Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, maio 13, 2018

Casos e descasos.
[E: o que aparece escrito e quem escreve]





Uma vez, estava eu muito no início -- e ainda acreditava que na blogosfera era tudo gente de bem, gente incapaz de um golpe baixo -- aconteceu uma coisa. Conto. Certo dia apeteceu-me fazer aqui uma graça, coisa mesmo de brincadeira, e, antes de a fazer, enviei um mail à pessoa que me tinha inspirado, explicando o que ia fazer e pedindo-lhe autorização para a fazer. Essa pessoa respondeu-me na hora, achou piada, brincou, disse que claro que sim, que nem precisava de ter pedido. E, na maior alegria e ligeireza, fi-la.

No dia seguinte, para meu espanto, num outro blog, alguém sem nada a ver, fez um post desancando-me. Fiquei perplexa. Uma violência que eu nem entendia, um despropósito. Pensei: esta pessoa não é de bem. Se achava aquilo, tinha-me escrito um mail, coisa em privado, não uma coisa daquelas. Então, no seu blog, no post, escrevi um comentário, explicando que aquilo meu era pura brincadeira e que, ainda por cima, tinha antes pedido autorização e que a autorização me tinha chegado envolta em sorrisos e boa disposição. Pensei eu que, com a minha explicação, desfaria qualquer eqívoco e que ela me pedira desculpa. Mas não. Também para meu espanto, essa pessoa não publicou o meu comentário. Fiquei francamente incomodada, pensando que não era justo que não me desse oportunidade de me explicar lá onde me tinha desferido tão violento ataque. Pensei: esta pessoa não é mesmo pessoa de bem.


Enquanto eu era uma novata na blogosfera, com poucos leitores, pouco ou nada conhecendo de outros blogs, essa pessoa era autora de blogs há muito tempo e, por isso e porque escreve bem, tinha muito mais leitores.

E por me ter dado aquela inusitada tareia e por lá ter posto um link para o meu blog, nesse dia, eu tive muitas visitas a partir de lá. Mas tive mais: para ainda maior surpresa, nesse dia recebi também alguns mails de pessoas para mim, até então, desconhecidas que me escreveram para se solidarizar comigo e aconselhando-me a continuar a escrever, não ligando ao que aquela outra tinha escrito. Para meu espanto, fizeram-me confidências e revelações: creio que, sem saberem uns dos outros, contavam que eram colegas dela, que a conheciam bem, que ela era conhecida justamente por ser uma destemperada, uma desequilibrada, e que, volta e meia, por pequenos nadas, esquecia as públicas virtudes e a pose de ilustre erudita para armar chavascal do grosso, peixeirada de mão na anca e chinelo no pé. Achei um piadão. Fui rever a fotografia dela para imaginar as cenas. Pensei: olha que deve ser giro... E achei graça.

Sem qualquer ressentimento, continuei, obviamente, a escrever até porque escrevo pelo prazer de escrever e não para ganhar votos. E continuei a acompanhá-la no blog, muitas vezes palavras que revelavam azedumes, outras com angústias e outras com arrependimentos mas, sempre, com uma escrita escorreita, consistentemente desenvolta e boa de ler.


Até que o blog desapareceu. Tive pena. Parece que escreve no facebook mas facebook é terreno que não piso.

E, no outro dia, ao vaguear pela pequena livraria onde gosto tanto de ir, dei com um livro seu. Trouxe-o logo. Eu, que gosto de diários, reconheci logo ali os seus belos textos autobiográficos, todos eles simplicidade e boa escrita. Uma pessoa pode escrever sobre nada, e a gente, lendo-a, sente que ela escreve sobre tudo, porque a vida real é mesmo feita de pequenos nadas. E a verdade é que, lendo as suas palavras, sentem-se os seus nervos, a sua pele, a sua solidão, a sua vontade de paz.

Só não escrevo aqui o nome do seu livro porque, depois da introdução deste meu texto, não quero correr o risco de que alguém fique a pensar mal dela. A qualidade da sua escrita vai para além dos seus arrufos ou dislates. Nem eu nunca guardei qualquer ressentimento nem nunca deixei de a ler porque não apenas, nada daquilo me causou dano, como sempre tive para mim que a arte, para ser bela e eterna, se quer intangível e desligada da humanidade de quem a produz.


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Fotografias de Jardins - no The Guardian

Laura Marling, lá em cima, interpreta What he wrote

Sylvie Guillem - Evidentia
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