Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, março 31, 2017

As belas esculturas que Cristiano Ronaldo,
o reluzente filho da Srª Dona Dolores, descobridor da Madeira e dono do aeroporto,
inspirou





Não contem comigo para peditórios velhos e relhos. Não estou nem aí. Quaresma & Raminhos e a escaldante guerra nas redes sociais, Abraham Poincheval armado em galinha poedeira, Ronaldo e Georgina Rodríguez, a actual namorada, Ronaldo e mamãe, Ronaldo e os gémeos que aí vêm -- não quero saber disso para nada. 


Bem tento descobrir temas nobres mas o esforço é inglório. Espreito as notícias e confirmo: ainda anda tudo às voltas com a futebolização do país (Pacheco Pereira dixit). 

Quando, no outro dia, ouvi que iam dar o nome Cristiano Ronaldo ao aeroporto da Madeira achei que era uma piada. Não liguei. A minha elevada craveira intelectual não morde qualquer isco. Reservo-me para altas discussões, coisas de lesa-majestade, questões fracturantes. Portanto, passo ao lado do milho que gentinha à toa atira aos pardais. A mim não, bebé. 


Portanto, arredada que ando das minudências político/sociais e sem que a piolheira exale qualquer bafo que me faça levantar a atenção do Brandão, por aqui me tenho entretido. A Marilú na última fila a ver se não a maçam e se pode trabalhar à vontade para a Arrows, o Láparo a atravessar o deserto a ver se desencanta ou o diabo ou algum dos reis magos, qualquer coisa he serve, o Portas a facturar, retirado da equação pafiana, a Cristas a tentar perceber como posicionar a coxa grossa, a candidata leal ao láparo a tentar pereber como apagar as faltas da pauta -- uma pasmaceira que apenas faz alastrar o spleen que teima em querer cobrir-me.


As notícias são belas, a Caixa recapitalizada, o Novo Banco parece que finalmente minimamente encaminhado, o Montepio a ser tratado, e até o Economist esbugalha os olhos sem perceber como é que o motorista da geringonça consegue subir as pensões ao mesmo tempo que desce o défice -- mas até isso já parece normal. Quem ouça o lúmpen que invadiu os balcões televisivos ou leia as croniquetas avençadas que poluem os sites de jornais até parece que toda a vida viveram com um déficezinho na ordem dos 2%, como Centeno conseguiu. Coitados, que memória curta têm estes doentes mentais. Há uns meses juravam a pés juntos que isto era uma miragem, não largavam a labita do Costa e do Centeno a pedirem o plano B. E, recuando ainda mais, aí andavam estas galinhas descerebradas a garantir que não havia alternativa à austeridade e que quem não estivesse bem que se mudasse. E agora, despudorados, fazem de conta que nasceram ontem, desvalorizando as melhorias conseguidas por este Governo.]



Encolho os ombros. Vou dizer o quê sobre estas indigências que pululam por aí, incapazes de reconhecerem o valor a quem o tem? Não consigo dançar tão pífias danças. Guardo-me para quando começar a campanha para as autárquicas, que aí devo ter anedotas com que me rebolar a rir a toda a hora.


Portanto, enquanto isso, ponho algumas leituras em dia.
[E ó pr'a mim metida a besta, a fazer de conta que leio coisa de jeito, eu que nem li os Ulisses que por aí circulam, nem a Bíblia do Fred, nem tão pouco o Proust de fio a pavio (e acho que nem devidamente salteado -- não me lembro, se li alguma coisa varreu-se-me, só me ficou o título mais mediatizado). Ignorante de dar dó. Mas não faz mal. Até porque, talvez vocês não acreditem, isto de uma pessoa se manter ignorante dá um trabalho do catano (já lá dizia o outro, não sei se o tio do Bruno, se um brasileiro ou brasileira qualquer que parece que fez para aí uns versos obscenos ou lá o que era).]

Mas onde é que eu ia?

Ah, sim. Tirando isto, apenas uma surprise. O aeroporto ficou mesmo a chamar-se 'Aeroporto do filho da D. Dolores' e a dita foi lá -- toda produzida e franjuda, de mão dada com a suposta namorada do Cristiano -- receber o Professor Marcelo enquanto este e mais o Costa inauguravam também um busto muito lindo do poeta, navegante e estadista CR7. 


A afamada obra escultórica (tão afamada que chegou à 1ª página da não menos afamada Vanity Fair) é da autoria de Emanuel Santos que às críticas responde: É impossível agradar a gregos e troianos. Nem Jesus agradou a todos. Isso é questão de gosto, não é tão simples como parece. Já vi obras de grandes artistas que seguem esse parâmetro. O que interessa é o impacto que essa obra gerou". Nem mais.


Cristiano Ronaldo  avoa-avoa


Leio e ouço altas discussões, que não faz sentido, que um futebolista não tem dimensão, antes o Alberto João, antes o Herberto Helder, antes o Max. Não me empolgo. Era o que me faltava ralar-me com tais frioleiras. Eu é mais bolos.

Só acho que aquela estátua é muito convencional. Se me têm pedido a mim, fazia uma estátua animada, o Cristiano a dançar, todo hot e depilado. Isto, sim, seria uma recepção condigna aos turistas que visitam a Madeira, ex-pérola do Atlântico e agora baptizada como Ilha Aveiro Family.



Tirando isso, meus lindos, nada mais tenho a dizer.

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As derivações do busto do Cristiano foram obtidas aqui.

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E queiram, por favor, descer para verem arte pura, coisa a sério.


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Nuno Rogeiro warholiano.
Paulo Rangel quitado


Sei que há umas leitoras que desesperam por não conseguirem catequisar-me: com tanto que me têm ensinado já eu devia estar careca de saber que não é bonito falar do aspecto físico das pessoas e, volta e meia, parecendo que não, estou a chamar gatos aos homens bonitos ou láparos aos coelhos. Isto para não falar de coisas piores. Um caso perdido.

Pois bem, tenho uma boa notícia para elas. Fazem favor de colocar uma estrelinha na minha caderneta porque hoje estou aqui para mostrar que já aprendi. Nem uma palavrinha sobre a carinha laroca que embeleza este post.

Mas contextualizo: estou refastelada no sofá, o Raul Brandão e as suas Memórias aqui ao meu lado e eu dedilhando com gáudio a sua suculenta prosa enquanto o meu marido vai fazendo zapping. De quando em quando, alguma coisa chama a minha atenção. Mesmo agora foi uma voz. Olhei e parecia-me uma velha de mise, com boquinha de rosa e de gravata. Sou míope, como já vos contei. Mas a voz era a do Rogeiro. Perguntei: '...Mas é o Rogeiro...?'. Era mesmo. Estiquei o braço e saquei da machine

Mas já me conhecem. Dou luta. Negoceio até comigo mesma. Quero eu dizer: privar-me de palavras exigiu de mim uma contrapartida: e, assim sendo, cá estão elas, trabalhadinhas para ele ficar ainda mais lindo. Ou seja, eizi-as, les photos quase photoshopadas.

Aqui está ele, tal e qual, mais coisa menos coisa

Colorido

Na versão zeke

E, para terminar, Iluminado

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Quanto ao que ele disse não posso pronunciar-me. O zapping impede-me a análise.

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Bolas. Outro zapping. 

Agora a coisa já descambou de vez: já vamos no Paulo Rangel. 

Aqui em versão rósea-quitadinha


E pronto. Agora a ver se me concentro em coisas que valham a pena


quinta-feira, março 30, 2017

O receio no olhar dela


Talvez não seja o tempo de cobardes considerações teóricas sobre os equívocos da meritocracia em termos de selecção dos cargos de chefia (até porque em geral as pessoas escolhidas, i.e., os sobreviventes, serão, com toda a certeza, lamento, os piores de nós). Talvez seja, sim, o tempo de conceder a igualdade de acesso às mulheres no comando da sociedade. Quanto aos resultados, logo se vê.

(in O Elogio da Derrota)


Se me deslocar para uma outra das minhas dimensões, consigo perceber como vêem o meu mundo as pessoas que estão longe dele. Acredito que -- com aquele sentimento de superioridade intelectual que caracteriza as pessoas que se sentem ungidas de um repelente contra tudo o que vagamente se pareça com poder -- vejam aquela parte do mundo onde existem chefias e chefiados como um pedaço de anti-matéria da qual mais vale guardar distância.

Poderia argumentar que essa parte do mundo é apenas um sub-conjunto do mundo e quem nele habita é uma amostra da população no seu conjunto, mas falta-me a verve para encontrar argumento certeiro. Digo apenas que, do que tenho visto, ninguém é melhor ou pior por trabalhar numa empresa ou ser free lancer ou, trabalhando numa empresa, por ser chefia ou chefiado.

Trabalho em contexto empresarial há tanto tempo que consigo estabelecer correlações ou identificar quando elas não existem. Que há muito cretino que chega a cargos de chefia é um facto mas eles estão na mesma proporção dos cretinos que são chefiados (ou dos cretinos que não são chefes nem chefiados). 

Antes de trabalhar em empresas, dei aulas durante dois anos e picos. Não via a hora de sair de lá pois, sendo ainda menina e moça, a ingenuidade era total e a verdade é que não suportava perceber que havia tantos professores cretinos.

Já fiz aquelas coisas de pós graduações e quejandas, tendo contactado de perto com alguns crâneos do mundo académico, alguns dos quais tendo carreiras ministeriais ou outras. Confrangedor como até num meio supostamente superior fui encontrar tanto cretino.

Ou, se me reportar a uma profissão atípica, a dos escritores, dou com a mesma realidade: por cada um que é genuíno e em quem se reconhece o toque da genialidade, encontramos uma mão cheia de cretinos. Dir-se-á: os cretinos não contam. Mas quem é que diz isso? Na verdade, os cretinos são os que mais vendem. Se lhes dedicarmos um minuto da nossa atenção, ouvi-los-emos dizer que os críticos os fustigam mas que os leitores os amam de paixão e que é para os leitores que escrevem. E quem é que decide quem é o melhor juiz, se é o crítico que tantas vezes é um pedante ou um cretino encartado, se é o leitor que tem a carteira suficientemente recheada para comprar os livros que quiser?

De cretinos em cargos máximos na política nem é bom falar. Por um qualquer mecanismo de autofagia que dificilmente se compreende à luz das leis da razão, de vez em quando os humanos escolhem os seus piores para os governarem. Não precisamos de pensar no caso de Trump pois isso aconteceu-nos por cá até há pouco tempo. Mesmo na Europa também até há pouco tempo lá esteve alguém que bem conhecíamos e de quem todos bem nos envergonhávamos (e não é que agora quem lá está faça grande diferença). Mas, por cada cretino eleito, há muitos mais cretinos que os elegem.

Ou seja: cretinos há muitos e estão por todo o lado.

Podem os que vivem num habitat à margem do mundo mainstream achar que a sua redoma os protege da cretinice do mundo mas, de facto, apenas os isola, tornando-os, assim, mais solitários ou, pelo menos, desconhecedores do que se passa em sua volta. Podem diabolizar a realidade que desconhecem mas, enfim, estarão apenas a ficcionar.

Quanto ao género, não faço distinções quanto ao mérito. E é sensata a dúvida sobre o que é o mérito pois o mérito é sempre uma abstração tão relativa que nem vale muito a pena falar nela. 
Por exemplo, se a pessoa desempenha uma função na qual se exige pouca conversa e muita acção, a um fulano que disserte compulsivamente, invocando cinquenta mil argumentos e socorrendo-se amiúde de autores conceituados, poucas pessoas lhe reconhecerão mérito. Mas pode acontecer que tenha a sorte de ter uma chefia que a ele e aos seus dotes de oratória reconheça alguns méritos para outra coisa qualquer e o encaminhe para onde a sua conversa atrapalhe menos. Tudo relativo e irrelevante. 
Mas há, do que tenho longamente observado, diferenças comportamentais entre homens e mulheres e uma das que mais se destaca é o receio que os homens têm de ouvir um não. Todos se tolhem com receio de um não. As mulheres, em geral, são mais ousadas e um não está longe de as assustar. E isso faz toda a diferença.
Não me aventuro por caminhos retóricos pois, certamente, por eles iria de tropeço em tropeço. Gosto de prosear mas conheço as minhas limitações -- limitações até de paciência. Dirijo-me, pois, para a conclusão.
Anos de machismo numa sociedade que até não há muito era fechada (e que, na província, ainda o é) levaram a que os homens se tivessem habituado a reinar. Preservam-se apenas porque está nos genes preservarem-se. Na hora de escolher um par, mais facilmente escolhem um dos seus, alguém com quem podem fazer almoçaradas, falar de bola e de gajas, interromper reuniões para ir ver futebol (ao vivo ou na televisão) e, claro, com quem podem contar para não hostilizar, para não fazer ondas, para não fazer perguntas incómodas -- tu não me chateias e eu também não te chateio.

Furar este círculo que se fecha sobre si próprio só à força.

E concordo: não é por haver mais mérito nas mulheres, é porque não faz sentido que as mulheres não estejam presentes ali como em qualquer outro lugar. (E, se tudo correr bem, talvez se façam sentir algumas ondas o que, como se sabe, é bom, as ondas geram energia, para além de serem um plus estético.)

Estamos de acordo, pois, na conclusão. Contudo, andamos por caminhos diferentes para lá chegar. 
(E, para ilustrar o texto, porquê uma mulher com um olhar tão receoso? Perante um desafio, alguma vez as mulheres se encolhem, com medo do desconhecido...? É que nem pensar.)
Talvez mais isto.

(O cigarro aqui é apenas para fazer pendant com o da Sean, lá em cima)

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E, para o cérebro do passarinho cantautor queiram, por favor, descer um pouco mais.


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Os pássaros têm bom ouvido para a música?


Os meus Leitores enviam-me anedotas, vídeos, artigos. Tantas vezes já o tenho dito: muitas vezes não consigo ter tempo para ler tudo no dia em que mos enviam. Depois, quando acontece uma aberta, ponho a matéria em dia. 

Contudo há mails que é como se viessem cheios de campainhas. Mal abro a caixa de correio, logo despertam a minha atenção. Foi o caso de um que se anunciava como contendo música para os meus neurónios. Bingo!

E foi deliciada que o li. A natureza é fabulosa e o cérebro é uma caixa cheia de mistérios, incluindo o dos little birds.

Gostava que o lessem. Especialmente quem olha para os animais por cima da burra devia lê-lo atentamente.

Neural Activity Reflects a Bird’s Perception of How Well It Sings


Zebra finches dial down dopamine signaling when they hear errors in a song performance.


NEGATIVE FEEDBACK: In the brain of male zebra finches, dopaminergic neurons (green arrows) project from the ventral tegmental area (VTA) to Area X, a region known to be required for song learning. Researchers from Cornell University found that these neurons encode singing errors by suppressing dopamine signaling when the bird hears itself producing an incorrect note, which researchers simulated by the introduction of distorted audio feedback at specific syllables (1)—and boosting dopamine signaling when the bird correctly produces a note that sounded incorrect in previous attempts (2).


Todo o artigo é espantoso e, como disse, recomendo a sua leitura mas até foi o último parágrafo que mais despertou a minha atenção:
Gadagkar is now exploring dopamine-based song evaluation in the presence of the bird’s intended audience: a female. “These birds sing in two modes, practice and performance,” he says. “When he’s singing to a female, it’s game on. So what happens when you sing to a female and make a mistake?”
Um pássaro canta de uma maneira quando está a ensaiar e de outra quando está a representar para aquela a quem quer cativar...?! Chamem-lhes parvos.

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Veja-se também como há machos que não têm jeitinho nenhum para as artes da sedução. Este tentilhão aqui em baixo, armado em bom, todo ele a exibir os seus dotes vocais e sem o mínimo de souplesse, tudo meio à bruta. Depois ficou muito admirado que ela o deixasse a cantar sozinho. 

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E thank you very much ao Leitor que me enviou tão interessante artigo.

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Até já.

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quarta-feira, março 29, 2017

Coitado, tão feio. Mas uma ternura.




Sofria -- sofreu. 

Amachucado, traído, aos empurrões de todos, sucedeu-lhe a pior coisa que pode acontecer à matéria: veio-lhe fastio. 


Grotesco, feio, com a existência aos baldões, sem um bocadinho de ternura (a morte leva-lhe todos os amigos), rei ainda por cima, as suas anedotas, a sua vida, a sua figura, são ainda hoje motivos de grotesco... 

E no fundo, sob essa capa ridícula, por baixo da barriga, da papeira, da beiça, do olhar desconfiado, havia, houve sem dúvida uma ternura enorme. 

A mulher traíu-o; os filhos enganaram-no e mentiram-lhe; teve de fugir, de se livrar do veneno, das revoltas, da intriga, sempre a encostrar-se à amizade deste, daquele, dos generações, dos embaixadores, dos ministros, dos criados.. Não foi uma grande inteligência nem um grande carácter, mas foi uma extrema bondade. Passou a vida a afligir-se. 

Por qualquer lado que se encare é um motivo de chacota. 

É o senhor D. João VI -- é o pataco -- é o rapé  -- é a beiça... 


É -- mas é também o melhor homem da sua época, e, sob o grotesco, encontras uma grande beleza escondida, sumida, escarnecida. 


Sofria -- sofreu.

[in 'El-Rei Junot' de Raul Brandão]

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[E agora, depois de tanta maldade -- sim!, que, francamente!, não é bonito troçar do aspecto físico de tão clemente e régia figura -- aliviemos a consciência bailando uma chaconnne. E nada de trazer para a dança a memória desse herege do Raul Brandão que aquilo não são modos de falar, em especial a propósito de um rei tão determinado e formoso, tão gastronomicamene alavancado em coxinhas de galinha.]



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E depois deste meu momento bem comportado, de cariz histórico/literário, queiram, por favor, descer até onde esclareço um ou outro ponto relacionado com ilusões de óptica e outras cenas.

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Sobre ilusões de óptica, ilusões de escritas, altos e baixos, feios e bonitos.
E sobre prestimosas evangelistas.


Isto de uma pessoa se pôr para aqui a escrever comporta alguns riscos. Escreve-se a pensar numa coisa e, certamente por falta de habilidade na escrita, quem lê, interpreta de outra maneira.


Por ângulo de filmagem ou por utilização de qualquer outro recurso, a imagem que passa é que as pessoas que vemos na televisão têm muito mais altura do que têm na realidade. 
No entanto, alguém me recriminou por achar que eu estava a troçar do aspecto das pessoas. Ora, como eu achava que estava bem claro, ao escrever, eu referia-me apenas à diferença entre o que nos era dado a ver pelas televisões e o que era na realidade.

(Claro que nem me referia à maquilhagem que isso nem tem nada a ver com ser na televisão ou ao vivo. Por exemplo, há dias estava a almoçar ao lado de conhecida apresentadora e só me dei conta disso pela voz. Sem maquilhagem e vestida 'à civil' era outra pessoa.)

E claro que também não tenho nada contra nem a favor o aspecto físico das pessoas. É o que é. Se a mim me disserem que sou bonita fico tão indiferente como se me disserem que sou feia. Ou que sou alta ou baixa. Nada posso fazer contra isso. Posso disfarçar, pintalgar-me, usar saltos altíssimos, mas, na hora da verdade, quando saio do banho, sou o que sou.

Isso, no entanto, não me parece motivo para ignorar as características físicas de alguém. Se eu, para caracterizar o aspecto de uma pessoa, disser que ela é alta, que mal tem isso? Só tem mal se eu disser que é baixa? Porquê? Preconceitos provavelmente na cabeça de quem lê... não?

Eu, pelo menos, penso assim. Sem dramas, sem casos, sem moralismos bafientos.
Não tenho altura recomendável para jogar basket? Paciência. Faço caminhada.  
Não tenho medidas adequadas para desfilar ou para vestir roupa tamanho XS de estilistas? Paciência. Visto o que me serve. 
Não sou linda de morrer? Melhor, assim não fico com peso na consciência por matar de amores quem em mim depositar o olhar.
Mais. Quem disse que só as esculturais criaturas são merecedoras de admiração e referência? Eu não fui. 

A história está cheia de celebridades (artistas de cinema, cantores, pintores, escritores, filósofos, etc) que, não obstante o seu aspecto físico estar longe dos cânones da beleza, ficaram ou ficarão para a história como carismáticos agentes de sedução, de paixões incendiárias e de amores eternos. E, de maneira geral, mais interessantes (pelo menos para mim) são aqueles que têm um toque de imperfeição do que os que nos aparecem com ar de quem tem como ocupação principal o culto do físico.

Portanto, que não subsistam dúvidas: para mim, gente é gente e ponto final. E ponham-lhes em cima lentes de aumentar ou de adelgaçar, quilos de maquilhagem ou recheiem-nos com toneladas de moralismos ou de citações literárias ou filosóficas que eu continuo na minha: gente é gente. (E, para o meu gosto, quanto mais ao natural melhor.)

No entanto, e embora não fosse, de todo, o tema do post de ontem nem é decorrência do que acima escrevi, que uma coisa não seja escamoteada: 
Por exemplo, David Gandy.
E, tendo estes óculos,
capaz de, em cima do resto,
ainda ser intelectual
Não ignoremos as estatísticas nem o que lhes subjaz. Mostram os estudos que as pessoas tendem a sentir-se atraidas por quem é mais bonito -- e, por bonito, entenda-se o que obedece a padrões comummente aceites, como, por exemplo, os que respeitam à simetria. E a razão é simples: supostamente, com a simetria vem uma maior resistência física, nomeadamente resistência a doenças e, como derivada dessa melhor forma física, não sei se primeira, se segunda, vem a maior aptidão para a reprodução. E nisto não nos esqueçamos que somos animais e, parecendo que não, é bom que nos lembremos que a continuidade da espécie é relevante. Identicamente, intui-se que um macho calmeirão terá mais aptidões para defender a fêmea de assédios indesejáveis, para a proteger do lobo mau ou para guardar a gruta do que um franganote. Já não estamos aí mas os genes guardaram estas preocupações ancestrais. 
Portanto, sem grandes moralismos e com alguma racionalidade, aceitemos as coisas como elas são.

Da minha parte, devo dizer que há, contudo, algumas coisas que me maçam um bocadinho. Por exemplo, no outro dia uma vizinha que não via há meses, talvez a única que conheço, pessoa de alguma idade, ao ver-me ao longe, veio de braços abertos, sorrindo, depois abraçando-me: 'Está bonita... mais gordinha...'. O meu marido manteve-se prudentemente ao largo pois, se a conversa se prolongasse, punha-se ao fresco. Mas ainda assim ouviu-me e, no gozo, relatou a cena aos filhos. 'E ela, voz sumida, disse - ah... isso não são boas notícias...' Já não é a primeira vez que esta vizinha me faz esta. No outro dia, no médico, queixei-me. Ele que não, que 'para a sua idade está muito bem'. Caneco. Para a minha idade?! Pior a emenda que o soneto. Mas eu, esquecendo esse factor da idade, acho que devia perder 3 a 4 quilos. Um dia destes ainda me atiro ao assunto.

Mas, descontando esse desconsolo momentâneo de ouvir dizer que estou mais gordinha, quero cá eu saber que me achem alta ou baixa, magra ou gorda, loura ou morena, nova ou velha, míope, estrábica, olhos azuis de ciúme, verdes de traição ou negros como o queixume, canhota ou dextra, poderosa ou franzina. 

Mas, enfim, parece que tenho que aceitar este castigo: acho que há leitores que treslêem o que eu digo ou, então, que acham que devem educar-me à força. 

Mas uma coisa lhe conto, Cara Leitora que quer evangelizar-me e a quem, obviamente, agradeço o esforço: ontem escrevi sobre ilusões de óptica mas também já me aconteceu provocar ilusões d'escritas, nomeadamente ficcionar à grande e à francesa e, imagine, virem recriminar-me por estar a inventar sobre a única coisa que era verdadeira no texto.

Não é fácil. Mas quem corre de gosto não cansa -- e quem vai à guerra dá e leva e grão a grão enche a galinha o papo e devagar se vai ao longe e não há fome que não dê em fartura e branco é, galinha o põe.

Portanto, ficamos assim. 

E, entretanto, vou ficar aqui, muito bem comportada, a pensar, a pensar, a ver se me ocorre alguma causa nobre sobre a qual escrever.


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Mas, se me permitem, vou ficar com a Alice Francis a dar um pezinho de dança.
Juntem-se-nos que isto está muito calmo, está mas é mesmo a pedir uma farrinha.


E até já.

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terça-feira, março 28, 2017

Um dia tenho que falar das estrelas de televisão quando são vistas ao vivo


Estava agora aqui a ler a opinião da Agustina sobre os críticos literários e preparava-me já para a transcrever. Mas depois pensei que, às tantas, isto da Agustina é mesmo coisa para clubes do bolinha onde só entram meninos com... (e até ia versejar mas, bem vistas as coisas, arrepio já caminho não porque um verso aqui destoe mas porque o que ia dizer seria redundante) ou, então, para meninas intelectuais de tipo desasado, de saia pendona, sandalonas e franja pelo meio da testa e achei por bem não abusar na dose, não vá os meus leitores acharem que, com tanta Agustina, teriam mesmo que me filiar e não saberem bem para que lado me haveriam de empurrar.


Portanto, fica para outro dia. Críticos e tradutores. Interessante o que ela diz deles.


E, uma vez que hoje me cruzei com mais um sex symbol da televisão portuguesa, capa de vinte mil revistas e tomba corações de trezentas vedetas,  e que, de novo, fiquei a olhar de alto, perplexa, com vontade de o medir a palmo para ver se é ilusão de óptica ou quê, pensei que hoje é que ia aqui desabafar.

É que não há um, senhores, que seja como parece. A gente vê-os, hercúleos, altos, tudo coisa para cima, no mínimo, de um metro e setenta e muitos e, depois, passa por eles e parecem saídos do conto da Branca de Neve. E nada contra quem não se pareça com o  Tarzan ou com a Jane, juro que não, é mesmo apenas espanto. Ao vivo parecem metade do que parecem na televisão.


Já no outro dia, uma super conhecida que eu antevia que fosse mesmo mini-mini. Pois não vos digo nem vos conto. Ponham mini-mini nisso. Sem pinturas, sem saltos, sem aquelas altas produções, era capaz de passar por catraia do 4º ano, ex-4ª classe. Sendo pessoa tão conhecida, ao vivo mal se reparava nela. E gira. Uma miúda gira.

E, ao lado de uma beldade, do mais escultural e carismático que pela televisão tem passado, eu a julgar que era moça para fazer duas de mim em altura e qual quê, mais uma mão travessa se tanto. 


E um jornalista mauzão, que sabe tudo, um importantão que por aí anda sempre a opinar? Quase tudo cabeça. O corpo mal se vê e, na televisão, quem o veja, parece um matulão.


Se eu tivesse tempo falava com pormenor e vocês até percebiam de quem é que eu estava a falar. Assim, fica para a próxima. Mas fiquem a saber: se se apanharem na televisão, já sabem: vão passar por uns calmeirões, que aquilo lá deve ter lentes de esticar em altura.


E, assim sendo, vou indo mas não sem antes -- e porque isto não é post que se apresente, para ver se evito a pateada geral e a devolução do bilhete -- vos deixar com estas imagens retocadas. Explico. As pessoas pedem a James Fridman que dê uma demão de photoshop para retocar um ou outro aspecto. E ele dá. O pior é que o bom do James faz uma leitura literal do que lhe pedem e o que sai nem sempre é o que se espera.


E isto para vos alertar: caso vos convidem para aparecer na televisão, cuidado com a forma como formulam o pedido de melhoria não vá haver por lá algum malandreco como o James e as pernas grandes ainda saírem parecidas com esguias patas de girafa. Isto na melhor das hipóteses.

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Mas desçam para a companhia da Agustina que ficarão em melhor companhia. 
Comigo, já sabem, não se aprende nada.

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Sophia por Agustina
[E reparem num dos motivos pelos quais gosto tanto de Agustina:
dizia ela que
"não há nada pior do que o fastio de se ser sensato"
e isso, claro está, é música para os meus ouvidos]






Aquilo que me ligou à Sophia de Mello Breyner não foi a amizade, que resulta dum contexto de ideias ou duma compatibilidade histórica; quer dizer, do facto de sermos contemporâneos, sujeitos a uma mesma disciplina moral e cultural. Não era isso. Nós tínhamos a capacidade de nos impressionarmos; como as crianças têm. 

Thomas Mann, a dado momento da sua vida, ao ver uma criança a repetir sempre a mesma brincadeira, pôs-se a reflectir sobre isso que lhe parecia extraordinário. Era assim connosco. Tomávamos a sério coisas que no fundo nos divertiam. A Sophia e eu não sabíamos o que era a solidão. O concreto era a aventura, e a poesia era a sua forma de ser concreta.

Falando-lhe eu um dia do Marquês de Pombal e da atitude pessoal que teve no processo dos Távoras, simplesmente não me quis ouvir. Não gostava de discutir as coisas que não eram da sua linhagem intelectual.

Ela dizia que há sempre um pouco de vingança na boa conduta de alguém. 

Debatíamos isto, ela a tomar chá e a fumar. 

Eu replicava que não há nada pior do que o fastio de se ser sensato. Era assim que nos entendíamos. Mas raramente conversávamos. Às vezes pedia-me conselhos e dizia-me: "Não quero bons conselhos, desses estou até aos olhos. Antes aqueles conselhos que se esquecem depressa como o vento que nos desarruma o cabelo.". Era assim que nos entendíamos. Mas raramente conversávamos. Dava muito trabalho defendermo-nos do ciúme de quem disputava a amizade dela. A outra amizade.

Uma coisa era certa. Acabávamos sempre por estar de acordo sobe o Marquês: "Um chato."

Era assim connosco. Era bom.



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Tal como no post abaixo, no qual Agustina fala de Callas, também aqui a selecção das músicas e as fotografias é coisa minha.

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Maria Callas segundo Agustina



Há um ponto de apoio imaginário que dá para levantar o mundo: é a indignação. Nas mulheres, esse ponto obscuro no coração delas, que as faz profundas e sedutoras, é também a indignação. 


Foi assim que aconteceu com a Callas. Tentem compreendê-la e não conseguem. Tentam interpretá-la na sua carreira amorosa e no discurso da sua arte. Não chegam a conclusão nenhuma. Ela foi uma mulher arrebatada pela própria humilhação. Traída, apreciada, castigada e caída em desgraça, a Callas perdura como a pessoa indignada que foi. Não contra os homens, os sistemas, os factos. 


Simplesmente porque o seu ponto de apoio era o canto e este é, confidencialmente, a indignação pura que até o céu comove.


[in 'Caderno de Significados', Agustina Bessa-Luís]


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Vissi D'arte por Maria Callas



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A escolha das fotografias e do vídeo é de minha lavra.

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segunda-feira, março 27, 2017

Eu podia.
Mas melhor fora que o não pudesse.





Eu podia ter cabelos e mãos azuis e os meus olhos abstractos terem chorado cristais também azuis,

e ter ficado assim depois de ter estado a espreitar o futuro.


Eu podia adivinhar os teus pensamentos e saber como o teu coração bate e como suspendes as tuas mãos para receber estas minhas palavras

e ter ficado assim depois de ter lido sobre os algoritmos que adivinham como as pessoas pensam.


Eu podia conseguir que agora ouvisses a minha voz, uma voz sussurrada, segredada apenas aos teus ouvidos,

e ter ficado assim depois de saber sobre a propagação das ideias em ondas infinitas.


Eu podia agora, só para ti, recordar poemas que nunca soube, falas de deuses que desconheço, descrever ruas empedradas que descem até ao mar em ilhas longínquas que nunca visitei, contar-te dos muros brancos onde a luz se desvaira ou do lamento de ninfas que o tempo esqueceu,

e ter ficado assim depois de ter ouvido do tempo e espaço que se retraem e expandem numa intimidade que muitos ousam espreitar.


Eu podia ser pouco mais do que isto, palavras que surgem quando a noite se deita sobre o teu corpo, alguém sem rosto, sem nome, sem existência real,

e ter ficado assim depois de saber como é fácil simular a vida.


Eu podia pousar sobre ti o meu olhar e tu não me veres, podia saber quem tu és sem tu me dizeres, sem ninguém me dizer, tudo saber e tudo calar, devorar o conhecimento e transformá-lo em silêncio,

e ter ficado assim depois de ouvir que tudo, tudo, é possível -- mas saber que melhor fora que o não fosse.



(E daqui, deste lugar algures no espaço, envio um abraço azul a quem me lê)

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E queiram, por favor, descer até onde as formigas em carreiro se cruzam com as redes neuronais e, se um pouco mais, até ao mar em dia de invernia.

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A formiga no carreiro e as redes neuronais
[Ou quando les beaux esprits se rencontrent]


Na sequência de alguns textos sobre os riscos da inteligência artificial (IA) num contexto desregulado e no seio de uma sociedade globalmente alheada destes temas (por exemplo, este post), dois Leitores contribuíram com o seu testemunho em comentários tão interessantes que, na altura, tomei a liberdade de puxar para o corpo principal do Um Jeito Manso (aqui e aqui).


Duas visões distintas: de um lado, o João L. que advoga o primado da inteligência da natureza e a certeza da impossibilidade de copiar ou ultrapassar a infinitude que habita o cérebro humano e, do outro, o Fernando Ribeiro, que nos traz a visão da engenharia que se abisma perante a capacidade quase imparável da tecnologia.


Porque a troca de argumentos continuou nos comentários e porque me parece impossível não dar o máximo relevo a esta troca de ideias, de novo puxo para um post autónomo a opinião de ambos. É um prazer quando les beaux esprits se rencontrent. 

Ilustro com fotografias feitas este sábado in heaven. 
[Não sei se a beleza, a fragilidade, a (im)perfeição da natureza pode algum dia ser suplantada por criações by IA.  Mas talvez isso, um dia, também deixe de ser relevante.]



João L. disse...

Também acho UJM: " os robots estão aí num mundo desregulado e o que não vai faltar é quem os use contra o interesse da humanidade". E o que acho mais preocupante é que os robots, ao contrário dos humanos (da maioria deles!!!), não têm dúvidas. Ou, para para dizer isto de outra maneira, de uma maneira que, em minha opinião, mostra o que separa a inteligência artificial de um cérebro: os robots não se baldam e em vez de ir trabalhar vão dar uma volta, ou às compras, ou andar de bicicleta com um sorriso nos lábios a pensar: "ai que prazer não cumprir um dever". Nós somos "imperfeitos", os robots não. 


Fernando Ribeiro disse...

Relativamente à valiosa contribuição do seu leitor João L, tenho algumas considerações a fazer, do ponto de vista de um simples curioso, que é o que eu sou.

Ao longo dos anos, tem-se chamado "inteligência artificial" ao que não é, de maneira nenhuma, verdadeira inteligência artificial, mas sim um simulacro ou, chamando os bois pelos nomes, uma fraude. Uma fraude! O facto de um computador ser capaz de ganhar uma partida de xadrez ao Kasparov não faz do computador uma entidade minimamente inteligente. Quando muito, poderemos chamar inteligentes às pessoas que conceberam o programa de xadrez que o computador executou. Também é verdade que nenhum cérebro (humano) consegue perceber o que o próprio cérebro (humano) faz, mas têm-se feito significativos avanços nesse sentido, com a ajuda, inclusive, das redes neuronais artificiais (computacionais).

O leitor João L tem razão quanto ao facto de o número de neurónios e de sinapses existente num cérebro humano ser verdadeiramente astronómico. É verdadeiramente ASTRONÓMICO, sim, senhor. Contudo, a inteligência artificial tem uma vantagem sobre a verdadeira inteligência (orgânica), e esta vantagem chama-se velocidade de processamento.

Um neurónio é uma célula de um tipo especial, que tem por finalidade transmitir e processar informação, desde as terminações nervosas existentes nos órgãos sensoriais até ao sistema nervoso central, dentro deste mesmo sistema nervoso central e deste até às terminações neuromusculares. Um neurónio é composto por três partes, a saber: corpo celular, axónio e dendrites. O corpo celular ou soma tem sobretudo por finalidade manter o neurónio vivo e saudável; é onde se encontra o núcleo da célula, isto é, do neurónio. O axónio é uma fibra muito comprida que tem em vista transmitir a informação de um extremo do neurónio para o outro, fazendo-a avançar no espaço; um feixe de axónios é o que constitui um nervo. As dendrites contêm as sinapses, que são os pontos em que um neurónio comunica com os neurónios vizinhos, passando para estes ou recebendo destes a informação a tratar; existem dendrites em volta do corpo celular de um neurónio e no extremo oposto do seu axónio.

A informação entre neurónios faz-se, como já disse, através das sinapses, que quase sempre comunicam entre si pela libertação de compostos químicos, chamados mediadores. Esta comunicação não é elétrica, mas sim química. Nos axónios, a informação consiste em impulsos do campo elétrico que se vão propagando de um extremo ao outro dos mesmos; esta propagação do campo elétrico obriga a uma polarização elétrica das paredes do axónio e obriga a uma subsequente despolarização, depois de um impulso passar; enquanto uma despolarização não se completar, um axónio fica incapaz de transmitir nova informação.

Dadas as limitações apontadas, a velocidade de transmissão e de processamento de informação num sistema nervoso como o humano (incluindo dentro do próprio cérebro) é lentíssima. Ela é inferior a 1 m/s (360 km/h), quando os axónios não estão envolvidos por uma bainha de mielina, e da ordem de 2 m/s (720 km/h), quando os axónios estão envolvidos por mielina.

Os computadores são dispositivos eletrónicos em que a velocidade de propagação da informação é muito próxima da velocidade da luz, cerca de 300.000 km/s. É claro que a velocidade de processamento de um computador não é esta, nem pouco mais ou menos. Mas qualquer processador moderno é regulado por um "relógio" que vibra a muito mais do que mil milhões de vezes por segundo, ou seja 1 GHz (1 gigahertz). Qualquer smartphone, por mais barato que seja, tem um "relógio" de 1,2 GHz ou mesmo de 1,4 GHz. Quer tudo isto dizer que o mais banal e mais barato smartphone do mercado tem uma velocidade de processamento que é muitas ordens de grandeza superior à do cérebro do seu proprietário!

Bom, vamos abreviar, que isto está a ficar um relambório que nunca mais acaba e eu tenho mais que fazer. Dada a sua enorme vantagem em termos de velocidade (e ainda não usamos a fotónica em vez da eletrónica, mas pouco falta) uma rede neuronal artificial poderá não precisar de ter um número tão grande de "neurónios" e de "sinapses" como um cérebro humano, para poder ter uma capacidade de processamento equivalente, bastando usar uma e outra vez os mesmos "neurónios" e as mesmas "sinapses" (mas com "pesos" diferentes de cada vez, claro). Tudo dependerá do uso que se lhes der, isto é, do software. É claro que existe ainda um longuíssimo caminho a percorrer e muitíssimos anos a decorrer até que se consiga (espero que não) uma inteligência artificial que se possa comparar à inteligência real. Seja como for, têm sido feitos avanços muito significativos nesse sentido. Há alguns anos fiquei assustadíssimo quando alguém disse que tinha construído uma rede neuronal tão inteligente como um caracol. Sinceramente, não acredito que a tenha construído, mas se continuarmos assim, ela vai ser construída com certeza. E a seguir à inteligência do caracol, virá o quê?


João L. disse...

(com as devidas desculpas a UJM pelo abuso)

Caro Fernando Ribeiro, já vi que tenho aqui companheiro para umas belas discussões mas, sem querer abusar da hospitalidade da UJM, deixo-lhe esta provocação: a complexidade num ninho de (lentas) formigas é bem maior que numa corrida de (rápidos) carros de fórmula 1. São as interacções e a regulação que alavancam (para usar uma palavra da moda) a complexidade.


Fernando Ribeiro disse...

Caro João L., não me deixa provocação nenhuma, porque estou totalmente de acordo. São precisamente as interações e a regulação existentes nas redes neuronais computacionais que lhes dão o seu poder, incluindo o poder de aprenderem, a partir, está claro, de um certo "conhecimento" inicial que lhes é dado. Os exemplos fornecidos dos carros que já circulam sozinhos (experimentalmente, por enquanto) em algumas cidades dos Estados Unidos, ou do reconhecimento de padrões em imagens que a Google e o Facebook estão a desenvolver com resultados que já são extraordinários, são uma demonstração do que pode vir aí. A velocidade dos circuitos eletrónicos (e dos circuitos fotónicos num futuro próximo) pode permitir ultrapassar as limitações que tais redes não podem deixar de ter, através da reafetação dos seus recursos uma e outra vez, para uma e outra tarefa, a uma velocidade alucinante. Note-se que estamos a falar de redes neuronais, que já têm milhares e milhares de núcleos e um número incomparavelmente maior de interligações, mas que mesmo assim são infinitamente menos poderosas do que o cérebro. Já não são para aqui chamados os computadores que têm uma arquitetura tradicional, dita de von Neumann, com um processador central, bancos de memória e periféricos à volta. O computador que estou a usar neste momento já é pré-histórico.


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E, uma vez mais, agradeço ao João e ao Fernando o seu precioso contributo para uma reflexão que acho indispensável e urgente.

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Nem de propósito o artigo de destaque da Vanity Fair de hoje:

ELON MUSK’S BILLION-DOLLAR CRUSADE TO STOP THE A.I. APOCALYPSE


Elon Musk is famous for his futuristic gambles, but Silicon Valley’s latest rush to embrace artificial intelligence scares him. And he thinks you should be frightened too. Inside his efforts to influence the rapidly advancing field and its proponents, and to save humanity from machine-learning overlords