Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, março 29, 2017

Coitado, tão feio. Mas uma ternura.




Sofria -- sofreu. 

Amachucado, traído, aos empurrões de todos, sucedeu-lhe a pior coisa que pode acontecer à matéria: veio-lhe fastio. 


Grotesco, feio, com a existência aos baldões, sem um bocadinho de ternura (a morte leva-lhe todos os amigos), rei ainda por cima, as suas anedotas, a sua vida, a sua figura, são ainda hoje motivos de grotesco... 

E no fundo, sob essa capa ridícula, por baixo da barriga, da papeira, da beiça, do olhar desconfiado, havia, houve sem dúvida uma ternura enorme. 

A mulher traíu-o; os filhos enganaram-no e mentiram-lhe; teve de fugir, de se livrar do veneno, das revoltas, da intriga, sempre a encostrar-se à amizade deste, daquele, dos generações, dos embaixadores, dos ministros, dos criados.. Não foi uma grande inteligência nem um grande carácter, mas foi uma extrema bondade. Passou a vida a afligir-se. 

Por qualquer lado que se encare é um motivo de chacota. 

É o senhor D. João VI -- é o pataco -- é o rapé  -- é a beiça... 


É -- mas é também o melhor homem da sua época, e, sob o grotesco, encontras uma grande beleza escondida, sumida, escarnecida. 


Sofria -- sofreu.

[in 'El-Rei Junot' de Raul Brandão]

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[E agora, depois de tanta maldade -- que não é maneira falar de tão clemente figura -- aliviemos a consciência bailando uma chaconnne. E nada de trazer para a dança a memória desse herege do Raul Brandão que aquilo não são modos para se referir a um rei tão determinado e formoso, tão gastronomicamene alavancado em coxinhas de galinha.]



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E depois deste meu momento bem comportado, de cariz histórico/literário, queiram, por favor, descer até onde esclareço um ou outro ponto relacionado com ilusões de óptica e outras cenas.

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Sobre ilusões de óptica, ilusões de escritas, altos e baixos, feios e bonitos.
E sobre prestimosas evangelistas.


Isto de uma pessoa se pôr para aqui a escrever comporta alguns riscos. Escreve-se a pensar numa coisa e, certamente por falta de habilidade na escrita, quem lê, interpreta de outra maneira.


Por ângulo de filmagem ou por utilização de qualquer outro recurso, a imagem que passa é que as pessoas que vemos na televisão têm muito mais altura do que têm na realidade. 
No entanto, alguém me recriminou por achar que eu estava a troçar do aspecto das pessoas. Ora, como eu achava que estava bem claro, ao escrever, eu referia-me apenas à diferença entre o que nos era dado a ver pelas televisões e o que era na realidade.

(Claro que nem me referia à maquilhagem que isso nem tem nada a ver com ser na televisão ou ao vivo. Por exemplo, há dias estava a almoçar ao lado de conhecida apresentadora e só me dei conta disso pela voz. Sem maquilhagem e vestida 'à civil' era outra pessoa.)

E claro que também não tenho nada contra nem a favor o aspecto físico das pessoas. É o que é. Se a mim me disserem que sou bonita fico tão indiferente como se me disserem que sou feia. Ou que sou alta ou baixa. Nada posso fazer contra isso. Posso disfarçar, pintalgar-me, usar saltos altíssimos, mas, na hora da verdade, quando saio do banho, sou o que sou.

Isso, no entanto, não me parece motivo para ignorar as características físicas de alguém. Se eu, para caracterizar o aspecto de uma pessoa, disser que ela é alta, que mal tem isso? Só tem mal se eu disser que é baixa? Porquê? Preconceitos provavelmente na cabeça de quem lê... não?

Eu, pelo menos, penso assim. Sem dramas, sem casos, sem moralismos bafientos.
Não tenho altura recomendável para jogar basket? Paciência. Faço caminhada.  
Não tenho medidas adequadas para desfilar ou para vestir roupa tamanho XS de estilistas? Paciência. Visto o que me serve. 
Não sou linda de morrer? Melhor, assim não fico com peso na consciência por matar de amores quem em mim depositar o olhar.
Mais. Quem disse que só as esculturais criaturas são merecedoras de admiração e referência? Eu não fui. 

A história está cheia de celebridades (artistas de cinema, cantores, pintores, escritores, filósofos, etc) que, não obstante o seu aspecto físico estar longe dos cânones da beleza, ficaram ou ficarão para a história como carismáticos agentes de sedução, de paixões incendiárias e de amores eternos. E, de maneira geral, mais interessantes (pelo menos para mim) são aqueles que têm um toque de imperfeição do que os que nos aparecem com ar de quem tem como ocupação principal o culto do físico.

Portanto, que não subsistam dúvidas: para mim, gente é gente e ponto final. E ponham-lhes em cima lentes de aumentar ou de adelgaçar, quilos de maquilhagem ou recheiem-nos com toneladas de moralismos ou de citações literárias ou filosóficas que eu continuo na minha: gente é gente. (E, para o meu gosto, quanto mais ao natural melhor.)

No entanto, e embora não fosse, de todo, o tema do post de ontem nem é decorrência do que acima escrevi, que uma coisa não seja escamoteada: 
Por exemplo, David Gandy.
E, tendo estes óculos,
capaz de, em cima do resto,
ainda ser intelectual
Não ignoremos as estatísticas nem o que lhes subjaz. Mostram os estudos que as pessoas tendem a sentir-se atraidas por quem é mais bonito -- e, por bonito, entenda-se o que obedece a padrões comummente aceites, como, por exemplo, os que respeitam à simetria. E a razão é simples: supostamente, com a simetria vem uma maior resistência física, nomeadamente resistência a doenças e, como derivada dessa melhor forma física, não sei se primeira, se segunda, vem a maior aptidão para a reprodução. E nisto não nos esqueçamos que somos animais e, parecendo que não, é bom que nos lembremos que a continuidade da espécie é relevante. Identicamente, intui-se que um macho calmeirão terá mais aptidões para defender a fêmea de assédios indesejáveis, para a proteger do lobo mau ou para guardar a gruta do que um franganote. Já não estamos aí mas os genes guardaram estas preocupações ancestrais. 
Portanto, sem grandes moralismos e com alguma racionalidade, aceitemos as coisas como elas são.

Da minha parte, devo dizer que há, contudo, algumas coisas que me maçam um bocadinho. Por exemplo, no outro dia uma vizinha que não via há meses, talvez a única que conheço, pessoa de alguma idade, ao ver-me ao longe, veio de braços abertos, sorrindo, depois abraçando-me: 'Está bonita... mais gordinha...'. O meu marido manteve-se ao largo pois, se a conversa se prolongasse, punha-se ao fresco. Mas ainda assim ouviu-me e, no gozo, relatou a cena aos filhos. 'E ela, voz sumida, disse - ah... isso não são boas notícias...' Já não é a primeira vez que esta vizinha me faz esta. No outro dia, no médico, queixei-me. Ele que não, que 'para a sua idade está muito bem'. Caneco. Para a minha idade?! Pior a emenda que o soneto. Mas eu, esquecendo esse factor da idade, acho que devia perder 3 a 4 quilos. Um dia destes ainda me atiro ao assunto.

Mas, tirando esse desconsolo momentâneo de ouvir dizer que estou mais gordinha, quero cá eu saber que me achem alta ou baixa, magra ou gorda, loura ou morena, nova ou velha, míope, estrábica, olhos azuis de ciúme, verdes de traição ou negros como o queixume, canhota ou dextra, poderosa ou franzina. 

Mas, enfim, parece que tenho que aceitar este castigo: acho que há leitores que treslêem o que eu digo ou, então, que acham que devem educar-me à força. 

Mas uma coisa lhe conto, Cara Leitora que quer evangelizar-me e a quem, obviamente, agradeço o esforço: ontem escrevi sobre ilusões de óptica mas também já me aconteceu provocar ilusões d'escritas, nomeadamente ficcionar à grande e à francesa e, imagine, virem recriminar-me por estar a inventar sobre a única coisa que era verdadeira no texto.

Não é fácil. Mas quem corre de gosto não cansa -- e quem vai à guerra dá e leva e grão a grão enche a galinha o papo e devagar se vai ao longe e não há fome que não dê em fartura e branco é, galinha o põe.

Portanto, ficamos assim. 

E, entretanto, vou ficar aqui, muito bem comportada, a pensar, a pensar, a ver se me ocorre alguma causa nobre sobre a qual escrever.


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Mas, se me permitem, vou ficar com a Alice Francis a dar um pezinho de dança.
Juntem-se-nos que isto está muito calmo, está mas é mesmo a pedir uma farrinha.


E até já.

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terça-feira, março 28, 2017

Um dia tenho que falar das estrelas de televisão quando são vistas ao vivo


Estava agora aqui a ler a opinião da Agustina sobre os críticos literários e preparava-me já para a transcrever. Mas depois pensei que, às tantas, isto da Agustina é mesmo coisa para clubes do bolinha onde só entram meninos com... (e até ia versejar mas, bem vistas as coisas, arrepio já caminho não porque um verso aqui destoe mas porque o que ia dizer seria redundante) ou, então, para meninas intelectuais de tipo desasado, de saia pendona, sandalonas e franja pelo meio da testa e achei por bem não abusar na dose, não vá os meus leitores acharem que, com tanta Agustina, teriam mesmo que me filiar e não saberem bem para que lado me haveriam de empurrar.


Portanto, fica para outro dia. Críticos e tradutores. Interessante o que ela diz deles.


E, uma vez que hoje me cruzei com mais um sex symbol da televisão portuguesa, capa de vinte mil revistas e tomba corações de trezentas vedetas,  e que, de novo, fiquei a olhar de alto, perplexa, com vontade de o medir a palmo para ver se é ilusão de óptica ou quê, pensei que hoje é que ia aqui desabafar.

É que não há um, senhores, que seja como parece. A gente vê-os, hercúleos, altos, tudo coisa para cima, no mínimo, de um metro e setenta e muitos e, depois, passa por eles e parecem saídos do conto da Branca de Neve. E nada contra quem não se pareça com o  Tarzan ou com a Jane, juro que não, é mesmo apenas espanto. Ao vivo parecem metade do que parecem na televisão.


Já no outro dia, uma super conhecida que eu antevia que fosse mesmo mini-mini. Pois não vos digo nem vos conto. Ponham mini-mini nisso. Sem pinturas, sem saltos, sem aquelas altas produções, era capaz de passar por catraia do 4º ano, ex-4ª classe. Sendo pessoa tão conhecida, ao vivo mal se reparava nela. E gira. Uma miúda gira.

E, ao lado de uma beldade, do mais escultural e carismático que pela televisão tem passado, eu a julgar que era moça para fazer duas de mim em altura e qual quê, mais uma mão travessa se tanto. 


E um jornalista mauzão, que sabe tudo, um importantão que por aí anda sempre a opinar? Quase tudo cabeça. O corpo mal se vê e, na televisão, quem o veja, parece um matulão.


Se eu tivesse tempo falava com pormenor e vocês até percebiam de quem é que eu estava a falar. Assim, fica para a próxima. Mas fiquem a saber: se se apanharem na televisão, já sabem: vão passar por uns calmeirões, que aquilo lá deve ter lentes de esticar em altura.


E, assim sendo, vou indo mas não sem antes -- e porque isto não é post que se apresente, para ver se evito a pateada geral e a devolução do bilhete -- vos deixar com estas imagens retocadas. Explico. As pessoas pedem a James Fridman que dê uma demão de photoshop para retocar um ou outro aspecto. E ele dá. O pior é que o bom do James faz uma leitura literal do que lhe pedem e o que sai nem sempre é o que se espera.


E isto para vos alertar: caso vos convidem para aparecer na televisão, cuidado com a forma como formulam o pedido de melhoria não vá haver por lá algum malandreco como o James e as pernas grandes ainda saírem parecidas com esguias patas de girafa. Isto na melhor das hipóteses.

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Mas desçam para a companhia da Agustina que ficarão em melhor companhia. 
Comigo, já sabem, não se aprende nada.

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Sophia por Agustina
[E reparem num dos motivos pelos quais gosto tanto de Agustina:
dizia ela que
"não há nada pior do que o fastio de se ser sensato"
e isso, claro está, é música para os meus ouvidos]






Aquilo que me ligou à Sophia de Mello Breyner não foi a amizade, que resulta dum contexto de ideias ou duma compatibilidade histórica; quer dizer, do facto de sermos contemporâneos, sujeitos a uma mesma disciplina moral e cultural. Não era isso. Nós tínhamos a capacidade de nos impressionarmos; como as crianças têm. 

Thomas Mann, a dado momento da sua vida, ao ver uma criança a repetir sempre a mesma brincadeira, pôs-se a reflectir sobre isso que lhe parecia extraordinário. Era assim connosco. Tomávamos a sério coisas que no fundo nos divertiam. A Sophia e eu não sabíamos o que era a solidão. O concreto era a aventura, e a poesia era a sua forma de ser concreta.

Falando-lhe eu um dia do Marquês de Pombal e da atitude pessoal que teve no processo dos Távoras, simplesmente não me quis ouvir. Não gostava de discutir as coisas que não eram da sua linhagem intelectual.

Ela dizia que há sempre um pouco de vingança na boa conduta de alguém. 

Debatíamos isto, ela a tomar chá e a fumar. 

Eu replicava que não há nada pior do que o fastio de se ser sensato. Era assim que nos entendíamos. Mas raramente conversávamos. Às vezes pedia-me conselhos e dizia-me: "Não quero bons conselhos, desses estou até aos olhos. Antes aqueles conselhos que se esquecem depressa como o vento que nos desarruma o cabelo.". Era assim que nos entendíamos. Mas raramente conversávamos. Dava muito trabalho defendermo-nos do ciúme de quem disputava a amizade dela. A outra amizade.

Uma coisa era certa. Acabávamos sempre por estar de acordo sobe o Marquês: "Um chato."

Era assim connosco. Era bom.



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Tal como no post abaixo, no qual Agustina fala de Callas, também aqui a selecção das músicas e as fotografias é coisa minha.

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Maria Callas segundo Agustina



Há um ponto de apoio imaginário que dá para levantar o mundo: é a indignação. Nas mulheres, esse ponto obscuro no coração delas, que as faz profundas e sedutoras, é também a indignação. 


Foi assim que aconteceu com a Callas. Tentem compreendê-la e não conseguem. Tentam interpretá-la na sua carreira amorosa e no discurso da sua arte. Não chegam a conclusão nenhuma. Ela foi uma mulher arrebatada pela própria humilhação. Traída, apreciada, castigada e caída em desgraça, a Callas perdura como a pessoa indignada que foi. Não contra os homens, os sistemas, os factos. 


Simplesmente porque o seu ponto de apoio era o canto e este é, confidencialmente, a indignação pura que até o céu comove.


[in 'Caderno de Significados', Agustina Bessa-Luís]


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Vissi D'arte por Maria Callas



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A escolha das fotografias e do vídeo é de minha lavra.

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segunda-feira, março 27, 2017

Eu podia.
Mas melhor fora que o não pudesse.





Eu podia ter cabelos e mãos azuis e os meus olhos abstractos terem chorado cristais também azuis,

e ter ficado assim depois de ter estado a espreitar o futuro.


Eu podia adivinhar os teus pensamentos e saber como o teu coração bate e como suspendes as tuas mãos para receber estas minhas palavras

e ter ficado assim depois de ter lido sobre os algoritmos que adivinham como as pessoas pensam.


Eu podia conseguir que agora ouvisses a minha voz, uma voz sussurrada, segredada apenas aos teus ouvidos,

e ter ficado assim depois de saber sobre a propagação das ideias em ondas infinitas.


Eu podia agora, só para ti, recordar poemas que nunca soube, falas de deuses que desconheço, descrever ruas empedradas que descem até ao mar em ilhas longínquas que nunca visitei, contar-te dos muros brancos onde a luz se desvaira ou do lamento de ninfas que o tempo esqueceu,

e ter ficado assim depois de ter ouvido do tempo e espaço que se retraem e expandem numa intimidade que muitos ousam espreitar.


Eu podia ser pouco mais do que isto, palavras que surgem quando a noite se deita sobre o teu corpo, alguém sem rosto, sem nome, sem existência real,

e ter ficado assim depois de saber como é fácil simular a vida.


Eu podia pousar sobre ti o meu olhar e tu não me veres, podia saber quem tu és sem tu me dizeres, sem ninguém me dizer, tudo saber e tudo calar, devorar o conhecimento e transformá-lo em silêncio,

e ter ficado assim depois de ouvir que tudo, tudo, é possível -- mas saber que melhor fora que o não fosse.



(E daqui, deste lugar algures no espaço, envio um abraço azul a quem me lê)

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E queiram, por favor, descer até onde as formigas em carreiro se cruzam com as redes neuronais e, se um pouco mais, até ao mar em dia de invernia.

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A formiga no carreiro e as redes neuronais
[Ou quando les beaux esprits se rencontrent]


Na sequência de alguns textos sobre os riscos da inteligência artificial (IA) num contexto desregulado e no seio de uma sociedade globalmente alheada destes temas (por exemplo, este post), dois Leitores contribuíram com o seu testemunho em comentários tão interessantes que, na altura, tomei a liberdade de puxar para o corpo principal do Um Jeito Manso (aqui e aqui).


Duas visões distintas: de um lado, o João L. que advoga o primado da inteligência da natureza e a certeza da impossibilidade de copiar ou ultrapassar a infinitude que habita o cérebro humano e, do outro, o Fernando Ribeiro, que nos traz a visão da engenharia que se abisma perante a capacidade quase imparável da tecnologia.


Porque a troca de argumentos continuou nos comentários e porque me parece impossível não dar o máximo relevo a esta troca de ideias, de novo puxo para um post autónomo a opinião de ambos. É um prazer quando les beaux esprits se rencontrent. 

Ilustro com fotografias feitas este sábado in heaven. 
[Não sei se a beleza, a fragilidade, a (im)perfeição da natureza pode algum dia ser suplantada por criações by IA.  Mas talvez isso, um dia, também deixe de ser relevante.]



João L. disse...

Também acho UJM: " os robots estão aí num mundo desregulado e o que não vai faltar é quem os use contra o interesse da humanidade". E o que acho mais preocupante é que os robots, ao contrário dos humanos (da maioria deles!!!), não têm dúvidas. Ou, para para dizer isto de outra maneira, de uma maneira que, em minha opinião, mostra o que separa a inteligência artificial de um cérebro: os robots não se baldam e em vez de ir trabalhar vão dar uma volta, ou às compras, ou andar de bicicleta com um sorriso nos lábios a pensar: "ai que prazer não cumprir um dever". Nós somos "imperfeitos", os robots não. 


Fernando Ribeiro disse...

Relativamente à valiosa contribuição do seu leitor João L, tenho algumas considerações a fazer, do ponto de vista de um simples curioso, que é o que eu sou.

Ao longo dos anos, tem-se chamado "inteligência artificial" ao que não é, de maneira nenhuma, verdadeira inteligência artificial, mas sim um simulacro ou, chamando os bois pelos nomes, uma fraude. Uma fraude! O facto de um computador ser capaz de ganhar uma partida de xadrez ao Kasparov não faz do computador uma entidade minimamente inteligente. Quando muito, poderemos chamar inteligentes às pessoas que conceberam o programa de xadrez que o computador executou. Também é verdade que nenhum cérebro (humano) consegue perceber o que o próprio cérebro (humano) faz, mas têm-se feito significativos avanços nesse sentido, com a ajuda, inclusive, das redes neuronais artificiais (computacionais).

O leitor João L tem razão quanto ao facto de o número de neurónios e de sinapses existente num cérebro humano ser verdadeiramente astronómico. É verdadeiramente ASTRONÓMICO, sim, senhor. Contudo, a inteligência artificial tem uma vantagem sobre a verdadeira inteligência (orgânica), e esta vantagem chama-se velocidade de processamento.

Um neurónio é uma célula de um tipo especial, que tem por finalidade transmitir e processar informação, desde as terminações nervosas existentes nos órgãos sensoriais até ao sistema nervoso central, dentro deste mesmo sistema nervoso central e deste até às terminações neuromusculares. Um neurónio é composto por três partes, a saber: corpo celular, axónio e dendrites. O corpo celular ou soma tem sobretudo por finalidade manter o neurónio vivo e saudável; é onde se encontra o núcleo da célula, isto é, do neurónio. O axónio é uma fibra muito comprida que tem em vista transmitir a informação de um extremo do neurónio para o outro, fazendo-a avançar no espaço; um feixe de axónios é o que constitui um nervo. As dendrites contêm as sinapses, que são os pontos em que um neurónio comunica com os neurónios vizinhos, passando para estes ou recebendo destes a informação a tratar; existem dendrites em volta do corpo celular de um neurónio e no extremo oposto do seu axónio.

A informação entre neurónios faz-se, como já disse, através das sinapses, que quase sempre comunicam entre si pela libertação de compostos químicos, chamados mediadores. Esta comunicação não é elétrica, mas sim química. Nos axónios, a informação consiste em impulsos do campo elétrico que se vão propagando de um extremo ao outro dos mesmos; esta propagação do campo elétrico obriga a uma polarização elétrica das paredes do axónio e obriga a uma subsequente despolarização, depois de um impulso passar; enquanto uma despolarização não se completar, um axónio fica incapaz de transmitir nova informação.

Dadas as limitações apontadas, a velocidade de transmissão e de processamento de informação num sistema nervoso como o humano (incluindo dentro do próprio cérebro) é lentíssima. Ela é inferior a 1 m/s (360 km/h), quando os axónios não estão envolvidos por uma bainha de mielina, e da ordem de 2 m/s (720 km/h), quando os axónios estão envolvidos por mielina.

Os computadores são dispositivos eletrónicos em que a velocidade de propagação da informação é muito próxima da velocidade da luz, cerca de 300.000 km/s. É claro que a velocidade de processamento de um computador não é esta, nem pouco mais ou menos. Mas qualquer processador moderno é regulado por um "relógio" que vibra a muito mais do que mil milhões de vezes por segundo, ou seja 1 GHz (1 gigahertz). Qualquer smartphone, por mais barato que seja, tem um "relógio" de 1,2 GHz ou mesmo de 1,4 GHz. Quer tudo isto dizer que o mais banal e mais barato smartphone do mercado tem uma velocidade de processamento que é muitas ordens de grandeza superior à do cérebro do seu proprietário!

Bom, vamos abreviar, que isto está a ficar um relambório que nunca mais acaba e eu tenho mais que fazer. Dada a sua enorme vantagem em termos de velocidade (e ainda não usamos a fotónica em vez da eletrónica, mas pouco falta) uma rede neuronal artificial poderá não precisar de ter um número tão grande de "neurónios" e de "sinapses" como um cérebro humano, para poder ter uma capacidade de processamento equivalente, bastando usar uma e outra vez os mesmos "neurónios" e as mesmas "sinapses" (mas com "pesos" diferentes de cada vez, claro). Tudo dependerá do uso que se lhes der, isto é, do software. É claro que existe ainda um longuíssimo caminho a percorrer e muitíssimos anos a decorrer até que se consiga (espero que não) uma inteligência artificial que se possa comparar à inteligência real. Seja como for, têm sido feitos avanços muito significativos nesse sentido. Há alguns anos fiquei assustadíssimo quando alguém disse que tinha construído uma rede neuronal tão inteligente como um caracol. Sinceramente, não acredito que a tenha construído, mas se continuarmos assim, ela vai ser construída com certeza. E a seguir à inteligência do caracol, virá o quê?


João L. disse...

(com as devidas desculpas a UJM pelo abuso)

Caro Fernando Ribeiro, já vi que tenho aqui companheiro para umas belas discussões mas, sem querer abusar da hospitalidade da UJM, deixo-lhe esta provocação: a complexidade num ninho de (lentas) formigas é bem maior que numa corrida de (rápidos) carros de fórmula 1. São as interacções e a regulação que alavancam (para usar uma palavra da moda) a complexidade.


Fernando Ribeiro disse...

Caro João L., não me deixa provocação nenhuma, porque estou totalmente de acordo. São precisamente as interações e a regulação existentes nas redes neuronais computacionais que lhes dão o seu poder, incluindo o poder de aprenderem, a partir, está claro, de um certo "conhecimento" inicial que lhes é dado. Os exemplos fornecidos dos carros que já circulam sozinhos (experimentalmente, por enquanto) em algumas cidades dos Estados Unidos, ou do reconhecimento de padrões em imagens que a Google e o Facebook estão a desenvolver com resultados que já são extraordinários, são uma demonstração do que pode vir aí. A velocidade dos circuitos eletrónicos (e dos circuitos fotónicos num futuro próximo) pode permitir ultrapassar as limitações que tais redes não podem deixar de ter, através da reafetação dos seus recursos uma e outra vez, para uma e outra tarefa, a uma velocidade alucinante. Note-se que estamos a falar de redes neuronais, que já têm milhares e milhares de núcleos e um número incomparavelmente maior de interligações, mas que mesmo assim são infinitamente menos poderosas do que o cérebro. Já não são para aqui chamados os computadores que têm uma arquitetura tradicional, dita de von Neumann, com um processador central, bancos de memória e periféricos à volta. O computador que estou a usar neste momento já é pré-histórico.


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E, uma vez mais, agradeço ao João e ao Fernando o seu precioso contributo para uma reflexão que acho indispensável e urgente.

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Nem de propósito o artigo de destaque da Vanity Fair de hoje:

ELON MUSK’S BILLION-DOLLAR CRUSADE TO STOP THE A.I. APOCALYPSE


Elon Musk is famous for his futuristic gambles, but Silicon Valley’s latest rush to embrace artificial intelligence scares him. And he thinks you should be frightened too. Inside his efforts to influence the rapidly advancing field and its proponents, and to save humanity from machine-learning overlords




Ver o mar em dia de temporal


Quis ir ver o mar. Dia de chuva, vento e frio. Mas acordei com esta ideia: queria ver o mar. Pensei que talvez conseguisse caminhar cá em cima, vendo a rebentação. Que não, impossível. E eu que sim, que talvez. Que não dava, nem daria para abrir o chapéu-de-chuva. Que talvez desse. Que íamos ficar encharcados. Que não, que também não estava assim tão mau.

Lá chegados, ninguém, só nós. Logo: claro que mais nenhum maluco se lembrou de vir para aqui num dia destes. Não respondi. De facto. Uma ventania. Não se conseguia ter o chapéu de chuva aberto. Muito frio. O mar nem assim tão mau. Mas impossível. Quase sem se conseguir andar. Meia dúzia de passos, meia dúzia de fotografias.

Mas a alma lavada. A necessidade de ver o mar (quase) satisfeita.


Poema de Sophia do livro Mar

Maria Bethânia interpreta Poema Azul



Ode ao Mar, Pablo Neruda, na voz de Tomás Galindo

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domingo, março 26, 2017

As saudades que o Abel Barros Baptista tem dos trocadilhos do José Sesinando


Os terroristas raciocinam por explosão de partes.

Devagar se vai ao monge.

Tenho a certeza absoluta de que talvez seja assim.

A Vénus de Milo não tem mãos a medir (e não dá o braço a torcer porque é uma mulher de mão cheia).

Um bom decorador tem de ter boa memória.

Falar com galicismos é cometer uma gaffe.

Na época do Iluminismo ainda não havia electricidade.

Se a leitura é um vício, então o Círculo de Leitores é um círculo vicioso.

Um partido ecológico é um garden party.

Que Liver pule ou não pule, isso é lá com ule.


Amor com amor se apaga.

O Arco de Santana não é Lopes.

Aquele hotel era tão pequeno que só tinha quartos minguantes.

O médico obstetra decidiu abandonar a mulher e deixou-lhe um bilhete dizendo: "Parto sem dor".

A galícola da minha vesícula é melhor do que a mícola.

O bordado da Madeira está sujeito à traça e ao caruncho.

O pior da insónia é que não deixa dormir...



Estes aforismos trocadilhéticos do José Sesinando (José Sesinando Palla e Carmo (Lisboa, 1923 - 1995) li-os no inclassificável E assim sucessivamente do mesmo Abel Barros Baptista do chapéu da vista e do gato do Quintana

Na wikipédia dei com mais uns puns:


Foi Copérnico quem primeiro viu a estrela pular.

Vá de metro, Satanás!

Os conferencistas ateus não têm Papas na língua.

É vidente: mente, evidentemente. 

Você sabe onde é que o Alberto moravia?

Quem não tem um Rolls, rói-se.

Os tecnocratas estão classificados por ordem analfabética.


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A escolha das imagens é minha, não do ABB.

E o vídeo que abaixo vos mostro também é de minha selecção e está aqui apenas porque sim. Podia colocar o vídeo do Eixo do Mal que acabei de ver mas, apesar de igualmente recheado de absurdos, tem muito menos graça que este.



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(E não levem a mal que não responda aos comentários. Leio-os, gosto de os ler, claro que gosto, agradeço-os, gostava de dar troco. Mas tempo para lhes responder é que é pior (quando consigo chegar ao sofá ou estou a dormir ou a escrever os posts. As pilhas não têm dado para chegar acordada ao momento em que deviar pôr-me à conversa com os meus Leitores. Aceitem, por favor, as minhas desculpas. )

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O Abel Barros Baptista, o chapéu da visita e o gato do Mário Quintana


Vinha de carro e, tal como suspeitado, guardado estava o bocado para quem o havia de comer: o Abel Barros Baptista no meu colo. E, marafado como só ele, a fazer-me rir.

Mas a coisa vinha num riso discreto, as coisas que ele ia dizendo era facetas mas do género soft-facetas. Até que, de repente, me fez soltar franca gargalhada e eu, quando alguma coisa me vai ao goto, fico de me esganar a rir. Perguntam: 'Mas o que é?'. Incapaz de responder, só riso. Concluem: 'Só pode ser alguma maluquice'.

E era. Ainda agora me rio. Trancrevo o dizer do belo Abel:


Um dia, o poeta brasileiro Mário Quintana foi visitar uns amigos. 

Quando chegou, sentou-se inadvertidamente em cima do chapéu de outra visita, que gritou, já incapaz de salvar o acessório. 

O poeta, embaraçado, e aliás desastrado, justificou-se: "Desculpe, pensei que era um gato."


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Até já com mais recuerdos do ABB

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sábado, março 25, 2017

Como se seleccionam pessoas para um trabalho?
(Há receitas infalíveis? Se houver, por favor, digam-me)


Estou incapaz de ter o que dizer. Há na vida qualquer coisa de muito incompreensível. 




Por exemplo. Uma pessoa vive a vida inteira uma vida oca, frustrada. Desperdiça a vida, ocupando-a com insignificâncias que são exponenciadas a ponto de parecerem emergências. Por tanto se devotar a esses insanos labores, a pessoa espera reconhecimento. Como os outros acham absurda aquela devoção, não mostram o esperado reconhecimento. A pessoa sente-se, então, vítima de incompreensão, ainda mais frustrada. O tempo passa, a pessoa está na meia idade e praticamente não tem amigos, também se afastou da família. Nunca teve tempo para eles, a sua prioridade sempre foi outra. Entra em depressão -- que não reconhece pois acha que os problemas estão nos outros e não nela. E eu olho e fico com pena e admirada. Como é que pessoas assim não percebem que passa um ano e outro e outro e que, se olharem para trás, não verão nada, só vazio? Trabalham de manhã à noite e nada mais fazem na vida. No dia em que deixarem de trabalhar os outros respirarão de alívio porque uma pessoa assim é uma nuvem negra carregada de recriminações. E este é um caso real, igual a tantos assim. 

E outro. Uma pessoa escreve maravilhosamente. É culta. Tem graça. É ágil. Está a milhas de muitos outros cujos nomes inundam livrarias em livros que valem zero ou assinam crónicas regiamente pagas e que valem menos que um chavo. E, no entanto, quando tinha tudo para produzir obra de qualidade em nome próprio, esgota a sua arte e perícia em vacuidades ou em trabalho anónimo. Os anos passam, porque sempre passam, e um dia será tarde para tentar repôr a justiça para com os dons que possui. Também é um caso real.


Antes de sair, colega foi levar-me um dossier com candidaturas para eu, durante o fim de semana, dar uma vista de olhos a ver se algumas me interessam para se dar início ao processo de recrutamento. Muita gente, bons currículos. Há sempre, em mim, alguma angústia quando faço isto. Forçosamente ponho logo algumas de lado. Não é possível seguir com muita gente até escolher um, perder-se-ia muito tempo. No entanto, os CVs são muito parecidos. Procuro alguma coisa que revele alguma diferença, que chame a minha atenção. Mas não: formatos normalizados, informações sintetizadas, também praticamente normalizadas. A maior parte tem fotografia. Gosto quando estão a rir, gosto quando detecto descontracção ou simpatia. Fazem-me impressão os que se mostram completamente formais, circunspectos. No entanto, temo cometer injustiças. Já me parecem incompletos os que não têm fotografia. Procuro hobbies, actividades que não tenham a ver com a profissão. A maior parte omite isso.


Aparece-me um que parece muito bonito, atlético, brasileiro, CV bem estruturado. Quase me apetece pô-lo no topo da short list.
(Depois, ao ter esta ideia, penso que deve ser assim que os homens escolhem candidatas mulheres). 
E eu tenho aqui para cima de uma dúzia de candidaturas e, no entanto, apenas uma é de uma mulher. Aparece-me um que não diz a idade mas que, pela fotografia, imagino que ande acima dos cinquenta. Cursos que não acabam, bons cursos. Não sei quantas empresas por onde passou. Agora desempregado. Dá ideia que, ao longo da vida, não conseguiu perceber qual a sua vocação ou não conseguiu adaptar-se a nenhum dos trabalhos que teve. Ou, então, não teve sorte. Fico mais angustiada ainda. Ponho-o de lado? Estava a pensar em alguém novo, sangue novo, disruptivo. Custa-me muito isto. É a vida das pessoas nestas folhas que aqui tenho espalhadas ao meu lado, no sofá.

Depois de uma manhã um bocado complicada -- a altura das avaliações, quando levada a sério, pode ser um bocado desconfortável, especialmente se, do um dos lados lados, está alguém avesso a isso como é o meu caso -- e antes de uma tarde também agitada, breve pausa à hora de almoço. Fuga para lugar de eleição. Vontade de me sentar e ficar a ler. Vontade de folhear longamente. Sempre novidades. Ou talvez não, talvez apenas os meus olhos descubram coisas não vistas antes. Tenho aqui comigo junto aos CVs um belo livro. É pesado, muito texto, muitas poesias. Gosto da capa. Espreito uma e outra vez e agrada-me. Tem um CD que certamente vai acompanhar-me nas  deslocações pela cidade.

Quem enviou as suas candidaturas não sonha que a decisão está nas mãos de alguém que lê os livros que eu leio, que pensa como eu penso. 


No verão seleccionei um em que os que o entrevistaram, numa primeira triagem, estavam tentados a afastar dizendo-me que era um despassarado, se tinha perdido ao ir para lá, tinha chegado atrasado, tinha dado respostas 'ao lado', parecia estar um bocado noutra. Tocaram logo campainhas dentro de mim. Está lá agora a trabalhar. Uma pessoa incrível, incomum. Nada interessado num trabalho em horário normal. Aceitei. Fez ele o horário. Quis apenas uns meses. No outro dia, combinei que lhe propusessem um contrato de 1 ano, melhores condições. Para grande espanto de quem pensou ir dar-lhe uma boa notícia, não quis. Não quer prender-se. Todos espantados. Eu achei graça. Fui ter com ele: 'então, não quis assinar o contrato?'. Ele riu, que não, só até às férias, que não sabe o que vai fazer a seguir, que até pode ser que continue mas que agora não sabe. Fiquei contente. Mantém-se igual a si mesmo. Livre. Ainda bem. Privilégio é tê-lo connosco mesmo que neste regime completamente atípico. Nestas coisas acho que ser mulher faz alguma diferença. Aceito estas situações. Aliás: agradam-me.


O que me cansa, e cansa cada vez mais, são as pessoas completamente convencionais, que traçam regras restritivas para si próprias e para os outros, os que são moralistas e tentam moralizar a vida dos outros. Mas ao mesmo tempo sou muito exigente. Do descritivo das minhas funções, na parte comportamental, consta 'intolerância à mediocridade'. Neste ponto cumpro a 100%. Avessa à mediocridade e à mediania.
Como, de entre estas folhas que aqui tenho ao lado, descubro os que encaixarão bem naquilo que quero nas minhas equipas?
Como saber se, em cima do que sabem fazer profissionalmente, gostam de ler, se gostam da natureza, se é gente boa onda, se são generosos para com os colegas? 


Acho que, aos que pre-seleccionar, vou pedir que me digam o nome de um poeta, vou perguntar se sabem algum poema de cor. Vou pedir que me falem num músico que apreciem. Que me recomendem um passeio. Que mostrem que sabem que há vida para além do trabalho, que mostrem que gostam da profissão e que são capazes de se focar nela sem descurarem o que há para além dela.

E eu sou assim. Não gosto de sujeitar os candidatos a testes, a situações que excluam os que não são 'normalizados'. Conheço outros métodos completamente diferentes de seleccionar pessoas mas não estou certa de qual a maneira mais infalível.

A vida é uma coisa complicada. Não há consensos. A vida constrói-se. Mas há quem, por pouca sorte ou falta de jeito, mais pareça empenhado em destruí-la. Ou então é aquilo dos acasos. O ter a sorte de encontrar alguém que acredite em nós, que nos deixe usar as asas, que nos mostre que há muitas perspectivas, pode fazer a diferença. Mas encontrarmos essa pessoa é, na maior parte das vezes, puro acaso. Eu espero que quem trabalha nas minhas equipas ache que foi uma sorte ter-se cruzado comigo. Se calhar espero demais. Mas gostava.


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Um sábado feliz a quem me lê.

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sexta-feira, março 24, 2017

De olhos completamente fechados





Terei, então, que fechar os olhos? Terei? 

Terei, então, que deixar que o azul e o verde e os pássaros venham pousar nas pálpebras que deixo correr sobre os meus olhos cansados para que o dia não venha mostrar-me a realidade cinzenta e triste?

Peço segredos e cânticos e nada recebo, peço um pássaro amarelo e macio cantando na janela ou um bicho arrogante exibinto os seus aparatos sobre o meu corpo, e nada recebo. Nada.

Peço silêncios e palavras leves como sonhos -- e nada.

Continuo rodeada por ruído e penares.

Mas não faz mal. Fecho os olhos. Sacrifico-me. 

Fecho os olhos e vejo lagos, sombras floridas, borboletas, pássaros, nenúfares. Verdes, azuis, encantos.

(Mas vem na mesma.) 

Traz-me poemas, céus estrelados, campos de trigo, aldeias maravilhando ao sol, bichos dourados, ciprestes eternos, sempervirens, céus ondulando, nuvens azuis como marés, ventos quentes, doces memórias.


Vem.

Traz nas mãos as tuas palavras mais puras, vem dizendo coisas como jardins de jasmins, rochas cobertas de limos e conchas, conta-me de abismos e paraísos.
Esconde lamentos e saudades, não me fales de lágrimas nem de mãos vazias, nunca me digas palavras duras nem da dureza que, por vezes, habita o teu coração. Não me digas porque não posso acreditar. Nem quero.
Por isso, fala-me apenas de videiras, de roseiras luzindo à luz do sul, fala-me de muros de alvenaria, de bichos dormindo ao sol, fala-me de anémonas, de mares sem fim, fala-me de pombas desenhadas em quadros que cantam a paz, fala-me de gatos e de deuses. Conta-me de ti. Conta-me mentiras.


Ou não digas nada. Deixa apenas que ouça a tua respiração.

Fecho os olhos. Fecho os olhos em silêncio, penso em poemas longínquos, palavras brancas, alvores, rios que me enleiam. Vejo montes, vulcões, ondas e nevões, planícies e pássaros, lonjuras e flores de gelo, azuis, muitos azuis, e o branco de onde tudo nasce. Ouço a tua voz que nunca ouvi, vejo o teu olhar cego que me olha sem me ver, sinto o teu corpo que me cheira como um animal vadio.

Não quero saber de nada. Quero imaginar brincadeiras, risos, patos no lago e crianças a atirarem pão, quero imaginar flores no meu cabelo, palavras brandas como carícias incertas, quero jogar às escondidas, quero ser aquela que não existe, invisível, sem nome.

Quero ser aquela que, de eyes wide shut, inventa um  olhar sonhador, um olhar louco e que, de tanto querer o silêncio, escreve palavras sem dono e logo as solta na noite.

Agarra-as, são tuas.

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Maquilhagem inspirada respectivamente em Claude Monet, Van Gogh e Katsushika Hokusai.

A música é The Sacrifice, do filme, 'O piano', da autoria de Michael Nyman

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E queiram, por favor, descer caso queiram ver o que se esconde num silêncio limpo, sem palavras

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