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sábado, novembro 04, 2017

Uma wild rose com red carnations nos seios





Esta, hoje, já não é uma cidade do sul, branca e radiosa. Esfriou. Chove. Ouve-se a chuva e está escuro. É bom. 

Fecha os olhos. Deixa que as palavras ocupem todo o espaço que a habita. Como num sonho, as palavras vão sendo desfiadas:
Um pintor que promete um quadro. Um quadro com veludos, ombros macios, paisagens esfumadas e outras abstracções. Um retrato e, olhando bem o fundo dos olhos, vê-se que deles, nascem incompreensíveis flores. Memória de um dia, descendo a escadaria de uma casa antiga, um vestido amarelo com folhos e os folhos ondulando.  E tudo o vento levou. Um labirinto habitado por sombras e ninguém percebe de onde elas vêm. Sussurros, risos e malícias e não se vê ninguém. Livros fechados de onde saem mãos que escrevem elegantes versos. A memória de um sorriso no espelho e não se sabe a quem pertence o sorriso. Uma mesa posta debaixo de um grande pinheiro manso e a toalha a esvoaçar ao de leve com a aragem da tarde. Mil pássaros invisíveis cantando ao fim dessa tarde. Um bilhete de amor encontrado no seio de um livro. Uma mão morena e macia deslizando nos seus seios. Um capuccino bebido devagar numa tarde envolta em neblinas de outono. Uma roseira brava trepando em volta do tronco do pinheiro. Pétalas caídas sobre a caruma. Where the wild roses grow
As palavras vão rolando no seu pensamento. Benedita gosta de estar assim, descansada, entregue ao prazer de ver deslizar palavras sem sequência lógica, sem motivo. Não tenta compreendê-las, muito menos detê-las.

Está em casa. Uma música soando, little girl blue, a chuva caindo e ela nisto, sonhos, suaves delírios.

Depois abre os olhos, vê as horas. Filipe não deve tardar. Quer fotografá-la em casa e ela não se importa. É muito louco, ele. Vai para além da loucura normal. É cheio de silêncios mas ela sente que escondem pensamentos perigosos. Tem perversidade na forma como olha. Anda em volta dela como um tigre e tem uma voz que a subverte. Mas ela deixa. Gosta. A mãe teme o que ele possa fazer-lhe mas, no fundo, Benedita sabe que é nela que está o perigo, que, se quiser, Filipe será a sua presa. Mas não quer. Quer apenas deixar-se estar e ele que esvoace em sua volta como um felino voador.

E então ele chega. Logo o seu olhar percorre a beleza de Beny. Quase num desinteresse, ela pergunta-lhe: 'Como foi o dia? Muitas patentes?'. Ele sorriu. 'Um dia trato de registar a patente desta tua beleza'. Para ganhar dinheiro, trata de patentes e propriedade intelectual. Depois, por prazer, fotografa. Fotografia de moda, sobretudo, mas não só. Meteu na cabeça fazer um livro e uma exposição só com fotografias de Beny. Ela não quer saber.

Se um dia Beny quiser apaixonar-se a sério será por alguém igual a Filipe. Não por Filipe porque sente que Filipe é homem demais para ela que é frágil e teme deixar-se conhecer por um homem com um olhar tão intenso quanto ele.

Filipe tira a gravata, pede para se descalçar. Depois começa a olhá-la de vários ângulos. Pega na máquina e deixa-se cair de joelhos. O corpo de Beny tenta-o mas não se aproxima. Ela é bela e etérea demais e ele teme que ela o violente com tanta beleza.

'Estavas a fazer o quê, antes de eu chegar?', pergunta-lhe mas talvez apenas para fazer conversa que o que quer é olhar para ela.

'Estava a ouvir palavras dentro de mim. Mas, agora que chegaste, di-las tu. Diz baixinho, como se me dissesses segredos. Gosto de ouvir a tua voz. Diz o que quiseres. Diz o que te vier à cabeça'.

E Filipe diz e diz cada vez mais baixinho, como numa confissão:
'O teu corpo longínquo. O teu olhar demasiado perigoso. Os teus lábios carnudos que devem saber a ameixas doces. As minhas mãos que sonham com o teu corpo. As saudades que sinto quando estou longe de ti. A vontade que tenho de correr para ti. A curva do teu ombro e a minha mão que nunca pousou nele. O teu cabelo que imagino pesado e que nunca pesei na concha das minhas mãos. O perfume do teu cabelo, da tua nuca, dos teus seios, das tuas pernas e do que se esconde entre elas. Os teus silêncios que não sei desvendar. O teu coração que não sei a quem pertence. Os teus pensamentos que não sei onde estão. As minhas mãos que passeiam sobre as tuas fotos, como se não fossem apenas papel ou um vidro no computador. A tua alma que ainda não aprendi a capturar'.
Depois, vendo que Beny, de olhos enlevados, parece entregue às suas palavras, detém-se. 'O que estou eu para aqui a dizer...?'. Então, atalha bruscamente: 'Despe-te, quero fotografar-te nua'. E espera. Depois: 'Olha assim para mim, quero apanhar esse teu olhar'.

Benedita diz -- e há uma perturbante malícia na sua voz indiferente: 'Ofereço-me toda ao teu olhar mas não quero que fiques com os meus mamilos à tua disposição. Não quero que lhes mexas quando passares as mãos nas fotografias'.

Filipe finge que brinca: 'Não é justo...' mas logo o sorriso se esvai quando a vê, perfeita, inocente, nua. 'Põe-te ao pé dos cravos, vou fazer nascer cravos dos teus seios. Os cravos da paz para que saibas que a ti, oh bela deusa, nunca tentarei conquistar-te pela força'.


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Este capítulo, o terceiro deste folhetim que ainda não faço ideia onde irá parar, vem na sequência de Beny e Meninha numa tarde especialmente quente

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Entretanto, para quem não é dado a folhetins, sugiro o post abaixo: A beleza assombrosa dos pinheiros. Só lá falta mesmo o epitáfio.

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