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sexta-feira, novembro 03, 2017

Beny e Meninha numa tarde especialmente quente





A mãe queixa-se. Tem dores. É da mudança de tempo, diz. Mas, quando vê a filha preocupada, sorri, diz que também não é nada de mais, que já faz parte, que já se habituou. Sabe disfarçar. Sorri como se tivesse vontade de sorrir. Durante muitos anos, sorrir fez parte da sua actividade. O sorriso bonito ficou-lhe colado ao rosto e sempre a parecer um sorriso genuíno. 

A filha vai sentar-se ao seu lado, pergunta-lhe o que fez durante o dia. Iolanda diz que fez a mesma coisa de sempre e a filha diz que o problema dela é esse, o não ter nada que fazer. A mãe protesta: fez muitas coisas. E enumera: foi ao ginásio, leu, foi ao dentista, dormiu a sesta, orientou a rapariga, viu a lista de compras que ela tinha feito, deu-lhe dinheiro e depois orientou a arrumação, viu televisão. A filha diz: 'Mãe, isso não é nada. Quero estar descansada em minha casa e não consigo, sabendo-te aqui nesta fossa. Escreve. Porque não escreves? Arranja uma rotina, como se fosse um trabalho. Deves ter montes de histórias de quando trabalhavas na televisão'. A mãe faz-lhe uma festa ao longo do cabelo: 'Estou bem, não te preocupes.'. Depois acrescentou: 'Olha, se fosse contar as vezes que fui assediada, enchia um livro. Está na ordem do dia. Dizia o nome dos figurões que mexeram ou quiseram mexer. Mas cá ainda eles é que ficavam bem vistos. Não há paciência'. A filha encolheu os ombros. 'Nunca tens paciência para nada. Isso não é bom'. Mas a mãe parecia absorta. Ou desinteresse ou cansaço. Sem ter razões para se sentir cansada, a verdade é que geralmente mal se conseguia mexer, tanto o cansaço.

Depois pareceu acordar: 'Olha lá, tens estudado? Tu nunca descures os estudos, ouviste? E escuta lá, não gosto nada desse Filipe. Tem má fama, tem mau ar. Não gosto nada, nadinha mesmo, de te saber com esse galifão por perto.'

A filha, com aquele ar ausente que talvez tenha herdado da mãe, levanta-se e sossega-a: 'Tenho estudado, sim. E não tenhas receio: sei tomar conta de mim.'.

Beija a mãe. E fica, por uns momentos, a olhá-la. Tão bonita e sempre tão desmotivada, a mãe. Depressões profundas. Não há muito, um susto. No hospital tinha pedido desculpa, que nunca mais. Tristeza, vergonha e dizia que arrependimento. A recuperação tem sido lenta.

Quando ia já a sair da sala, a mãe chamou-a: 'Benedita'. Depois de um silêncio: 'Tens visto a tua irmã?'. Benedita disse: 'Se não estivesse bem, sabia-se, não é...?' e disse tudo.

Quando ia a sair de casa da mãe, tocou-lhe o telemóvel. Era Meninha. 'Ligou, não ligou, Beny? Estou respondendo'. Benedita: 'Sim. Separei umas roupas, lembrei-me que se calhar lhe assentam bem. Posso dar. Já não uso.' Meninha em silêncio, sem querer acreditar. Benedita: 'Se quiser posso levar a sua casa, estou sem nada que fazer'. Meninha aflita: 'Ui... Não venha não que aqui o bicho pega... Lugar mau, Beny, não vem não.' Benedita: 'Gostava de ir. Nunca fui para esses lados. Não incomodo. Posso nem entrar'. Meninha acabou por ceder, deu a morada.

Passado um bom bocado, Benedita tocou à porta de um prédio degradado, num bairro degradado, com pessoas com mau aspecto à porta. Como ninguém respondesse, subiu a pé pelas escadas e bateu à porta.

Meninha abriu. 'A campainha não funciona. Teve que vir na aventura, não foi não?'. Benedita estendeu um saco. Meninha disse: 'Entra Beny, não vai ficar aí na porta, né..?'.

Estava de shortinho bem curto, blusa sem mangas, cabelo solto, argolas grandes e baratas. Sentindo-se alvo de atenção, explicou: 'Tá calor, não dá p'ra botar muito agasalho, viu...?'. Benedita atrapalhou-se: 'Nada. Não estava a reparar. Também tenho calor.'

O apartamento era pequeno. Decorado à moda de Meninha, com xailes nas paredes, espelhos, luzes, plumas. Um sofá que se percebia ser velho com uma manta colorida e almofadas com missangas e lantejoulas. 

Benedita pensa na vida difícil de Meninha, vinda de tão longe, uma vida de pobreza e violência e agora cá, lutando, sempre falando num mundo melhor, sempre sonhando. Despeja as roupas no sofá. Meninha olha espantada. 'Tem a certeza, Beny? Tudo para mim?'. Benedita confirma: 'Já não uso. Não sei é se ficam bem a si.'.

Meninha disse: 'Se não ficarem, eu arranjo. Sou boa de costura, comigo não fica prega solta ou bainha pendida'

Beny sorriu, acha graça às expressões dela.

Depois disse: 'Experimenta este, acho que em si vai ficar bonito.' Meninha tímida: 'Logo experimento'

Depois, para mudar de assunto: 'Quer alguma coisa? Água?'. Benedita aceita, diz que está cheia de calor.

Depois de beber a água, volta a insistir: 'Gostava de ver como lhe fica. Não quer experimentar? Despe que eu ajudo depois a vestir. O corpete não é fácil de apertar. Mas deixa que eu aperto. E depois fica lindo com capa plissada, em si deve ficar bonito. Trouxe até colar'.

Meninha já nervosa: 'Então vá, eu visto. Mas vou lá dentro, não leva a mal, Beny, sou de pudores.'

Passado um bocado volta e vem radiosa, cabelo mais amansado, e vem fazendo pose, olhar profundo, andar de gazela dengosa.

'Pode fotografar, Beny? Gostava de ver se levo jeito. Quem sabe fico também com ar de wild rose', pede.

'Vou fotografar uma wild rose no seu habitat, aqui onde as wild roses grow', diz Benedita. Usa o telemóvel e fotografa Meninha. 'Para mostrar ao seu namorado, ele vai gostar de ver. Ajeite as maminhas para ficarem mais salientes'

Meninha meio-sorri. Está com ar de vício, de quem quer. 

Beny sente que há um clima no ar mas pensa que é de ter encarnado a personagem que Meninha olha assim para ela. Começa a sentir mais calor. O ar está quente no pequeno apartamento. Bebe água. Então, Meninha, diz: 'Não tem ar condicionado aqui, não. E janela também não tem vidro duplo. Para refrescar só mesmo despir e passar água fria na pele.'

Sem pensar, Benedita despe-se. Deita-se no sofá. E, com aquele seu ar de corpo do qual a alma se evadiu, diz: 'Deite água em mim, Meninha'


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Nick Cave and the Bad Seeds interpreta The Kindness of Strangers

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Este episódio vem na sequência de Wild Rose

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