terça-feira, abril 28, 2015

Relato de um dia simples (com a memória do nascimento dos meus filhos por ter visto na televisão o médico que fez ambos os partos)


Limpo a casa, varro o chão, sacudo tapetes, lavo as louças, encho o balde de água e detergente que cheira a sabão, lavo tudo e não me esqueço dos cantos, lavo a roupa, estendo a roupa, e abro portas e janelas e deixo que o ar e o sol e o canto dos pássaros entre pela casa adentro e depois a casa fica cheia de luz, de perfume a limpeza, de abril.

Depois tomo banho e, a seguir, faço o almoço: batata doce, feijão verde, pescadinha de anzol, tudo cozido e temperado com azeite. Quando acabamos já não é cedo, o cabelo ainda está molhado, e eu recosto-me num sofá, o sol a bater na minha pele e leio que da sala se passa para o escritório e do escritório se passa para o atelier, e do atelier para a cozinha e da cozinha para  a sala e por aí fora. E continuo a ler até que adormeço. E durmo até que o telefone toca.

Depois como dois morangos e vou apanhar sol, caminho devagar. O cabelo secou, está uma juba que voa ao sabor da leve aragem. As flores, os cheiros, as tocas, uma lagartixa ao sol, as folhas secas, as sombras nas paredes, a minha sombra, a luz dourada da tarde, os pássaros numa alegria. Entro pelo meio do alecrim, passo as mãos pela ramagem, depois aspiro o aroma do rosmaninho, tão bonito, tão cheiroso, e, mais à frente descubro que a madressilva está em flor. Paz. 

Depois telefono, está tudo bem. Outro telefonema e tudo bem, todos bem. Mais logo receberei outra chamada e ouvirei relatos de castelos e risos e brincadeiras.

Passo as fotografias para o computador, escolho, saturo as cores a algumas, brinco, adivinho que se os pássaros as vissem assim transtornadas de tanta cor se haveriam de rir e diriam entre eles o Pollock passou por aqui. Ou talvez não, talvez apenas pensassem, com alguma indulgência: ainda não viste foi nada, pois de cores exuberantes devem eles ter os olhos cheios.

Depois finalmente a televisão: o Nepal abalado por uma desgraça sem fim; por cá nem quero ver, se alguém quer construir uma alternativa, logo as vizinhas aparecem para destruir, uma política tuga, pequenina, destrutiva.

Jantar simples, tosta com queijo fresco e tomate, iogurte, fruta.

Regresso. Agora, ouvi na televisão uma voz conhecida, uma voz com um grande sorriso lá dentro. Levantei os olhos do computador, olhei. Era o médico, na altura muito jovem, que, com esforço e uma tranquilidade contagiante, puxou os meus filhos de dentro de mim, ele a dizer que era melhor com anestesia e eu a dizer que não queria nem cesarianas nem anestesias, queria tudo ao natural, ajudas só mesmo em último caso, queria parir como os animais, sentir as crianças a sair de dentro do meu corpo. Depois, horas e horas de trabalho de parto, a já achar que não aguentava, eles não desciam, e doía, doía tanto, tanto, e ele a dizer que já era tarde, que o processo de expulsão já estava em curso mas que a coisa ia, que eu ajudasse que ele ia puxá-los com ferros, e sorria, tranquilo - apenas uma vez o vi sério, com ar apreensivo mas, mal me viu a perscrutar o seu semblante, logo sorriu; e o meu marido, jovenzinho como eu mas corajoso que só visto, sempre presente e preocupado comigo por me ver tão transpirada, exausta e aflita, e eu cheia, cheia de dores sem ser capaz de o tranquilizar, e a ajudar nas operações (numa das vezes, tanta a força para puxar a criança que ele e a enfermeira tiveram que me segurar pelos ombros para eu não ir atrás); mas, mal os bebés saíram e vieram para cima de mim, já eu estava feliz, sem me lembrar de nada, qual sofrimento? nenhum!, e toda contente com as minhas pequenas crias ensanguentadas em cima de mim e eu a falar com eles e eles a olharem para mim, o cordão ainda ligado, e ele, o médico sorridente, a dizer que era assim mesmo, que o que eu estava a fazer era uma coisa boa, que fortalecia a ligação e que dava segurança às crianças, e sorria, sempre com aquele ar tão tranquilo. Igual das duas vezes, fórceps a sangue frio. Agora ali na televisão, quase igual, apenas com o cabelo mais branco, continua a sorrir, uma harmonia grande à sua volta. E a voz, igual.

Telefonei à minha mãe para saber se estava tudo bem, que sim; e se o tinha visto na televisão. Que sim, igual, disse ela, a mesma calma, o mesmo sorriso. Naqueles dois dias, horas a fio, várias vezes ele tranquilizou a família, que não estava fácil mas que tudo se resolveria sem problemas e, depois, contente, a partilhar o alívio e a alegria com a família.

Daqui a nada irei à procura de notícias nos jornais e revistas, talvez alguma coisa valha a pena. Senão voltarei a ler, ou talvez vá pintar. Ou talvez abra a porta, agora que já anoiteceu, e me ponha a olhar o céu.




Vive-se quando se vive a substância intacta 
em estar a ser sua ardente  
harmonia 
que se expande em clara atmosfera 
leve e sem delírio ou talvez delirando 
no vértice da frescura onde a imagem treme 
um pouco na visão intensa e fluida 




E tudo o que se vê é a ondeação 
da transparência até aos confins do planeta 




E há um momento em que o pensamento repousa 
numa sílaba de ouro 
É a hora leve do verão 
a sua correnteza azul 
Há um paladar nas veias 
e uma lisura de estar nas espáduas do dia 




Que respiração tão alta da brisa fluvial! 
Afluem energias de uma violência suave 
Minúcias musicais sobre um fundo de brancura 
A certeza de estar na fluidez animal 




"Miracles" by Walt Whitman (read by Tom O'Bedlam)

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Poema transcrito: Vive-se quando se vive a substância intacta de António Ramos Rosa.

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