Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, novembro 20, 2017

Bruno Maçães mostrou o pirilau, por fotografia, a Lily Lynch
-- e ela não gostou
[Isto segundo a Visão -- que eu não fui presenteada com a dita gaitinha e, portanto, não posso confirmar nem ajuizar porque terá sido que ela não gostou]


Ainda no outro dia eu soltava uma lagrimita virtual, com saudades dos queridos pafiosos de quinta categoria que durante uns anos alegraram a minha prosa. Enquanto os chefes Láparo & Portas faziam porcaria da grossa a torto e a direito, preocupando-me e irritando-me, uns quantos figurantes animavam os meus dias com as macacadas que davam à luz.
Não posso incluir a Marilu dos Swaps, o Gaspar pré-FMI, o Relvas antes e depois da pseudo-licenciatura, a Cristas do palavreado oco ou alguns outros que tais no grupo dos figurantes pois, pelos actos praticados, têm que fazer parte do naipe dos que por pouco não deram cabo do País. Deverão estar no pódio da nossa memória como alguns dos actores principais de uma desgraça que durou 4 anos. 
Referia-me eu a artistas como o Lombinha dos Briefings ou o Maçães das Polacas. 


Por não passarem de uns artolas que passaram pelo Governo sem terem dado uma para a caixa e, pelo contrário, deixando um rasto de nonsense, de ridículo, de incompreensão ('como é tal absurdo possível...?!' -- interrogavamo-nos de cada vez que apareciam), para sempre os veremos como o epítome do lado absurdo, burlesco e deslumbrado do passismo.

Muitas vezes aqui escrevi sobre Bruno Maçães: uma figurinha em bicos dos pés, fazendo-se passar por governante, sentindo-se importante. Um personagem cómico como vários outros do período negro que Cavaco Silva tão cuidadosamente protegeu. Qualquer coisa naquele Brunocas me fez, desde logo, perceber que estava ali um malandreco, mas um daqueles malandrecos de tipo cromo, bom para figurar numa galeria de patarecos mal resolvidos.


Foi, pois, sem surpresa que li a notícia:

Jornalista acusa Bruno Maçães de lhe enviar fotografias obscenas intimidatórias


(...) Bruno Maçães, ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus de Passos Coelho, foi hoje acusado de assédio no Twitter por parte de uma jornalista e o assunto está há várias horas a liderar os temas da rede social em Portugal. Lily Lynch, uma jornalista californiana co-fundadora e diretora do site Balkanist, alega que o antigo secretário de estado português manteve com ela conversas indesejadas que considerou assustadoras e que lhe enviou “dick pics” (fotografias explícitas de partes íntimas).(...)


E, francamente, só tenho pena que Lily Lynch não mostre as dick pics que o Maçães lhe enviou para eu poder ajuizar. Esta prosa poderia ser mais suculenta se pudesse ser abrilhantada com a imagem do pénis do ex-Secretário de Estado de Passos Coelho. Poderíamos, então, avaliar se seria coisa que impusesse respeito ou se teríamos que disfarçar o riso tal como o fizemos de cada vez que, na era passista, o víamos a armar-se em importante.



Assim, não posso adiantar mais nada. Só que estou solidária com a Lily quando ela se queixa:



A minha dúvida é a que é que ele se refere quando lhe responde, dizendo: uma coisinha frágil. Será que está a falar do seu little dick?

Na volta é. A desculpar-se. 

Enfim.

Este Maçães teima em não passar à história e continua a ser pelos mais hilariantes motivos. Ca ganda maluco.


A cabeça serve a Maçães para coisa nenhuma. E o pénis, pelos vistos, vai pelo mesmo caminho. 


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E agora, caso queiram esquecer o troloró Maçães, convido-vos a descer até aos dois posts abaixo: as fotografias que fiz no Ginjal deram o mote.

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A impossível palavra da verdade



Love me... love me... love me
Say you do
Let me fly away
with you
For my love is like
the wind
And wild is the wind

Escuta. Encosta o teu coração ao meu. Sente o vento suave, a doce aragem. Como uma seiva amorosa por entre o vento, eu ouço a tua voz silenciosa, tão minha, uma voz que só eu ouço. São as tuas palavras que alimentam o ar que respiro.

Da parede em azul ergue-se um pássaro, um bluebird, um secreto bird que acaricio entre as mãos -- meu passarinho, meu passarinho louco que queres acolher-te no seio de quem não sabe como guardar-te. Conto-lhe segredos, espero que adivinhe os meus mistérios. Ouves? Adivinhas?

Recolho-me a um silêncio só meu. Se as palavras não sabem dizer o que o coração grita, então que fique o silêncio, um silêncio impossível, um silêncio nu, sem disfarces. Com ele pinto o céu de azul, nele deixo voar o meu bluebird, com ele encho de luz as manhãs claras e com ele recolho palavras nos céus. E, sabes?, com elas construo um mundo só meu. E teu.


Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
a vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
as vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
a impossível palavra da verdade.
Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
para eu guardar dentro de mim,
para eu ignorar dentro de mim
a única palavra sem disfarce –
a palavra que nunca se profere.

Adolfo Casais Monteiro
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Fotografias feitas no Ginjal

Nina Simone interpreta Wild is the wind

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E queiram descer até ao olhar do tigre azul também no Ginjal

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Um olhar cravado na pele
[Isto é, na parede]




Podia um dia, caminhando sozinha, sentir o bafo ainda quente de quem por aqui passou antes de mim. Podia um dia, rasando paredes abandonadas por onde um dia a vida aconteceu e agora já não, sentir que um olhar longo pousou um dia em mim e em mim ficou colado para sempre.

Podia nada dizer, as palavras esvaídas, as saudades magoadas, o frio à flor da pele, passar rente ao rio, e, de repente, sentir que uma mão me prende, um coração bate junto ao meu, e eu avançar sem vontade, querendo entrar por dentro das paredes, procurar o dono do olhar, o dono da respiração que, para sempre, sentirei junto a mim.

Podia em dias de azul ficar-me apenas contemplando as águas, o céu, a luz do dia. Mas não. Caminho transportando em mim a memória de palavras vindas de um outro tempo, a memória de um sorriso pousado no meu, e cores, mil cores rasgando os meus segredos, mil cores desafiando a emoção que escondo no mais fundo de mim.

Terá sido um tigre que um dia cruzou os meus passos, um tigre azul que ninguém viu mas que acariciou o meu coração? Terá sido um tigre com uma alma vadia que cruzou céus e mares para vir deitar-se junto à fogueira que arde no meu coração?

In what distant deeps or skies 
Burnt the fire of thine eyes? 
On what wings dare he aspire? 
What the hand dare sieze the fire? 


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Fotografias feitas no Ginjal.

"The Tyger" de William Blake é aqui lido por Tom O'Bedlam

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domingo, novembro 19, 2017

A pesporrência de Clara Ferreira Alves.
Mais do que me apetecer debater as notícias de que tomei conhecimento na cabeleireira ou querer saber porque é que não há duas impressões digitais iguais ou porque é que acordo todos os dias com a mesma alma dentro de mim, o que eu gostava mesmo de saber é se há alguém à superfície da Terra que ainda tenha pachorra para aturar a Clara Ferreira Alves


O meu sábado foi bem preenchido de manhã à noite. Não vi televisão nem ouvi notícias. Espreitei agora as notícias e dá-me ideia que nada de relevo.

De manhã fui à cabeleireira. Já não ia desde o verão. Até há pouco tempo não ia. Depois ganhei-lhe o gosto. Mas a coisa há-de ser espaçada. No entanto, quando lá estou, gosto. Um mundo paralelo. As conversas que ouço... O que percebo do que falam...

Hoje, uma veio lá de dentro toda gira. E elas a gabarem-lhe as sobrancelhas. Bem desenhadas. Pensei: Terá ido arranjar as sobrancelhas? Depilá-las...? Mas eis que a que me tratava do cabelo lhe perguntou: Então e doeu alguma coisa...? Ao que a dona das ditas disse: Não. Só no fim, quando a anestesia estava a passar... Mas nada de mais... E aí eu pensei: Anestesia..? Mas num cabeleireiro dão anestesias...? E anestesia para arrancar pelos das sobrancelhas...? Que mariquice...

Agora cá em casa, com as meninas, comentei. Uma disse: Devia ser tatuagem. E outra: Deve ser aquilo a que se chama microblading.

Nunca tinha ouvido falar em tal coisa. Tatuar sobrancelhas. Microblading. Fui googlar. É mesmo. 

Depois uma jovem falava com a especialista em nails. Falavam em desenhos, em cores, em brilhos. Gosto particularmente destas conversas. Rosa brilhante, metade de cada côr, fúcsia com estrelas, azul mar, numas, espuma brilhante, noutras. Depois ouço o conselho: Eu, se fosse a si, escolhia bailarinas. Silêncio. A cliente a consultar o catálogo. Depois: Sim, gosto. Bailarinas!. Relatei à mesa de jantar. Uma das meninas estranhou. Eu imaginei minúsculas bailarinas desenhadas artisticamente. Mas outra menina explicou: Bailarinas tem a ver com o feitio da unha, comprida e a ir em bico mas a ponta a direito, como os sapatos das bailarinas em pontas.

Outra novidade absoluta. Também já fui conferir. Não. A mim não me convencem.

Aprendo também imenso com as revistas. Mal chego, antes de me sentar, vou abastecer-me.

Partilho convosco algumas coisas relevantes que colhi.

  • Que o Manuel Maria Carrilho perdeu num processo contra a Maya e creio que contra o Graciano que terão dito qualquer coisa que não lhe agradou, 

  • que a Luciana Abreu também anda na justiça com o pai, e que está grávida de duas meninas e que no outro dia foi ao hospital mas foram todos muito simpáticos com ela,

  • que meio mundo se separou do outro meio mundo e que parte desse meio mundo se troca e destroca com outra parte. 
  • E que uns, apesar de destrocados, continuam a apoiar os outros e que alguns nem por isso, especialmente quando há filhos envolvidos. 
  • E que uns estão bem sozinhos, outros estão apaixonados, outros com vontade de terem filhos 
  • E outros sem essa necessidade já que gostam muito dos sobrinhos. 
  • E que há bloggers que são famosas por serem bloggers e que as mais famosas são as que falam da sua vida de mães com filhos
  • E que há actrizes de novelas que têm blog e uma até diz que o dela é ela que o escreve mas que há outros que são pura fancaria escritos por fantasmas.
  • E que há bloggers que lançam livros e vão com a família toda atrás pois a família é a matéria do blog.

  • E que a Jessica Athaíde é filha de uma relação extra-conjugal (quem é a Jessica Athayde...? -- Esclareço: é a menina aqui ao lado, aquela que, há tempos, incendiou as redes sociais com a sua perna grossa e a sua barriguinha algo proeminente) 

  • Vi também que o Presidente Marcelo apoiou a Cristina Ferreira com a sua revista Cristina e que ela usa muito os ensinamentos dele.


Mas não reparei na idade das revistas pelo que não sei bem qual a linha do tempo das notícias. Mas isso não interessa já que é tudo demasiado extraordinário para que a cronologia possa atrapalhar.

Agora, a noite bem adentrada, aqui na sala, em sossego -- já sem jogos de futebol, a rapaziada em grandes remates e grandes defesas, sem as gracinhas do bebé, já a querer levantar-se, e a mana amuada porque a tia a mandou assoar-se -- reclinei-me no sofá e pus-me a cirandar pelos vídeos que o youtube me recomenda.

Um agradou-me. Neil deGrasse Tyson and popstar Katy Perry discuss the science of human individuality and uniqueness. Uma conversa com piada. Também partilho.


E, estando eu por aqui, nesta na suave preguiçota, eis que, inadvertidamente, sofro a invasão do grupo dos déjà-vu. Dizem-se, repetem-se, contradizem-se, não acrescentam, patinam, maçam. Houve um tempo em que havia alguma frescura naquilo. Nos primórdios. Agora o Eixo do Mal é mais um daqueles programas onde os papagaios vão papaguear o que ouviram a outros iguais a eles. Há uma série de programas do género. E eu já não suporto nenhum. Se, em tempos, alguns deles tiveram ideias genuínas e inovadoras naquelas cabeças, tantos programas depois, já estão esgotados. Mas insuportável mesmo, mas uma coisa já de pele, alergia mesmo, é o que sinto com aquela convencida arrepelada, aquela arrogantezeca. Não se aguenta. A forma como ela fala. Sobre qualquer assunto, mesmo quando notoriamente não é tema sobre o qual tenha competência, ela põe o se ar mais irritantemente blasé para começar: 'Eu explico.' E avança, desfiando lugar comum atrás de lugar comum, como se estivesse a explicar alguma coisa. Intolerável. Uma maçadora emproada armada em maria-cagona, toda prosa. Zapping com ela.


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E agora zapping comigo.

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Tom Waits assedia uma idosa
mas eu sei de algumas atenuantes


Gosto do Tom Waits e não é por vê-lo a assediar uma velhinha que vou passar a gostar menos. De resto, a velhinha não se ralou nada. E ele tem um sentido de humor que me diverte imenso. Não sei se a conversa é dele, se é um qualquer script. Não interessa. Gosto.

Dantes dizia-se 'galar'. Acho que é o caso:

Tom Waits apanhado a galar não uma frangota mas uma galinha-feita (digamos assim) numa festa.


Mas conheço-lhe outros registos

Tom Waits - Watch her disappear

Last night I dreamed that I was dreaming of you


Para que se faça uma trilogia, encerro com Tom Waits numa canção de amor

Well I hope that I don't fall in love with you
'Cause falling in love just makes me blue
Well the music plays and you display


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sábado, novembro 18, 2017

Wes Goodman seria aprovado pelo presciente Dom Manuel Clemente.
Upssss....! Se calhar... não...



Já contei que tenho um amigo de quem muita gente diz que tem todo o ar de ter um piquinho a azedo. Isto dizem os subtis. Outros dizem outras coisas menos finas. Uns quantos, sem ele sequer imaginar, referem-se a ele como Madame Claudette. Eu não sei. Do que lhe conheço não o diria muito viril mas, quanto ao resto, não sei.

Agora uma coisa eu sei: não conheço ninguém que tenha maior reportório de anedotas de gays. Não há ocasião em que ele não se saia com uma. E é frequente, quando chega a um sítio onde estejam conhecidos, arranjar maneira de dizer piadas que metam gays. E, por ele, parece que meio mundo é gay. Tínhamos um colega, bem mais novo, que ele farejava como gay. E um dia veio contar-me que tinha visto o outro num bar com um amigo e que tinha a mão em cima da mesa, como que à espera que o outro a segurasse. Eu olhava para o rapaz e não lhe via jeito nenhum de ser gay mas o meu colega advertia-me que isso, na maior parte das vezes, não se vê. Ele lá sabe.

E vem isto a propósito de quê? Anda por aí um sururu sobre umas afirmações do Cardeal Patriarca Manuel Clemente que parece que prefere padres que gostem de mulheres (ainda que apenas platonicamente, I suppose). Não quer lá nos conventos padres que sonhem com marinheiros ou bombeiros ou que, à noite, quando estão com frio, saltem para as caminhas dos colegas e vão aquecer os pés no meio das pernocas peludas uns dos outros (isto admitindo que as depilações também são proibidas nos seminários).


Portanto, tivesse ele conhecido o bom do Wes Goodman -- casado e pai de família, todo machão, tdo militantemente anti-gays, todo só a favor dos casamentos naturais, homem-mulher, todo ele a boa consciência dos conservadores, cristãos, com uma mulher igual, organizadora de uma marcha anual anti-aborto -- e logo teria pensado que, não se tivesse o Wes casado, seria certamente um bom evangelizador da santa igreja católica, um caridoso e bom pároco, mas mesmo dos bons, daqueles viris certificados que dão uns padres a preceito.


A gaita é que o bom do Wes, afinal de contas, era um daqueles de tipo faz o que eu digo, não faças o que eu faço. E, para pasmo geral, um destes santos dias foi apanhado em flagrante a pinocar com outro homem. No gabinete. Truca-truca, anda cá que és meu.

Deputado republicano anti gays demite-se após ser apanhado a fazer sexo com homem

Surpresa, surpresa. 

Agora já veio pedir desculpa à comunidade e diz que se vai dirigir a um novo capítulo da sua vida, seja lá o que isso quer dizer. Claro que se se tratar (que essas maleitas tratam-se, não é?) e conseguir voltar a ser completamente anti-LGBT, pode sempre vir até Portugal a pedir asilo ao cardeal Clemente.


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A propósito disto de coiso e tal no gabinete, lembro-me sempre de um meu colega, casadíssimo, apaixonadíssimo pela mulher e, em simultâneo, um sedutor compulsivo, que conseguia que o mulherame se apaixonasse perdidamente por ele. Não têm conta as que lhe conheci. Namorava com elas à descarada e elas adoravam-no, perdoavam todas as suas traições. 

Um belo dia, pediu a um certo administrativo que lhe preparasse um apanhado qualquer e pediu urgência. O homem ficou a trabalhar fora de horas para lhe entregar aquilo. E ele, no gabinete, presumo que à espera. Mas, hiperactivo como era, ou não teve paciência para esperar sentado ou recebeu visita de admiradora -- o certo é que a coisa se deu logo ali mesmo, em cima da mesa de reuniões que tinha no gabinete. Pois bem, estava o meu colega no truca-truca com essa sua namorada, uma senhora também bem casada, quando o dito funcionário bate ao de leve e, na maior inocência, abre a porta, dando de cara com aquele forrobodó.

No dia seguinte, mal cheguei ao meu gabinete já um outro colega estava a vir atrás de mim a saber se eu já tinha ouvido da bronca. Nada. E ele 'O coxo apanhou o X. em cima da F na mesa do gabinete'. E eu espantada, ainda sem captar a essência da coisa: 'Em cima? Mas em cima como?'. E o outro 'Caraças. A papar a F.'  E eu de boca aberta. E ele 'Faça de conta que não sabe de nada. Foi o nosso Presidente que me contou mas pediu segredo'

Passado um instante, um telefonema da Secretária do Presidente, para eu ir ao gabinete dele. Mal lá chego: 'Já soube do X?' E eu: 'Não....' E ele, num stress e ao, mesmo tempo, divertido: 'O coxo apanhou-o em cima da F.'. E eu a fazer de conta que não sabia de nada: 'Não...'. E ele: 'Ouça. Já chamei o coxo e já lhe disse que não contasse a ninguém.' E eu : 'Mas como é que soube?'. 'Pelo próprio X. Mal aqui cheguei, apareceu-me com o rabo entre as pernas, a contar. Chamei logo o coxo. Acho que a coisa está controlada. Ninguém vai saber de nada. Já viu a barraca que seria...? Um director a ter relações com a tesoureira na mesa do gabinete...? Uma barraca...'. 

Pois, pelo menos entre os directores, não se falava noutra coisa. Tudo divulgado pelo Presidente. Perante o insólito da situação ninguém se detinha para se lembrar do nome do funcionário que dera com a cena. Sabia-se que era coxo e só por aí já toda a gente o identificava, não havia lá outro.

Anos depois, numa remodelação qualquer, aquela mesa veio parar ao meu gabinete. E era inevitável que alguém sempre dissesse: 'Se esta mesa falasse...'. Ou, se alguém desconfiava que alguma coisa se poderia passar fora de horas em algum gabinete, logo se dizia: 'Mais vale despachar já o coxo para casa, não vá ele lembrar-se de ficar a fazer horas'

Mas, lá está, gostando de mulheres como o meu amigo gostava, o Cardeal Clemente aceitaria, de bom grado, que ele ingressasse na carreira eclesiástica. Santinho como ele era, haveria de dar um bom conselheiro matrimonial.

[E se falo no passado é porque infelizmente foi um daqueles que partiu cedo de mais. Muito cedo. Não tenho tido muitos colegas brilhantes mas este foi, seguramente, um deles. No velório lá estavam todas as suas namoradas, entre elas a protagonista da célebre cena da mesa. Choravam tanto quanto a viúva. Era um homem que vivia a vida de uma forma gloriosa].

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Quanto ao Wes, ao Cardeal Clemente e a outros anti-gays encartados nada mais tenho a acrescentar. Podia dizer que desejo que sejam felizes e tenham muitos meninos mas, lá está, se calhar isto de terem muitos meninos ainda pode prestar-se a alguma confusão, mais vale ficar-me pelo 'muito felizes'.


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PS:

É verdade... Tenho uma dúvida. Só ouço falar na sexualidade desejável para os padres. Então e a das freiras? Quais as preferências do Cardeal? Podem ser das que são meiguinhas umas com as outras ou também devem ser das que gostam só de beijinhos de homens? 


Ah, este Cardeal Clemente gosta de uma polémica, ah gosta, gosta. Ora vejam bem o tema que ele trouxe para cima da mesa: Igreja vai fazer testes para proibir seminaristas gays. Então isso são lá testes que se façam, oh Senhor Cardeal...? Mas pronto, se insistir, não me importo de fazer parte do júri de avaliação. 


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Já agora.


É um cristão gay?  -- pergunta-lhe o Rowan Atkinson




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E um belo fim de semana a todos quantos estão a ler estas palavras.

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sexta-feira, novembro 17, 2017

Assunção Cristas e Marcelo estão em sintonia.
Jingle bells! Jingle Bells!

[O turbilhão da vida. Gosto.
Puro excesso. Tenho que conhecer.]



Já vi iluminações de Natal nas ruas, rotundas e praças. A meio de Novembro e já a rua se ilumina para acolher o Pai Natal. O Pai Natal ou o Menino Jesus. Quando eu era pequena, era o Menino Jesus que dava presentes. Ainda havia uma mística com cheirinho a religião. Veio a Coca-Cola e profanizou a cena. De um recém-nascido nuzinho, nas palhinhas, passámos para um barrigudo, barbudo e de pijama encarnado. Mas, claro, whatever. No outro dia, o que em tempos foi o ex-bebé da família e que agora está um rapagão enorme de seis anos, perguntava à mãe se havia mesmo Pai Natal. A mãe respondeu que isso era ele que tinha que descobrir. Ficou-se. Um desafio que vai querer superar.

Adiante. As lojas estão cheias de atractivos, luzinhas, ar de Noël. Ainda mal a gente não se despegou das roupas de verão e já é isto. Ao longo do dia, vou recebendo sms com promoções de toda a espécie e feitio. De perfumarias recebi hoje duas. Ontem outra de outra perfumaria.  Nem vejo. Melhor: nem vejo as outras. Descontos na segunda peça, bónus de não sei quantos euros, promoções que chegam ao 50%. Corrijo: espreito. Mas fecho logo a sms e não vou conferir às lojas.

Mas isto dos perfumes... que sacrifício tenho que fazer para não ir a correr para trazer uns quantos. Bem. Não precisava de ser muita coisa. Só para aí um Chanel. Um de cada perfumaria, bem entendido. Mas tenho resistido.

Ontem, ia a passar e deu-me o cheiro. Quando virei a cara, já vinha uma menina na minha direcção a dar-me uma fitinha com o novo Nº 5. Caraças. Que cheirinho. Um toque diferente. Mas, claro, upa, upa. Enfiei logo a fitinha dentro da carteira. Fica a perfumá-la. Cheirinho mais bom...

E, com isto, claro está que já aí estão os anúncios de perfumes. Um luxo.

Perfumes e jóias. Ah, o que eu também gosto de jóias. Dantes, quando eu dizia jóias referia-me a minudências que se vendiam em ourivesarias. Pérolas, por exemplo. O que eu gosto de pérolas. Tenho um colar em duas voltas de genuínas pérolas com um fecho em ouro e brilhantes. Tão bonito. Depois, uma vez, cedi ao facilitismo e comprei um longo, de pérolas de criação. Outros tempos. Sou completamente de outros tempos. Mas facilmente me adapto ao air du temps. Agora, quando falo em jóias, refiro-me a bugigangas a bom preço que se vendem por todo o lado e tão bonitas ou ainda mais do que as outras. 

No outro dia fui ao Continente. Ao passar, sempre à pressa, pareceu-me ter uma ilusão de óptica. Voltei atrás e era mesmo um expositor cheio de colares e brincos. Bonitos que só visto. Trouxe um colar giríssimo por 7€. Um fio elegante com umas quantas pérolas em rosa-chá intercaladas com pequenas bolinhas de ouro. Chique, chique.

Bem. 


O primeiro vídeo tem a Keira Knightley e trago-a aqui mais pelo que ela canta. Le tourbillon de la vie, antes interpretado pela Jeanne Moreau e que mais tarde a Vanessa Paradis reproduziu. Não terá a Keira uns dotes vocais ou uma sensualidade provocante que fiquem para a história mas, também, bolas, não queiramos tudo a toda a hora. Não canta...? Ok. Não canta mas encanta. E isso não é pouca coisa. Digo eu.

A seguir, um outro vídeo, daqueles que a gente até tem que respirar fundo. XS. Pure XS. Puro excesso. Não conheço o perfume. O meu compagnon de route usa o mesmo perfume há cinquenta mil anos, o Acqua di Gio de Armani pelo que não tenho pretexto para andar a experimentar perfumes masculinos. Mas o vídeo do Paco Rabanne é todo ele um excesso. Um excesso em bom. Um bom excessivo. Se bem que isto, o que é mesmo bom, nunca é excessivo.

Enfim. Adiante. Avialiemos.




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E jingle bells para todos


E, em época natalícia, uma boa notícia:

Assunção Cristas e Marcelo estão em sintonia.


Não sei se apenas sobre incêndios sobre se mais. Não interessa. Mesmo que apenas sobre isso, já é bom. Nem li o corpo do artigo, bastou-me o título. Boas, boas notícias. O país pode respirar. Estamos salvos. Com a Cristas a vender postas de pescada e o Marcelo a distribuir afecto, já ganhámos. Um salto quântico no desenvolvimento rural, na problenáutica da falta de água e na qualidade de vida em geral já cá cantam. Grande dupla. Só falta o Santana Lopes para se ter a neo-troika perfeita.


Jingle bells!

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quinta-feira, novembro 16, 2017

Charlot e o nonsense. Charlot e o circo.
Passos Coelho e Miguel Relvas.
Tecnoforma, aeródromos, heliportos e outros baixos voos.
Graves irregularidades, ou mesmo fraudes na gestão de fundos europeus.
Mas mesmo que o Ministério Público se tenha feito de ceguinho, nós não nos esqueceremos: Láparo & Relvas nunca mais!


Mas antes, se estiverem de acordo, que entre o homem da canção do nonsense


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Andando eles tão caladinhos, cada um em sua moita, eis que sabemos que o Láparo e o seu criador, o saudoso Vai-Estudar-ó-Relvas, não foram vistos com bons olhos por quem, lá fora, investigou o que a pouco-habilidosa dupla fez enquanto praticava as suas artes e manhas na iniciativa privada relacionada com fundos europeus.


Passaram-se os mal-feitos na altura em que ainda não se tinham arrimado ao poder. Pouco depois, haveriam de lá se alcandorar para, com o beneplácito da dupla de Fadas-Madrinhas Cavaco & Cavaca, darem cabo do País.

Por algum motivo que Freud explicaria, muitos portugueses resolveram acreditar no que a dupla Passos e Relvas prometia. Deram-lhes o voto e, ao longo de quatro anos, incompetentes, impreparados, mal orientados... foi o que se viu. Iam escaqueirando Portugal.

Os portugueses são crentes e demonstram-no a toda a hora. Aqueles dois traziam de experiência o que se sabia mas, ainda assim, tiveram seguidores e devotos. E, mesmo vendo os disparates consecutivos que faziam, ainda houve gente crédula (e, quiçá, um bocadinho mentecapta) que continuou a acreditar que dali haveria de sair um pinto. Pinto não saíu já que nem para chocar ovos aqueles dois servem mas saíu muita gente do País, muitas empresas relevantes foram parar a mãos estrangeiras e a qualidade de vida regrediu. E tudo a troco de nada.

Agora isso é passado. Corre o ano da graça de 2017, Passos foi apeado do poder e está de saída do PSD e da política nacional, saindo pela porta baixa. Relvas, essa raposa velha, está de mulher nova, filha nova e voltou aos terrenos em que se move bem: os negócios que, segundo consta, circulam nos circuitos bem oleados onde corre dinheiro nem sempre bem explicado. E os crentes que tanto os apoiaram, sabendo agora que Bruxelas diz que houve fraude na empresa de Passos Coelho, assobiam para o lado, fingem que não viram, que não sabem. Percebo-os. Mesmo que não o assumam, devem estar roídos de vergonha.


Talvez Marcelo, com a sua veia justiceira, tome a si a defesa dos lesados (todos nós) e encabece uma luta sem trégua contra os alegados fautores de tão ignóbeis actos, exigindo que a os danos sejam reparados e os malfeitores punidos.

E isto de que agora falo soube-se há já uns três ou quatros dias. Andava noutra, não falei no assunto. Hoje pensei que já não era tema, que não ia falar de uma coisa de há dias. Mas é tema, sim, é tema e será tema enquanto houver um apoiante das políticas do Láparo à superfície da terra.

Para quem não leu e não está bem ao corrente e para que aqui conste, pro memoria, do DN transcrevo:
(...) De acordo ainda com o Público, o OLAF conclui que "foram cometidas graves irregularidades, ou mesmo fraudes, na gestão dos fundos europeus" atribuídos entre 2000 e 2013 aos projetos da Tecnoforma e a outros cujo titular foi a Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE), mas cuja execução foi subcontratada em 2006, à empresa de Passos Coelho. (...)
Em relação aos aeródromos e heliportos, os peritos da Comissão Europeia concluem que "o processo de candidatura elaborado pela empresa está viciado" acrescentando que "esta situação pode efetivamente ter tido origem nas relações pessoais e/ou políticas existentes entre os diferentes intervenientes". Para os auditores "as pessoas em causa, gestor do programa (Paulo Pereira Coelho, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Centro e ex-dirigente da JSD), secretário de Estado (Miguel Relvas), e consultor da empresa (Pedro Passos Coelho), poderiam influenciar e/ou favorecer, em qualquer fase, o projeto de formação, em detrimento de outros". 

Que eu tenha visto, pouco relevo tem sido dado a estas notícias. Mas gostava de saber o que dizem disto os devotos da dupla. Nomeadamente, gostava de saber o que acham disto os dois candidatos ao lugar ainda ocupado pelo Láparo que agora se perfilam como seus lídimos sucessores, admiradores, seguidores.

 

Santana Lopes e Rui Rio continuarão a gabar a criatura criada pelo Relvas? E a iluminária que dá pelo nome de Hugalex, aka Hugo Soares, continuará a beijar o chão que o Láparo pisa?


As televisões não vão promover debates para esmiuçar o caso? Porque não? É tema non grato? Non grato para quem?

Do Observador, vejo também:

O Ministério Público arquivou o processo que envolvia o antigo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e o ex-Secretário de Estado, Miguel Relvas, por suspeitas de corrupção, abuso de poder, participação económica e prevaricação através da empresa Tecnoforma. Os investigadores também consideraram não ter existido crime na atividade da empresa — alvo de um processo da OLAF (Organismo Europeu de Luta Antifraude). Mas este considerou existirem fortes indícios de fraude na obtenção de financiamentos europeus.

Não admira. Este é o Ministério Público que temos. Umas vezes vê de mais, outras de menos. Na conta certa é que não tenho ideia de ter visto. E não deveria ser esta outra causa a abraçar pelo Presidente dos Afectos? A de garantir a calibragem da actuação do Ministério Público? Ou isto não dá selfies e não põe as televisões atrás?

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No Circo


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E nada mais por agora a não ser referir que, uma vez mais, os cartoons provêm do We Have Kaos in the Garden.

Estou perdida de sono, incapaz de desenvolver mais do que isto.
Portanto, com vossa licença, vou ali pregar para outra freguesia.

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quarta-feira, novembro 15, 2017

Where the wild roses grow

-- O FIM --





E, então, Benedita deixou-se levar por aquela estranha intuição que parecia tomar conta dela, como se se visse como a lente de Filipe a iria ver. Sabia escolher o ângulo de luz, sabia elevar o queixo e deixar descair o ombro para que os seios tombassem de forma mais evidente, sabia encostar os lábios para que a inocência fosse mais sentida, sabia deixar esvair o olhar para que a tentação fosse mais subtil, sabia mostrar a curva do torso, a elevação da anca, a melancolia que pede protecção, o apenas adivinhado meio sorriso, o movimento casual do cabelo. 

A música tocava e Benedita nem a ouvia, entregue ao prazer de se deixar capturar. E toda ela se entregava. E se o sabia fazer. Sabia deixar que o corpo se esgueirasse, que a camisa se entreabrisse, que a saia se levantasse num assomo de pecado, que os olhos se toldassem e não por arrependimento, que o coração lançasse um silencioso grito, um apelo sem palavras, só a luz pousada na pele, só o olhar de Filipe pousado nela.


Ao movimentar-se sabia exactamente a forma como a câmara a captaria. Filipe mal se mexia. Se com algumas modelos tinha que circular em volta delas para descobrir a melhor perspectiva, com Benedita não era preciso. Ela transfigurava-se mal sentia a objectiva apontada na sua direcção. 

Era, então, um perigoso felino, uma leoa vagarosa, uma gata dengosa, um cavalo sem rédeas, um pássaro em pleno voo, uma boneca dócil e profana, uma deusa espiritual. Uma wild, wild, oh so wild, rose. Umas vezes, não mais que uma criança vaporosa ou talvez uma mulher com mil histórias; outras, uma alma vadia, uma selvagem tentação, uma perdição consentida.

Não falava. Apenas olhava. 


Ela própria vestia e despia roupas, descobria-se e logo se cobria com véus invisíveis. Sem hesitações ou pudor, o seu corpo aparecia ou encobria-se como se estivesse sozinha. Filipe, como sempre, ficava em êxtase olhando aquele corpo disponível mas inacessível, aquele corpo desejado e sempre negado. Um corpo como um instrumento usado com mestria. Um corpo sem alma, sem rédeas, livre, livre.


Meninha assistia, encantada mas com traços de tristeza no rosto. De todas as vezes que via Benedita a ser fotografada sentia aquele desgosto antigo que feria como uma lâmina já familiar. Gostava de ter um corpo assim. Não tanto o rosto mas o corpo. Gostava de ter uns seios que enchessem as mãos que os segurassem. Gostava de ter umas ancas que ondulassem para que, quando estivesse deitada, se elevassem como uma montanha suave.

Zezinho diz-lhe que é linda assim mesmo, com seu corpo quase liso, que não pense mexer nele. Mas Meninha não quer saber. Anda a juntar dinheiro. Faz maquilhagem, faz limpeza, passeia cão, toma conta de menino, canta em bar, faz o que aparecer. Já andou a informar-se, já foi a médicos. É muito caro mas um dia ela vai ser capaz de pagar para esculpirem seu corpo.

Então, enquanto Beny se perde em seus delíquios, rebolando e se mostrando, insinuando e escondendo, Meninha vai comparando para avaliar o que teria que fazer: enxertar aqui, retirar dali, preencher no cantinho, disfarçar ou acentuar na curvinha.

Nem ouviu quando Filipe lhe disse: 'Vá Meninha, agora tu.'.

Benedita reforçou: 'Acorda, Meninha. Vem. Deixa o Filipe fazer de ti uma diva'.

Meninha despertou. Sem nada dizer, limpou as lágrimas que tinham voltado.


Depois, 'Não. Não, Filipe. Esquece. Não sou lindeza que nem Beny. Continua deixando que Beny dê conta de teu juízo... Eu fico só vendo.' e tentou rir.

Mas Filipe não ligou: 'És linda, sim. Deves pôr a cabeça de muito homem à roda'.

Meninha confirmou: 'Muito homem me quer pegar, sim. Dou desejo nos homens e nem eu sei porquê, que me vejo no espelho e não vejo aquele abismo que puxa os homens. Mas puxa, sim.' E ficou calada. Até que logo depois: 'E muito homem já me pegou, sim. Deixei. Me pagava as conta. Me habituei a não ligar. Deste que deixei de meninar, já eu me entregava. Nem sei. Dez, doze anos. Nem sei. Um corpinho ainda por fazer. A fome faz isso, o abandono, a vontade de uma cama, de um bolo na pastelaria, de um sapato novo.'

Filipe, já aflito: 'Deixa, Meninha, não pensa nisso. Deixa. Não quer fotografar, não fotografo'.


E então Benedita, abraçando Meninha: 'Deixa isso para trás, não penses. Filipe tem razão. Deixa só que ele fotografe teu rosto para veres como és tão linda. E alegra-te, menininha. Não deixes que o passado te deixe triste. Já passou. Olha, sorri. Vai, Filipe, apanha este olhar tão bonito.'

Filipe fotografou. Mas o ambiente estava ensombrado. Meninha ajeitava a juba de Meninha e chamava: 'Vá, Filipe, agora, vá, olha o jeito doce dela'. Depois puxou-lhe a blusa para baixo, de um lado, deixou o ombro à mostra. 'Vá, Filipe, vê como é bonito o ombro dela'.

E, então, como que ganhando coragem, Meninha se pôs de pé. Limpou os lábios, com a costa da mão tirou a pintura dos olhos, quis que seu rosto ficasse nu. 'Vá, Filipe, fotografa.' E começou a despir. Benedita sentou-se, o coração descompassado. O pudor de Meninha não deixava nunca que o corpo se descobrisse. E agora...

'Vá, Filipe, vá disparando', desafiava Meninha, a voz rouca, como se em sofrimento. 'Olha bem, olha pr'a mim, vai, vê o corpo que tanto homem já pegou'.

Filipe obedeceu. Meninha puxando a sua roupa. 'Vá, Filipe, dispare. Apanhe uma wild rose como nunca viu'. O traje caindo devagar. Nem Filipe nem Benedita falavam. Mal respiravam.


Meninha já não falava. O rosto triste, triste. Estava revelando o seu corpo. O seu corpo de menino à vista. Seu segredo exposto. Seu silêncio desnudado.


Encobrindo sua vergonha, de frente, o seu corpo ainda em bruto, ainda por esculpir. Incapaz de uma palavra. Nem Meninha, nem Beny nem Filipe.

Depois, achou a última coragem que faltava e descobriu o que faltava mostrar.

Nenhum falava. Nem uma lágrima ousava correr. Apenas o silêncio ocupando o vazio que, de súbito, tinha ocupado todo o espaço.


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The end

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Meninha
(Filomeno de seu verdadeiro nome; aka Jaye Davidson fazendo de Dil)
interpreta The Crying Game



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O episódio que acabaram de ler, o nono e último do folhetim 'Where the wild roses grow', vem na sequência de:
Oitavo episódio: Memórias com lágrimas
Sétimo episódio: Noite de histórias
Sexto episódio: Noite de juízo
Quinto episódio: A solidão das mulheres bonitas
Quarto episódio: Actos falhados, sentimentos desencontrados 
Terceiro episódio: Uma wild rose com red carnations nos seios 
Segundo episódio: Beny e Meninha numa tarde especialmente quente
Primeiro episódio: Wild Rose
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Momento Zen para ver se me inspiro




Aquela ali em cima podia ser eu agora. Excepto que all in pink não é exactamente o meu style. Também não uso pijamas. Por acaso tenho um assim, como o dela, mas em cetim verde água. Mas não me lembro da última vez em que o vesti. Da última ou da única. Se calhar em algum dia de inverno em que estava com gripe. Na última vez que estive em Madrid trouxe um todo merveilleux da loja de lingerie na Serrano onde sempre vou quando por lá passo. Mas ainda nem o estreei. Tenho algumas coisas em comum com a Marilyn e uma tem a ver com isto. A outra tem a ver com o Nº 5. Et pour cause.

Acho que ficava pink das ideias se me obrigassem a dormir num quarto todo em cor-de- rosa. Quando alguém me mostra a casa e chego ao quarto e vejo colcha cor-de-rosa, cortinas em cor-de-rosa, tudo muito cor-de-rosa, dá-me uma pena tal que mal consigo articular palavra. Felizmente há muito tempo que não passo por experiência tão traumática.

Mas por acaso tenho uns lençóis cor-de-rosa. Vêm ainda do meu enxoval. Têm um bordado também em cor-de-rosa com o olhinho das florzinhas em branco e uma barra com um folho do mesmo tecido mas um folho deveras artístico, tudo feito, certamente, a partir de desenhos arranjados sabe-se lá onde. Não me lembro se fui eu que escolhi tal obra de arte ou se foi presente. Quando casei tinha um enxoval e pêras. Ainda está quase tudo novo. Fiz o enxoval quando comecei a namorar a sério e o meu namorado só falava em casamento e até a mãe dele me oferecia coisas para a casa. Devia eu ter uns dezassete ou dezoito anos. Hoje nada disto me parece normal mas, na altura, acho que ninguém me achava demente por embarcar numa maluqueira destas.

Bordados, rendas. Thanks God, a maioria em branco. Felizmente quando era deixada à solta, optava por coisas que deixavam a minha mãe estupefacta: lençol de baixo em cor de tijolo e o de cima às riscas verticais côr de tijolo, verde seco e beige. Por exemplo. Uma ousadia. 

Quando me casei (com outro namorado, bem entendido) só fazia sentido usar as coisas mais fora da caixa. Se calhava pôr uma coisinha mais coisinha na cama logo o meu marido dava sinais de perplexidade: 'O que é isto?!'. Mais: coisas com folhos e rendas também dão muito trabalho. Ora, não passo a roupa de cama a ferro. Seca-se direitinho, depois tudo bem dobradinho e está feito. Por isso, mais vale que seja com roupa que passe bem sem ferro. Portanto, gavetas e gavetas de roupa de enxoval e nunca lhes dou uso. 

Agora, gosto sobretudo da roupa de cama da Zara Home. São lençóis muito largos, de bom tecido e com uns belos padrões. Esta semana tenho em baixo um beige e em cima um branco com uns belos desenhos em beige e uma espécie de dourado. Fica com pinta. Assim, sim.

Bem. Não era nada disto que eu queria dizer.

Vinha aqui só para dizer que vou ver se me inspiro para acabar a história das wild roses. E que, assim sendo, não estranhem se demorar a aparecer qualquer coisa. Estou um bocado num impasse sem saber como chegar ao desfecho. Por isso, vou aqui ficar sossegadinha a ouvir música (e a fazer de conta que não ouço os mails de trabalho a chegarem). Não. Sossegadinha não, senão adormeço. Vou pôr-me a escrever de olhos quase fechados a ver se a ideia se desdobra.

Devia era ver se aprendo yoga para fazer quando estiver a atravessar situações complexas como esta. Melhor: vou ver se consigo fazer esta posição a ver se me aguento. E se resulta.

Se não aparecer, é porque parti um pulso.


Até já.

terça-feira, novembro 14, 2017

Mais giros do que a rapaziada do PCP só mesmo os novos escritores portugueses


Tenho um amigo de quem algumas más línguas, a minha filha incluída, dizem ser abichanado. Quando digo que não sei, ela reage no gozo: Não...! Muito macho... De facto, muito macho não será mas também não estou certa de que seja gay-praticante. Só se for uma coisa ainda na base da tendência. Mas isso também não vem ao caso. O que vem é que ele, volta e meia, ao conversar comigo, de alguns homens, diz com ar admirativo: é muito bem apessoado. E eu gosto desta expressão.

E isto para dizer que vi a fotografia de um escritor de quem nunca li qualquer livro e de quem desconhecia a aparência. E, vendo-o, logo me lembrei de um outro que também tem ar de quem a sabe viver bem. E de um outro que uma vez vi actuar (porque também é dado à música) e que tem um jeito sorridente de ser. Bem apessoados de dar gosto. Olhando para eles, penso que inventava uma história, dela fazia um filme e a eles punha-os lá dentro. Não sei se como malandrecos dados ao garboso manejo de alguns instrumentos, nomeadamente no dedilhar do teclado, ou se como simples homens dados ao culto das paixões e, nem sempre, nobres.

Com vossa licença, passo a elencar e me dirão se não são todos bem apessoados (to say the least). A ordem é (mais ou menos arbitrária) até porque não quero agora cá ciumeiras. 

Sandro William Junqueira, nascido em 1974. Boa pinta. Ar sexy. 

Todo ele francamente bem-apessoado.



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E, como dizia, lembrei-me de um outro de quem já uma vez aqui perguntei se, com aquela pinta, era escritor, galã ou actor de filme porno. Nunca ninguém fez a caridade de me esclarecer.

Bruno Vieira Amaral. Nascido em 1978. Um descaradão de primeira, deve ser o que ele é.


Como sou dada a ligar bastante à aparência das pessoas, nunca me deu para o levar como escritor a sério pois olho para ele e acho que há ali um tal pedaço de mau caminho que não sei se lhe sobrará mérito para a escrita. Preconceito meu. Parece que ainda não percebi que, para escrever bem, não tem que estar morto ou ser gordo badocha, pálido, óculos de dar dó, velho ou invisível.


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E depois há o terceiro. Não é aquele da história que eu gosto de lembrar, o que chegou como quem chega do nada, o da história da Teresinha. Este é outro.

Afonso Cruz. Nascido em 1971. 


Não tem ar de ser tão mau rapaz como os anteriores mas, ainda assim, quando despir aquele seu ar de bem comportadinho, capaz de poder ombrear em maladrangem com os anteriores. Digo eu. Mas não muito certa disso. Capaz de não ser rapaz para uma viagem ao fim da noite como os outros. Mas, seja como for, de aspecto, nada mal.


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Não sei se, para o futuro, ficará como uma geração de ouro a nível da escrita mas como a geração dos escritores bem-apessoados, disso não duvidem. Acreditem que sim. E podem ir por mim à confiança -- eu, homens bonitos, inteligentes e com outras qualidades, é comigo. Catrapisco-os à légua.

Até acho que podíamos promover aí uma competição qualquer: este trio de um lado e, do outro, uns deputados do PCP -- e, dado o adiantado da hora, limito-me a uma amostra de dois.

João Ferreira. Nascido em 1978. Feito para ninguém lhe botar defeito.



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Miguel Tiago. Nascido em 1979. Ar ciganão, sarrafeirão. Telúrico.



Aposto nele e no colega de cima para fazerem frente ao naipe de escritores. Não desmereceriam --- não desfazendo de quem está aí desse lado, a ler-me, claro.

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E, se um dia tiver que contratar um guarda-costas, já sei que não vou ter a vida facilitada: vai ter que ser na base das entrevistas e de um assessment a sério entre estes cinco. Com qualquer deles, cá para mim, não ia ficar mal servida. Capazes de darem um valente chega-para-lá em qualquer meliante que viesse importunar-me. Os de cima teriam a vantagem de ser de boa palavra, prosa musculada, certamente engajada e transbordante de virilidade, enquanto os de baixo seriam, do que lhes conheço, de boa retórica, combativos, homens de bem, quiçá uns puros (no pun intended about Havana). Em comum, se repararem, uma boca bem desenhada e bem preenchida. Dizem que é sinónimo de sensualidade em dose bem medida e eu acredito nisso. Mas, claro, para guarda-costas esse seria atributo menos relevante.

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Não me ficará bem prestar tanta atenção à forma e não tanto ao conteúdo mas faz de conta que é do adiantado da hora. E, de resto, quem disse que a forma, nestes casos, não é tão ou mais relevante que o conteúdo?

E pronto. Mais não digo para não ferir a susceptibilidade dos amigos do Panteão, dos praticantes das novenas das oito, dos seguidores da santinha da ladeira, dos descendentes ideológicos dos pastorinhos ou do camarada Lenine ou, ainda, de outros entes bem intencionados.

E era, hoje, para ter rematado à baliza na história das wild roses mas, depois da extraordinária Biblioteca chinesa que, lamentavelmente, me fica um bocado fora de portas e depois desta divagação vadia about uns jeitosos a quem resolvi dedicar uma dose de assédio remoto et pour cause platónico, já não tenho cabeça para mais sofrimentos. Fica para amanhã.

Obrigada pela vossa atenção.

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Pena esta não me ficar lá muito em em caminho...



Gosto de bibliotecas e não apenas das clássicas. Gosto de bibliotecas porque acho que são verdadeiros templos de saber e porque guardam segredos, mistérios, relatos de outras vidas, registos de mil mundos e porque podem esconder provas ou recordações e porque mil outras coisas que não cabem em palavras. 

Quando, há cinco anos, voltei a Amesterdão, um amigo disse que não deixasse de ir ver a nova biblioteca. Fui. Maravilhada. Nunca tinha estado numa biblioteca tão inclusiva, tão aberta à sociedade. Ampla, luminosa, verdadeiramente feita para ser usada, sempre disponível. As pessoas em cadeirões com vista para os canais, lendo, ouvindo música. Outras com sandes na mão, conversando, comendo, lendo. Vim estupefacta pela dessacralização, pela alegria de quem frequentava a biblioteca com a naturalidade de quem sempre o fez.


Lembro-me de quando era pequena. O meu pai sempre praticou desporto e fazia parte da direcção de um pequeno clube ligado à empresa onde trabalhava. Não apenas jogava voleibol ou futebol como organizava aquilo, gostando de estar presente nas diversas actividades. Eu, que sempre fui de querer conhecer tudo, pelava-me por andar atrás dele, coisa que não lhe agradava muito mas que suportava porque me entretinha com os outros miúdos, não lhe dando trabalho. Lembro-me que, na sede daquilo, havia mesas de ping-pong, um bar e uma pequena biblioteca. Mas era uma biblioteca fraca. Nunca liguei patavina. Se calhava espreitar, nada despertava o meu interesse.

Só quando fui para o liceu é que me apaixonei por uma biblioteca. Era uma biblioteca a sério. Enorme. Estantes altas à volta. A parte de cima tinha uma redezinha. Foi de lá que trouxe os livros que me iniciaram no prazer da literatura. Não havia filtros ou censura. Chegava, escolhia, trazia. Somerset Maugham, Pearl S. Buck, Steinbeck. Nem os meus pais vigiavam nem o funcionário da biblioteca se interessava pelas minhas escolhas.


Anos mais tarde, vim a conhecer talvez a mais extraordinária biblioteca que me foi dado conhecer de perto. Era a biblioteca privada, de um grupo empresarial. Uma coisa indescritível. E tinha uma bibliotecária a sério, senhora que me fascinava pelo seu saber. E tinha um encadernador cuja oficina era, para mim, um outro fascínio. Não sei que foi feito desse tesouro de valor certamente desmesurado. Tenho pensado muitas vezes nisso. Terá sido doada? Ainda hoje passei junto ao edifício onde funcionava, um edifício agora abandonado. O que era aquele edifício... um mundo. Um labirinto imenso cheio de surpresas. Numa das salas havia um quadro a óleo de um tamanho incrível, vários metros por vários metros.
Quando penso em tudo o que já vi e vivi fico um bocado estonteada. Serei já assim tão velha para ter memórias tão inacreditáveis? Parece que já vivi em mundos inexistentes. E o pior é que perdi o rasto a quase toda a gente que hoje pudesse testemunhar a veracidade dos meus relatos. E não tenho registos fotográficos. Nada. Apenas a minha memória. Fui agora googlar. Nada. Há tempos, em conversa, falei nisto e referi o nome da dita bibliotecária. Para minha surpresa, o meu interlocutor tinha-a conhecido. Já morreu, disse ele. Não sabia. Pensei, cá para mim, que um dia destes vou ter dúvidas sobre se vivi mesmo aquilo que recordo. Se calhar, tudo isto é ficção.
Bem. Adiante. 


No domingo, quando fui à Gulbenkian, deixei o carro na garagem. E vi pela primeira vez, ao vivo, uma carrinha da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian de que já tantas vezes ouvi falar e que sei que fez os encantos de muitas pessoas que viviam em lugares sem acesso a livros. Fui ver de perto e enterneci-me, pensando no prazer que deveria ser a chegada desta bonita carripana. Não sei se ainda funciona, se ainda anda de terra em terra emprestando livros. Tomara que sim.

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E isto vem a propósito do que li no Bored Panda e de onde retirei também as fotografias que aqui coloquei:

China Opens World’s Coolest Library With 1.2 Million Books, And Its Interior Will Take Your Breath Away

Located in the Binhai Cultural District In Tianjin, the five-story library, which was designed by Dutch design firm MVRDV in collaboration with the Tianjin Urban Planning and Design Institute (TUPDI) and has since been dubbed “The Eye of Binhai”, covers 34,000 square metres and can hold up to 1.2 million books. Taking just three years to complete, the library features a reading area on the ground floor, lounge areas in the middle sections and offices, meeting spaces, and computer/audio rooms at the top. We’re not sure how much studying we’d get done though – we’d be far too busy marveling at the awesome architecture!

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