Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, agosto 31, 2017

Cavaco Silva, o não-político, foi dar uma aula aos Jotas.
Se eles são bons alunos, devem ter aprendido a ser ressabiados, mal encarados, invejosos e pacóvios.



Ia a caminho de um lugar muito bonito quando na rádio nos pareceu ouvir uma voz vinda do além. Eu disse: 'Mas o que é isto? A múmia...?'. O meu marido esticou o braço para lhe calar o pio mas interceptei-o: 'Deixa ver o que é isto'. Enfadado, cedeu.

Compreendam-me: parecendo que não, estou de férias. Quase não se vê televisão e, quando se vê, é só o que a TDT nos oferece. Como não é grande coisa, desligamos. De carro, também andamos menos e, quando andamos, vamos a ouvir música. Por isso, não estamos muito a par das notícias de Boliqueime nem de como o casal Mariani ocupa o seu tempo. E, se formos pelas probabilidades, também não conseguiríamos lá chegar. De facto, quem iria pensar que, para instruir neófitos da política, alguém se lembraria de ir buscar um pretenso não-político? Na verdade, um ser que é um pretenso não-ser.  Ele não só pretende fazer-se passar por não-político, como também por um não-peso-morto, por um não-causador de um desastre civilizacional e cultural em Portugal, por um não-oportunista.

Mas permitam que repesque a ideia que me ficou da intervenção política da criatura ao longo do tempo em que andou na política -- tempo demais, diga-se.

Depois de anos como Primeiro-Ministro a passar o país a patacos, fechando fábricas, colocando campos em set aside, acabando com parte da frota pesqueira e de ter levado para a ribalta toda a espécie de chico-espertos, de oportunistas e de gente pouco recomendável, saíu de mal com o país, à dentada ao bolo-rei, boca cheia, mal disposto com a falta de apreço que os portugueses mostravam por ele -- e remeteu-se ao ressabiamento à porta fechada. 

Entretanto, fez uns investimentos financeiros que lhe correram especialmente bem, depois viu grandes amigos e ex-colaboradores metidos em sarilhos judiciais e, ao que parece, saíu da Mariani, tendo-se mudado para a Coelha. Acontece que o espírito Mariani não saíu dele. 


E quando pensávamos que nos tínhamos visto livres da criatura, eis que, qual pesadelo, a assombração voltou às nossas vidas, desta vez sob a forma de Presidente da República.
Contudo, não foi à força para lá. Volta e meia, por falta de alternativas inspiradoras ou porque os votantes são crentes e ainda acreditam na regeneração de casos perdidos, acontecem fenómenos desconcertantes. Foi lá parar com os votos de parte da população. Mas se para a primeira vez ainda pode haver explicação, já para a segunda a coisa foi mais estranha. A verdade é que foi reeleito e por lá continuou a arrastar-se sem fazer nada. 
Um presidente inexistente que os portugueses dispensavam de boa vontade. Um presidente que, perante a pobreza crescente dos portugueses, se pôs a lamuriar com o que ganhava dizendo que nem lhe dava para as despesas. Ele que vivia uma vida regalada, ele de quem se sabia o que tinha ganho com as famosas acções recomendadas pelos tais amigos, ele que tinha optado por receber a alta reforma, não se sujeitando ao ordenado de Presidente.


Mas não foi só isso. Não é verdade que não tenha feito nada. Eu deveria ter dito: nada de útil. É que, aos poucos, Cavaco foi derrapando para aquilo que é a sua ideologia e esquecendo-se de que era suposto ser o presidente de todos os portugueses. Tornou-se líder de facção. Não descansou enquanto não fez a vida negra a Sócrates, abrindo as portas, de par em par, ao seu bem amado Passos Coelho que vinha de braço dado com o espertalhão Paulo Portas. 



Não sei o que viu Cavaco em Passos Coelho. Um instrumento? Um pau-mandado? Um abre-portas? Nunca percebi bem. Sendo um economista teórico, a Cavaco não podia passar despercebido o nível de ignorância e incompetência do láparo. Sendo professor, a tendência para o corrigir e reprovar devia ser constante. 


Portanto, como foi possível que o tivesse protegido ao longo de quatro anos, vendo que a realidade tirava todos os meses o tapete à ideologia que ambos defendiam e praticavam? Como conseguiu conviver com as burrices que aquele governo cometeu, uma atrás da outra? Como suportou a tendência radical de Passos para fazer o gosto ao Schäuble, mesmo que isso implicasse depauperar o País e desgraçar a vida de muitos portugueses? Como aguentou as inconstitucionalidades que Passos Coelho e Portas tentaram fazer passar vezes sem conta? 

Não sei. Mas aguentou. Por mais dislates que fizessem, por maior que fosse a miséria para o qual o País ia sendo arrastado, ali estava Cavaco a passar a mão pelo pêlo aos pafiosos, a pôr-lhes a mão por baixo, a desculpá-los, a apoiá-los.


E mesmo agora que vê que um governo com uma ideologia oposta à que ele e os seus pupilos praticaram vem apresentando melhores resultados, mesmo agora ele continua aos coices na realidade, defendendo uma receita que não resultou, que ninguém quer, que provou ser um desastre.

Até que neste fim de Agosto, Cavaco se apresenta em Castelo de Vide para instruir os Jotas.


E é com uma total ausência de sentido de Estado e de nobreza de carácter (que sempre revelou não ter) que o faz: desenterra as suas velhas raivas, espuma azedumes, deixa deselegantes indirectas portando-se como um vulgar praticante de má-língua que não poupa até o actual Presidente em exercício e, imagine-se, cola-se ao novo presidente francês.


E a forma como falou...? Uma vergonha. Políticos que nem piam ou quando piam, piam baixinho? É esse linguajar que Cavaco tem para ensinar aos jovens do seu partido? E foi este professor que a actual direcção do partido achou que os jotas deveriam ter? Ok. Vou ali e já venho. Depois como é que alguém ainda pode admirar-se com o baixo calibre dos Hugos Soares desta vida? Que é que se pode esperar do PSD com a escola que têm?


Mas com aquela fixação dele no Macron é que eu fiquei ainda mais espantada. Ainda Macron mal aqueceu o lugar e ainda anda a ver a quantas se há-de mexer e já está o Aníbal a comparar-se-lhe...? Uma saloice que revela aquilo que acima referi: o espírito Mariani continua a habitá-lo.


Será que quando vê Macron com a Brigitte ele se revê? Será que olha e vê-se a si próprio com a sua Cavaca? Iguais, tal e qual?

Macron, o anti-Marcelo, Macron, o gémeo separado à nascença dele, Cavaco. Será isso que ele vê? Macron, tal como ele, também anti-jornalistas. Iguaizinhos? E será que também imagina Macron a dar cobertura a inventonas? A mandar um assessor para o sótão... também? 


Enfim. Do pior que a política pós 25 de Abril pariu.

Só se espera que agora que já fez esta má acção e que já piou como uma ave de mau agouro, Cavaco volte à sua condição de múmia. Ámen.

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As imagens que como tal estão identificadas provêm, como é bom de ver, do saudoso We Have Kaos in the Garden.

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E agora apresento o que teria sido uma alternativa mais ajuizada para ensinar os Jotas. Vai na mesma linha do Cavaco, aquele que diz que não é o que é e que, às tantas, já nem sabe o que  é.

Mas, enfim, quiseram o Cavaco, já nada a fazer para este ano. Contudo, caso queiram persistir na mesma linha curricular mas não estejam para presenciar a bílis do marido da D. Maria Cavaca, aqui fica a sugestão: passem o vídeo que aqui partilho.

Monty Python - Apelo à saude mental e em nome da conservação natural



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E agora, caso queiram lavar a vista e purificar a alma, queiram fazer o favor de descer até ao post seguinte onde se fala de matéria de qualidade e bom gosto. Branding em bom.

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Liberdade. Paixão. Ousadia.
Branding. Rebranding. Marketing. Comunicação. Imagem.



Estou farta, fartinha, de aturar meninos (ou não tão meninos quanto isso) que vendem serviços de branding, rebranding, comunicação, imagem e estratégias de marketing apresentando storyboards que são música para os ouvidos mas nulas em termos de verdadeiro conteúdo e inventando argumentos e slogans que tanto serviriam para aquele caso em concreto como para qualquer igreja universal, marca de sabonetes ou banha da cobra. São estratégias que são espuma, existem apenas porque soam bem, surfam a onda do politicamente correcto ou apontam no sentido de targets que eles se encarregam de engendrar. Por isso, é sempre com agrado que, nestes domínios, vejo o oposto: trabalhos sérios e bem feitos.

Disclaimer (escusado): Se eu fosse muito rica, permitia-me alguns mimos. Compraria tailleurs Armani (tenho um em antracite com um leve risco fino em nude -- oferecido pelo meu marido e que, apesar de ser do mais discreto que há, é uma verdadeira obra de arte -- mas poderia bem ter mais; um em azul bem escuro, por exemplo) e um monte de coisas Chanel: vestidos, casacos, também tailleurs, sapatos e carteiras. E talvez mais uma ou outra coisita. Só não relógio porque, como já vos contei, o meu é indescartável, é já parte de mim.
Assim, não me tendo saído o euromilhões, visto-me, frequentemente num estilo Chanel alike. Mais ou menos. Ou seja, nem sempre. Mas volta e meia, sim.
É que, na marca Chanel, geralmente gosto de tudo (já para não falar naquilo de que tantas vezes falo: nos perfumes). Há um bom gosto consistente, uma capacidade de inovar não desrespeitando o 'estilo' de origem. 
E gosto também da publicidade Chanel. Sempre. Há sempre inteligência e dignidade e um profissionalismo também impregnado do espírito Chanel. As palavras ali fazem sentido. Há, em tudo, uma coerência intrínseca.

Os dois vídeos abaixo deveriam ser vistos e revistos pelos estudantes e profissionais destas áreas. Não há cedência a facilitismos, não há vacuidades: há a utilização magistral dos valores e dos objectivos de sempre da Casa Chanel.

E, tal o carisma da sua criadora e tal a força e perenidade da marca que deixou impressa na sua obra, que os instrumentos de comunicação que são produzidos nunca a esquecem. A visionária e lutadora Gabrielle Bonheur Chanel, também conhecida por Coco, que viveu entre 1883 e 1971, é ainda hoje o exemplo e o farol da Casa Chanel. Mudam os donos, os presidentes, os designers, os perfumistas mas os traços de carácter de Gabrielle estão sempre presentes. Vejam, por favor, um exemplo do que estou a dizer. Ou melhor: dois exemplos.


Gabrielle, a procura da liberdade



Gabrielle, a paixão 


(Não sei como melhor traduzir 'the pursuit of passion' -- parece que a procura ou busca ou a perseguição não ficam bem)

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Já agora também este que acho muito bom:

O auto-retrato de um perfume 



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Aproveito para divulgar dois sites sobre perfumes que, a propósito do meu post sobre o novo Chanel, Gabrielle, Leitor amigo (a quem agradeço!) me deu a conhecer:



Em ambos os casos os links apontam para o Gabrielle.

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E uma bela quinta-feira a si que está aí desse lado.

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quarta-feira, agosto 30, 2017

Breve interlúdio nos temas sérios a que o Um Jeito Manso tem vindo a dedicar-se


Sabido é que sou de mutações qb já que a monotonia temática me cansa. 
No outro dia, Leitor, em mail, falava da minha anarquia. Felizmente parece que lhe agrada; mas também, neste caso uma Leitora, já me disse que devo pôr a cabeça dos homens que me lêem à nora. Reparae-se: dos homens. Dos homens já que as mulheres acompanham bem o bulício mental. Os homens não. Uma coisa de cada vez. Se andam, já não conseguem, ao mesmo tempo, mascar pastilha elástica. E nos blogs? Se trata disto, já não pode falar daquilo. Se é sobre política, já não pode ser de fum-funs e gaitinhas. Acredito, até, que haverá quem me ache aparentada com um catavento. Quiçá não tão bem atestada a nível intelectual quanto O Catavento (assim baptizado pelo láparo num dia em que mais valia ter mordido a língua), mas, ainda assim, catavento. Uma anarca-cataventa. Santa UJM, a anarca-cataventa. Gosto. Um bom epítome para esta blogueira que aqui se apresenta. 
Mas adiante. Se no post abaixo falei muito a sério da Oracle, Oracle esta que vinha no seguimento da NOS, a qual, por sua vez, veio no seguimento da Galp -- a cuja há-de ter vindo no seguimento de outra coisa qualquer -- agora aqui dou a palavra aos Leitores, deixando que a conversa mude de agulha. Por minha alta recriação junto-lhe um pó de fraseologia transposta para fazer pendant com uma das temáticas.

Verão.
(Verão, futuro do verbo ver e não verão estação, o cujo por estes dias parece estar já a fazer-se ao outono).
Mas, então, dizia eu que.

Os meus Leitores cometem a gentileza de me obsequiar todos os dias com simpáticos mails aos quais eu deselegantemente não respondo. Inconseguimento temporal, inconseguimento mental -- lamurio-me eu, enquanto bato no peito para tentar desculpabilizar-me. Mas, volta e meia, um ou outro mail saltitam de forma a que eu lhes dê palco e eu a esses, não agradecendo senão aqui aos corteses emissários, acedo a conceder-lhes a justa ribalta,.

Assim dois desta noite.

Um refere-se a Trump. Antes de o ter visto, estava eu hesitante em trazer aqui a narcísica criatura que tem feito do drama das cheias uma festa -- mas depois desisti.

Coloco simplesmente a imagem que Leitor a quem agradeço me enviou. 


Um outro mail trazia-me um vídeo com uma certa piada. Como o que recebi não era vídeo do YouTube e não trazia o nome do vídeo na língua original, tive que me esforçar um pouco para descobri-lo no YouTube para mais facilmente o inserir aqui. Mas descobri. Ei-lo:

De onde vêm as pessoas?




E, sobre isto de uma pessoa que não sabe uma língua é como quem não sabe a quantas anda e pode ficar à mercê dos que queiram divertir-se à sua custa, lembrei-me de aqui fazer entrar os meus amigos do peito, os ganda malucos dos Monty Python, aqui à volta de um livro de frases inglês-húngaro.


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E é isto.

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Para coisas mais da actualidade e mais consentâneas com a seriedade que o momento deveria impor, queiram, por favor, deslizar até ao post abaixo no qual se fala da Oracle e dos que cedem ao bem bom à borliú.

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Ah.... agora foi a Oracle...? E todas as outras, tecnológicas e não tecnológicas...?


E não tenho muito mais a acrescentar em relação ao que disse ontem.

Se começam a procurar, vão encontrar muito, muuuiiiitoooo.... E andam à procura na Administração Pública por algum motivo em particular? Nas empresas isso não interessa? Não...? Porquê...?


E porquê esta súbita caça às bruxas numa coisa que é prática arreigada desde sempre? Corrupção isto...? 

Eu que assisto de perto a esta prática não estou certa disso. Mas nem disso nem do contrário. A menos que as almas sejam fracas e se deixem corromper com tão fraca prebenda... Mas, por outro lado, porque o aceitam sabendo que não há almoços grátis...? 

Ainda não há muito tempo deixei um grupo de VIPs consideravelmente desconfortável ao declinar com amabilidade uma ida já nem sei onde, desta vez acho que algures nos States. Disse-lhes que não gosto de cultivar a proximidade com entidades junto de quem acho preferível cultivar um saudável distanciamento. Como é bom de ver isto não é agradável de ouvir por quem convida nem por quem aceita (porque há sempre quem aceite; melhor, geralmente todos aceitam, sorriso agradecido, sensibilizados pela gentileza do convite).

Toda a minha vida cultivei esta atitude, causando desconforto à minha volta. Muitas vezes disse simplesmente: acho que, se quero almoçar bem, devo ser eu a pagar os meus almoços e, se quero conhecer o mundo, devo ser eu a pagar os meus passeios. Ora, isto pode cair bem aqui no blog mas de certeza que não cai bem junto de quem tem outro modo de ver e agir.

Mas se acho que há uma questão de isenção ou de ética, não estou completamente segura sobre a eficácia 'subornativa' destes gestos. Conheço pessoas que gostam é de comer em restaurantes caros e de ir ao estrangeiro sem gastar um tostão. Podem dar a entender ao fornecedor que apreciam estes gestos e que esse apreço será relevante aquando da tomada de decisão a favor dele mas isso não é forçosamente verdade. Pode ser que sejam simplesmente gulosos. Ou deslumbrados. Ou pacóvios. Muitas vezes tenho pensado isto: este tipo não é corrupto, é simplesmente um zé-ninguém.

Mas a verdade é que é matéria em que não tenho certezas absolutas. Muitas vezes, nas empresas onde tenho trabalhado, me indigno com alguma atitude de tácita aceitação de tudo o que os fornecedores querem impingir e digo, entredentes, que não me admiro face à proximidade e amizade que é patente para com os fornecedores. Mas isso significa, sobretudo, que acho que a pessoa não tem estatura para o cargo que ocupa -- é demasiado dúctil (digamos assim), quando se exigiria verticalidade e firmeza.

Mas proximidades e promiscuidades entre clientes e fornecedores é o que há mais e não me parece isso mais perigoso na administração pública do que nas empresas privadas pois termos empresas privadas nas mãos de gestorzecos que se deixam embeiçar por um passeio aqui, ali ou acolá só serve para termos uma economia ainda tolhida e pouco profissional. 

Portanto, se é para se entrar numa de caça às bruxas, não tomem a nuvem por Juno ou a árvore pela floresta: comportamentos desses são às resmas, paletes... e por todo o lado.

NOS?

Oracle? 

Bahhh.... E todas as outras? 

Podia dar algumas pistas mas claro que não vou dar -- até porque o difícil será encontrar grande empresa que o não pratique, quer convidando clientes quer tendo entre os seus quadros quem seja convidado por fornecedores.

Mas isto deve ser coisinha passageira junto desta comunicação social acéfala e junto das virgens que pululam nas redes sociais. Agora que aquilo dos manuais para meninos e meninas pariu uma nano-ratinha que as deixou ficar mal, arranjaram esta das viagens. Um dia destes desencantam outro tema e largam isto tal como largam tudo o resto. Um bando galinhas sem cabeça, é o que é.

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terça-feira, agosto 29, 2017

Caíu um relâmpago em cima da NOS.
A Coreia do Norte lançou um míssil para cima do Japão mas ele partiu-se em três, atingindo uns incautos que gostam de andar à pala mais os da NOS que se pelam por ser simpáticos.
Parece que há alerta amarelo no País mas, para já, só a malta que foi ver a Huawei é que está a meter água.
-- E, quanto a breaking news, parece que é o que há --



Tive um dia muito preenchido que abarcou de tudo um pouco: compra de sapatos para os dois (aliás, começou por ser só para ele mas, já que ali estava para dar opinião, aproveitei para uma deitada de olho e, lucky me, catrapisquei logo unzinhos que não puderam lá ficar), caminhada, fotografias, passeata à beira rio, visitas à família, incluindo ao hospital -- onde participei numa aula a que jamais tinha pensado assistir e depois ouvi a médica a recomendar à mulher do Sr. Luís que o leve a passear, o ponha a fazer jogos e mais não sei o quê e, para meu espanto, a mulher do Sr. Luís não disse à médica que ela devia estar a delirar -- depois fui a um Centro de Saúde colher informações com a minha mãe, depois fui levá-la a casa, depois fui ter com o meu consorte e fomos tentar comer qualquer coisa substancial já que o almoço tinha sido curto e apressado mas não fomos especialmente bem sucedidos, a seguir viemos até ao campo, tendo eu adormecido na recta final do percurso, depois fui varrer do lado das azinheiras que aquilo é folhinha e restos de bolotas que não acaba, depois até dei um grito quando, sentindo-me observada, dei com um par de belos olhos claros num corpinho branco e felpudo, escondido debaixo de um banco, a seguir descobri um ninho caído no chão, depois fiz o jantar e enquanto ele se fazia, vim fazer aprovações, ver apresentações e mandar mails, e depois jantei e a seguir tentei perceber das novidades do dia mas nada que se aproveite, apenas as notícias de que, em epígrafe, dou conta.


E, sobre a problemática, fiquei a pensar: eu podia dizer umas quantas coisas concretas. Mas depois pensei que era melhor não. Só generalidades.

A saber.

Os meninos e as meninas da NOS a esta hora devem andar atarantados, a ouvir os juristas que os apoiam e mais os da comunicação, a ver como vão fazer a contenção dos danos de imagem porque o que não era até aqui senão uma prática banalizada a que qualquer cliente ou potencial cliente pimpão não dizia que não -- que isto meio mundo conhece o mundo inteiro sem pagar um tusto, andando à pala de fornecedores generosos -- agora, de repente, parece que virou crime e toda agente desatou numa caça às bruxas a ver quem é que viajou e onde e quando e por conta de quem.


E eu que nunca viajei à conta de nenhum fornecedor ou potencial fornecedor -- sendo vista como uma ave rara, bicho do mato ou tão honesta que até chateia -- daqui deste púlpito vos posso dizer: levar clientes a passear à borla é prática corrente. Pagar deslocações e estadias a clientes é do mais banal que há à superfície da terra. Ofertas a clientes, despesas de marketing, gastos com comunicação -- tudo legal. Não há grande empresa que não proporcione uns dias à maneira aos clientes. Em especial aos principais clientes. Melhor: aos decisores nas empresas grandes clientes. Read my lips: não há grande empresa que o não faça.


Se todos os clientes que são convidados aceitam é outra coisa. Ou as empresas e as organizações têm códigos de ética que proibem que os seus colaboradores se desloquem a expensas de fornecedores ou, então, para os que gostam do bem bom a custo zero, quem é que vai achar mal que eles vão conhecer tecnologias, feiras, fábricas, etc, sem terem que gastar dinheiro à empresa para a qual trabalham?

Volto a dizer: eu nunca fui. Mas sou uma excepção. Se isto não fosse o blog decente que é, agora mesmo vos diria dezenas de nomes que, de fonte segura, já foram aqui, ali e acolá -- e diria nomes de cidades visitadas, nomes de empresas convidantes e convidadas, até nomes de funcionários dessas empresas. Mas isto é um blog decente e não uma boca no trombone. De resto, nada disto é crime. Quem foi, não foi às escondidas. Foram todos às claras e ficaram até bem vistos porque irem aqui, ali e acolá a convite de outras empresas é como se isso fosse uma medalha atestando a sua importância.

Julgam os meus Caros que as verbas com Marketing ou Imagem ou Comunicação que as empresas têm nas suas contas se referem a quê? Apenas a anúncios, newsletters, etc? Não senhor. Referem-se a brindes (conceito lato onde se pode até incluir material de som de qualidade, relógios de alto gabarito, vinhos que ficam muito bem em qualquer garrafeira de que os donos se podem orgulhar, etc, etc), a eventos (incluindo convites para), patrocínios de eventos artísticos ou desportivos (incluindo convites para), feiras cá e, especialmente, lá fora (incluindo convites para) e incluindo, naturalmente, o pagamento das respectivas deslocações e alojamentos (se for caso disso).



E isto já para não falar em gestos (como, por exemplo, presentes de casamento para quem os recebe ou para os filhos de quem os recebe, etc, etc.) e demais bagatelas.

Fazem agora os jornalistas grandes escandaleiras, denunciando A, B e C...? E não se vêem ao espelho...? Ou é vingança por não terem ido ou recebido quando todos os outros colegas foram ou receberam? 

Pergunto: No que acima referi, quantos dos convites são para jornalistas...? 
Respondo: Muuuuuiitooooos....

Ainda há dias, alguém me dizia que iam convidar uns jornalistas para poderem fazer uma reportagem (útil para a empresa) e que o presidente iria almoçar com eles, pois 'eles' apreciam sempre esses gestos. E estava a falar-se de jornalistas a irem a outro país com tudo pago. Claro. (E os jornais agradecem. Têm lá verba para suportar isto?)

Se todos os funcionários de empresas, organismos ou meios de comunicação social que foram aqui e ali ou receberam isto ou aquilo se demitirem, vai ser bonito. Seria uma razia sem precedentes...

Embora em verdade vos diga: do que conheço (e, caraças, se conheço) grande parte dessa gente que gosta de passear, ver espectáculos ou papar à borla bem podia mesmo levar um valente chega para lá, que geralmente agem muito mais em função de quem mais os apaparica do que do que é melhor para quem lhes paga o ordenado... Mas isto já uma opinião subjectiva.


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As fotografias foram feitas esta segunda-feira.

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E caso vos apeteça uma coisa completamente diferente, queiram descer ao encontro da Gabrielle.

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Gabrielle


Não sou de marcas ou títulos, não puxo galões, abomino caganças. Isso tudo. Mas, meus Caros, há uma coisa, umazinha, em que não dou bola para qualquer um.

Especifico. Cheira-me a saldos e aí vou eu, a desencantar um tempo que não tenho -- mas tenho que ter -- porque intuo que a última coca-cola do deserto está a ser vendida a preço da uva mijona e, obviamente, não posso passar ao lado dessa grande oportunidade. Posso andar à pesca no meio de balcões onde se vende tudo, os restos, a 15 euros, e quero cá eu saber que seja uma daquelas pechinchas que se poderão encontrar a pontapé em cima de qualquer zinha. Zero. Não estou nem aí. Acho sempre que o estilo está em quem veste os trapos e não nos trapos em si. Uma blusinha dessas, umas calcinhas elegantes, um colar de pérolas (das genuínas ou das outras), uns sapatinhos confortáveis e a toilette está feita.

Mas há a tal coisa. A tal. 

O perfume. 

E, caraças, se tenho tentado. Passo pelos saldos e vou tentar e tento e penso que a poupança é considerável. Mas não dá. Não dá mesmo. Não sei porquê mas não dá. Comigo tem que ser Chanel.

E pode ser o Chance, o nº 19, o Cristalle... e pode e deve ser, sobretudo, o nº 5. Tudo me cai bem. Sobretudo o nº 5. Umas gotas cujo toque muda ao longo do dia e que evoluem até eu quase não reconhecer na fragância que me chega a mesma que coloquei de manhã. Sempre fresco, elegante, discreto, refinado. Não sei descrever mas agrada-me muito.

Nota: Há um outro adereço a que também sou fiel, conservadora, elitista -- o que quiserem. O relógio. Tenho-o há anos, muitos, e desde que o ganhei de presente nunca mais fui capaz de usar outro. Até aí cirandava entre os Swatches de todas as cores e feitios e os clássicos. Tinha dois clássicos, lindos, elegantes. Pois bem. Desde que este pousou no meu pulso nunca mais fui capaz de usar outro. 
Mas sobre o relógio nem me pronuncio para não acharem que ando para aqui a armar-me ao pingarelho. Coisa curiosa esta: sendo eu anónima, incógnita, uma sombra, de que forma o que aqui dissesse poderia ser exibicionismo? De forma nenhuma. Mas, enfim, para que, ainda assim, não pensem que sou um fantasma vaidoso, quedo-me por aqui. Do meu relógio, objecto já tão indissociável de mim que já me parece que falar dele seria revelar um pormenor da minha intimidade, não falo. 

E, assim sendo, cedo o passo ao novo perfume Chanel: Gabrielle. Mal retorne à cidade, lá terei que ir experimentar. Estou expectante. Qual será a nota dominante...? Ah... que bom deve ser...


Kristen Stewart para Gabrielle: the new fragrance by Chanel



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E até já.

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segunda-feira, agosto 28, 2017

As oito montanhas





Às pessoas que mais gostam de petiscar do que de comer grandes pratadas há quem chame piscos. Os piscos são pequenos pássaros e, como qualquer pássaro, ora comem uma coisa aqui, ora outra ali, nunca muito da mesma coisa ou de seguida.

Com os livros, tal como venho confessando, ultimamente eu sou um pisco. Petisco. O tempo livre não é muito, a exigência é cada vez maior, a impaciência domina, o ter que ler um livro de uma ponta a outra deixou de ser uma obrigação para ser quase uma excepção. Abro, leio, se gosto e tenho tempo, continuo, se calhar no dia seguinte pego noutro, depois posso voltar ao anterior e ler outra parte não sequencial. O caso é que também cada vez mais leio apontamentos, diários, ensaios, crónicas, cartas -- ou seja, livros em que o respeito pela sequência não é mandatório. A ficção vai perdendo relevância na minha lista de leituras. Histórias sem história, argumentos frouxos -- ou de uma violência gratuita ou provocações mal engendradas ou diálogos mal cerzidos ou um apelo simplista à emoção -- tudo me causa uma aversão fatal.

Contudo, de quando em vez, um romance cintila nas minhas mãos. Nessas alturas, o prazer visceral pela leitura toma conta de mim e fico presa e, aí, não salto páginas, nem sequer linhas. E, se tenho que parar, não vejo a hora de retomar.


Antes de ir de férias, um colega meu veio mostrar-me o que ia levar para ler, uns que tinha ouvido elogiar e outros de um autor que lhe tinha sido muito recomendado por outro colega nosso. Sabendo-me amante de literatura veio aferir. Nunca tinha lido nada daquilo nem tenciono ler. Não lhe disse desta forma mas penso que ele percebeu que nada daquilo faz o meu género. Ainda tentou: 'Best sellers. Parece que não se fala de outra coisa. E este, um autor premiado'. Consenti: 'Talvez. Se calhar são bons. Eu é que ando pela margem'. Tenho para mim que os meus colegas chegam a duvidar que eu seja mesmo amiga de ler já que nunca me apanharam conhecedora de livros que toda a gente lê. Pelo contrário, se digo o que tenho em mãos, é sempre ave rara, nunca ninguém de tal ouviu falar. Se fosse dada a tremores de alma, quase me envergonharia de nunca poder dar provas de que leio livros de verdade.

Se circulo pelas livrarias, evito parte das estantes como se a simples proximidade me pudesse causar alergia. Depois, mesmo naquelas onde pode aparecer coisa que interesse, espreito com alguma aversão grande parte dos que aparecem destacados. Títulos muito intrusivos, imagens de gosto duvidoso têm em mim o efeito de um repelente. Muitas vezes, se alguma coisa no título ou na capa me faz admitir a hipótese, começo por espreitar o tradutor. Tenho para mim que tradutor que se preze não aceita qualquer trabalho, há-de ser criterioso, E depois abro, leio ao acaso. Se calha ler alguma frase que me parece deselegante, vulgar, insípida, logo ali o deixo, imediatamente desinteressada. Depois há os que passam neste meu crivo sui generis. A esses venho sempre com vontade de lhes poder dedicar atenção de verdade, imaginando os momentos de alegria que irão proporcionar-me.

Com curiosidade trouxe este livro de cujo autor nunca antes ouvira falar. Continha referência a montanhas, a silêncios, a grandes espaços. A capa e a paginação agradaram-me. A fotografia do jovem autor, sentado junto a uma casa de pedra, também me agradou. São estas coisas que não se explicam, meras intuições.

A simplicidade da vida no campo agrada-me. Sendo pessoa de cidade, vivo feliz quando estou no campo. Entregue a tarefas manuais, ouvindo os pássaros, espiando o mato a ver se descubro coelhos, podando árvores ou contemplando-as como quem contempla belos seres vivos, obras de arte, milagres da natureza -- eu nem dou pelo passar do tempo, como se a sua passagem fosse toda e só suavidade.
Hoje de tarde, estava a ler o livro, levantou-se um vendaval. As árvores numa dança ruidosa, folhas pelos ares, um som que parecia o rugido do mar. O céu toldou-se, parecia que ia chover. Fomos pressurosamente à rua, apanhar a roupa antes que se molhasse, recolher a cesta de pinhas. Tudo estava subitamente revolto, a quietude dera lugar a um estranho alvoroço. E, no entanto, até disso eu gostei. Foi como se a paz tivesse mostrado uma outra sua face.
Sempre que posso, isto é, sempre que estamos apenas os dois, faço uma caminhada. Dou várias voltas completas pelas extremas do terreno, pelos caminhos que serpenteiam entre as árvores. Por fim já estou cansada, transpirada, mas continuo: o pinheiro alto, a curva junto aos cedros, o eucalipto grande, o mato de alecrim, as figueiras, a escada de pedra, as parreiras, o abrigo, a volta das azinheiras, o caminho coberto pelos cedros, o corredor comprido dos pinheiros mansos, o campo aberto, a mesa de pedra com os bancos, a moita alta da madressilva, a cabana de madeira, a macieira, o banco azul ao pé dos cavalos azuis, a casinha verde, os loendros, os tamarindos, a descida onde os gatinhos vão procurar a comida, a curva lá ao canto.... E assim continuo. Penso: quando esta volta acabar, páro. Mas, quando acaba, inicio nova volta e prossigo a caminhada. Há qualquer coisa de viciante no prazer que se tem quando se caminha na natureza. E à noite? O milagre de mil estrelas cintilando no distante além que nos sobrevoa? E a lua? Maravilhosa lua. Misteriosa, toda ela metamorfoses. Logo vou a correr buscar a máquina, fotografo-a, agora em crescendo, promissora, toda brilhos e seduções. A noite no campo tem mil fascínios e esta lua cativa-me como se estivesse ali só para me tentar. Fará contemplá-la em plena montanha, só silêncio e secretos murmúrios. Fará.

Não conheço o prazer de caminhar montanha adentro mas imagino que seja mil vezes maior do que o que sinto quando caminho in heaven: será talvez um misto de aventura, de descoberta, de fascínio, um prazer a que sempre e sempre se há-de querer voltar. [Existe um lugar na blogosfera onde se pressente o que deve ter de irresistível a magia da montanha. É dos blogs que sigo com mais interesse. Bate o vento sopra a chuva.] 
Não sei se porque o tema do livro se centra no prazer de percorrer a montanha ou se, para além disso, também pela qualidade da escrita, pela simplicidade onde transparece uma forma genuína de comunicar, pelo equilíbrio entre a história narrada e a elegância da narrativa, a verdade é que o livro que estou a ler é daqueles que me faz pensar: 'isto é literatura'.


O autor é Paolo Cognetti e o livro é 'As oito montanhas'. Vou na página 160 e já espreitei o final. E já me aconteceu o que há séculos não me acontecia: emocionar-me a ponto de ficar com lágrimas nos olhos. E isto com uma escrita lisa, desadjectivada, sem recursos a artifícios estilísticos ou a palavreado elaborado.


Entretanto, já fui pôr-me à procura do autor no YouTube e já vi que tem um blog que, a partir de hoje, integra a galeria lateral de 'Frescos e Bons' aí à direita (Capitano mio Capitano). Se por um lado, é escrito numa das mais belas línguas, o italiano, por outro, para quem não a conheça -- como é o meu caso -- é uma frustração. Mas não interessa, percebe-se o que der para perceber e, do que não se perceber, passa-se à frente. Pode tentar-se o tradutor do google mas não recomendo pois é um mais um triturador do que um tradutor.


Entrevista a Paolo Cognetti: l'esplorazione della montagna, un'emozione fortissima.


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As imagens que escolhi mostram os Alpes, excepto parte do meu percurso enquanto por aqui caminho e, claro, excepto a lua a caminhar para crescente, aqui in heaven.

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Ciao!

E uma boa semana a todos, a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, agosto 27, 2017

Lições de vida
[Se é que, sobre a vida, é possível extrair 'lições']





Do que está ao lado do meu pai diz a minha mãe que parece um miúdo. Não me parece. Talvez seja pessoa para ter a mesma idade que eu. (Talvez, então, por isso. Por vezes, a  minha mãe fala comigo como se eu fosse ainda uma miúda). Magro, muito branco, cabelo grisalho. Não tem rugas. Está num cadeirão e tem uns tubos pendurados. Está quase sempre de olhos fechados. No outro dia, estava lá um rapaz muito alto. Ouvi-o dizer: 'Então, pai?' mas ele não disse nada, nem sei se abriu os olhos. A mulher ciranda por lá, sai para ir ao café, olha em volta, faz por entabular conversa connosco. Percebe-se: o marido não diz nada, ela tem que se entreter de alguma forma. A minha mãe contou-me que no outro dia lhe perguntou se tinha sido um AVC e que ela disse que não, que é demência. Nem sempre tem visitas e também se percebe, são de uma vila a uns quilómetros. Nem sempre se tem disponibilidade para visitas destas. De resto, para ele as visitas parecem ser completamente indiferentes.

Mas no outro dia aconteceu uma coisa. Dos quatro, o meu pai era o único com visitas. Os outros três dormiam. Tal como o meu pai, mais dois estavam num cadeirão. Só o meu pai protestava: que a televisão estava muito alto, que queria que se desse um jeito no lençol que o prendia, que queria que se despachassem, que 'isto está mau'. Percebe-se mal o que diz mas o tom é de arrelia. Não está bem quando está sentado. O quarto doente estava deitado e tento não olhar muito para ele porque me faz impressão. A minha mãe diz: 'Parece um aranhiço'. A mim não, parece-me um esqueleto. Descarnado, o rosto é uma caveira, o corpo um esqueleto. Tem sempre os olhos fechados e a boca completamente aberta. Parece ter saído do mundo dos vivos. Mas mexe-se de vez em quando.

Como sempre, eu e a minha mãe vamos conversando. Temos avental, luvas e a médica e os enfermeiros dizem que não precisamos de máscara. E conversamos. Então, reparo que o senhor da cama ao lado está de olhos abertos, olhando-nos. O olhar parece vazio, todo ele inexpressivo. Mas não tira os olhos de nós.

Quando chegam as assistentes para tratarem da higiene deles e nos mandam sair, nós aproveitamos para dar a visita por concluída. Despedimo-nos do meu pai e despedimo-nos delas que estão a começar a ocupar-se do vizinho demente: 'Boa tarde'. E, então, com perfeita dicção e a voz bem colocada, o senhor despede-se também: 'Boa tarde'. Elas quase dão um salto. Surpreendidas. E nós também. Dizem-lhe: 'Esta agora foi boa, ó Sr. Luís. Boa tarde. Sim, senhor. Muito bem. Olha quem havia de dizer...?'

Mas, com ou sem manifestações destas ou de outro tipo, não tenho dúvidas: aqui é o fim da linha. Nenhum dos quatro doentes desta sala vai alguma vez voltar a ser um homem independente, saudável. Quando ali estamos a minha mãe volta e meia emociona-se, as lágrimas nos olhos: 'Se ele se visse assim. Tão orgulhoso que era, sempre tão capaz de tudo, e agora assim'. Penso o mesmo mas não o digo. Na recta final, a vida tem estado a ser ingrata para o meu pai. Até há nove anos ele achava que era saudável, que, pela vida saudável que levava, haveria de viver até tarde, sempre escorreito, independente. Nunca tinha tido qualquer doença, fazia uma alimentação cuidada, fazia exercício,  sempre ocupado, parecia bem mais novo.

Vendo em retrospectiva a vida dele e da minha mãe, o que reconheço é que, enquanto a minha mãe sempre viveu num registo de boa onda, o meu pai sempre foi stressado. Se tinha que sair de casa às dez, às nove e tal já ele queria estar despachado, já ele andava a pressionar a minha mãe para se despachar. Se ele ia passar uns dias à outra casa, com antecedência já ele queria ter tudo planeado ao pormenor, já ele queria começar a ter tudo pronto. Mesmo quando eu era miúda, ele era o primeiro pai a ir-me buscar às festas de anos e, se eu lhe pedia que me deixasse ficar mais um bocado, condescendia em não mais de um quarto de hora porque não tinha paciência para ficar à espera. Tendo todas as condições para ter uma vida boa e sem preocupações, eu via-o sempre em estado de alerta nem se sabe bem para quê. E irritava-se com a minha mãe porque a via sem pressa, sem stress. Se eu lá estava em casa de visita, sempre na conversa e na risota com a aminha mãe, a partir de certa altura já ele dava mostras de impaciência, achando que o meu marido já devia estar farto de estar à minha espera. Tantas vezes que eu lhe dizia que não tinha que se preocupar com o meu marido, que isso não era problema com que tivesse que se preocupar. Mudava, então, de registo e a preocupação passava a ser com não gostar que eu conduzisse de noite. Na verdade, a questão é que tudo era motivo para stressar. E como eu e a minha mãe, mais que vacinadas e com outra maneira de ser, não ligávamos, ainda mais se stressava. A minha mãe conta que, no supermercado, ele ficava a meter as coisas nos sacos, com grande eficiência e, quando chegava a vez de pagar, se ela não estava com o cartão logo a postos, já ele lhe deitava olhares reprovadores porque achava que iriam fazer esperar as pessoas que se seguiam. Nem que a espera fosse de apenas dois segundos. Pormenores assim que bastavam para ele ficar irritado. 

O meu pai já não está em condição de fazer um balanço da sua vida. Nós é que fazemos por ele. Achamos que poderia ter sido mais feliz se tivesse sido capaz de encarar  a vida de forma mais serena. Não sabemos se esse seu stress que frequentemente implicava também insónias teve responsabilidade no AVC mas admitimos que sim.

A minha mãe, que parece mais nova, jovial, alegre, a quem os miúdos adoram, lá vai aguentando o peso que é esta situação e encarando a vida com o realismo de sempre, não se indo abaixo. Pode, em momentos mais críticos, ficar frágil. Nessas alturas, emociona-se, tem pena; mas encara as coisas como elas são. Dizemos ambas muitas vezes: 'não se escolhe'. E saímos do hospital e vimos na conversa. Pode ela, a propósito de qualquer coisa, lembrar-se de ditos dos alunos ou parvoíces ditas por pais de alunos, e rimo-nos, ou fala das vizinhas com quem vai à ginástica ou de uma, bem mais nova, que tem uma mãe completamente passada e que ficciona que tem inúmeros namorados, relatando casamentos na praia, falando de uma casa que tem com jardins e pomares -- e, neste caso, fala com tal realismo que a filha chega a duvidar se a mãe terá mesmo uma casa de que nunca lhe falou. E, relatando-me estas peripécias, eu e a minha mãe rimo-nos. Não é troça. É mesmo esta capacidade que temos de reconhecer o sentido de humor que há nas mais diversas situações.

Rir é bom. Ver o lado divertido das coisas é bom. Sentir o suporte daqueles de quem gostamos também é importante. Ter boas recordações e gostar de trazê-las ao pensamento presente também é bom.

E eu saio destas visitas que têm tudo para serem pesadas -- e nestes últimos tempos são dois os familiares hospitalizados (um saíu, entretanto) -- e ingresso na vertente feliz e buliçosa da minha vida.

Falamos dos doentes e preocupamo-no -- e há dias as coisas estiveram mesmo críticas e todos acorremos preparando-nos para o pior -- mas a vida continua. E, acto contínuo, estou com as crianças à minha volta, a fazer comida para um batalhão, todos a rirem e a conversarem. O quarto pimentinha, um artista, cinco anos recém feitos, agora imita o bisavô a chamar pela avó. Tal e qual. E todos pasmamos com a facilidade que tem para apanhar o tom de tudo. E rimo-nos com ele.

Nem todas as pessoas serão iguais nem sou capaz de dizer o que é mais ou menos louvável porque acho que não há louvores a dar em tais situações. As pessoas são como são, umas mais dadas a alimentar climas de tragédia, outras a passar pela vida com alguma ligeireza. Não há melhores nem piores nem ninguém espera uma medalha pelo que quer que seja quando passa por estas situações. Somos diferentes uns dos outros e nessas diferença se integra o maior ou menor grau de felicidade com que atravessamos a vida.

Pela parte que me toca, aquilo em que sempre penso é que a vida é um dom precioso que temos que acarinhar e festejar. Do início ao fim.

Já aqui contei: no casamento da minha filha, que, por gosto do marido, foi na igreja, no fim, houve comunhão e eu, para meu espanto, vi a minha mãe a avançar para se pôr na fila. Perguntei-lhe: 'Vai comungar...? Mas confessou-se?!' Ela riu-se: 'Não preciso. Não tenho pecados'. E lá foi.

Não sou de comungar mas penso o mesmo. Não tenho pecados. E essa sensação traz-me leveza. E a leveza torna-nos a vida pouco pesada (La Palice não diria melhor). E uma vida pouco pesada é uma vida boa de ser vivida, por muito longa que seja. E isso é, afinal, o que importa.


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Vem isto a propósito de mais um vídeo que o YouTube seleccionou para mim. Talvez por ter andado a fazer pesquisas relacionadas com questões que se prendem com a condição do meu pai, o algoritmo deve ter detectado que lido com temas como aqueles de que vos falei e propôs-me o interessante vídeo que aqui partilho convosco. Comovente e muito interessante. Gostava que lhe dedicasem alguma atenção.

Lições de Vida de pessoas com mais de 100 anos


We asked three centenarians what their most valuable life lessons were, and also their regrets.



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As imagens que usei ao longo do texto são fotografias de Steve McCurry e mostram pessoas que, independentemente da dura vida que têm, conseguem encontrar alegria em viver.


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No outro dia, falando da situação acima mencionada e referindo algumas das circunstâncias em que o meu pai se encontra, a pessoa com quem eu falava, começou a ficar com os olhos cheios de lágrimas. Eu que falava, segundo me ouvi, num tom factual, como que desprendido, disse-lhe: 'Está a fazer-lhe impressão. Desculpe. Não digo mais nada'. Ela limpou os olhos e disse: 'Não, continue, gosto de ouvir'. Pensei, então, que ela deveria estar a pensar no seu próprio pai que morreu de repente, há alguns anos, não tendo passado pela agonia de ir decaindo aos poucos. Mas 'não se escolhe'.

De qualquer forma, meus Caros Leitores, caso o que escrevi vos incomode e se sintam precisados de alguma fantasia, então aceitem o convite e desçam até ao post seguinte. Aí tudo é o oposto. Uma alegria.

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Mergulhos de chapa, caminhar sobre as águas e outras peripécias:
enter the game


A casa parece-me bem. Gosto de casas amplas e luminosas entre pinheiros. Também gosto de piscinas com zonas de luz e sombra, onde cheira a campo. Portanto, por aí, tudo bem.

Também gosto dos sapatos. Já a carteira me parece de gosto algo duvidoso. Nem percebeo se aquilo tem um ar prateado, se plastificado. Mas não queria para mim.

Quanto ao primeiro movimento que parece ir resultar num mergulho de chapa, percebo-a. Não sei porquê, nunca fui dada a mergulhos encarpados. Vejo os que me rodeiam, pimentinhas incluídos, tudo a chegar à beira e, braços à frente, aí vão eles, mergulho bem desenhado. Eu não. cho que, se me atirar assim, o mais certo seria parecer um gato espalmado na água. Nem tento. Sempre fui mais na base de entrar suavemente ou, quanto muito, de pé, de salto, dedos a tapar o nariz. Mas, enfim, a ela afinal não lhe sai um chapão pois o que se vê é que, biblicamente, ela caminha sobre as águas.

Também gosto do gesto dela de sacudir os sapatos para bem longe para, de seguida, desafiar as leis da gravidade. Isso gosto de ver mas nem me ocorreria fazer: cairia redonda no meio do chão (e que os puristas que pluvuiometricamente esquadrinham o mal-falar e pior-escrever que por aí há que me desculpem tanto nonsense numa só afirmação mas é o que se me soa.)

O vídeo não é recente e, depois do que aqui se vê, já muita intriga e bons auspícios aconteceram na vida de Marion Cotillard mas o algoritmo do YouTube é sábio. Sabendo que estes dias têm sido puxados e que estou mais para lá de bagdad do que fresca e mimosa, propõe-me cenas dizendo que acha que vou gostar ou, descaradamente, diz que escolheu para mim e pimba, uns quantos vídeos. E acerta, caraças. Geralmente acerta. Eu, de fizesse um algoritmo destes, escolheria alguns índices: elegância, bom gosto, humor, irreverência, boa música, dança, arte, moda. Coisas nessa base. E talvez também aparecesse coisa de meu agrado. Mas assim é bom, nem tenho que pensar num assunto. O YouTube serve-mo de mão beijada. 
Eu explico. Estou a milhas da actualidade. Não saberia de que falar. Agora a casa está tranquila e as tropas recolheram às suas guarnições depois de dois dias de aquartelamento. Nem energia para passar as fotografias para o computador eu tenho. Quando há pouco me preparava para aterrar aqui no sofá, já o meu marido estava estendido no dele. Passava o Passos Coelho a dizer disparates nem sei onde. Perguntei, admirada: 'Estás a ouvir isso...?'. Com o comando sem pilhas e quase incapaz de se mexer, respondeu que o láparo estava a dizer os mesmos disparates pela segunda vez, a repetir o que tinha acabado de dizer e que os jornalistas não lhe tiravam o microfone da frente. Perguntei-lhe o que é que o outro estava a dizer. Respondeu: 'Sei lá. Achas que presto atenção?!?'. Pronto, nem referi a aparente incongruência. Limitei-me a ir eu mudar de canal à mão.
Tirando isso, nada. Não sei de nada. 

Portanto, não faz mal que o vídeo não seja de agora porque é bom na mesma e agradeço que mo sirvam de bandeja.

Marion Cotillard - Enter The Game



Engraçado também é o making of. E o engraçado também é que parece que já estou com fome. Acabei de jantar há umas duas horas e já estou como se nem tivesse comido nada. Nos dias de barafunda, acho que o meu cérebro não processa que estou a refeiçoar e, portanto, dá sinal de que está na hora. Cérebro mais desapassarado, o meu. Mas adiante.

Behind The Scene "Enter the game"


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E talvez até já.

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sábado, agosto 26, 2017

Esculpir a pedra


Quando eu andava no liceu tinha uma colega de quem eu gostava muito. Para além de ser uma boa pessoa, nada conflituosa, a milhas de intrigas, ciúmes ou mal entendidos de qualquer espécie, tinha uma característica que me fascinava: desenhava muito bem. Uma vez, fez umas bailarinas que me deixaram perdida de admiração: com umas pinceladas as meninas que dançavam ficavam com tutus, os tules eram transparentes, os cabelos bem apanhados. E as pernas tinham movimento e os braços elegância e as mãos delicadeza.


Duvido que ela conhecesse as meninas bailarinas de Degas. Eu assistia espantada à sua mão que, de uma penada, trazia vida ao que ali nascia.

Na sala, sentava-se atrás de mim. Toda a gente sabia porque o fazia. Era fraca a matemátiva, a física e, basicamente, a tudo o que tivesse que ver com números. E eu deixava-a copiar tudo o que ela quisesse. Bastava que me desse um toque nas costas que logo eu escrevia de lado, de modo a que ela, mal apanhasse os professores distraídos, pudesse orientar-se.

Não têm conta as vezes que ela e eu fomos ameaçadas de que nos anulavam os testes. Mil lições de moral eu recebi, tentando explicar-me que eu não estava a ser amiga dela pois ela assim não se esforçava. Na minha inocência, nunca dei ouvidos a esses sensatos ensinamentos. Por vezes, antes dos testes ela vinha tirar dúvidas e eu percebia que ela não sabia nada nem nunca haveria de lá chegar. Se eu não a deixasse copiar, ela teria negativa -- disso eu tinha a certeza. Eu era a melhor aluna da turma e ela nem por isso e, no entanto, eu nutria por ela profunda admiração, como se soubesse, no meu íntimo, sub-conscientemente, que ela se situava num patamar muito superior ao meu. Nunca na vida eu seria capaz de desenhar como ela, de pintar como ela. Lembro-me de uma pintura do mar. Todos fizemos pinturas básicas. Só o mar dela tinha movimento, reflexos, profundidades, cheiro, som.

Ela poder prosseguir a sua vocação sem ser apeada por não perceber boi de equações ou fórmulas químicas parecia-me da mais elementar justiça. Sempre tive muito claro dentro de mim que eu deveria ajudá-la a ver-se livre daquelas disciplinas que lhe davam conta do juízo para poder dedicar-se, livremente, àquilo de que gostava. 

Hoje é uma escultora prestigiada com obra espalhada pelo mundo. Não se limitou ao desenho e à pintura, avançou pela materialidade das imagens que se formavam na sua cabeça. Mostrou a garra que tinha e, pelos vistos, as fórmulas matemáticas e as leis da física e da química não lhe têm feito grande falta. Ou talvez tenham, que a matemática e a física são sempre úteis. Mas não devem servir para castrar quem para aí não está, de todo, virado. Trabalhar a pedra não é para qualquer um: é preciso força, persistência, uma grande energia e entrega. Não é qualquer princesa que consegue dominar os elementos. 

O vídeo abaixo mostra bem como é.

An artist measures her face inch-by-inch. 3 weeks later, it's a stunning masterpiece.


Anna Rubincam, a escultora de quem acima mostro duas das suas obras



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E queiram, por favor, descer para verem como pescar um beijo
Perdão, um peixe. 
Perdão, peixes aos beijos. 

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Pescar um beijo


Nem tudo o que parece é. Nem tudo o que é parece. Nem sempre quem muito porfia alcança, nem quem muito caminha lá chega. Nem sempre quem alça a perna toca a cabeça, nem sempre dentro da valise vai o dossier do executivo. Nem todas as bocas são mornas, nem todas as línguas são apetitosas. Nem tudo o que anda tem pernas, nem tudo o que nada nada dentro de água. Nem sempre quando se pesca, se apanha, nem sempre quando se beija, é um peixão que se beija. Nem todas as bocas se atraem, nem todos os peixes se amam.

Nem sempre que se teoriza se filosofa, nem sempre que se filosofa se acerta. Nem sempre que se escreve, se diz. Nem sempre que se diz, tudo se aproveita.

Tem dias. 

Fish Kiss


[Para ver até ao fim. E em boa hora me apresentaram Alexander Ekman]


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Um sábado muito bom para todos quantos aqui estão na minha companhia.

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sexta-feira, agosto 25, 2017

Bonecas e bonecas


Por vezes, vejo uma coisa e resvala-me a reacção para a incompreensão. Depois, dou-me conta do preconceito que me enforma e logo tento condescender, aceitar a diferença, perceber que há quase sempre uma causa profunda para aquilo que, à superfície, parece uma aberração.

E é neste ponto que agora estou: tentando não fazer juízos de valor e puxando pela minha mais profunda aptidão para aceitar que tudo (ou quase tudo) deve ter o seu lugar no mundo e ser respeitado, apesar de tudo.

Lulu Hashimoto, a ‘living doll’ model, poses on a crossroads in central Tokyo

(The Guardian)


Lulu Hashimoto é uma boneca humana. Na prática, uma pessoa mascarada. Melhor, a usar um disfarce. O outfit inclui máscara, cabeleira, vestuário e meias. Quem criou a personagem Lulu foi Hitomi Komaki, uma designer de 23 anos.


Lulu não é a única. Vai participar no concurso Miss iD, um concurso no qual participam avatares, bonecas, figuras da ficção digital -- cerca de 4.000, ao todo. 
The pageant, which includes "non-human" characters generated by artificial intelligence and three-dimensional computer graphics for the first time, will announce a winner in November.

Lulu's ability to blur the line between reality and fiction has mesmerized fans on social media, where the Lulu Twitter and Instagram accounts have drawn tens of thousands of followers. (...)

Começamos a entrar naquele extraordinário mundo novo em que as coisas ganham vida própria e em que começamos a assistir a episódios que parece não fazerem sentido, pelo menos à luz da tradional racionalidade humana.

Não vou chamar para aqui o que para aqui não é chamado mas uma coisa é certa: a facilidade com que algumas pessoas se deixam seduzir por uma realidade paralela em que a desumanização parece coisa atraente deveria dar que pensar.

Por cá ainda não estamos tanto nessa. O Japão e países quejandos são terreno fértil para bonecas com toque humano, que simulam emoções e que conversam como gente. E robots de toda a espécie. E jogos que conduzem humanos. Para nosso bem, a nossa bem amada santa terrinha parece ainda estar distante dessa realidade transformada.

O aborrecido disto é que, com a facilidade e abrangência da difusão de novidades e aberrações, o que parece uma tontice no fim do mundo, num instante está a ser adoptada por gente perto de nós. E mesmo que não seja adoptada, é tacitamente aceite. A desumanização vai seguindo o seu caminho perante a desatenção dos humanos.

Aqui há dias uma notícia assustadora da qual (quase) ningém deu notícia.

Facebook shut down an artificial intelligence engine after developers discovered that the AI had created its own unique language that humans can’t understand. Researchers at the Facebook AI Research Lab (FAIR) found that the chatbots had deviated from the script and were communicating in a new language developed without human input. It is as concerning as it is amazing – simultaneously a glimpse of both the awesome and horrifying potential of AI. (...)


Coisa aterradora. Dizem que este motor de Inteligência Artificial foi travado. Mas terá sido? É que tudo isto se traduz em programação que facilmente é copiada por um qualquer artista que resolve dar-lhe continuidade sem que ninguém se dê conta. Termina assim o supra citado artigo: If the AI is communicating using a language that only the AI knows, we may not even be able to determine why or how it does what it does, and that might not work out well for mankind.

Um outro artigo merece atenção e, de novo, recomendo a leitura integral: Silicon Valley siphons our data like oil. But the deepest drilling has just begun. Personal data is to the tech world what oil is to the fossil fuel industry. That’s why companies like Amazon and Facebook plan to dig deeper than we ever imagined .

 An Amazon Go ‘smart’ store in Seattle.
The company’s acquisition of Whole Foods
signals a desire to fuse online surveillance with brick-and-mortar business.
[The Guardian]

What if a cold drink cost more on a hot day? Customers in the UK will soon find out. 
Recent reports suggest that three of the country’s largest supermarket chains are rolling out surge pricing in select stores. This means that prices will rise and fall over the course of the day in response to demand. Buying lunch at lunchtime will be like ordering an Uber at rush hour.
This may sound pretty drastic, but far more radical changes are on the horizon. About a week before that report, Amazon announced its $13.7bn purchase of Whole Foods. A company that has spent its whole life killing physical retailers now owns more than 460 stores in three countries. (...)
Não é a partir da boneca humana Lulu que podemos inferir que o mundo está a caminhar para a sua destruição. Não é. Mas aqui e ali vamos vendo como são acarinhadas manifestações destas, em que as pessoas se disfarçam de não-pessoas ou em que,alegremente, se põem em pé de igualdade pessoas e não-pessoas. E parece que não percebemos que já há funções desempenhadas por não-pessoas e que o caminho que se está a percorrer relega-nos a nós, pessoas, para um papel que pode vir a ser marginal (na melhor das hipóteses).

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A girl holds a picture of her brother,
who was allegedly killed in Yemen’s ongoing conflict, during a rally against Saudi-led airstrikes

[The Guardian]



E, enquanto isso, no mesmo mundo, exactamente no mesmo pequeno planeta, assiste-se a manifestações que vão no sentido exactamente oposto. Ou não. O mesmo desprezo pelos humanos. Não será por via da robotização mas da mais pura maldade. Ou não. Ou não. Há conceitos que não têm o mesmo significado quando as culturas prezam valores distintos.  Na fotografia acima uma menina que quase parece estar vestida como uma bonequinha  -- mas que, infelizmente, vive uma vida que não é brincadeira nenhuma -- também numa rua e, identicamente, em Sana’a tal como em Tóqio, ninguém parece prestar-lhe muita atenção, como se nada destoasse da normalidade. Mas, por aqui, no Iémen, não é lugar para a delicada Lulu Hashimoto se vir fazer fotografar .

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No meio deste mundo díspar e perigoso, mil vezes as rêveries que nos trazem alegres melodias, sorrisos, tules, cores de rosas, elegâncias. Alienação, talvez. Mas qualquer coisa à escala humana, não ameaçadora. O vestido parece um vestido de boneca, ela é bonita e poder-se-ia dizer que é bonita como uma boneca mas, convenhamos, é uma mulher que não esconde nem desmerece o seu género humano.

Consegue usar alta costura na sua vida real?


A música é Mademoiselle Melody por Pierre Terrasse, La Griffe. 
A modelo é Solange Smith e veste um vestido de Giambattista Valli.

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Contradições


The Contradiction of Silence -- coreografia de Alexander Ekman



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