Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, janeiro 08, 2018

Tenho uma horta!


Ia para escrever sobre o que se passou este domingo in heaven mas comecei a ver o filme da RTP, o Freeheld, e deixei-me ficar, de gosto, a ver. Julianne Moore e a Ellen Page (que, por acaso, casou recentemente com Emma Portner) numa história verídica. O sofrimento encenado de uma forma exemplar, muito digna. Uma luta muito triste mas mais do que justa.

Por isso, a esta hora já era para ter escrito e estar na cama e ainda estou no início da escrita. É a minha sina.



Enquanto escrevo, ouço uma chuva leve e penso que devia ser mais forte. No outro dia o vizinho lá da ponta, quando o meu marido disse que ainda bem que já começou a cair alguma chuva, encolheu os ombros e disse que isto não é chuva de verdade, é só chuva de entreter. Mas com esta chuvita miúda que tem caído de quando em vez, a terra humedeceu e começam a aparecer os cogumelos. Estão por todo o lado, de todos os tamanhos e cores. E junto aos muros, rebentam ervinhas, florzinhas. Encanta-me a beleza fractal da natureza.


Os troncos das árvores, e mesmo os velhos troncos mortos, cobrem-se de líquenes, uns amarelos, outros brancos, uns mais rendilhados, outros mais aveludados. E em tudo eu vejo perfeição. Aprendendo, aqui na natureza, a conhecer as diferentes fases da vida e as diferentes formas de que se revestem, eu aprendo também a aceita e a respeitar melhor os ciclos imparáveis da vida humana.


Mesmo as minhas laranjeiras, tão fracas, tão carenciadas de tratamento (comprei um produto, a ver se vejo como se aplica para tratar delas, coitadas), dão umas laranjas tão bonitas e doces.


Mas fazia mesmo falta, agora, um belo aguaceiro. Ouço um pingo aqui, um pingo ali e, de facto, isso não é nada. 

Aqui onde estou, está a salamandra com um belo fogo e o conforto que resulta deste calor orgânico e perfumado é qualquer coisa de aconchegante e bom.

Mas vou contar para que é que precisava que chovesse a sério.

No outro dia, a meio da semana, o meu filho disse que gostava de vir plantar uma horta, aqui in heaven.

Sempre teve esta ideia mas o terreno é hostil, pedregoso. Pelo menos era. Cada vez parece mais fértil.  Já vos contei sobre esta transformação que parece mágica. Até a terra escureceu, se tornou mais macia. Deve haver explicação lógica mas a mim, que pouco sei de coisas da terra, isto parece-me coisa do domínio do mistério, do quase divino. Só que, ao tornar-se fértil, à terra tudo lhe nasce: silvados potentíssimos, tojo rijo que forma uma mata densa. Quase impossível limpar a terra, torná-la lisinha, despedregada, desmatada.  Mas ele tinha esta ideia desde sempre. Na casa dele já tem a sua horta de que todos lá em casa tratam com entusiasmo. Também eu, de vez em quando pensava nisso. No outro dia, tinha dito ao meu marido: um dia vamos tentar fazer uma horta, podermos comer o que plantamos. Até acrescentei que gostava de ter galinhas e patos para termos ovos. Mas depois veio aquela velha questão: matar os animais nem pensar, não somos capazes. E haveriam de envelhecer e cair para o lado e não nos vemos a lidar bem com a situação. Por isso, pronto, animais de criação, não. Também gostava de ter uma cabrinha. Só que a cabrinha haveria de comer a horta. Por isso, cabrinha também não. Só a horta, portanto. Um dia. Por isso, quando o meu filho disse que gostava de cá vir fazer uma horta, pensei que ele tinha lido os meus pensamentos.

Então vieram cá todos tratar do assunto. Compraram acelgas, beterrabas, couve-chinesa, couve-flor, cebolas, morangos e outras coisas de que agora não me lembro. Vieram enxadas, vieram redes para fazer uma vedação a ver se os coelhos nao dão conta de tudo.


Foram escolher um sítio. É junto à barreira, perto de um pinheiro e de uma figueira. Limparam o terreno, cavaram. Deve ter sido trabalho árduo. Pouco tempo estive ao pé deles pois estava a passear o bebé no carrinho e de guarda aos miúdos que estavam a andar de bicicleta. Depois vim com eles para casa para acabar o almoço, enquanto eles brincavam e brigavam (conforme contei no post abaixo).


Passado um bocado recebi uma sms da minha nora com uma fotografia da horta. Ela própria andou a dispor as plantinhas. Uma maravilha. Estou encantada e desejando que medrem.

Sendo eu da beira do mar e da margem dos rios e devota das ondas, da maresia, do deslizar das águas e do voo das gaivotas, tenho este lado telúrico, muito próximo da terra, como se parte de mim precisasse deste contacto directo com o dela brota e nela vive. 


Depois de almoço fui lá ver. Iam fazer a vedação mas não consegui ficar a fazer a reportagem pois as solicitações nestes dias são mais do que muitas. Mas depois fotografo para vos mostrar. 

Também andaram a cortar ramos de árvores com a motosserra e a transformá-los em pequenos troncos para a lareira e para a salamandra. Custaram a conseguir pô-la a trabalhar. Não dava nem por mais uma. Às tantas acho que perceberam que o motor se tinha afogado e viram, nas instruções, o que fazer nessas circunstâncias. O meu marido com isto nas mãos é um perigo.

Tremo com o que ele vai fazer pois é apologista de fazer limpezas radicais. No entanto, reconheço que estava uma floresta um pouco indómita e que agora já está mais desafogada e limpa.


Não se regou a horta porque, se chover, fica regada. Mas, se de manhã vir que a terra está seca, vamos mesmo ter que regá-la. Penso que cá de cima, com mangueira, se conseguirá regar. Senão levamos garrafões e despeja-se uma pinga em cada plantinha.

E isto tudo para vos dizer que estou mesmo feliz. Não apenas foi um dia muito bem passado como... já tenho uma horta! A ver é se os coelhos não arranjam maneira de entrar através da rede e dar conta de tudo. Dantes, quando plantávamos as arvorezinhas que agora estão gigantes, era frequente chegarmos cá na semana seguinte e os coelhos terem comido tudo. Até os tubinhos de rega eles roíam. Ou, se não eram os coelhos, eram outros bichos. Por isso, fiquei um bocado traumatizada. Mas pode ser que não, que não consigam passar pela rede.

Dar-vos-ei notícias.

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E é isto. Caso tenham chegado agora aqui e ainda não tenham visto o belo fogo que esteve de tarde na minha lareira, desçam até ao post seguinte, está bem?

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