Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, setembro 26, 2017

Tatuagens muito lindas
[E outras coisas do género]


Lá está. Pode ser que seja eu que esteja já fora de prazo. Não curto. fazer o quê? Não curto, não curto.

Quando ninguém usava tatuagens e não havia onde as fazer, queria eu ter um botão de rosa carmim sobre um seio. Depois, temendo que fosse complicado, já admitia que fosse mais acima, algures sobre o coração. Quiçá, até, entre o coração e o ombro. Depois, como já aqui o referi, temendo que, com o passar do tempo, a pele enrugasse e a rosa perdesse o viço, imaginei-a nas costas, sobre uma omoplata. Mas não sabia onde concretizar. O tempo foi passando. A minha filha ia perguntando pela rosa tatuada. O meu marido incentivava. O mais que me aventurei foi a pôr um piercing. Só um. Ainda o uso. Coisa feita em condições, tipo seringa à pressão, numa ourivesaria. Depois começaram a aparecer uns lugares para as tatuagens, uma espécie de lojecas, coisa que me parecia manhosa, pouco asseada. Agulhas, tintas... tudo aplicado por um cabeludo mal amanhado...? Ná... E o tempo sempre passando. Até que veio a moda. Tattoos para todos os gostos. Programas na televisão. Uma praga. E agora não há cão nem gato que não se pinte de alto a baixo, flausinas cheias de caveiras, letras chinesas, mensagens cifradas, malandrecos com carros de corrida, serpentes, bichos suspeitos. Ná... agora é que não é mesmo para mim.

No outro dia cruzei-me com uma mulher gorda, meia idade, vestida de garina, tshirt surreal, saia curta e justa, ténis de fantasia meio brilhantes, cabelos com madeixas cor de rosa e, claro, com uma hera com bicharada trepando-lhe pelo anafado pernão. Intuí que se achasse o máximo e, se calhar, até estava melhor assim do que antes. Tudo depende do ponto de partida. Enfim. E no outro dia descobri que um colaborador meu que costumo ver de camisa e casaco tem uns bíceps de impor respeito e, para alegrar, cobertos por artísticos desenhos. Ao deparar com tão insólita descoberta, ia comentar mas não consegui imaginar nada politicamente correcto para verbalizar. Depois ouvi outras a dizerem-lhe que tem que ir assim para o trabalho. Ele sorriu, orgulhoso do impacto que tinha causado. Pudera.

Esta imagem não tem nada a ver e eu, se tivesse juízo,
não a colocaria aqui.
(Mas hoje estou assim. Não me recomendo)

-- Um parêntesis: sigam o link porque é extraordinário --
Sobre um outro avisaram-me: 'quando estiver com ele, veja lá... controle-se...' Parece que anda apaixonado por uma colega e não se sabe se para lhe agradar ou se já é imposição dela, sendo ele careca de longa data, coisa que notoriamente lhe está no ADN, apareceu agora com um triângulo cabeludo, em preto, no alto da cabeça. Acontece que o de origem, que já está ralo, é grisalho. Parece que a coisa se faz por lotes. A urbanização, digamos assim, começa da testa para cima, e, ainda assim, deixando uns triângulos de lado. Parte da cabeça, em cima, ainda está a descoberto. A quem ficou de boca aberta a olhar para ele, consta que contou que os implantes são com cabelo dele. O meu marido, que não é bom da cabeça, quando lhe contei, disse que se calhar lhe tiram pelos do rabo e que o cuidado que ele tem que ter é que a cabeça não lhe passe a cheirar mal. Só visto. Disse-lhe 'cala-te, não digas parvoíces'. Respondeu perguntando-me: 'dizes que ele apareceu com um triângulo cabeludo no alto da cabeça e a mim é que acusas de ser parvo?'. Pois a verdade é que venho engarrafada no trânsito e perdida de riso, a rir à gargalhada, sozinha, só de pensar nisto. Se me vejo de frente para ele, não conseguirei suster o riso. Vai ser bonito.

Mas, enfim, não era sobre plantações capilares que estava a falar. Tatuagens. Tatuagens artísticas.

Estas que aqui vos mostro apareceram no 13º International London Tattoo Convention.





Muito lindos, sim senhor.

Mas eu, mal por mal, antes os das pinturas corporais que, mal tomem banho, voltam ao normal. Vide, por exemplo, estes aqui abaixo que usam o corpo como uma tela para reproduzir pinturas célebres. Também em Londres, of course.


Ia agora fazer um comentário, sugerir uma pintura (até inspirada num post de um blog aqui da galeria lateral) mas abstenho-me. Estou com o meu nível de censura interna muito baixo, ainda ia ferir algumas susceptibilidades. Parecendo que não ainda há umas virgens putativamente ofendidas que por aqui resistem e que, volta e meia, quando alegadamente piso o risco, se zangam comigo e, bolas, bolas, bolas, eu isso não quero. Portanto, calo-me já.

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Só mais uma coisa:
uma musiquinha dos meus amigos OK Go que me está apetecer entra e sair de paredes

OK Go - The Writing's On the Wall



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E pronto. É isto. E agora vou pregar para outra freguesia. Vinha para falar dos edifícios que visitei no domingo naquilo do Open House mas pus-me a falar da Melania e do doido varrido do Trump e da mão misteriosa do ex-Dirty Harry desviei-me dos meus bons propósitos. Acontece. Mas desçam que também tem graça. Kind of.


E que raio de maneira de pôr a mão é que o Príncipe Harry arranjou durante a sessão de fotografias com Melania Trump...?


As especulações não se fizeram esperar. Se fosse eu, numa situação destas, rodeada de fotógrafos e microfones, até podia acontecer. Estaria, certamente tão desorbitada que não atinaria com coisa alguma. Podia ter uma mão escondida e outra aflita à procura de esconderijo ou poderia estar especada em vez de rir ou devia ter a língua presa, incapaz de dizer coisa com coisa. Digo eu. Mas, a pôr uma mão escondida ou meio escondida, nunca a poria como ele a pôs. Ainda por cima, mais do que habituado a estar a preceito frente às câmaras está ele. Desde que nasceu. Então o que foi aquilo...? Enquanto a sessão fotográfica durou, ele manteve a mão assim. Não se sabe se estava a insinuar alguma coisa. Ninguém arrisca grandes explicações. Está todo o mundo banzado na maior perplexidade. Ela esfíngica, quase em transe, como que electrizada pela energia que se solta dele. E ele naquele propósito, olhinhos fuzilantes, boquinha pérfida e dedinhos mefistofélicos ou bovinos, como se queira. Alguém lhe devia ter dito que, por menos que isto, em Portugal, um ministro teve que se demitir.


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E aquele décor...? Tudo estranho. Nem sei o que me parece tudo aquilo.

Mas desçam para testemunharem cenas ainda mais macacas.

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Trump é um cromo como nunca se viu ou tem lapsus linguae desconcertantes ou... what?
Esqueceu-se que a Melania estava ao lado dele...? Ou quê?


Estava com a mulher ao lado e a referir-se a ela como se ela não tivesse conseguido lá estar. Dizem os entendidos que a dita Melania, ex-modelo, está treinada para mostrar sempre boa cara haja o que houver; e, de facto, faz e desfaz sorrisos conforme pensa que a estão a focar ou não. 


É tudo deveras estranho por aquelas bandas. Gente disfuncional. Aquele anormal ou é tirado de lá antes que se faça tarda ou muita gente ainda pode ir desta para melhor sem ter culpa nenhuma de nada.


De resto, a internet está repleta de vídeos em que se vêem momentos estranhos entre aqueles dois. Parece que é tudo forjado mas, ao mesmo tempo, mal ensaiado, como se, em privado, nunca combinassem coisa alguma.

Os 6 momentos mais esquisitos entre Donald e Melania Trump




Vídeos que mostram o narcisista e o demente que ele é é também o que não falta. Há imensos e cada um mais revelador do que o outro.

O Top dos 10 momentos mais demenciais de Donald Trump



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segunda-feira, setembro 25, 2017

Panorâmico de Monsanto: a beleza e a tristeza da decadência


No post abaixo poderão ver a extraordinária vista a partir do Panorâmico de Monsanto, o primeiro dos três edifícios que visitámos durante este dia de domingo, no âmbito do Open House Lisboa.

Aqui, agora, vou tentar dar uma ideia do estado de triste abandono a que está votado há anos depois de nenhum destino lhe ter assentado bem. 
Fez-me lembrar aquelas mulheres muito bonitas e desejadas, as Marilyns desta vida, que toda a gente acha belíssimas e que, não obstante, não conseguem acertar na companhia, não alcançam uma vida feliz, sentindo-se frequentemente solitárias, mal amadas e tendo, frequentemente, destinos trágicos ou, pelo menos, desoladores. 
Assim o Panorâmico: talvez belo demais, talvez bem situado demais, talvez com uma vista deslumbrante demais, talvez com demasiado potencial. 

E, no entanto, quanta beleza na sua decadência. Abandonado, maltratado, riscado, partido... e cheio de vida impressa nas suas paredes. E tão elegante nas suas curvas, no equilíbrio dos seus volumes, na distribuição entre desníveis e recantos, no balanceamento feliz entre a luz e a sombra. Tão belo apesar de tão sem destino, tão sedutor apesar de tão esquecido, tão promissor apesar de num tão triste estado de acentuado declínio.

O que eu faria com ele se pudesse decidir já o disse no post abaixo. Não há dinheiro? Há. Há sempre dinheiro quando o retorno é garantido. Mesmo em épocas de crise (e estamos a sair dela), dinheiro é o que não falta para bons investimentos.

Não falei ainda de um outro aspecto: o local em que está implantado. No meio da Serra de Monsanto, num dos seus pontos altos, entre arvoredo, frondoso arvoredo. Um local que parece fora de Lisboa. E, no entanto, dentro de Lisboa. Dali deveriam partir caminhos pedonais, caminhos para bicicletas (até caminhos para se andar a cavalo ou de atrelado).

O Panorâmico de Monsando deveria ser um ex-líbris de Lisboa e não a quase ruína que é.


Mas vejam o que os meus olhos viram.

























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Vejo um lugar assim e, apesar de me deixar entusiasmada com tanto que ver e fotografar, sinto pena. Penso que, com excessiva facilidade, se deixam perder preciosidades que, em tempos, alguém sonhou e desejou. Penso que se deixam perder oportunidades que, certamente, outros agarrariam e estimariam. Que se deixam perder ideias, riquezas, tesouros -- como sempre o fizemos, nós os portugueses que parece que nos desinteressamos da nossa história e das nossas heranças e que, desprendidamente, tudo deixamos esvair por entre os dedos. Perdem-se as memórias e os valores e nem se percebe porque se perdem. E o tempo passa e vai levando consigo quem se lembra dos sonhos que em tempos alguém sonhou. Ficam, depois, apenas frágeis memórias.

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Nem sei se vem a propósito mas apetece-me ouvir:

"What We Lost" de Michael Ondaatje (lido por Tom O'Bedlam)



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Pensava que teria tempo para falar dos dois outros lugares que visitei mas fica para amanhã
(embora um ou outro tema da actualidade me estejam a convocar).
Verei como me organizo.

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E queiram, por favor, continuar a descer para testemunharem as belas paisagens que do Panorâmico se avistam

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Lisboa, a bela.
[E o que se vê dela. Mais concretamente: o que se vê do Panorâmico do Monsanto]


Open House Lisboa. Edifícios nem sempre acessíveis ao público abertos durante o fim-de-semana, com o apoio de simpáticos voluntários que nos contaram a história das construções, realçando os aspectos ligados à arquitectura.


Começámos pelo Panorâmico de Lisboa. Transcrevo do site:

Não existe vista sobre Lisboa como esta. Construído a uma altitude de 250 metros, este edifício inaugurado em 1968 já foi um restaurante de luxo, uma discoteca, um bingo, já albergou escritórios e um armazém de materiais de construção civil. Abandonado há mais de uma década, esta obra maior de arquitectura tem no seu interior painéis cerâmicos de Manuela Madureira e um mural de Luís Dourdil. Para já, o plano da Câmara Municipal de Lisboa é dotá-lo de condições de segurança para que possa ser visitado por todos, e assim se devolva este miradouro à cidade.
Uma construção espectacular, de onde se tem uma vista absolutamente deslumbrante -- e ao abandono. 

Do Panorâmico de Monsanto se faria um fantástico museu. Um museu, por favor. Um garnde museu. Se Philippe Starck está a viver em Portugal, vão buscá-lo, está perto. Ele poderá dar uma preciosa ajuda. Um museu  com restaurante, com ateliers, com residência de artistas, uma sala de concertos, uma biblioteca de artes. O edifício é enorme, dará para tudo.O que é que o Ministro da Cultura, o da Economia (na vertente Turismo), o Presidente da Câmara de Lisboa ou sei lá quem mais estão à espera, eu não sei. Façam qualquer coisa. E construam um hotel lá ao pé. Despachem-se. 


Neste post não estou a mostrar o edifício em si mas sim a vista que dele se tem. Uma vista absoluta que o tempo limpo permite que se estenda até às maiores lonjuras. Noutro post já mostro o estado em que se encontra, uma desolação. Mas agora o que quero que vejam é o que os meus olhos viram.



O Cristo-Rei, o Tejo, a Ponte 25 de Abril
(e mais um cruzeiro a entrar a caminho de Lisboa)



Ao fundo Palmela, a Arrábida. Junto ao Tejo, penso que o seixal.
No meio Almada e virado para cá, uma rua estreita rente ao Tejo, quase invisível, o Ginjal.
Do lado de cá, Lisboa, Lisabona, Lisbon, Lisbonne -- la ville blanche


O aqueduto das Águas Livres e, sobrevoando Lisboa, um aviãozinho

E eis que o aviãozinho desceu -- e cá está ele a aterrar

Uma cidade branca espraiada ao longo de rio largo e igualmente belo. E a outra margem, la rive gauche.


As Amoreiras que, em tempos, tanta polémica geraram. E afinal tão bonito que é.

A noiva. Os cabos da Ponte Vasco da Gama como se fossem véus brancos 

Para os meus Leitores benfiquistas, um miminho: o Estádio da Luz 

Do lado de lá, Cacilhas e o início do Ginjal e, do lado de cá, o Museu de arte Antiga


Uma das varandas de onde se vê o que vos mostrei

As alturas e a beleza da paisagem inspiram o corpo que parece ter vontade de ganhar asas

Não identifico esta paisagem pois as opiniões, aqui em casa, dividem-se.
Na verdade, não estou a perceber onde é embora aqui ao meu lado teimem que é óbvio. Para mim não é.

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Dance me to the end of love


Por vezes a objectiva descobre o que nós, sozinhos, não descobriríamos. Há uma atenção aos pormenores que apenas assim, quando olhamos através da lente, se verifica.

Estava a entrar para o carro e olhei uma última vez. Olhei com a câmara. E então vi: um casal dançando. O espaço é um espaço público e, a poucos metros deles, estavam outras pessoas. Mas, como que indiferentes, unidos por uma melodia invisível, assim os vi eu, numa coreografia cúmplice.

E eu, admirada, cá de baixo, vi-os como quem vê, à distância, um momento invulgar e gostaria era de estar lá, ao pé deles, a fotografá-los de perto.

Não gosto de divulgar fotografias em que se reconheçam as pessoas mas abro uma excepção. Se os próprios vierem a ver-se aqui e não o consentirem, basta que me peçam para as retirar que assim o farei. Mas o que eu gostava era que se vissem e gostassem de se ver, eternamente abraçados e felizes, enlaçados ao som de uma música só deles.










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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

Be happy.

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domingo, setembro 24, 2017

Folhas de Outono


De manhã rente ao rio, a seguir ao almoço respirando o suave aroma do outono in heaven. Dia bom. As folhas douradas, o céu muito azul, o sossego tão apaziguador.




Continuámos a desbastar pinheiros e o odor que se eleva dos ramos cortados é perfume que gostava que pousasse na minha pele e aí ficasse. Mergulho o rosto, aspiro, passo as mãos, lavo a alma.

Gosto de ver as árvores limpas, arejadas, gosto de andar pelo meio do mato. 


A tarde silenciosa. Os pássaros em delicado repouso, querendo apenas sentir a doçura desta tarde em que a luz se aquieta sobre os montes, sobre as árvores, sobre as folhas que estão alouradas ou acobreadas e que, não tarda, atapetarão o chão, folhas caídas que prenunciarão as chuvas que tardam e que tanta falta fazem à terra que está tão seca. O horizonte, ao fim da tarde, em tons quentes: chamas de emoção no coração de quem ama, saudades que embalam. 


Imprevidentemente estava de saínha justa e, portanto, não apenas a faculdade de levantar a perna para me defender ao passar sobre silvas ou tojos estava limitada como a pele à vista era, de facto, um convite ao arranhão. Agora, enquanto escrevo, reclinada no sofá, o computador sobre as pernas, olho-as. Lindas (salvo seja e não desfazendo): picadas, arranhadas. Incapazes de dar as caras em reuniões feitas para corpos cosmopolitas, preparados em ginásios e não na poda em pleno mato. Como isto das luvas. Gosto de sentir e as luvas retiram-me o sentimento. Não as uso. E não me importo de olhar as minhas pequenas mãos e vê-las com as marcas do prazer que os trabalhos no campo me proporcionam.


O meu marido aborrece-se por me ver andar assim no meio do mato, a podar pinheiros, a arrastar frondosas pernadas. Diz: 'E, para cúmulo do disparate, de máquina fotográfica ao pescoço'. Mas tem que ser. Não dá muito jeito mas, a cada instante, posso ter vontade de fotografar. E tem que ser naquele instante. A luz macia por entre as ramagens, embelezado a pinha, aquela pinha em concreto naquele preciso momento, as uvas muito doces, os cachos meio comidos pelos pássaros, alguns bagos rebentados tanto o açúcar. A vinha virgem a incendiar-se rente à parede. A glicínia dourada sobrevoando o portão.


Depois, ao fim do dia, descanso. Deitada no sofá, a luz do entardecer inundando a sala. Leio Pedro Páramo. Uma escrita encantatória. Saudades metamorfoseadas em palavras. Nostalgias. Memórias, sonhos, fantasias. Gente que fala, murmúrios que se levantam das pedras, que se evolam das paredes. mortos que permanecem vivos, sombras que inquietam quem vem em busca de reencontros. Mulheres que oferecem o corpo das amigas ao homem que amam, filhos que quase poderiam ter sido filhos de outras mulheres, homens com o sangue vadio a correr nas veias que, à noite, visitam mães e cometem outros desacatos.


Encanto-me mais com as palavras do que com a história. As palavras ganham um sentido guapo, os verbos são gestos de gente. Outras vezes enchem-se de música e juntam-se para formarem belas toadas. Poesia por vezes, agressão ou susto nas restantes.

Depois, o sono começa a descer sobre mim e os nomes começam a enovelar-se. Não faz mal.

Logo retomei. A história como uma sucessão de episódios oníricos, e as lembranças e os sonhos vêm debruados com a estética dos sentidos, as frases perfeitas, as palavras e os nomes que atravessam os tempos, que furam a normalidade e trazem aventura, receios -- raramente as bem aventuranças que se queriam.


Apetece-me agora transcrever alguns excertos para mostrar a quem não conhece a obra mas é muito tarde, este já é o terceiro post desta noite e eu intuo que canso os meus Leitores com estas minhas tantas palavras que não se calam.

Fico-me, pois, por aqui mas permito-me ainda sugerir que se deixem ir deslizando pelos posts que se seguem. As vossas visitas alegrar-me-ão sempre, seja para me lerem no campo ou à beira-rio.

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Caminhos difíceis levam, por vezes, a belos destinos


Acontece por vezes eu estar a passar por situações complicadas. Ainda não há muito. Eu toda angústias, medos, ansiedades. No entanto, claro que tinha que continuar a viver. Um dia vinha do supermercado e pensei que, por fora, devia estar normal. Pelo menos, via-me normal. Cruzava-se com pessoas que também me pareciam normais e pensava que nunca sabemos o que vai no íntimo das pessoas. Nem elas sabiam o que ia dentro de mim nem eu delas. Pensei: 'usamos máscaras'. Depois pensei outra coisa: 'somos fortes'.

E agora que escrevo isto lembro-me de uma coisa que não tem nada a ver mas que me ocorreu. Quando tive a menopausa não tive sintomas e, ainda hoje, não os sinto. Não faço daqueles tratamentos hormonais de substituição. Penso que deve ter a ver com o meu funcionamento hormonal mas, se calhar, não tem nada a ver. Se soube já não me lembro. Também quando estive grávida nunca tive enjoos, desejos, inchaços, mal estar, dores nas costas. Nada. Do princípio ao fim, sem outro sintoma que não o da barriga que crescia desabaladamente. Mas, na altura atrás referida, tinha uma colega que estava também a atravessar a menopausa e que sofria horrores. Afrontamentos de ficar doida, tamanha a onda de calor que subia por ela acima -- e desculpem-me o pleonasmo mas era assim que ela dizia, abanando-se: 'De morrer. Não se aguenta. Uma insolação que sobe por mim acima.' E abria a boca, quase à beira do colapso. Dizia que só lhe apetecia tirar a roupa toda, despejar garrafas de água pela cabeça abaixo. E dizia que pasmava (e, por dentro, enfurecia-se) por ver que, quando estava em reunião, as pessoas em volta dela pareciam não dar por isso. Pensava: 'Mas será que esta gente não percebe o estado em que estou...?!'. Em vez de se calarem e, em sinal de solidariedade, deixarem que a aflição lhe passasse, continuavam a falar como se nada fosse.

Se calhar de fora não se via o calor que ela sentia.

Bem.

Isto tudo para dizer que a todos nós, em certos momentos, a coisa não corre especialmente de função. Mas a vida continua e ainda bem que o mundo continua a girar normalmente e que há, aqui e ali, apontamentos de cor, de graça, de esperança.

Ao passear no Ginjal pensei que nada para melhorar a disposição do que andar por aqui, sentir a frescura do rio, deixar que a alma descanse perante a visão de uma paisagem tão magnífica e apreciar os sinais que outros vão deixando nas paredes, pintando-as, enfeitando-as, deixando testemunhos da diversidade que havida o tempo e o espaço. 









Minha alma canta apenas em sinfonia.


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Contrastes para todos os gostos


Manhã boa junto ao rio, a maresia intensa, o ar fresco, a paisagem limpa. E a disposição boa, boa. Pelo menos a minha. Não tanto a do meu compagnon de route que se queixa de não conseguir dois passos de seguida. Nada a fazer. Face à maravilha que, por todo o lado, espreita, não tenho como deixar passar e manter a passada. Claro que tenho que parar e fixar o momento.

Aqui abaixo, a passagem de mais um cruzeiro. Tantos. Tantos que cruzam o Tejo. 
O turismo a bombar. O PIB a aumentar. E o láparo, endemoninhado, a desfeitear (agora, o pobre, completamente doente, num estado de negação fatal, diz que está tranquilo, que quem tem razão para estar aflito é o António Costa; passou-se de vez, este láparo passado da cabeça). 
Este que aqui passava é um big, big, big. Por contraste, os veleirinhos. Por contraste com quem lá vai dentro, os pescadores do cais do Ginjal. 


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E um belo dia de domingo a todos quantos por aqui me acompanham.

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sábado, setembro 23, 2017

O cavaleiro da luz








Em 1895, quando abandonava a infância, Albert Einstein teve uma visão que lhe abriu portas desconhecidas: sonhou, ou imaginou que cavalgava pelos céus montado num raio de luz.

Alguns anos depois, estas portas conduziram-no à teoria da relatividade e a outras iluminações.




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O texto é de Eduardo Galeano em 'O caçador de histórias'

Béatrice, 1897 e The Birth of Venus, 1912 — Odilon Redon
The Cosmos -- Hee Choung Yi

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As praxes, os condutores de caloiros, o poder, a humilhação, a paródia acéfala e etc





Durante toda a santa semana, em vários locais de Lisboa, deparei-me com grupos de estudantes. Uns importantes, certamente sentindo-se superiores na sua capa e batina, alguns de kilt, conduzindo bandos de caloiros. Estes, uns de tshirt com números, outros todos sujos evidenciando que andaram a rebolar-se na terra, outros de penico na cabeça a fazerem exercícios ridículos.


Quando andei na faculdade não havia praxes. Mesmo que as houvesse, eu não me sujeitaria a elas. Quer como veterana, quer como caloira, números destes incomodam-me. Nem gosto de me armar em superior, ordenando sevícias ou bacoquices -- nem me sujeito a ser mandada como se fosse membro de um rebanho ou envergonhada por quem se inicia no gozo do exercício do poder.

A coisa mais parecida com isso a que me sujeitei, e foi porque achei graça, foi a um julgamento. Quando morei numa residência universitária, havia esta coisa. Numa noite, juntavam-se as veteranas, a direcção da residência e alguns convidados e, uma a uma, cada nova habitante era sujeita a um interrogatório, tendo que responder ou, em alternativa, recebia a pena e tinha que a cumprir, mas a pena era uma coisa divertida. Quando calhou a minha vez, todas em volta e o júri na mesa, o que me calhou foi explicar como se arranja um namorado em menos de 24 horas. Na altura eu tinha um namorado que agradava muito às minhas colegas de residência e a quem eu tratava com algum desprendimento e, ao mesmo tempo, tinha uns quantos pretendentes que, just for the fun of it, eu não me importava que gravitassem à minha volta. E, quando elas me chamavam açambarcadora, eu dizia que não, que eles é que não me largavam mas que, se assim não fosse, eu também não teria dificuldade em arranjar alguém que quisesse namorar comigo. Ora uma coisa é uma pessoa brincar entre amigas e outra é ver-se rodeada por dezena de pessoas, num ambiente de julgamento, e pôr-se a dar uma aula de sedução. Mas dei. No fim aplaudiram. E espero que tenham aprendido alguma coisa.

Foi engraçado. Não foi humilhante.


Agora ver adolescentes de bacio na cabeça, a fazerem palermices, a serem conduzidos pela rua como carneiros... é coisa que me incomoda. Fico a pensar nos adultos que serão. 

Ou isto das praxes não quer dizer nada? Vale tudo porque, de facto, não vale nada? Ou já nada quer dizer alguma coisa? Nada vale alguma coisa?

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A fotografia lá em cima, da autoria de Matthias Schrader e que vi no The Guardian, mostra pastores da Baviera conduzindo os seus rebanhos.

A música é de Ry Cooder, banda sonora de Paris, Texas, filme que vi long ago e que estou, neste momento, a rever, imitando um Leitor a quem agradeço a dica. 

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