou apetência cultural que faz a diferença. Mas, diga-se em abono da verdade, que Rui Rio vira a página da mediocridade absoluta que se viveu durante a lamentável égide lapariana.

Quanto a Santana Lopes é o que se sabe. Gosta de andar nestes bailaricos armados, gosta de se fazer ora de menino-guerreiro ora de bebé-prematuro, ora de ensaiar a pose de senador. Em suma: não se enxerga. E lá irá continuar o seu percurso mudando de mulher, de ocupação profissional, de ideias, de ambições.

E se alguns acharão que isto foi uma derrota para Marcelo -- que apadrinhou a candidatura do que hoje saíu derrotado -- tenho para mim que talvez tenha sido, sim, uma derrota mas que foi, sobretudo, um alívio. Depois de ver o Flopes nos debates e de ter constatado que a idade apenas o tinha piorado, Marcelo devia estar a rogar a todos os santinhos para que os eleitores laranjas não cometessem o disparate de o pôr à frente do partido. Rui Rio é atilado e centrado demais para se derreter com os excessos de Marcelo e para ser a voz do dono mas, enfim, do mal o menos. Um maluco a dizer parvoíces ou a aventurar-se à maluca por terrenos que não domina, dizendo disparates a toda a hora, é tudo o que Marcelo dispensaria.

Portanto, chegou a hora de Rui Rio. E não duvido de que terá com ele o partido -- que depois de anos de desafecto, andará, certamente, carente de uma liderança racional -- e o discreto beneplácito de Marcelo.

Contudo, também para ser sincera, tenho que confessar: tenho uma certa pena pois Rui Rio não deve inspirar-me grandes galhofas enquanto que com o derrotado bebé-incubado o gozo estava garantido.

Assim, olha, vou esperar para ver.



....................

sábado, janeiro 13, 2018

O homem que plantou uma floresta, um rio feito de todas as cores, livrarias muito belas.
Um assessment ainda a meio e uma pandilha que deveria ser posta na rua.
[Se eu cair, alguém me apanha?]





Tal como não lerei a maior parte dos livros que, certamente, gostaria de ler, também, de certeza, não visitarei grande parte dos lugares que amaria de paixão.

Assim é a vida: breve, incompleta. 

Tenho um questionário para acabar de responder. Volta e meia, isto. Como gosto de responder a testes, não me importo. Mais um assessment. A minha alma já voi virada e revirada do avesso não sei quantas vezes e os resultados, cá para mim, mostram sempre o mesmo. Contudo, por algum motivo que desconheço, não os aproveitam de umas vezes para as outras. Se calhar acham que, de cada vez, a metodologia é melhor e que é melhor sujeitaram-nos a nova lente para descobrirem o ser secreto que se esconde debaixo da nossa pele. Não me importo. E vai haver uma entrevista, eu e mais duas pessoas, durante mais de duas horas. Acho graça, não me incomoda nada. Só que este é estranho, não percebo o sentido de algumas perguntas. A outras não me apetece responder, versam coisas com que nada tenho a ver. Mas, se não responder, aquela coisa não segue adiante. E longo, longo. Tinha que sair, já era tarde e aquilo ainda a meio. Resolvi acabá-lo agora em casa. Mas cheguei tarde, não me apetece.


Em algumas questões, é pedido que se ordenem as nossas prioridades de vida. Quando me apareceu essa resposta disponível para escolher, coloquei sempre em primeiro lugar o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Jamais sacrifiquei a vida pessoal à profissional. Mas, de facto, sempre trabalhei muito. Se tivesse ficado professora como a minha mãe tanto desejou para mim, a minha vida teria sido bem outra, certamente com mais tempo livre e muito menos maçadas. 

No carro, agora à noite, um telefonema. Defendi, uma vez mais e com grande convicção, que algumas pessoas deviam ser postas a andar. Não é bonito dizer isto aqui pois, de forma descontextualizada, pode parecer uma patifaria da minha parte. Mas não é ou, pelo menos, assim o acho. Tenho para mim que é inadmissível que uma meia dúzia de pessoas, com a sua incompetência ou má fé, ponha em risco os postos de trabalho de muitas centenas. Contudo, como todas as opiniões, a minha também pode ser considerada injusta ou arbitrária. Admito. Mas é a minha opinião e tudo farei para levar a minha adiante, travando as guerras que tiver que travar, desgastando-me o que tiver que me desgastar.


Mas, com tanta coisa a toda a hora, a verdade é que ando desde o princípio da semana para responder ao dito questionário e, durante o dia, não tenho conseguido. Tanta reunião, tanta coisa para tratar, tanta coisa sempre. E mal me sento no gabinete, entra um, depois outro e depois outro. Ou os telefones. Ou os mails a chegarem. Penso: quero chegar cedo a casa, quero não ter mais nada que fazer, quero ter tempo para os mails pessoais, quero ter tempo para ler. Mas o dia estendeu-se, o trânsito complicou-se, cheguei com uma hora de atraso à fisioterapia, na volta mais trânsito, horas roubadas ao meu tempo. À hora de almoço queria ter caminhado nos Jardins, queria ter tido tempo para a livraria. Nada, trânsito e mais trânsito e daí a nada outra reunião noutra ponta da cidade. E isto, nestes detalhes, não é uma escolha. São as circunstâncias que nos vão conduzindo ao longo da vida. 

Várias vezes e de diferentes maneiras, no questionário, perguntam onde me vejo nos próximos anos. Tudo é de escolha de entre várias possíveis, não há respostas livres. Se pudesse, teria respondido que 'não sei nem me interessa saber'. Mas não tenho como responder assim e, então, rendo-me a dar uma resposta que não é a minha. Mas fico a pensar que há coisas absurdas a que me sujeito e, bem vistas as coisas, não sei bem a troco e quê.


Ao almoço, não havia nenhuma mesa livre. Sentámo-nos numa mesa onde estava uma senhora. Passado um bocado, chegou uma amiga dela e, ainda mal se tinha sentado, já estava a conversar, a contar que tinha ido a uma agência de viagens para tratar de uma ida a S. Petersburgo e logo contou da luta das mulheres russas e a outra recomendou que ela fosse ver um certo museu e logo mostrou que conhecia bem aquelas bandas. E eu, ao lado, entre reuniões e trânsito, a almoçar à pressa, sem tempo para sequer sonhar em ir passear, a pensar que há tantos, tantos lugares que gostava de conhecer e onde, de certeza, nunca irei. 

E agora, uma da manhã, eu praticamente a dormir, sem conseguir ir aos mails pessoais, sem ser capaz de alinhar meia dúzia de palavras.

Gostava de aqui vos contar de como gostaria de fazer um percurso de bibliotecas e de livrarias. Mostro-vos algumas cujas fotografais encontrei na Elle francesa. De todas as que ali se vêem, só conheço a Lello (cuja escadaria se pode antever na 2ª destas fotografias que aqui tenho).

Também gostava de fazer um percurso de belos edifícios abandonados e decadentes. Ou de jardins.  Ou de florestas que nasceram do nada. Ou de castelos ou palácios à beira de rios.

Gostava. Gostava mesmo.

Mas como não sei se algum dia conseguirei fazê-lo, vou-me contentando em ver fotografias e vídeos. Quem não tem cão, caça com gato, quem não passeia com os pés, passeia com os olhos.


O rio Caño Cristales em Meta, Colombia



O homem que plantou uma floresta


.......................

Não estou capaz de reler o que para aqui acabei de escrever e tenho a nítida sensação de que o texto vem aos tombos por aí abaixo. Várias vezes adormeci pelo que não estou nada certa de ter retomado o texto onde o tinha deixado. Relevem, please, se a escrita estiver cambaleante.

....................

E tenham, meus Caros Leitores, um belo sábado.

.................................................................

sexta-feira, janeiro 12, 2018

Se a coisa se pega e, com o aquecimento global, para além das tartarugas que é tudo só fêmeas, passa a acontecer o mesmo com os humanos, mudo-me já para os Himalaias e vou ver se descubro três irmãos bem jeitosos.
Avisei.




Agora está frio. Até tenho o aquecimento ligado para estar aqui quentinha no meu ninho enquanto escrevinho. Mas sei que isto não é nada. Estou bem lembrada da canícula que nos abrasou durante os longos meses de verão. Posso não ser uma mente brilhante mas burra como o Trump acho que não sou. Galhofeiro como os mentecaptos gostam de se mostrar, até se arma em engraçado, mandando vir algum aquecimento lá dos sítios onde o há para ajudar a combater os frios extremos lá nos States. Brincalhão. Mas do Donald todas as patacoadas se esperam pelo que mais vale nem o trazer à colação.


A questão é que isto do aquecimento global já se faz notar às escâncaras. Não é só a seca, a vegetação ressequida, as barragens vazias, os animais a definharem, a água a ter que ir em carros cisternas para terras à míngua de uma gota -- são também as mostras de um degelo que já é mais do episódico, são os corais a morrerem aos cachos... E, agora, outra. Com as águas mais quentes, parece que desaparecem as tartarugas-machos. Só nascem meninas. Uma comunidade de tartarugas fêmeas. E isto, caneco, faz questionar o que aí virá.


Não é só que lugares onde apenas há mulheres sejam lugares insuportáveis -- discussões, invejas, puxões de cabelo, tareias na lama. É sabido que sim. Mas o pior nem é isso. O pior é que a coisa, depois, tende à extinção. Os machos podem não servir para muita coisa, so many tough women say -- assediadores de meia tigela e pouco mais, queixam-se elas -- mas, enfim, para plantarem sementinha onde ela faz falta, para isso ainda alguns servem. Agora se o rácio se agudiza e, às tantas, já só há um para noventa e nove fêmeas (e todas à beira de um ataque de nervos), imagine-se a desgraceira.

Se, com a calorama, a moda das tartarugas se pega à espécie humana nem quero pensar. Juro. Não dá. Não iria aguentar viver só rodeada de mulheres. É que nem pensava duas vezes: ia direitinha aos Himalaias. E ia logo, antes que os hábitos se alterassem, antes que a malta lá comece a ir muito à escola, a ver muita televisão, a ficar moralista


Ali, lá bem no cocuruto, naquela aldeia em que uma mulher tem, no mínimo, três maridos é que eu estava bem. Ajudam na casa, com as crianças, nos trabalhos em geral. E aceitam bem as escalas, não são de arranjar problemas com ciumeiras bobas. Na maior parte das vezes, são irmãos. Mas eu nisso não seria esquisita: irmãos, primos, tanto me daria. Agradeceria era se um deles fosse jeitoso com as mãos para me dar umas belas massagens, isso sim.

Portanto, já sabem. Se a temperatura subir demais e se começar a haver tartarugas-meninas a mais, já sabem onde me poderão encontrar que eu não vou ficar cá para ver, que não me arrisco a ficar no meio de mulherame, todas a embirrarem umas com as outras e nada de amor com sabor a testosterona. Mas, nesse caso, se perceberem que me pirei para as montanhas, não levem a mal mas dispenso visitas femininas para não irem para lá desestabilizar o rácio que está tão bem como está, uma mulher para um mínimo de três cavalheiros.

E disse.

.....................................................................

E não, não pensem que estou para aqui a fantasiar. Não estou. Os riscos são mesmo verdadeiros. 
E aquele pedacinho de paraíso lá nas terras frias das montanhas também é bem real. 
Ora vejam os vídeos abaixo.





_____________________________________

E é isto. Caso queiram ainda saber qual a minha sugestão para não fazer sofrer as lagostas, as amêijoas e os caracóis, é só descerem até ao post seguinte.


Lagostas devem fumar canábis antes de serem metidas no tacho.
É uma sugestão extensível a amêijoas, caracóis e outros bichos móis.


Atenção. Sou contra o sofrimento dos animais. E que ninguém venha tresler o que estou a dizer porque a leitura é única: sou contra.

Mas tenho alguns pecadilhos na consciência, confesso. Por exemplo, tenho mixed feelings em relação a touradas porque gosto do ambiente da festa, gosto da destreza e elegância dos cavalos no toureio, gosto (e assusto-me) da coragem algo tresloucada dos forcados, percebo o apelo do confronto entre o homem e a fera. No entanto, custa-me ver o atordoamento do touro, custa-me ver o dorso sangrando, custa-me ver, em Espanha, o touro vergado, exibindo uma morte humilhante mas que é vivida de forma apoteótica pelos aficcionados. Não vou a touradas ao vivo mas, na televisão, volta e meia vejo -- e gosto -- e os sentimentos contraditórios são os de sempre. 

E cães e gatos. Não concebo que alguém os maltrate. E aquilo de que já falei: galinhas e patos. Gostava de ter animais lá no campo. Mas seria incapaz de os matar ou, sequer, de ver matá-los. 
E ainda me lembro com um misto de horror e divertimento da vez em que, tendo na altura galinhas numa capoeira que o meu pai tinha feito no quintal e tendo ele que ficar a trabalhar até tarde, incumbiu a minha mãe de matar uma galinha. Foi um festival. Eu deveria ajudá-la mas mal a galinha esbracejava ou gania, eu largava a fugir em vez de ficar com a tigela a aparar o sangue. E a minha mãe gritava e deixava a galinha a cada guincho que a galinha dava. A pobre galinha toda ensanguentada, a querer fugir de nós, a cabeça já meio off, e  nós, cheias de medo, aos gritos, a querermos fugir dela.
Portanto, que não se pense que sou uma alma empedernida. Nada disso. Um coração de manteiga, o meu.

Mas há maus tratos nos quais nunca tinha pensado. Isto das lagostas na Suiça deixou-me banzada. Atordoar as lagostas antes de as transportar em gelo ou de as cozinhar...? Caneco.

Transcrevo uns excertos da notícia:
O Governo suíço proibiu a prática de cozer lagostas frescas e também vai deixar de ser permitido fazer o transporte destes animais vivos sobre gelo ou em água gelada.
Os defensores dos direitos dos animais e alguns cientistas argumentam que as lagostas e outros crustáceos possuem sistemas nervosos sofisticados e, provavelmente, sentem dor significativa quando são cozidos vivos.
De acordo com a emissora pública suíça RTS, "as lagostas terão de ser atordoadas antes de serem mortas" e apenas o choque elétrico ou a "destruição mecânica" do cérebro da lagosta serão considerados métodos aceites de atordoar os animais antes de serem cozinhados.
Em Itália, o Supremo Tribunal também decretou, em junho do ano passado, que as lagostas não podem ser mantidas vivas sobre gelo nos restaurantes, antes de serem cozidas.
Juro. Sem ironias. Perplexa. Nunca me tinha ocorrido. Volta e meia a minha mãe fazia caracóis em casa. Eu própria já o fiz. E assisti aos pobres a tentarem fugir do tacho. Desatenta, mais do que insensível, não me ocorreu vê-los como animais de verdade, em sofrimento. Pensava, isso sim, em comê-los.

Por isso, mais uma vez estou com mixed feelings a propósito agora disto. Por um lado parece-me um exagero. Por outro, porque não poupar os bichos à dor? Contudo, é tema que não quero aprofundar demais não vá, às tantas, perder a vontade de os comer e isso, caraças, é que não.

Quanto ao método, face à notícia da liberalização do canábis para fins terapêuticos, lembrei-me que uma boa seria fazer uma little queimada de erva na cuisine e pôr os pobres indefesos a inalarem. Quando estivessem bem felizes e com uma bela duma moca, então, ala para o tacho. 

Mas, enfim, com isto não quero chocar aquela deputada Galriça. Portanto, se a preocupação do sofrimento das amêijoas ou das lagostas vier para Portugal e se a decisão for de lhes dar choques eléctricos e a deputada galriça lhe parecer melhor, pois que não seja por isso. Ou então, arranjar maneira de os bichos só cheirarem, sem inalar, não vá tomarem-lhe o gosto (o pormenor de irem morrer a seguir, para a deputada Galriça não deve ser atenuante). Por mim, tudo bem. Peace and love, pessoal. E um pratinho de camarões, caracóis ou tremoços para todos.

..........................

quinta-feira, janeiro 11, 2018

'Os porcos estão inquietos?', desafiam algumas.
'Os homens têm o direito a importunar', afirma Catherine Deneuve (e outras).

Os assediadores. As feministas. As vítimas. As pseudo-vítimas.

E a virilidade, a feminilidade, a sedução. E a graça de viver.





Da mesma forma como -- e já aqui falei disso -- mais facilmente me punha ao lado das prostitutas do que das 'mães de Bragança', também agora, intuitivamente, me sinto mais próxima da Catherine Deneuve e outras do que das Oprahs Winfreys desta vida.

E, no entanto, não apenas não li qualquer dos manifestos como nem reflecti muito sobre o tema. É mesmo uma questão de intuição (ou genética, coisa cá da minha maneira de ser). Aliás, acho que nem é bem uma coisa nem outra, nem intuição nem genética, mas está a faltar-me a palavra certa. Mas é qualquer coisa nesta base.

Sobre este tema, várias vezes tenho pensado: trabalhando desde menina e moça em empresas maioritariamente masculinas, alguma vez fui assediada? Que me lembre não. E na rua? Que me lembre também não.

No outro dia, o meu marido, a propósito de uma que na televisão se insurgia sobre o facto de em Portugal nenhuma mulher se ter chegado à frente a acusar alguém, dizia, na brincadeira: 'A ela, de certeza, nenhum homem assediava, até para não ficar mal visto perante os outros homens'. Afirmação politicamente incorrecta, nos tempos que correm. E, no entanto, eu ri-me.


Penso nos piropos e graças que ouvi ao longo da minha vida e não tenho dúvida de que alegraram e apimentaram os meus dias. Desde os mais inteligentes e sofisticados até aos mais brejeiros, não me lembro de alguma vez me ter sentido verdadeiramente incomodada. Lembro-me, sim, de, em tempos idos, em autocarros apinhados, ter sentido homens parvos encostarem-se ou apalparem-me e eu me virar para eles e dizer: 'Agradeço que se afaste porque me está a incomodar', deixando-os aparvalhados, envergonhados. Lembro-me que um, uma vez, se armou em ordinário e desatou a ripostar, tendo-lhe eu dito que se calasse e tivesse vergonha. Portanto, quando saía do autocarro vinha até satisfeita com a sensação de ter posto na ordem um parvalhão.

Lembro-me também de, ao passar na rua, ouvir indecências e de fazer de conta que não ouvia ou, pelo contrário, olhar com ar interrogador, deixando os cobardolas atrapalhados.

Mas assédio, por exemplo, no trabalho, nunca. Nem nunca nada de parecido se proporcionou. Desde sempre a única mulher a chegar a um cargo de direcção, e tinha apenas trinta e um anos quando isso aconteceu, sempre me senti respeitada e nunca a nenhum passou pela cabeça ousar pisar o risco. 


Lembro-me de uma colega que, insegura e psicologicamente algo frágil (embora aparentando o contrário), confidenciava que um qualquer lhe fazia convites ousados, dizendo ela que cedia pois percebia que, se não aceitasse, ficaria prejudicada. Sempre achei isso uma ficção da parte dela pois assistia à atitude a priori permissiva da parte dela e à forma até cautelosa como ele se aventurava. 

E já aqui contei algumas vezes. Tempos houve, trabalhando eu uma grande empresa, em que havia em permanência casos e mais casos. Uma festa. A minha secretária tinha um caso com o meu melhor amigo, outro meu amigo tinha um caso com uma estagiária, um colaborador meu tinha um caso com a secretária do presidente, outro colega tinha casos com umas atrás de outras (e, como contei há pouco tempo, foi apanhado em pleno acto em cima da mesa de reuniões do gabinete um dia em que ficou até mais tarde), o vice-presidente tinha um caso com a contabilista. Etc., etc. Tantos casos que nem dá para acreditar. Alguns destes casos acabaram, outros deram em casório ou união de facto. Antes de serem casos, havia a fase da sedução. Assédio? Não direi. Melhor: nunca vi vestígios disso. Sedução, isso sim. Assisti de perto a muitos destes casos. A minha secretária, por exemplo, que andava de brincadeirinha com o meu colega (casadíssimo) e ele com ela, queixava-se-me uma vez: 'Muita conversa, muita conversa... mas passar à acção está quieto...'. Até que um dia, na sequência de um jantar de despedida de outro colega, a coisa se deu. No dia seguinte, descreveu-me ela como finalmente lá o tinha conseguido levar para casa. E eu parva com aquilo, ele tão apenas brincalhão e tão amigo da mulher, e ela, contrarando-me: 'Sim, sim... Pois olhe que não... Muito bem, lhe digo eu'. E um ar aprovador sobre a performance dele.


Ou seja, no meio daquele forrobodó (e estou a falar de uma grande empresa, moderna, produtiva, rentável), nunca vi nada que se parecesse com assédio ou sexo forçado ou moléstia de algum tipo. 

E falo no passado mas poderia falar no presente. Mas menos, muito menos. Não sei porquê mas parece que há menos hormonas em circulação. Casos assim, às claras, no puro descaramento, já vejo muito menos. Piropos malandros ou divertidos também muito menos. Os homens parece que estão a desabituar-se da arte do galanteio. A malandrice com graça pode não ser minimamente ofensiva e trazer divertimento aos dias. Mas parece que é coisa que está a sair de circulação.

Já aqui contei uma que a mim me divertiu imenso e que ainda me faz rir. Por isso, desculpme se me repito. Tinha um colega, muito engraçado e onde a malícia, ainda que inocente, era permanente. Uma vez a minha filha foi visitar-me e levou o que na altura era o seu único filho. Então, uma colega minha foi lá vê-los e, para minha surpresa, disse-me: 'Já ali estive com o avô'. E eu, admiradíssima: 'Com o avô? Mas ela veio sozinha..'. Esclarece, então, ela: 'Estou a falar do Dr. M'. Ri-me mas quase me ofendi: 'Ah, olha o disparate...'. Ao fim do dia, aparece-me ele no gabinete, todo lampeiro. Digo-lhe, toda cheia de repreensão: 'Olha lá... mas estás parvo ou quê...? Então andas a dizer que és o avô da criança...?'. E ele, ar de santinho: 'Mas não disse de quem é que sou pai...'. O que eu me ri a imaginá-lo pai do meu genro... ou seja, a ter um caso com a sogra da minha filha... 

Enfim. 

Claro que há casos e casos e o que não faltarão serão sabujos e badalhocos que se aproveitam da fragilidade de algumas mulheres vulneráveis. Sei que sim. Por exemplo, estou a lembrar-me que tive um colega, mais velho que eu, que foi criado na Casa Pia pois a mãe, trabalhando como empregada doméstica e tendo engravidado do patrão, não pode ficar com ele nem o pai o perfilhou. Só muito mais tarde, já ele a trabalhar, pode libertar a mãe da sua condição de quase escrava da casa onde trabalhava como interna. Quantos casos destes. Casos e casos. Casos tantas vezes vividos em silêncio, acobertados pelos mais pios usos e costumes, tantas vezes sob o beneplácito da igreja.


Mas aí, mais do que assédio, o que há é abuso sexual ou franco abuso de posição dominante (digamos assim) -- o que nada tem a ver com situações em que, por vezes, as mulheres falam como se fossem umas virgens ofendidas, umas tadinhas que fazem sexo oral contrariadas, umas beatas que ficam melindradas porque ouviram brejeirices e que agora, ao fim de vinte anos, vêm falar disso como se tivessem andado todo esse tempo com o piropo atravessado ou como se nunca tivessem contribuído para a situação em que se envolveram. Menorizam-se as mulheres que se fazem de indefesas e frágeis quando, tantas vezes, aceitaram, interesseiramente, favorecer esse tipo de situações.


Saibam as mulheres, antes, ver-se como iguais em direitos e poderes em relação aos homens, saibam afirmar as suas vontades sem se inferiorizarem, saibam as mulheres gostar de ser mulheres, nomeadamente prezando a sua natural feminilidade, saibam as mulheres apreciar a virilidade masculina e dar valor aos naturais jogos de sedução, saibamos todos apreciar a vida em tudo o que ela tem de bom. E não tentemos moralizar e beatificar tudo, incluindo os sentidos, o humor, a alegria, a malícia, a sedução. 


................................

E eu por mim fico de bom gosto a apanhar a almofada que o malandro do David Gandy está a atirar. Mas, para os meus Leitores mais moralistas que não gostam de ver homens mal comportados, então recomendo que desçam até ao post seguinte para lerem sobre a orelha encarnada do Santana Lopes.

......................................