Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

domingo, abril 23, 2017

Queremos o Relvas!
Queremos o Relvas!
Queremos o Relvas!
Queremos o Relvas!
Queremos o Relvas!



Ele é o inteligente, o presciente, 
Ele é o bom cantor, o ex-doutor, 
Ele é o ladino, o bom latino, 
Ele é o sedutor, o trepador, 
Ele é o topa a tudo, o vale tudo, 
Ele é o ex-futuro banqueiro, o lampeiro, o aventaleiro,
Ele é o paridor do láparo, o educador do láparo, o candidato a enterrador do láparo
 ... ele é... 
... ele é... 
... ele é o Relvas!

Relvas!
Relvas!
Relvas!



Miguel Relvas regressa e desafia Passos com primárias no PSD


E regressa faceiro, descarado, igual ao que sempre foi. Doutor da mula ruça e do rabo pelado, a ele não há quem lhe faça o ninho atrás da orelha: diz o que lhe parece que o ar do tempo pede, mesmo que isso não tenha nada a ver com a verdade. Ele está por trás do pano, a mexer as marionetas e a dizer-lhes as falas. Teatrinho ou palhaçada da grossa, tanto faz para o grande artista da televisão e das cassetes piratas. Feito santinho, apaga a história do partido e dele próprio, e qual aparição -- sorry: 'visão imaginativa'! -- ei-lo que regressa pela mão do Expresso, conforme anuncia o DN:
"Está na hora do meu partido, que nunca foi um partido instalado nem com dirigentes dependentes da vida política para viver, encarar este debate sobre as primárias". A frase é de Miguel Relvas, o ex-braço direito de Passos Coelho que assume o regresso à vida política com um desafio ao PSD: "está na hora" de discutir primárias no partido. 

Ao Expresso, o antigo ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares de Passos Coelho - que foi fundamental para a eleição do líder do PSD em 2010 - disse que o debate das primárias tem de ser feito o mais rapidamente possível, apesar de saber que o líder do partido não tem a questão como prioritária.

Esta semana, Miguel Relvas surgiu ao lado de Luís Montenegro, tendo elogiado o líder parlamentar dos sociais-democratas como "um dos rostos do futuro" do partido. (...)


À semelhança do que fez com o ressabiado láparo, estará Relvas a preparar-se para ser a mão atrás do arbusto de onde emanará, vitorioso, o joker e irmão Montenegro?

Ah, a falta que o Relvas me faz.. Farta, farta, fartinha da sensaborice deste PSD do láparo e da pinókia, gente façanhuda e ressabiada, sem graça. 


E o Relvas surgiu perto do 25 de Abril... Isto promete. Tê-lo-emos a cantar a Grândola Vila Morena...? Tomara que sim. Ah, o que eu gostava de o ver outra vez a exibir os seus fantásticos dotes vocais.


Relvas: canta! canta! canta! canta!


Ah, que contente estou com o regresso do nosso fofo Vai-Estudar-ó-Relvas!


..............

sábado, abril 22, 2017

Pecar contra os deuses
[Gonçalo M. Tavares e António Lobo Antunes]




Para se ver como tudo é tão relativo. E, atenção, nisto que vou dizer não há ponta de certezas absolutas. Aliás, se eu tivesse levado a catequese a sério, a esta hora era muito bem capaz de estar para aqui arrependida... e ainda nem pequei. Que isto que estou a pensar deve mesmo ser pecado. E, se não é, para lá deve caminhar. Só pode.

Estou com paninhos quentes. Em vez de ir ao assunto, estou para aqui com rapapés. Já devem ter reparado.

A questão é que quero primeiro pôr-me no ponto para não irritar as leitoras catequistas que preferiam ver-me aqui a carpir, a contar do desgosto que me dá a minha celulite
(mas, azarinho, não a tenho) 
ou a chorar a minha neura e insegurança,
(azarinho, também não sinto tal -- e já bati, outra vez, três vezes na madeira não vá alguma leitora diabólica tecê-las), 
em vez de me verem a opinar toda sentenciosa. 

Por isso estou aqui nas boxes a ver se perco gás antes de começar a escrever. Mas isto custa.

Não quero irritá-las mas também não posso ficar o resto da noite para aqui a bater mea culpas no peito. Que maçadoras que são as catequistas moralistas. 


Quando agora forem ensinar o milagre da Nossa Senhora a aparecer aos pastorinhos, devem ficar a fazer figas para os meninos não andarem a ler os jornais porque isto de os padres e bispos andarem para aí a dizer que claro que Nossa Senhora não apareceu em Fátima (ia lá a Senhora vir por aí abaixo, a descer dos céus, para se ir pôr a atazanar o juízo a três pobres pastorinhos?) e que a palavra correcta não é aparição mas visão imaginativa, deve deixar sem chão muita catequista penitente.

Mas então onde é que eu ia?

Ah, sim. Não ia em lado nenhum.
Andei a passear à beira rio e depois fui jantar à praia e fiz cinquenta mil fotografias... e devem estar tão lindas... e eu sem energia para ir buscá-las à máquina. Tenho que me encher de coragem e ir porque, se não, que imagens vou eu usar aqui? 
Só coisas que me ralem.


Bem. Mas o tema hoje era para ser a subjectividade. Ou melhor: a subjectividade dos leitores ao apreciarem a qualidade da escrita. Podia ser doutra coisa qualquer mas hoje era sobre a escrita.

A questão é que não pode ser o mundo quase inteiro a estar errado e eu certa. Pois se há estudos, cátedras, adaptações a peças de teatro, prémios, traduções all over, a culpa só pode mesmo ser minha. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

E ainda não saí do ponto de partida. E isto tudo para não confundir a inteligência das minhas catequistas de estimação. Imagino as pragas que elas, a esta hora, já me estão a rogar.

Mas vá. Já chega de atirar bolas para o pinhal. Está mais do que na hora de chutar à baliza.

Pronto. Lá vai.



Gonçalo M. Tavares. Primeiro chuto.

António Lobo Antunes. Segundo chuto.

(Sei que nenhum dos chutos foi à baliza mas aí, lá está, já seria esperar de mais.)

Qualquer destes escritores dedica a vida à escrita, qualquer deles escreve que se farta, qualquer deles é incensado aqui e além mar, qualquer deles pode ser considerado um escritor de culto. E, no entanto, eu acho que o que eles escrevem é ilegível, ilegível no sentido de ser uma coisa maçadora, páginas e páginas de falta de assunto, páginas e páginas de uma escrita ora redonda, ora vazia, ora redundante, ora destituída nem sei bem dizer de quê.
Não se assemelham entre si, um inventa maluqueiras desprovidas de sentido e avança sem nada dizer, personagens com nome e histórias de vida desinteressantes, e uma escrita que se nos varre da ideia à primeira aragem. O outro fala, fala, intercala falas, rodopia, volta atrás, intercala pensamentos, anda para o lado, intercala falas alheias, deita-se de costas, deita-se de frente -- e não passa disso.
Em qualquer dos casos, no meio daquilo, podem aparecer coisas bem apanhadas. Também, em tantas centenas e centenas de páginas, era melhor que fosse tudo esfumável no instante seguinte. Não. Mas, no cômputo geral, vou ali e já venho.


Porém, se me ativer ao êxito alcançado ou ao interesse que uma certa intelectualidade lhes dedica, sou levada a acreditar que me falta o neurónio descodificador daquilo. Quiçá, se eu fosse dada a tomar, cheirar, inalar ou injectar, pudesse olhar aquelas páginas e ver rios de talento, luz a irradiar das frases, pepitas a brilhar ao sol por entre os calhaus. Mas não sou dada a isso. O que a mnha mente capta é, tão só, o que os meus olhos lhe levam. O mal, cá para mim, não deve estar no que eles escrevem mas em mim que não li a Odisseia de cabo a raso, o Ulisses do Joyce, os vários tomos de Proust, a meia dúzia de livros da Ferrante, a Bíblia grega e as outras -- e, confesso, até o Rogeiro eu costumo evitar ouvir, desinteressada que sou de me instruir.

Portanto, atalhando razões: isto é tudo relativo e nunca se sabe se a culpa é do pecador, se é da catequista, se é do próprio pecado.

Ámen.


_______________

Lá acabei por ir buscar as fotografias à máquina. Mas com que esforço...

(A primeira fotografia não foi feita ao cair do dia: foi feita de manhã, quando fui ver como estava o tempo.)

E eu estou a dedilhar no teclado e a dormir... e não faço ideia de que é que estou a escrever pelo que se a escrita estiver ainda mais ensarilhada do que a dos dois génios acima referidos, queiram sentir compaixão por esta vossa pecadora encartada.

Three Little Birds encontra-se aqui integrada no projecto Playing For Change

__________________

NB: Nada contra as catequistas em geral. Acredito que haja muitas que o são por devoção e generosidade. Aqui refiro-me àquelas que o são porque não podem ser da polícia dos costumes, aquelas que se pudessem instituiam a lei do pensamento único e do sofrimento colectivo.

__________________________

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

______

sexta-feira, abril 21, 2017

O cheiro dos livros e etc.
[E resposta a um comentário]




Posso ter uma maneira de me exprimir muito assertiva. Aliás, sei que tenho. Se acredito numa coisa, não me parece necessário mostrar-me mosca morta, passiva, ou dar voltas ao bilhar grande, sendo manipuladora, ou exaltar-me, sendo agressiva. De facto, creio que já o contei, nos testes de personalidade que, de quando em quando, fazemos em contexto profissional, apareço, entre outras coisas, caracterizada através disto mesmo: praticamente 100% assertiva.

No entanto, que não se pense que tenha certezas absolutas sobre tudo. Não tenho. Mas se a minha opinião é uma, então explano-a com convicção apesar de admitir que seja falível. Li agora mesmo um comentário de alguém que me questiona sobre o que eu escrevi dizendo: 'mas quem é você para dizer que (patati-patatá)?'. Leio e fico estupefacta.
Quem sou eu para exprimir a minha opinião? 
Ora essa. 
A resposta é simples: sou uma pessoa como outra qualquer que, vivendo num país livre, diz o que pensa. Então, em vez de exprimir a minha opinião, deveria fazer de conta e exprimir, como minhas, opiniões alheias, só para agradar aos donos dessas opiniões ou a quem me lê? Essa é boa.
Há pessoas que parece que têm tiques ditatoriais. Parece que não admitem que alguém pense de maneira diferente da sua. Parece que não gostam de ver os outros a exprimir-se livremente.

Para mim seria impensável escrever um comentário assim. Mas, enfim, o mundo é diverso e há que receber toda a gente com boa cara mesmo os que não a sabem mostrar aos outros.


Gosto de ler, como é sabido, e leio tudo. Livros, blogs, jornais, capas de revistas nas estações de serviço, revistas com mais de um ano nas salas de espera dos médicos, mails, comentários, o que calhar.

Gosto de ler a escrita de quem não pensa como eu, gosto de ser surpreendida com maneiras de pensar antagónicas em relação à minha, gosto de ler sobre temas que desconheço, gosto de ser confrontada com argumentos que desmontam os meus. Mas em tudo o que gosto de ler tenho que encontrar elegância, inteligência e tolerância.
E, já agora, para a coisa se aproximar da perfeição, ainda alguma musicalidade -- mas isso já é pedir demais.
Ia começar a escrever sobre o perfume dos livros quando li aquele comentário que, por não me soar bem, me desviou. Depois desse, chegou outro do mesmo calibre ao qual já lá respondi. Ele há com cada uma...

Mas não me detenho mais sobre os azedumes que volta e meia por aqui vêm aterrar e retomo o meu tema.


Até há algum tempo, achava-me uma amante de livros cheia de inconfessáveis particularidades. Pensava eu que uma amante de livros a sério tinha forçosamente a capacidade de ter a biblioteca bem organizada e arrumada e, para conseguir lá chegar, tentava arrumar cada livro no lugar certo mal chegava com ele a casa. Pensava também eu que teria que ler todos os livros em que pegasse até ao fim e impunha-me essa disciplina mesmo quando me arrastava de página em página. Pensava, sobretudo, que teria que ser alheia em relação a tudo o que pudesse ser considerado fútil e, portanto, tentava omitir aspectos que, para mim, eram (e são) vitais: o grafismo da capa, o tipo de letra, a paginação. E pensava ainda que jamais um amante de livros seria sensível ao seu cheiro e, por isso, apesar de ter um prazer apreciável em abrir uma estante e sentir o perfume dos livros, nunca me referia a tal.

Sei agora que estava enganada. Não há regras -- mas não há num nem noutro sentido.

Agora que o mundo inteiro está disponível para ser visto, é frequente verem-se bibliófilos rodeados de pilhas de livros, caoticamente dispersos pela casa, tal como é de pasmar verem-se paredes revestidas a estantes imaculadas e ordeiras.

Sobre já não me dar ao trabalho de me forçar a ler aquilo que não aprecio, tive o consolo de saber que Borges poucos livros leu por completo.

E, sobre o cheiro dos livros, tive o agrado de saber que é gosto partilhado por muita gente e que há. até, investigações sobre o tema.


A que cheira um livro antigo? A que cheira um livro novo?

Varia, claro, mas não há livro em que eu pegue que não aspire o odor que dele se desprende. Leio que podem ser identificadas notas de baunilha, sândalo, café. Não sei. Para mim cheira a memória de bibliotecas, cheira a casas de infância e refúgios secretos, cheira à casa da Mariazinha que tinha longe o marido, médico, e em cuja sala pouca luz entrava, uma sala com sofás de pele já gasta e cheia de estantes com os livros dele, dos quais retirava os livros do Fernando Namora que me ia emprestando. Cheira às minhas longas noites de leitura, noite adentro, cheira ao prazer de ler as palavras que outros, um dia, escreveram. Cheira a livrarias infinitas, a labirintos, a galerias imensas, cheira a cera de abelhas, cheira a um mundo desconhecido, cheira a mãos que acarinham as folhas que lêem, cheira a um mundo que contraria a efemeridade de quem os escreve, cheira a um mundo fora do mundo.

de Bois de Jasmim:
What Does The Scent of Books Reveal?
____________

Já agora,

O império da palavra - O futuro da leitura
Alberto Manguel



_________

E queiram deslizar até ao post seguinte caso queiram ler sobre uma Separação escrita por quem a sabe sentir.

_______

Separação




Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles. 

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação. 

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce. 



Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas. 

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...


________________________

O texto 'Separação' é de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor"

Nina Simone interpreta 'Iy you knew'

As imagens mostram obras menos conhecidas de Edvard Munch

____________________________

Até já.

_____

quinta-feira, abril 20, 2017

O amor e o desejo são inconciliáveis?


Depois de ter desabafado sobre o triste estado em que fiquei depois de ver o brilhante João Pereira Coutinho transformado em comentadeiro avençado na Correio da Manhã TV, a falar de vácinas, caí num profundo estado de estupor do qual só agora acordei.

Antes do entorpecimento ter galgado por mim acima, estava eu a pensar escrever sobre o cheiro dos livros. Piedosos intentos os meus -- tão frequentemente gorados. Ao despertar, não que tenha tido algum sonho impróprio para consumo enquanto dormia mas porque num rápido voo planado sobre os onlines vi referência ao tema que se segue, agora estou mais inclinada para falar de amor e desejo.




Poderia dar aqui uma lição, quiçá organizar um workshop com aulas teóricas e aulas práticas, mas não posso esquecer-me que marido e filhos são leitores diários e, portanto, manda a mais elementar prudência que não me atire para fora de pé.

Não tarda, faço anos de casamento e tantos são que me tinha até esquecido da vindoura efeméride. Vou bater três vezes na madeira para dizer isto: nunca passei por nenhuma crise conjugal. Presumo que por uma razão simples: não tenho paciência para crises. Não faço ideia se tive razões para as ter mas, se tive, não me lembro. A verdade é que também não as procuro.

Ao longo da minha vida tenho conhecido de perto casos de pessoas cujos casamentos acabaram e que, enquanto duraram, eu me interrogava: como é que uma vida assim se aguenta? No outro dia falei de uma amiga minha, ciumenta e possessiva, e isto para não dizer aquilo que o meu marido diz dela: maluca. Em tempos também já falei de uma prima. Relembro. Éramos chegadíssimos. Ela loura, olhos azuis, muito bonita, executiva numa grande empresa. Ele com peso a mais, badocha, truculento. Os ciúmes que ela tinha dele não dão para acreditar. Ele era um sedutor incontinente. Não era capaz de ter uma mulher pela frente, conhecida ou não, que, com malícia e graça, não dissesse qualquer coisa que, invariavelmente, deixava a mulher doente. Desde que me lembro deles, sempre lhe soube, a ele, de casos. Ele não os escondia de nós, apenas escondia dela. Contudo, gostava imenso da mulher e era amicíssimo dela, um companheirão. Mas ela queria domesticá-lo, queria tratar dele, não queria que ele apanhasse sol e ia buscar-lhe um chapéu, não queria que ele fizesse aquilo que sempre fazia depois de uma almoçarada: um mergulho na piscina e andava à volta a zangar-se com ele, não queria que ele apanhasse frio e ia buscar-lhe um casaco, e queria ter a certeza que ele chegava bem ao trabalho e contava o tempo até lhe ligar, e queria que ele lhe ligasse antes de sair do trabalho -- e ele a tudo acedia para a ver feliz (ou para não a ouvir...). Eu dizia-lhe a ela: ''mas que melga, deixa-o em paz', ou, 'deixa-o ser como ele é'. Mas era mais forte que ela. Apesar de ser muita mais bonita como mulher do que ele como homem, nunca soube de algum interesse dela por qualquer outro homem nem de qualquer outro homem por ela. Vivia atormentada, querendo prender o marido. E ele fingia que se deixava prender mas, mal ela virava costas, dava largas à sua irreverência, ao seu gosto pela adrenalina, à sua atracção pelo clandestino, pelo interdito.

As passagens de ano cá em casa eram uma tourada: ele, às escondidas, a ir telefonar à outra à meia-noite, ela pela casa fora a ver se o descobria e nós todos a ver se ela não o achava para não começarmos o ano debaixo de uma tempestade.

E o que ela fazia para conhecer a colega A, B ou C dele pois desconfiava que ele tinha casos com elas...


Nunca nada disto se passou comigo. Não telefono ao meu marido a saber se chegou bem ao trabalho, não o persigo para tomar conta dele porque mãe sou dos meus filhos e não dele, não tenho qualquer curiosidade em conhecer as colegas dele e quando ele me diz que alguma das colegas é velha e gorda e eu as vejo acidentalmente, novas e jeitosas e a cumprimentarem-no com piscar de olho, confirmo que ele é um sonso mas, olha, que se lixe. E se ele é um homem bonito e, apesar de sóbrio e até levemente recatado, naturalmente charmoso... Mas não consigo mesmo desperdiçar o meu tempo com ciumeiras e macacadas.

Ou seja, na verdade não quero saber e muito menos aprofundo não vá dar-se o caso de alguma coisa que descobrisse me maçar.

Ele, pelo contrário, inicialmente era ciumento. Sabia do que eu era capaz já que tinha começado a andar comigo enquanto namorava outro, namoro de aliancinha no dedo e tudo. Mas os ciúmes dele incomodavam-me. Não suporto ciúmes ou controlos. Portanto, embora ainda o seja, também já percebeu que preciso de espaço e que abomino gastar tempo com parvoíces e, portanto, já aprendeu a controlar os ciúmes ou, se não aprendeu, disfarça.

Outra coisa: aquela cena de ter que conversar sobre tudo, até à exaustão, uma verdadeira esfoliação verbal aos pensamentos, de moer a paciência um ao outro a discutir os assuntos até ao tutano, também não é connosco. Se há alguma coisa para falar, fala-se e está falado. Bola para a frente.


Dito isto. 

Haja alegria, surpresa, malandrice, companheirismo, liberdade de movimentos, compreensão, confiança, generosidade, descontração, bom perder, bom ganhar, gosto pela vida, disponibilidade para o inesperado. 

Alguns destes ingredientes cimentam o amor. Outros alimentam o desejo.

E junte-se-lhe ainda humor, entreajuda, olhares cúmplices, pele contra pele, passeios a dois, solidariedade, aqui e ali uma irresistível provocação, e mais o que nesta base possa acontecer -- e o tempo irá passando prazerosamente.

O tempo não erode nem o amor nem o desejo. O que os corrói é a falta de amor pela vida. 

Tenho um mail para responder no qual me perguntam como é que pareço tão jovem tendo já netos. Como é muito tarde não vou responder lá mas respondo aqui: não sei se pareço jovem. Sei que me sinto jovem. Não me lembro dos anos terem passado por mim. A minha filha disse no que escreveu sobre mim que não tenho idade. Talvez seja isso. Não tenho idade. Não sinto a idade. Talvez por isso sinta hoje o amor, a paixão e o desejo da mesma forma que sempre os senti: com intensidade. Como se não houvesse amanhã. Como se tivesse que os descobrir e conquistar todos os dias. Como se tivesse vontade de os festejar todos os dias.


__________

E isto a propósito do que li e que tem a ver com o que a psicoterapeuta Esther Perel concluíu de um estudo que fez ao longo de anos em mais de vinte países. Mostro aqui o vídeo em que ela fala disso. Já há tempos o partilhei mas acho que o tema merece uma revisita. Tem legendas em português. As traduções nunca são famosas mas, para quem não esteja muito à vontade com outras línguas, acho que é melhor que nada.


Esther Perel: O segredo do desejo num relacionamento duradouro 




___________

Relembro: desçam, por favor, para perceberem porque é que não deverão ver  a Correio da Manhã TV -- e isto se não querem ter um baque como eu tive.

...
___________

João Pereira Coutinho é todo a favor das vácinas,
conforme dissertou ao balcão da Correio da Manhã TV


Fui agora espreitar as estatísticas do blog. Dizem-me que 'agora' estão 83 pessoas a ler o Um Jeito Manso. Mas estão aí desse lado e eu dava-me jeito é que estivessem aqui. Aqui. A beliscar-me. Todos, ao mesmo tempo, a beliscar-me.

Explico porquê e vocês já vão dar-me razão.

Antes de jantar, enquanto decorriam os preparativos, liguei a televisão e fui fazendo zapping. Estava a caminho da Sic Radical para ver se hoje havia o Colbert. Mas, a meio da operação, passei por um canal onde acho que até hoje nunca parei. Até hoje - leram bem. Vi e não acreditei. Parei para confirmar. Podia ser uma visão. Infelizmente não, vi que era real. O João Pereira Coutinho, ele mesmo, o grande intelectual, essa direitola figurética da luso-piolheira, comentando o caso da jovem que morreu com sarampo. Na CMTV.


O grande mestre da teoria política, ex-guru da blogosfera, agora transformado em vulgar profissional da crónica azeiteiro-social. Com uma fita rolante a passar-lhe em cima da cabeça com dizeres relativos ao Ronaldo, ali estava ele, populista, populista, demagogo, demagogo, a dar na cabeça dos pais da jovem. A mim que, claro está, nem me passaria pela cabeça não vacinar os meus filhos, sem conhecer os factos relativos a este caso não vou falar sobre eles, muito menos aos balcões do infecto-contagioso Correio da Manhã. Já li que a miúda tinha tido um episódio grave de alergia a uma vacina e que, por precaução, os pais resolveram não reincidir. Não sei. Não me pronuncio. Dor maior já os pais devem estar a sofrer, escusamos de deitar mais sal por sobre cicatrizes que, certamente, estarão em carne viva.
É certo que é uma boa oportunidade para apelar à racionalidade dos pais que se encontram nalguma deriva metafísica, pondo em risco a vida dos filhos, mas que o seja com contenção e, sobretudo, não ao balcão de uma coisa como a CMTV, no meio de uma conversa desenvolvida em tom fútil e demagógico.

E se eu visse um daqueles comentadores que tanto falam de Passos Coelho, como de uma jogada mal apitada pelo árbitro, como de uma camioneta que tombou na estrada despejando ruidosos bácoros, ainda vá que não vá -- uma pessoa, vai-se habituando a que baixem os padrõezinhos*. Mas, com o caneco... o João Pereira Coutinho...? Já desceu a esse ponto? Comentadeiro no Correio da Manhã...?!?! 


É onde se acolitam agora os ressabiados, os desaguados da democracia, os de má bílis, os moralistas do regime, os enfatuadinhos, os pintarolas encartados? No Correio da Manhã...? Muito me contam.

Mas a minha surpresa não se extinge aí. É que a criatura dizia vá-cinas. O entrevistador perguntava-lhe o que achava de não vacinar crianças e ele, cinquenta mil vezes, vácinas: vácinas para aqui, vácinas para acolá.

Totó como sou, ainda pensei: querem lá ver que eu é que ando com o passo trocado? Então fui validar e o totó é ele. Diz-se vacina com os dois a's fechados pois vacina é, obviamente, uma palavra grave.

Agora, vocês que aí estão sossegados e nem se dão ao trabalho de aqui me vir beliscar para eu ter a certeza que não eu estar a delirar, digam-me: como é que um intelectual destes, com esta carinha de menino inteligente, professorzinho da Católica e tudo, não sabe disto e diz vássinas**...? 
** Que, da maneira como ele diz, acho que até deve escrever escrever vássinas, senão mesmo váccinas como se ainda vivessemos no tempo das bexigas das vacas...
Minha mãe santíssima.

Estou banza, é o que é. Não estava psicologicamente preparada para ver uma coisa daquelas.

Quando a intelectualidade de pacotilha vira comentadeira do Correio da Manhã... o que se vai seguir...? Um dia ainda vou ver ali o Pedro Mexia, a pronunciar-se sobre o roubo por esticão ou sobre a namorada do CR7? E, ainda por cima, a dizer 'námora-da' ou Márcelo? Ou o cardeal Clemente comentador nos programas da Cristina Ferreira a falar do maestro gay que foi corrido pelo pároco de Castanheira de Pêra? A procuradora Mana do Vidal como avençada no programa da Júlia Pinheiro a comentar as aparições da pequena Maddie? O António Lobo Antunes a dar troco ao cacarejante Rangel? What...?


Não sei mas, depois do que presenciei, acho que temos que estar preparados para o pior.

____________

Fiz as fotografias à televisão e, depois, na segunda apeteceu-me pôr o comentador João pereira Coutinho ainda mais cor-de-rosa, com uma boquinha ainda mais mimosa. A ver se a imagem fica mais consentânea com o absurdo da coisa.

________________

E, a propósito de não baixar os padrõezinhos, aqui vos deixo o Lopes da Silva, o homem com demasiadas características.




_____

Um dia feliz a todos.

........................................

quarta-feira, abril 19, 2017

O amor como um rio
[Um rio noturno, interminável e tardio]





Este infinito amor de um ano faz 
Que é maior do que o tempo e do que tudo 
Este amor que é real, e que, contudo 
Eu já não cria que existisse mais. 

Este amor que surgiu insuspeitado 
E que dentro do drama fez-se em paz 
Este amor que é o túmulo onde jaz 
Meu corpo para sempre sepultado. 

Este amor meu é como um rio; um rio 
Noturno interminável e tardio 
A deslizar macio pelo ermo 

E que em seu curso sideral me leva 
Iluminado de paixão na treva 
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.



_____________________

Soneto do amor como um rio de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor'

Imagens de pinturas de Marc Chagall, alguém que pintou a inocência dos grandes amores e os rodeou do azul mais luminoso e secreto

Melody Gardot interpreta Love me like a river does

_________________

E queiram continuar a descer para ficarem a saber que eles eram mais antigos que o silêncio e, ainda mais abaixo, para tomarem conhecimento de conselhos da maior utiliddde em Os elementos do estilo

_____________________

Eles eram mais antigos que o silêncio




Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens - a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie - tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas no magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio...


__________________

O poema é 'Namorados no Mirante' de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor'

Nina Simone interpreta 'He needs me', uma canção de que gosto muito

As imagens mostram: 'After Sex Without Love' de Arsen Levonee e 'Tenderness' de 
Maria Zagorskaya

__________

'Os elementos do estilo' podem ser consultados já a seguir.

____________________

Os elementos do estilo


No vasto mundo sideral, flutuam palavras que ligam, entre si, desconhecidos que têm em comum o gosto pela leitura e/ou pela escrita.

Para ajudar aqueles que gostam de escrever, aqui deixo alguns conselhos. E são dos bons. Não quer dizer que se sigam mas, ainda assim, nada como a gente saber o que é que devia fazer.



(...)

"A prosa vigorosa é concisa. Uma frase não deve conter palavras desnecessárias, nem um parágrafo frases desnecessárias, pela mesma razão que um desenho não deve ter linhas desnecessárias, nem uma máquina partes desnecessárias. Isto não quer dizer que um escritor faça breves todas as suas frases, nem que evite todo detalhe, nem que trate seus temas apenas na superfície; apenas que cada palavra conta". 

Para Strunk (...), os preceitos de um bom estilo podem resumir-se no seguinte: 


1. Use uma linguagem positiva: em vez de "habitualmente não chegava à hora", diga "habitualmente chegava tarde"; em lugar de "não recordou" diga "esqueceu" - e isso porque, consciente ou inconscientemente, o leitor prefere que se diga o que é a o que não é. 

2. Seja concreto: "Sobreveio um período de tempo desfavorável" constitui uma vagueza. "Choveu diariamente uma semana" seria a boa fórmula. 

3. Abrevie o mais que puder: escrever "atos de natureza hostil" é alongar de dois centímetros "atos hostis". 

4. Não qualifique: sempre que não se tratar de estabelecer uma opinião, a qualificação prévia é desnecessária. Dizer que é "interessante" o fato que se vai narrar, é pichar o leitor de inimaginativo. 

5. Não use adornos: o estilo não é um molho para temperar uma salada; o estilo deve estar na própria salada. 

6. Coloque-se atrás do que escreve: escreva de tal forma que a atenção do leitor seja despertada sobretudo pelo sentido e pela substância do que está dito, e não pelo temperamento e pelos modismos do autor. O primeiro conselho a dar ao escritor que começa seria, pois: para chegar a um estilo, comece por não ter nenhum. 

7. Use substantivos e verbos: evite o mais possível adjetivos e advérbios. Não há adjetivo no mundo que possa estimular um substantivo exangue ou inadequado; isto sem subestimar adjetivos e advérbios, quando corretamente empregados. Mas a verdade é que são os nomes e os verbos que dão sal e cor ao estilo. 

8. Não superescreva (significando aqui, don't overwrite): a prosa excessivamente rica, adornada ou gorda torna-se mais facilmente nauseante. 

9. Não exagere e seja claro: primeiramente, porque o exagero pode tornar o leitor suspicaz; e a clareza, é lógico, facilita a comunicação. Mais vale recomeçar uma frase longa com que se está brigando, que persistir na briga. Freqüentemente uma frase longa nada mais é que duas curtas. 

10. Não opine sem razão: ter por hábito ventilar opiniões próprias é prejulgar que o leitor as esteja pedindo, o que constitui um sinal de vaidade. 


É isto em resumo. Há mais. Mas não espaço. 

E depois, é como diz o outro: se todos fossem da mesma opinião, o que seria da cor amarela? (Sendo que, neste caso, até que eu "entrava bem", pois trata-se da minha cor preferida ... ). Mas pobre Proust, pobre Dickens, pobre Balzac, pobre Melville, pobre Otávio de Faria...


________________


Excerto de Os Elementos do Estilo de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor'

As pinturas têm em comum conterem gatos e, obviamente, não têm nada a ver com o texto. Ou talvez tenham. Se calhar é que, para se fazer retratar com um gato, é preciso ter-se um certo estilo.

Lá em cima Para viver um grande amor, interpretado por Vinicius e Toquinho, é também, como disse, o nome deste gostoso livro que tenho aqui ao meu lado.

____________

Até já.

.........................

terça-feira, abril 18, 2017

Salve Maryam





Sabem já de mim alguma coisa. Sabem que não me acho importante. Um ser efémero na longa cadeia que vai habitando o planeta - nada mais que isso eu me acho.

Hoje ao cair da noite, um dos meninos, o de de quatro anos, apanhou uma flor e ofereceu-ma. Coloquei-a no meu cabelo. Nem mais me lembrei dela. O meu marido é que, ao chegarmos a casa, disse: 'sabes que tens uma flor no cabelo?'

Quando entrei em casa, vi-me ao espelho. Gostei de a ver ali. Bonita a flor. Estive a vê-la. Perfeita na sua elegante simetria, no seu suave colorido, na delicadeza do desenho das suas pétalas. Pensei: vale mais, para mim, olhar esta flor do que, para alguns, ler os clássicos de frente para trás e de trás para a frente.

São opções de vida ou é genético -- não sei. Inclino-me para a genética, uma coisa como a orientação sexual. Não escolhi ser hetero tal como não escolhi ter tal devoção pela natureza e pela simplicidade.
A verdade é que me custa suportar gente cheia de si própria, narcisos que se deslumbram com o seu próprio conhecimento, gente que mostra arrogância e superioridade perante aqueles que não leram os mesmos livros ou não ouviram as mesmas músicas, gente que impõe conceitos e pontos de vista sem cuidar de saber que, para alguns outros, a vida é mais, mil vezes mais do que mil teorias, mil estratificações do conhecimento, mil dogmas.
Coitado de quem um dia tenha a infelicidade de se alhear da simplicidade ou de se fechar no seu mundo de mil labirintos sem se lembrar de sentir o prazer de ver a luz brilhando na pele de quem se ama ou de sentir a emoção de um olhar humedecido ou de procurar o afecto de quem da vida procura a bondade, a ternura, a suavidade dos bons momentos.  
Coitado, digo eu, mas digo com pouca convicção. Que seja feliz aquele para quem a sua imagem ao espelho é bastante -- e com as formas de buscar a felicidade que cada um saiba de si, sem julgar os outros.
Mas eu sou assim, como têm aqui visto.

Cultivo a ignorância* com o desvelo que outros colocam no estudo aturado do que quer que seja. Tento manter-me um campo em branco, aquilo que em gestão se designa por greenfield, onde mil sementes consigam sempre encontrar espaço para germinar. Tento que a minha passagem pela vida seja um doce passeio em que eu, em estado de inocente desconhecimento, consiga sempre encantar-me com o que vou descobrindo, sem cuidar de saber em que movimento ou linha de pensamento se integra aquilo que me traz maravilhamento. Com sorte, não se integrará em nenhum compartimento.


E eu estou maravilhada com Emahoy Tsegué-Maryam Guèbrou, a freira etíope de 93 anos (vídeo lá em cima) que compõe e interpreta ao piano as suas obras. 


Tenho passado a noite a ouvi-la e estou em estado de encantamento como se tivesse acabado de presenciar um prodígio.

____________

* Quando me refiro a cultivar a ignorância tal não deve, claro, ser lido no sentido literal. Não me refiro à ignorância levezinha, banal, ao alcance de todos. Refiro-me, sim, àquela forma de desconhecimento que vem da libertação de taxonomias, da tentativa de desagrilhoamento de peias limitativas do pensamento, da desnecessidade de saber tudo o que há para saber para conseguir formular uma ideia que nos chega das entranhas. Refiro-me àquela forma de estar de quem está sempre disponível para aprender mais, para compreender e aceitar os outros, para se encantar com os pequenos ensinamentos e descobertas que a vida nos vai proporcionando.

_____________________

Um dia feliz a todos

______________________

[E caso queiram saber o que eu gostava que fizessem ao meu carro, é fazerem o favor de descer até ao post que se segue]

______________________

Ninguém quererá usar o meu carro (sempre sujo) para nele produzir obras de arte?






Sou toda contra a discriminação sexual, a favor das quotas de género para furar o ciclo vicioso de predomínio masculino, aplaudindo o mais possível que se penalizem as empresas que paguem pior a mulheres que a homens em iguais funções, e faz-me muita impressão quando vejo, na província, os cafés ou os passeios cheios de homens e nenhumas mulheres -- e isso tudo e o mais que queiram relacionado com machismos, sejam eles encapotados ou às claras.

Faço tudo o que me dá na gana e nunca me senti tolhida por fazer o que quer que seja por ser mulher.

Lá na aldeia, onde o homem, mais do que ser o chefe de família, é o porta-voz e é entre homens que se trata de tudo o que tenha a ver com obras ou arranjos da terra, eu apareço e falo de pleno direito. E se, ao princípio, eu não passava da mulher do meu marido, agora já tenho personalidade própria e até, no outro dia, vitória das vitórias, depois de o meu marido na semana anterior ter combinado que seria para serrar tudo o que fosse pernada que tivesse avançado para cima do telhado, no caso de uma pernada maior, sabendo que tenho pelas árvores a devoção que outros têm por santos, esperaram que eu lá chegasse para validar se aquela também ia abaixo. Aos poucos, vão-me vendo como alguém com os mesmos direitos que o meu marido -- e eu orgulho-me de fazer parte dessa (lenta) evolução.

E, no trabalho, movo-me entre homens e é de igual para igual, seja em que fórum for, que me bato pelas minhas ideias e rebato as que, nos outros, me parecem erradas ou facciosas.


Mas.

Mas há áreas em que sou mulher-mulherzinha da cabeça aos pés. Coisa boba e sem justificação mas, ainda assim, não ultrapasso a barreira psicológica que se ergue.

Conto.

Tudo o que tenha a ver com carros.

Conduzo, claro. Mas conduzo porque ter motorista caíu em desuso.

Prefiro mil vezes andar à pendura -- e, sobretudo, não sou capaz de tratar dos carros que conduzo.

O meu carro está permanentemente sujo. Apenas quando vai à revisão (porque, para tal, felizmente, há quem o leve por mim), o estado dele inspira tal piedade que, por sua alta recriação, mo lavam. Geralmente depois deixam-no no parque e, palavra, tenho que confirmar pela matrícula que é ele. Lavadinho e reluzente. Outro.

Por dentro a mesma coisa. Se tenho que dar boleia a um dos meus colegas (homens, claro), até tenho vergonha. No banco de trás uma cadeirinha e um banquinho e o que os miúdos por lá tenham deixado. À frente, garrafas de água, dossiers entalados entre o banco e aquele separador do meio. Nessa coisa do meio -- que nem sei bem qual a sua função original -- tenho creme das mãos com cheiro a maçã, uma caixinha de pastilhas elásticas (sobre a qual o meu marido costuma perguntar se acompanha o carro de origem ou se já é deste ano), elásticos e ganchos para o cabelo, uma mini-lanterna da decathlon, moedas, óculos de reserva, pacotes de lenços, um anel que um dia vi que não condizia com o outfit e que por lá se tem deixado ficar... e sei lá que mais.


Em contrapartida, quando vou no carro deles, nem uma palha ou um grão de pó à vista, tablier encerado, uma limpeza atrofiante. 

O carro do meu marido é assim também; mas no carro dele raramente ando pois ao fim de semana evito ser eu a conduzir e não me arrisco a conduzir o dele pois está de tal forma impecável que, com o excesso de precaução, sem querer ainda roçava nalgum pilar e estava bem governada. Em contrapartida, passo o meu para as mãos dele à vontadinha. Gostava era que ele mo levasse à estação de serviço para o lavar e ele diz que está bem, está, que o leve eu. É um domínio em que lhe falta algum sentido de cavalheirismo.

A verdade é que não me imagino a ser capaz de enfiar o carro naquelas máquinas de lavagem automática. Acho que alguma coisa haveria de correr mal e eu lá enfiada dentro com escovas, espumas e jactos de água por todo o lado. Levá-lo à oficina também não me dá jeito: acho que iriam colocar-me questões para as quais eu não teria resposta ou haveria de me esquecer de o ir buscar antes que aquilo fechasse.


E a sensação de maior desamparo que sinto quando se me fura um pneu é algo que não tem explicação...! Vou com o carro a arrastar-se e toda a gente a apitar e a apontar para a roda até chegar a um sítio onde possa parar, largá-lo, chamar o meu marido ou alguém que venha mudar-me o pneu. Nunca consegui perceber como fazê-lo. Não sei se é coisa de género, se é preconceito, se é falta de jeito mas a verdade é que não tenho qualquer intuição, inclinação ou motivação para me ocupar de carros.

Da mesma forma sou desinteressada em relação ao estado em que ele se apresenta a nível de carroçaria. Tenho colegas que, mal põem um risquinho, ficam logo num stress e não descansam enquanto não lhe fazem um lifting. O meu, em contrapartida, é um cristo. O meu marido, quando lhe chega ao pé, põe-se a olhar e, com ar censor, formula uma pergunta retórica: 'Temos mais uma panada...?' e eu fico admirada e, a maior parte das vezes, tenho que ir à procura porque nunca dou por nada. Não sei se me batem ou se sou eu que bato sem dar por nada.

Parques de estacionamento estreitíssimos com curvas apertadíssimas, lugares minúsculos e pilares por todo o lado -- como é que é possível o carro conseguir desviar-se de tudo? Eu tento, juro que sim. Aliás, o carro tem sensores por todo o lado. E, apitando histericamente mal qualquer coisa que passe por perto, não percebo como é possível roçar em qualquer coisa sem dar por isso. Penso que deve ser aquilo de 'no creo en brujas, pero que las hay, las hay'.


Por isso, para me poupar a angústias existenciais, evito passá-lo em revista. Acho que faz parte do estilo: sujo, cheio de marcas de vida.

Agora uma coisa gostava eu: que alguém se inspirasse em Nikita Golubev e o usasse para produzir obras de arte como aquelas que podem ser vistas nas fotografias que aqui se podem ver.


Uma graça.

________________________

De qualquer forma, acho que encontrei uma solução para os meus problemas. Apenas vou esperar mais uns aninhos para que o FEDOR me venha melhor acabado. Por enquanto ainda o acho um bocado espaçoso. Prefiro-os mais maneirinhos, mais discretos. Mas, para além de me servir de motorista, ainda o poderei usar para suprir outra das minhas limitações: usar berbequim. Também não uso. Não me dá jeito.



___________________

Até já!

[E não deixem de ver o vídeo dos Ok Go lá em cima. é qualquer coisa de verdadeiramente louco]

_____________

segunda-feira, abril 17, 2017

Dois milhões de visitas.
2.000.000
O marido da autora fotografa-a e entrevista-a.
E a autora entrevista o marido.
Tudo para agradecer a generosidade dos Leitores.
Muito obrigada.



Este domingo, domingo de Páscoa, o meu blog ultrapassou os dois milhões de visitas.


Há cerca de dois anos este vosso espaço ultrapassou o primeiro milhão. Para esse dia, segui a recomendação do meu marido e dei-me a conhecer melhor pois, como leitor, dizia ele que é natural que quem aqui me acompanha regularmente sinta vontade de saber quem é a autora das palavras que lê. Nessa altura, pegando-lhe na palavra, dei a volta ao texto e pedi que me apresentasse ele. E, de caminho, pedi também aos meus filhos que dissessem aos leitores do Um Jeito Manso como vêem a mãe. Ler o que escreveram emocionou-me e divertiu-me e, creio, terá dado a conhecer melhor a mulher que aqui escreve e a quem, por estas bandas, tratam por UJM.


Não é coisa que me interesse muito isto pois não me dedico ao blog para me dar a conhecer. Todas as noites aqui me ponho a escrever porque gosto, porque sim, porque as palavras me fascinam, porque comunicar, através da escrita, com quem não conheço tem tanto de misterioso como de atraente, porque partilhar músicas, pinturas, vídeos ou qualquer outra forma de arte me dá prazer, porque falar de livros é levar aos outros um gosto que acho que só ganha em ser partilhado. E mostrar, através das minhas fotografias, o que os meus olhos vêem é uma forma de levar essas paisagens a quem não tem oportunidade de as ver por si. E porque, desde que me conheço, sempre fui pela noite adentro fazendo qualquer coisa: lendo, pintando, bordando ou tricotando, escrevendo, fazendo tapetes. Porque gosto da noite, gosto de ficar por aqui já a casa em silêncio, escrevendo, ouvindo música, lendo. O silêncio da noite fascina-me.


E a verdade é que, enquanto aqui estou, tenho sempre companhia. Enquanto escrevo, seja a que hora for, há sempre leitores a ler. Por exemplo, neste preciso instante cento e três pessoas estão a ler as minhas palavras. E isto, para mim, tem qualquer coisa de mágico. Não sei quem são e quem me lê também não sabe quem sou. E, no entanto, as palavras ligam-nos. E isto para mim é que está bem -- as palavras valerem pelo que são, sendo irrelevante o nome ou o rosto de quem as escreve.

Ainda hoje não consigo deixar de me sentir surpreendida com o número de pessoas que aqui vêm. Não sendo eu conhecida nem seguindo regras, etiquetas, géneros e frequentemente tendendo para o politicamente incorrecto, espanta-me que tantos de vós me procurem. Mesmo sabendo pouco de mim e, creio, nunca sabendo bem ao que vêm.


Contudo, no outro dia, Leitor assíduo a quem desde já agradeço a diária simpatia, enviava um mail para familiares e amigos, comigo em conhecimento, com um link para o que eu tinha escrito e dizendo que o Um Jeito Manso caminhava para os dois milhões de visitas. E acrescentava que esperava bem que eu, nesse dia, não me esquecesse dos leitores.

Caro Eugénio, nunca me esqueço dos meus leitores e hoje, em particular, como vê estou a pensar nas suas palavras sempre tão simpáticas. Por isso, o post de hoje é para si e para todos os leitores que, aí desse lado, fizeram com que os dois milhões de visitas tivessem sido ultrapassados.

Acresce que, quando perguntei ao meu marido como achava ele que eu assinalasse os 2.000.000, respondeu a mesma coisa que há cerca de dois anos: dá-te a conhecer melhor.


Como sempre a minha primeira reacção foi: nem pensar. Mas depois ocorreu-me devolver-lhe de novo o desafio -- que me fotografasse ele.


Aceitou a ideia com prazer. Claro que, como estão a ver, nunca me desoculto completamente. A minha posição mantém-se: não me interessa promover-me.

Mas se quero mostrar o meu agradecimento pela vossa companhia, acho natural que vos dê ainda um pouco mais de mim. Por isso, aqui vos mostro algumas das fotografias que ele me fez. Agora que as selecciono para aqui as incluir, rejeito ainda algumas das que ele escolheu. Ele acha que não dá para ver quem sou mas eu olho e reconheço-me. Portanto, no último minuto rejeitei algumas das que ele mais gostou.

E, como ele achava que os leitores queriam conhecer-me melhor, lembrei-me também de lhe pedir que me entrevistasse.

Contudo, isso, então, foi uma festa. As tentativas que fizemos... nem dá para acreditar. Aliás, na maior parte das vezes, desatei a rir e não consegui nem passar daí. Começámos num dia em que vínhamos de carro. Ele já estava passado. A cada pergunta que ele me fazia, mal eu ia responder, desatava na risota e não conseguia atinar. Ele já pedia: 'Esquece.'


Então, no fim de semana, fomos para a beira do rio, para o Ginjal dos meus encantos, e tentei concentrar-me. Só que, entre as tentativa goradas por ele ter feito perguntas inconvenientes que me deixavam perdida de riso ou aquelas em que ele achava que as perguntas eram inocentes mas em que as fazia como se estivesse a falar com uma criança, deixando-me também perdida de riso, o tempo foi passando e ele ficando cada vez mais impaciente.

Claro que eu poderia ter aprendido a fazer edição, corta e cola, entre as várias gravações, escolhendo os melhores bocados de cada uma. Mas não tenho paciência para me pôr a aprender essas artes. Portanto, agora vi-me aflita para escolher uma das versões. Esta que aqui vos deixo ainda é capaz de ser aquela em que a coisa corre melhorzinho. Não liguem a alguns pontapés na gramática (ex: 'as situações pelas quais vivi...' -- acho que ia dizer 'pelas quais passei' mas saíu-me assim, credo). Penso que os posso atribuir à maluqueira da iniciativa. É que, não sei se estão bem a ver, mas ele, para ajudar à festa, não queria estar ali naquilo, os dois sentados nas pedras à beira-rio, eu de telemóvel em punho a gravar a conversa e a sistematicamente interromper para ver se a coisa corria melhor da próxima.

Claro que as imagens estão tortas, tremidas, etc, e pela tão dramática falta de qualidade vos peço desculpa, mas o objectivo não é tanto o filme, claro, mas a conversa.


Depois, apeteceu-me ser eu a entrevistá-lo a ele. Pior um pouco. Não queria. Depois, a cada pergunta que lhe fazia, ele recusava-se a responder, achava que a pergunta não lembrava ao diabo. Aqui fica a versão que me parece mais recomendável embora, como poderão ouvir, também não tem ponta por onde se pegue pois a verdade é que, talvez pela parvoíce da ideia, as perguntas me saíam, de facto, completamente 'ao lado'. Aliás, tantas foram, ao todo, as tentativas que, aqui, repito temas que já tinham sido objecto de conversa. Além disso, como esta foi feita em casa, não sabia o que filmar. Por isso, filmei o tapete de Arraiolos que tínhamos aos pés, obra minha do período pré-UJM. Uma tremideira que até parece que vamos em alto mar.

Resumindo: relevem a má qualidade do produto final e não fiquem a pensar que sou ainda mais maluca do que sou na realidade. É que a intenção até era boa, acreditem...

Um dia destes, volto à carga e talvez saia uma entrevista a preceito. Nessa altura, venho aqui e troco.


Mas uma coisa é certa: apesar de tudo, divertimo-nos imenso. Mesmo agora, ao escolher e ao voltar a ouvir tanta palermice, fartei-me de rir (e ele, embora muito menos efusivamente que eu, também).

E se vos agradeço a todos a vossa presença aí desse lado, desta vez o meu agradecimento maior vai para ele por sempre me apoiar e acarinhar ao longo das minhas caminhadas, incluindo nesta aqui no Um Jeito Manso (mesmo quando não concorda, não aprecia, não compreende ou me acha excessiva). Obrigada do fundo do coração, amore mio.


___________________________

Esta, Caros Leitores do Um Jeito Manso, sou eu.

__________________________________

Espero que continuem a gostar de aqui vir.

Um abraço a todos.

Muito obrigada.

____________________________