Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, maio 29, 2017

Sebastião nunca fez uma selfie
(e agora que viu o que os olhos do pai vêem, talvez Juliano o compreenda e aceite melhor)



Fotografar o fotógrafo. Perceber o que vê quem vê. Reconhecer que a fotografia retrata o fotógrafo, mais do que o fotografado.

Tal como ver quem pinta. Tentar perceber como surge o que antes não existia. Acaso? Persistência?

Ou quem escreve. Escreve como? A que horas? De onde surge a ideia? Do mundo real? De sonhos?

E quem esculpe. Descobrir de onde vem a vontade de retirar o material que sobra. Da vontade de moldar a natureza? Do mero gosto em mexer nos materiais?

E os que fazem filmes? Como se forma a ideia? Como o concebem? De olhos fechados, imaginam as sequências, os cenários, as falas?

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Não é preciso tentar perceber a motivação de Juliano, tentar descobrir como nasceu o filme que ajudou a fazer. O Sal da Terra. As razões foram muito concretas e bem pessoais. 


O pai ausente não era perdoado pelo filho, as personalidades chocavam. Os de fora louvavam mas aquele em cujas veias corria o sangue do seu sangue apenas sentia a falta do pai. E, em casa, um irmão com sindroma de Down. E o pai preocupado com as crianças de outras geografias.


Até que, já homem feito, resolveu conhecer os mundos que cativavam o pai, tentar perceber as suas ausências, as suas causas que a tudo pareciam sobrepôr-se.

E, então, Juliano viu. Viu as crianças, a pobreza extrema, a tocante ingenuidade, a beleza suprema da natureza em estado puro, os intocáveis horizontes -- tudo o que enleava o pai e de onde ele regressava com imagens nunca antes antevistas.


O filme não é novidade, terá já uns dois anos mas hoje apeteceu-me ver Juliano e Sebastião juntos a falarem da sua vida em família, tão marcada pela devoção de Sebastião Salgado à fotografia.




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E, se vos apetecer descansar o espírito, queiram fazer o favor de descer e meditar um pouco na No Regret Farm onde as cabrinhas são fisioterapeutas do corpo e da alma.

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O poder curativo das cabras



Cada vida é uma sucessão de acasos e de escolhas em cima da carga genética e das circunstâncias, tantas vezes circunstâncias alheias. Não está tudo predestinado -- mas parte está. O que talvez não esteja é o que acontece na camada opcional, ou seja, na forma como se reage perante o acaso (ou o imprevisto).

Perante a adversidade, algumas pessoas não encontram forças para superar a derrota ou o sofrimento ou a infelicidade ou o medo. Mas outras, com ou sem apoio, conseguem dar a volta por cima, reinventar uma outra vida, encontrar novos caminhos, aventurar-se pelo que parece um inextricável labirinto.

De um período difícil a nível pessoal (divórcio, descoberta de ser portadora de uma complicada doença degenerativa auto-imune) e com a vida profissional num impasse, Lainey Morse entregou-se a uma ideia que poderia ser banal mas que acabou por ser um sucesso.



Contudo, o sucesso neste caso não se mede em cotações de Wall Street, em notações de agências de rating, em contas bancárias com muitos cifrões. Neste caso, o sucesso mede-se em número de pessoas que visitam a No Regrets Farm, ou seja, a quinta de Lainey, para frequentarem as aulas de ioga em pleno campo, com cabrinhas a brincarem por perto, ao lado, em cima.


Tudo começou por acaso. Mas as oportunidades que se escondem nos acasos por vezes são postas de lado ou, quantas vezes, fechadas em si próprias, as pessoas nem se apercebem do que pode ser desenhado a partir de uma simples palavra, de uma inócua sugestão. Agarrar uma oportunidade e com ela transformar o infortúnio em esperança, isso, sim, faz a diferença.


Lainey tinha decidido ir para o campo. Depois decidiu ter cabrinhas. Depois foi arranjando o sítio e divulgando. Um dia, num leilão a favor de uma causa social, Lainey doou uma festa de aniversário para crianças na sua quinta. Uma mulher comprou a festa. Lainey decorou a quinta e a festa foi mágica. As pessoas estavam fascinadas com as cabrinhas brincalhonas e meigas. Nessa festa estava uma mãe que era professora de ioga e que lhe perguntou se ela já tinha pensado abrir a quinta para aulas de ioga. E logo ali surgiu a ideia do ioga com cabras.

As aulas esgotaram e as inscrições chegam de todo o lado. 

São apenas seis as cabrinhas mas transmitem harmonia, oferecem ternura. São uma distração, são uma terapia. Há pessoas com depressões, pessoas que tentam recuperar de situações difíceis, pessoas que querem, simplesmente, descansar, tranquilizar a mente, reencontrar a serenidade. Ou apenas passar um bom bocado.


O campo é o espaço em que mais facilmente se reencontra o ponto de equilíbrio e o afecto simples dos animais é, muitas vezes, o carinho que faz tão bem a quem vive momentos de tristeza ou pesada solidão.


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domingo, maio 28, 2017

Penso coisas tão profundas e sinto-me tão mal
que penso que sou um Intelectual.
E penso coisas tão mal e sinto-me tão profundo
que devo ser o Maior Intelectual do Mundo!





.  1  .

A leitura é uma espécie de celebração mágica. É a maneira de paradoxalmente descobrirmos que a realidade é aquilo que sonhamos e não aquilo que temos entre as mãos. É essa espécie de travessia de continentes. Que não existem. E nos quais reconhecemos aquilo que é mais profundo em nós e que não pode ser dito.


.  2  .

O problema é que os poderes do entretenimentos, sedutores e a exigirem uma entrega cega e sem reservas, são destrutivos. É uma das modalidades da irracionalidade do nosso mundo que não convivem bem com o pensamento, com uma certa distância, uma certa afirmação da autonomia individual, que são aspectos críticos para a literatura. Quando se liga a televisão, um dos emblemas maiores do entretenimento, há três coisas maravilhosas que acabam: o escuro, o silêncio e a solidão. Decisivas substâncias de que se faz a literatura, de que se faz a poesia. Onde está a música do pensamento no meio desse som e fúria sem contemplações a que se chama entretenimento?


.  3  .

A poesia e o romance não exprimem factos ou verdades, mas a possibilidade da verdade. Poesia e romance são o tempo interrogativo, o céu da possibilidade.


Senhor, permite que algo permaneça, 
alguma palavra ou alguma lembrança, 
que alguma coisa possa ter sido 
de outra maneira, 
não digo a morte, nem a vida, 
mas alguma coisa mais insubstancial. 
Se não para que me deste os substantivos e os verbos, 
o medo e a esperança, 
a urze e o salgueiro, 
os meus heróis e os meus livros? 

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Autores das palavras

1. Eduardo Lourenço

2. Luís Quintais

3. Paulo José Miranda

Título e poema no final - Manuel António Pina

[Tudo lido no livro 'Vale a pena?' - conversas com escritores de Inês Fonseca Santos]

Autor da música e das imagens do vídeo

Ketil Bjørnstad – Prelude 13
Fotógrafo – ©Hal Eastman

Fotografias

Minhas, in heaven

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Uma dança a três





Se quisesse, podia ir tentar descobrir quando anos vive uma ave destas. Mas a verdade é que não sei que ave é. Apenas sei que é uma ave de grande porte.

Desde que me lembro que, de vez em quando, em especial ao fim da tarde, vejo três a voarem em roda, muito alto, lá ao fundo, na fronteira dos nossos limites.

Ponho-me a olhar e é uma dança -- uma sobe ainda mais e as outras esperam, depois sobem também, andam em volta, depois trocam de posição, uma afasta-se mas por pouco tempo porque as outras logo se lhes juntam, depois quase param como se estivessem em formação, depois voltam a deslizar, aproveitam o vento, rodopiam, descem perigosamente e logo sobem, sempre em volta, largas voltas.

Sento-me de cabeça no ar a vê-las. É um movimento encantatório. Hoje tentei fotografá-las. Mas estão muito lá em cima e deslocam-se com alguma velocidade e dificilmente as apanho. Se lhes dou muito zoom para que se perceba mais do que uma pequena mancha logo saem do ângulo de visão. 

Aproveitou-se, e mal, esta que vos mostro.

Mas há uma dúvida que me acompanha: estas três, que vejo há anos e anos a voarem sempre juntas, serão sempre as mesmas? Ou, caso tal não seja biologicamente possível, será que umas vão morrendo e há sempre uma nova apta a juntar-se? E só haverá por aqui três aves destas ou estas são as que gostam de fazer este bailado, juntas, ao fim do dia?

Não sei. Mas isto intriga-me. Melhor: maravilha-me.

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sábado, maio 27, 2017

Talvez





Já não me lembro se foi pelo Natal ou em que circunstância e se foi para os dois ou só para um deles. Tenho uma vaga ideia de que terá sido para o meu pai e que, logo na altura, detectei a surpresa e a ironia que tentavam disfarçar. Eu achava tão bonito e esperava embevecimento e não foi isso que vi. Simpaticamente diziam que era bonito, que gostavam, mas eu sentia que não sabiam bem o que dizer. Que idade teria eu? Nove? Dez? Menos? Sei que quis oferecer um presente escolhido por mim. Lembro-me de andar a pensar, de andar com a minha mãe e a olhar para as montras para secretamente ir percebendo o que havia de ser. Até que um dia vi numa montra uma peça que, logo, logo, me pareceu perfeita. Então combinei que um dia me afastaria da minha mãe para ir sozinha à loja. E assim foi. Lembro-me que era muito cara, muito mais do que esperava. Mas o dinheiro que levava era suficiente.

Em casa, escondi bem o presente. No dia certo, quando abriram, foi o que vos contei. Era um borreguinho branco, em biscuit. Peça com talvez menos de 10 com de tamanho, um borreguinho mesmo pequenino, naturalista, perfeitinho.


Hoje percebo o desconcerto deles. Lembro-me deles a mostrarem aos meus avós ou aos meus tios o presente que eu lhes tinha dado, escolhido e pago por mim. Mas lembro-me bem de perceber que sentiam vontade de rir e eu não percebia porquê. Ainda lá está.

Hoje estive lá ao fim do dia, quando regressei do meu compromisso. Vejo as mesmas peças de sempre, nos mesmos lugares de sempre. Por vezes penso que o tempo ali parou.


Uma fotografia tirada no fotógrafo quando eu teria acabado de fazer dezassete anos. O meu namorado de altura disse que gostava de ter uma fotografia minha, em ponto grande. Em ponto grande porque, se calhar, tinha em tipo passe. Esta terá uns quinze por vinte, coisa assim. Achei um disparate. Parece que apenas faço sentido ao vivo, com o que digo ou calo, a forma como olho ou rio. Não me reconheço quando me vejo cristalizada e fez-me impressão que ele não pensasse como eu. Que graça teria olhar para uma imagem de mim num bocado de papel?

Um dia passámos em frente do fotógrafo mais conhecido da cidade e ele, vendo algumas fotografias expostas, disse que era mesmo assim, que gostava de ter uma como aquelas. Por coisas dessas, tão contrárias à minha natureza, o namoro estava fadado para não dar certo. Mas, na altura, eu achava que devia esforçar-me para desvalorizar insignificâncias e acabei por lhe fazer a vontade. Quando a viu ficou maravilhado. Eu não. Para mim aquela fotografia não fazia sentido. Mas a minha mãe viu as provas, gostou muito, mandou fazer mais uma e colocou-a numa moldura. Lá está. Cabelos bem compridos, sorriso ao de leve, uma adolescente a esforçar-se por fazer um agrado ao namorado. 


Em cima da camilha da sala está também uma coisa minha, que quis lá deixar ficar. Pelos meus anos pedi-lhe que me oferecesse alguns dos seus poemas que eram feitos para mim ou sobre mim, mas manuscritos. Fez mais que isso. Com a sua bonita letra, em tinta permanente, num papel de densa gramagem e encadernado a pele, fez um livro. Comoveu-me esse presente. Está lá. Quem o recebeu foi a adolescente da fotografia no fotógrafo, não a que fui depois disso.

E estão fotografias de netos e bisnetos, sobrinhos e sobrinhos-netos. Em algumas fotografias os netos tinham a idade que têm agora os bisnetos. O tempo passa a correr. Lembro-me tão bem de ter ido comprar, toda orgulhosa, o borreguinho. E tão bem que me lembro dos meus filhos, de tronco nu, a regarem o jardim da avó, o mesmo jardim onde agora os seus filhos brincam da mesma maneira.

Não sei se é o tempo que passa por mim, e passa correndo, se sou eu que faço a minha caminhada pela vida, andando mais depressa do que devia. Talvez seja isso, mas em vez de andar, talvez voe. Talvez como um pássaro, talvez como num sonho. Talvez.

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Saudade em forma de palavras

[Leonard Cohen - Bοοκ of longing - a poesia dita sobre música de Philip Glass]



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As fotografias são de Geert Weggen que gosta de fotografar esquilos (e percebe-se porquê)

Lá em cima também era Leonard Cohen. Interpretava Bird on the Wire

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Como esta sexta-feira me levantei muito cedo e porque o dia foi preenchido e cansativo, estou incapaz de pensar, não sei sobre que é que escrevi. Provavelmente não escrevi. Ou, se escrevi, foi sobre coisa nenhuma. Talvez esteja aqui apenas para vos dizer olá. 

Vou descansar. Talvez amanhã consiga escrever sobre coisas que interessem. Talvez. Talvez.

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E um dia feliz a todos quantos por aqui passam.

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sexta-feira, maio 26, 2017

O que fazer quando tudo arde?
- Talvez tocar violino --



Já o contei: nem sei onde morreu o meu bisavô, pai do meu avô paterno. Penso que na Venezuela, mas não estou certa. Pode ter sido na Argentina. A ver se não me esqueço de perguntar à minha mãe.

Ninguém na família quis saber dele. Perdeu casas, 'propriedades', cavalos e gado, dinheiro. Era um jogador, é a ideia que tenho do pouco que diziam. Desfez o morgadio e fugiu, deixando para trás, e no desamparo, mulher e três filhos. De uma 'casa' abastada passaram para uma situação complicada. Sobraram ainda alguns terrenos e a casa onde viviam. Mais tarde, o meu avô, já adolescente, espírito aventureiro, pôs-se a caminho, andou por Espanha e por França antes de, com vinte e poucos anos, conhecer uma rapariga sete mais jovem e com ela se casar. Quando sobre mim diziam que era muito nova para me casar, a minha avó uma dessas pessoas, o meu avô disse de forma a que ela o ouvisse, 'Não ligues. Com dezoito anos teve ela o teu pai'.

Mas, então, o meu bisavô era visto pela família como um cobarde. A minha mãe, tenho ideia que achava que não era isso, que era um aventureiro. Do meu pai nunca ouvi uma palavra sobre o avô. Do meu avô também nunca ouvi uma palavra sobre o pai.


Nunca mais ele quis saber da mulher e dos filhos, e eles pagaram-lhe da mesma moeda: caíu sobre ele um desinteresse total. Pelo menos em público era isso que manifestavam.

A minha mãe contou, creio que depois dos meus avós terem morrido, que achava que ele quis reaproximar-se ou regressar e que de cá teve apenas silêncio e desprezo. Tenho ideia que a minha mãe viu uma carta dele, escondida.

Talvez, por lá, por onde andou, tenha tido outra família, mais filhos, talvez por lá andem agora outros bisnetos. Não faço ideia. Nunca ninguém quis saber. Por vezes penso e nisso e faz-me impressão. Talvez devesse ter tentado esclarecer algumas coisas. Contudo, creio que já é tarde para isso. O meu avô está morto e o meu pai já vive num outro comprimento de onda. O meu tio, irmão do meu pai, está bem mas também nunca manifestou qualquer interesse no assunto. Também já o contei: ainda há um terreno no Algarve, um terreno bom, num sítio bom. Calhou, em partilhas, ao meu avô. Provavelmente já alguém lhe chamou um figo. Ninguém, da família, mexeu, até hoje, uma palha para o passar para o nosso nome (presumo que esteja ainda em nome desse desconhecido bisavô).

Mas não é por isso, até porque não estou certa do destino que, há talvez cem anos, esse desconhecido tomou -- mas a Venezuela para mim é um país longínquo, geografica e emocionalmente.

Politicamente também. Nem o Chávez me entusiasmava: tudo distante, tudo a milhas da minha lógica, dos meus afectos, dos meus gostos.

Este agora que por lá anda parece que não sabe (nem nunca soube) o que é ser presidente de um país. Nada contra os motoristas de autocarro, nem contra os motoristas que se fazem sindicalistas. Mas faz-me alguma espécie que daí se passe a ministro e, daí, a presidente de um país. Nicolás Maduro desagrada-me como presidente. Não sei se é populista, se excessivamente nacionalista, se é apenas impreparado para a função.

O que se passa agora na Venezuela é outra desgraça. Maduro mantém-se em funções com a rua descontrolada, com as lojas vazias, as fábricas paradas, a loucura à solta.


No entanto, eis que no meio da maior tensão e violência, entre gente que se apedreja, caminha um jovem tocando violino.

Se no post abaixo mostro como a palavra se elevou para aglutinar as emoções e as catapultar sob a forma de coragem contra o terror anónimo, aqui, agora, é a música.

Chama-se Wuilly Arteaga, tem 23 anos, gosta de se vestir com as cores do país e tem uma coragem que impressiona. Para ele, a música simboliza a paz e a coragem e, por isso, como que protegido por um invisível escudo, ele caminha pela rua, tocando violino.



Infelizmente, a sorte abandonou-o: esta quarta-feira, a polícia motorizada avançou sobre ele, magoou-o e partiu-lhe o violino. É em lágrimas que ele nos aparece, com o violino -- que ele diz ser a sua ferramente a favor da paz -- sem cordas.

Entretanto, já há um grupo a mobilizar-se para arranjar dinheiro para lhe comprarem outro violino.

O vídeo abaixo, publicado esta quinta-feira, mostra-o nas ruas, antes disso, tocando.

E eu vendo isto, volto a uma pergunta semelhante à que, no post abaixo, formulei: para que serve a música? Para que serve a arte?
Pode a arte ser uma arma mais poderosa do que as armas tradicionais?
Quem dela se mune para a luta não tem mais coragem do que os que se escondem atrás de escudos para agredir sem ser agredido?
Não sei responder com certezas absolutas mas admito que sim.

E admito também que a vida, tal como a vamos aceitand.o merece alguma reflexão. Por exemplo: quem são os verdadeiros novos heróis deste estúpido mundo?



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Face ao terror que derruba inocentes eis que se levanta o poder da palavra


A poesia serve para quê?

Um poeta é útil para quê?

As palavras valem o quê perante a força destrutiva de uma bomba que explode no meio de um grupo de jovens?

Perante a comoção, o desgosto e o medo da população de que serve um homem levantar-se e dizer um poema?

Nada?

Ou tudo?

Que outra força pode transformar a emoção em força? Que outra força senão a da palavra? Que outra força transforma o espanto e o terror em coragem? Que outra força transforma o emudecimento em palavras senão a da poesia?

Tony Walsh, conhecido por Longfella (por ser muito alto) leu um poema seu na vigília pelas vítimas em Manchester e emocionou a multidão.



Independentemente da qualidade do poema, do que vi nos vídeos, o que ali se passou foi extraordinário.

Vejam, por favor.



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quinta-feira, maio 25, 2017

O elogio, pela boca de Schäuble, de que Centeno é o Cristiano Ronaldo do Eurofin é a pimenta que faltava no cu de Passos Coelho


Não posso aqui desfiar tudo o que me tem ocorrido desde que li que Schäuble disse que Centeno é “o Ronaldo do Ecofin”. 


A minha veia metafórica borbulha com verdadeiras epifanias em torno do tema. 
Vejo o Schäuble a seviciar, com esgares de sadismo, a sua dilecta pupila Pinókia Albuquerca, vejo o Schäuble a obrigar o servil Gaspar a praticar actos impuros (e abstenho-me de usar a partícula reflexa para não dizerem que estou a pisar a linha encarnada), vejo o Láparo pelas ruas da amargura, a correr com o rabo em chamas ou então a ganir de rua em rua e o mastim alemão a acelerar na cadeira de rodas atrás dele, a rosnar-lhe, de dente afiado... vejo coisas assim -- mas tudo em brejeiro, tudo recorrendo a um vocabulário vernacular, impróprio para consumo.
Ajoelhou... tem que rezar!

[Ai não, não era isso, desculpem: era 'tem que pagar']

Ora, atendendo a que este é um salão onde se usa apenas o mais fino léxico e a mais requintada semântica e que eu própria cubro o meu púdico rosto quando alguma ideia menos piedosa se me ocorre, coibo-me de aqui verbalizar os meus pensamentos.


Limito-me a, caridosamente, recomendar ao nosso Láparo de estimação que, depois desta do Schäuble a comparar o Centeno ao CR7 

  -- e do Marcelo, esse ubíquo e fofo catavento, vir dizer que por uma vez o sinistro Rottweiler não tinha pensado mal -- 

tente ele (ele, Láparo) acalmar o ânus com água de malvas, quiçá aplicar também unguento para assaduras (vaselina não, que isso poderia dar más ideias a algum malandreco que tenha contas a ajustar). Ou, não tendo nada disso em casa, pois que encha o bidé de água, coloque lá uns cubos de gelo, e ponha o rabo de molho. Há-de passar. O tempo tudo cura.


Ok, ok, já sei que tenho um coração de manteiga, sempre com pena dos desvalidos. Mas, fazer o quê?, estou com uma peninha dele... cada vez numa saia mais justa, sem chão onde pôr o pé... Só falta mesmo a Teodora oferecer flores ao Costa e fazer um striptease para agradar ao Centeno. Sim, já só falta isso.
Portanto, com vossa licença não falo mais no assunto. Pena, pena do pobre coitado. Apenas transcrevo mais uma coisitinha que li:

“Há doze meses, era tudo tão diferente. Portugal estava à beira das sanções económicas da União Europeia e o sucesso do seu novo Governo de coligação de esquerda estava longe de ser assegurado. Hoje, já não viola as regras orçamentais da UE e espera entregar antecipadamente 10 mil milhões de euros ao FMI”, lê-se na newsletter do “Politico” (que acompanha as políticas e personalidades da União Europeia).

Ui... Coitado do láparo.

[E mais não digo. Não quero que pensem que gosto de pisar em quem já está mais do que no chão, e ainda por cima, agora, o pobre com o rabiosque a arder daquela boa maneira. Ainda vinham dizer que eu sou insensível ao sofrimento do coitado do láparo ou dizer-me que estou assim porque não é comigo, que pimenta no cu dos outros é refresco. Não, não. Calo-me já.]


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Mas, já agora, permitam que partilhe convosco a lembrancinha que o ex-amigo do coração, Schäuble de sua graça, (ex-amigo do láparo, atenção! -- não meu), lhe deixou aqui para o poor, poor coitado, ir ouvindo enquanto estiver a tentar apaziguar os calores da assadura anal.

[And pardon my french]



Uuuuhhh...

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As imagens que usei para enfeitar o misericordioso texto provêm da infindável arca do saudoso blog We Have Kaos in the Garden

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E, depois desta cena triste e meio escatológica, caso queiram purificar-se, desçam por favor para irem ao encontro do Pato Donald, da viúva em vida Perpétua Melania e de sua filha igualmente viúva, a Barbie Ivanka, e mais uns quantos deslassados que foram de visita ao Vaticano, moer a paciência ao pobre Francisco.

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As viúvas beatas foram ao beija-mão mas, cá para mim, o Papa só não lhes deu um chega-para-lá porque é bem educado.
[O Pato Donald Trump, a desinfeliz Melania armada em jararaca, a menina Ivanka feita Neuzinha piedosa e mais uns quantos saídos de um filme cómico iam tirando o Papa Francisco do sério]



O semblante de Jorge Bergoglio ao receber aquela tropa fandanga não engana. Homem-humano como é, deveria era estar com vontade de dar uma valente rabecada naquele que é uma das grandes ameaças para os Estados Unidos (e para o mundo), o estupor que brinca às guerras, que despede a eito quem não lhe faz todas as vontades, o atrasado mental que teme refugiados e tem raiva a imigrantes em geral, que troça de quem se preocupa com o ambiente, que quer lá ele saber dos mais pobres que não conseguem pagar os cuidados de saúde, que vai ao Museu do Holocausto em Israel e escreve que é amazing estar lá com os amigos.


A inconcebível mensagem de Trump no Museu do Holocausto.

'So amazing' - imagine-se o despropósito


(A letra e a assinatura dizem bem o que Donald Trump é)


Na fotografia lá de cima e nesta aqui abaixo (esta já com um dos muitos comentários jocosos que já percorrem a net), Trump faz aquele sorriso próprio dos narcisistas que não percebem o contexto e apenas se preocupam em ficar bem na fotografia. A Melania e a Ivanka parecem fantasiadas de viúvas beatas e todo o quadro é hilariante. No meio deles, Francisco, aparece trombudo, notoriamente enfadado com tamanha cara-de-pauzice por parte de gente tão estúpida e frívola.


Não podendo dar-lhe um sopapo a sério, Francisco usou luva branca para uma bofetada psicológica: ofereceu a Trump uma medalha com a forma de oliveira como o símbolo da Paz (e o Pato Donald respondeu 'We can use peace') e ofereceu-lhe a sua encíclica alertando para a poluição, a favor do ambiente e da ciência (e a loura-burra, de seu nome Trump, respondeu: 'Well, I’ll be reading them').



Uma palhaçada. Ao que o mundo chegou para um animal daqueles ainda ser presidente dos Estados Unidos. Custa a acreditar. Mas, caraças, é mesmo verdade.


E claro está a paródia a tão desconcertante quadro não se tem feito esperar.


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Vontade de se disfarçar de Padre Mariano e desatar a chispar com a Perpétua e com as outras falsas beatas não deve ter faltado a Jorge Bergoglio.

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Um dia feliz a todos.

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quarta-feira, maio 24, 2017

Só lhe queria dizer que comigo, o que me salvou foi o amor, o dos outros por mim e o meu pelos outros, e não conheço muitas mais curas.
-- Escreveu uma Leitora num mail que li com emoção.





Foi levar-me documentos para eu aprovar e, como muitas vezes acontece, ficou à conversa. Gosto de conversar com ela. Deve ser mais ou menos da minha idade, talvez uns dois ou três anos mais nova que eu. Trabalha numa outra área da empresa. É uma pessoa genuína. A única coisa que, por vezes, me perturba na conversa é ter uma certa tendência para pôr as palavras no diminutivo. Mas faço por superar. Gosta também de descrever as conversas que tem, relatando-as em discurso directo. Quando tenho pouco tempo, aflijo-me por dentro -- porque não a quero interromper -- pois o detalhe faz com o tema se espraie e eu, nas minhas pressas, não vejo fim à conversa.

Mas o que diz interessa-me sempre.

Ao fim de semana ela e o marido vão amanhar a terra. Percebo  que é um bocado de terreno relativamente perto da casa, num dos subúrbios da grande cidade. Desta vez foram apanhar batatinhas pequeninas. Depois assou-as no forno, com frango. Batatinhas pequeninas, das novas, diz-me ela. E, então, estavam lá na apanha, o marido diz-lhe: 'Olha, vai espreitar lá ao fundo' e, pela cara dele, ela percebeu logo que ele lhe reservava uma surpresa. E, conta-me ela, foi andando até que, ao fundo, viu uns arbustos, quase uma trepadeira. Faz uma pausa e pergunta-me: 'Está a ver as moitas de silvas que dão amoras...? A diferença é que as framboesas são maiorzinhas, mais encarnadas. Plantou, deixou que crescessem, tudo para me fazer surpresa. De longe gritou para eu ver se estavam boas. Oh se estavam. Comi as mais pintadinhas. As outras tapei-as com folhas a ver se os pássaros não dão por elas, a ver se ainda há algumas no fim de semana'.

E ouço-a e quase parece que me ouço a mim.

A conversa corre neste comprimento de onda. Pelo meio, enuncia-me receitas, desta vez eram os legumes num tabuleiro debaixo do frango, um limão e uns dentes de alho dentro do frango, o frango lavado com azeite, sal e louro. Explica tudo muito bem.


Conheço-a há quase vinte anos. Nunca a ouvi dizer mal de ninguém. Enquanto fala sorri. O seu trabalho por vezes é rotineiro e frequentemente intenso. Não se queixa. 

No outro dia calhou ficarmos as duas numa sala, a participarmos numa sessão por videoconferência. Criaram uma amostragem e estão a testar uma iniciativa, ouvindo antes a reacção de um grupo de pessoas. Do nosso local de trabalho, saíu a rifa a nós duas, eu na qualidade de dirigente, ela na qualidade de pessoa sem cargos de chefia. Entrosámo-nos muito bem e as nossas opiniões tiveram, como sempre, grandes afinidades. A forma como ela compreende as dificuldades de quem manda mas que está também sujeito a regras e condicionamentos quase me comove. 

É daquelas pessoas que tem uma energia positiva que faz bem a quem a rodeia. De vez em quando tem problemas de saúde mas ultrapassa-os com uma leveza que surpreende. O responsável pela área na qual trabalha, por vezes comenta isso comigo: 'Qualquer outra no lugar dela... e no entanto aí anda, sempre sorridente'. 


Uma vez estava muito preocupada com a mãe. Magra, cada vez mais magra, sem apetite, parecia que tinha uma coisa ali atravessada -- contou-me ela no meu gabinete, numa tarde. Quando a conseguiu convencer a ir ao médico, já era tarde demais. Um médico dizia que era de operar, um outro que era melhor não mexer. Ela aflita. O que fazer perante duas opiniões contrárias? Que se conhecesse alguém de confiança... Disse-lhe, então, que uma pessoa próxima é dessa especialidade, que podia ligar a ver se a podia receber. Liguei. Que ela fosse com a mãe ao hospital e que levasse os últimos exames. Foi. A mãe ficou logo lá. Pediu sinceridade total e teve-a: pouco tempo de vida, nada a fazer, apenas atenuar o sofrimento. Ela prostrada, num desgosto. A mãe ficou lá até ao fim. Fui levá-la algumas vezes ao hospital, outras buscar. Um dia ligou-me, era dia de Páscoa: o que se esperava tnha acontecido, a mãe tinha morrido. Dias depois ligou-me de novo: gostava de oferecer uma coisa ao dito médico, queria agradecer o carinho e cuidado dele com a mãe, desde o primeiro ao último dia. Disse-lhe que não, que não era pessoa que esperasse isso. Mas ela insistiu, que não imaginaria o sofrimento ainda maior da mãe se não tivesse estado tão bem acompanhada.

Por indicação médica, por prevenção, foi fazer ela um exame. Uma coisinha, contou-me ela. Biópsia. Positiva. Teve que tirar. Dias depois, já a trabalhar, animada, que felizmente tinha dado com aquilo a tempo. Depois tratamentos e ela sempre serena: tive sorte, grave é quando não se detecta a tempo.

Contudo, aqueles dois meses da mãe arrasaram-na. Diz que só se lembrava da mãe a definhar, já sem força para andar, sem conseguir comer nem reter comida no estômago. Custava-lhe aceitar como, antes de se ter descoberto, nunca lhe tinha passado pela cabeça uma coisa destas. Diz que há que tempos que a mãe se queixava que parecia que andava sempre cheia, que parecia que andava enfartada, sem fome nem vontade para nada. E nem a mãe, nem o pai nem ela atribuíram importância a isso. Pensava que, se tivesse percebido antes, talvez a mãe tivesse salvação. Com estas ideias a corroerem-lhe a mente, arranjou uma depressão. Reconheceu que não estava bem, tratou-se, esteve um mês de baixa. Veio outra vez igual, bem disposta. 


Depois os problemas com o pai. Viúvo. Ficou maluco, diz ela. Anda com mulheres, gasta dinheiro, deixa-se enganar, não aceita conselhos, não ouve ninguém. E ela sempre com tranquilidade: 'Deixa-o, é a vida dele, também não estou a fazer conta com o dinheiro dele'. Um dia o pai ligou-lhe, que tinha ido ao supermercado com a romena que estava de mulher-a-dias (mulher-a-dias e não só, comentava ela) e, quando chegara a casa, não tinha janelas, tinham-lhe roubado as janelas e as portadas de alumínio. Quando me contou, dizia ela: 'É bem feita para aprender a não meter qualquer uma dentro de casa. Ninguém me tira da cabeça que foi armação dos romenos, tanto mais que a romena nunca mais lá pôs os pés. Mas vá lá meter-lhe isso na cabeça...' 

Pelo natal faz filhoses, umas com recheio, outras simples, e sonhos. Faz sempre a mais para nos levar. Deixa na copa uma caixa para nos banquetearmos. Espreita no meu gabinete e diz . 'Há-de passar pela copa'. E eu passo.

E eu também lhe conto dos meus pais, da minha lida no campo, das receitas que invento, dos miúdos. E falamos de como por vezes, parece que é quando o tempo muda, temos dores nas articulações e ela conta-me do que lhe faz bem e tem sempre mezinhas que me parecem fundamentadas e que, por vezes, sigo. E coisas assim.

Em tantos anos, nunca falámos de política, de literatura, de economia. Nem de comentadores de televisão. Nem de tantas coisas que aparentemente me são caras. E, no entanto, gosto tanto de falar com ela. Nas nossas conversas parece que só falamos da vida, da vida sem filtros, sem intermediação.


E isto que estou a escrever também não tem nada que se lhe diga e, mais que certo, espremido vale zero -- mas eu tenho esperança que, por vezes, estas minhas conversas à toa digam qualquer coisa a algumas pessoas que me lêem.

Ontem escrevi aquilo de alguns distúrbios mentais não serem visíveis a olho nu e hoje recebi um mail que me tocou: uma pessoa dizia que reconhecia a doença da prima do meu amigo, que ela também a tinha tido mas que acreditava que a tinha superado, e contava como o amor de quem a apoiou foi relevante na sua cura. E terminou o mail agradecendo-me: 'por ir chamando a atenção dos leitores do seu blog para estas questões que fazem parte da vida de todos'. E eu, lendo este mail, fiquei comovida e a pensar que vale a pena estar aqui a escrever -- frequentemente cansada, o corpo a pedir-me descanso -- se, por vezes, as minhas palavras confortam alguém ou chamam a atenção para os problemas invisíveis para quem não os consegue sentir (ou pressentir) mas que podem machucar a vida de quem os vive ou que com eles convivem de perto.


E eu sinto-me agradecida perante quem me lê e me diz que gostou de ler.

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[Se eu pudesse trincar a terra toda]


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[E peço mil desculpas por andar sem conseguir responder a mails e comentários. Ando com muito sono e escrever um post a dormir ainda vá que não vá. Mas já uma resposta requer cuidado para não parecer desmazelo se a resposta me sair com letras trocadas ou palavras a menos]

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As fotografias foram feitas no fim de semana, in heaven.

De Hahn, "L'heure exquise" numa interpretação de Philippe Jaroussky

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Talvez até já

(Ou até amanhã -- se fizer caso do que hoje me recomendaram: que durma mais, que me deite mais cedo a ver se deixo a  melatonina trabalhar à vontade)

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terça-feira, maio 23, 2017

Estou aqui para dar razão ao nosso Marcelo, o ubíquo ser que enche de afecto os nossos corações.
É verdade, sim senhor:
Passos Coelho e o seu magnífico Governo são, em parte, responsáveis pelo sucesso que Costa e a Geringonça têm alcançado.


Enquanto vejo na televisão imagens de um novo problema num concerto, desta vez em Manchester no final de um concerto de Ariana Grande -- mas ainda não se sabe bem o que aconteceu, falando-se em explosão, mortos e feridos, e vendo-se carros de bombeiros e ambulâncias a chegar -- forço-me a deslocar-me para outro assunto. Entretanto, ao telefone já se encontra Nuno Rogeiro que, espantosamente, está a transmitir informações de números de telefone, uns para denunciar suspeitos, outros para encontrar crianças que estavam no concerto. E diz que pode estar a falar-se em cerca de vinte mortos e dezenas de feridos. 


Mundo cão. Melhor fariam as televisões se não transmitissem tantos pormenores, se não fizessem tanta propaganda a tudo o que seja acto tresloucado.

Com vossa licença, irei, então, andando para outro assunto. 

Ah pois é. Se não fosse ele e ao pó que os portugueses lhe têm, jamais teríamos o governo de antónio Costa apoiado pela Geringonça

Soube que num dia relevante para o País, o da saída do grupo dos relapsos, dos de más contas e défices excessivos, Marcelo veio caridosamente dar uma palmadinha verbal nas costas de Passos Coelho, dizendo que o mérito também é dele. Não apenas do Governo de Costa mas, também, do Governo de Passos -- sentiu-se ele na obrigação de dizer.


Logo se elevou um coro de ciosos: que não, qual quê, alguma vez o Láparo pode ter contribuído para o sucesso alcançado quando notoriamente o que está a correr bem são as acertadas medidas de Costa e Centeno? E quando estes a primeira coisa que fizeram foi mudar de página e inverter as poíticas de Passos Coelho...?

Contudo, eu, se me permitem, vou dar razão ao Marcelo e contrariar os bem falantes de esquerda que andam todos contentes e se esquecem de agradecr àquele a quem tanto devemos.

Conhecem-me bem os que por aqui vão passando: não morro de amores pelo Láparo, pelo Portas, pela Marilú. Mas, se me conhecem mesmo, saberão que tento ser imparcial.

Estou a sê-lo neste momento.

Uma palavra de agradecimento é devida à seita pafiana. E ela aqui está: Obrigada.  

E não me rifem, os mais fundamentalistas. Não estou a portar-me como uma traidora. Sou franca em qualquer circunstância. As verdades são para serem ditas.

Mas antes de me julgarem, ouçam-me, por favor. Deixem que me explique.

Se o Passos, o Gaspar, a Mª Luís Albuquerque, o Portas, o Relvas, o Crato, a Teixeira da Cruz e todos os outros não tivessem sido tão maus, tão, mas tão maus, tão desgraçadamente maus, tão incompetentes, tão broncos, tao destituídos, tão insensíveis, tão impreparados, tão pouco amigos do País e dos portugueses, se não tivessem afrontado tão vilmente os mais pobres, os mais velhos, os mais jovens, se não tivessem espantilhado tão grosseiramente as empresas, vendendo as maiores ao estrangeiro, se não tivessem ajudado a rebentar com vários bancos, destroçando o sector bancário e fazendo toda a espécie de burrices sem perceberem que, fazendo tudo mal, dificilmente chegariam a bom porto -- talvez os portugueses não lhes ganhassem tanta aversão.

Assim, ganharam. Aversão. Profunda.

Fartos do Láparo e da sua trupe até à raiz dos cabelos, até à medula, até às unhas dos pés, os portugueses puseram-se nas mãos dos partidos da oposição e puseram para trás das costas os ancestrais medos dos comunistas, extremistas e o escambau. Tudo seria melhor do que a peste laparónica.

Ou seja, doidos para se verem livres de tal tropa fandanga, os portugueses estavam verdadeiramente por tudo: PS+BE+PCP e Verdes, tudo a apoiar o Governo do Costa.

Os mais timoratos de entre os apoiantes do PS ainda vacilaram mas os portugueses disseram que, perante a possibilidade de os pafs se manterem no poder, não haveria volta a dar. Que viesse a Geringonça que seria bem vinda. E veio. Para ficar.

Portanto, razão tem Marcelo: há que não negar o mérito do valor do governo do láparo. A ele lhe devemos não o podermos ver nem pintado, a ele devemos o apoio que os portugueses tão afavelmente dedicam ao Governo de Costa e à Geringonça, permitindo-lhe governar à vontade Jamais teríamos o governo de Costa apoiado pela esquerda em peso se não fosse o Passos Coelho. Portanto, obrigadinha ó Láparo. 



E obrigadinha, Professor Marcelo por, uma vez mais, nos dar a ver a luz da verdade.

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E agora, num registo muito diferente, queiram, por favor, descer até ao post seguinte onde falo de um tema muito tristemente actual:
o dos distúrbios mentais, invisíveis, arrasadores. E conto um caso verídico.

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A invisibilidade de alguns distúrbios mentais




O meu amigo não tem irmãos, apenas primas. Ainda assim não estou certa de que sejam primas em primeiro grau. De vez em quando, quando estamos juntos, toca-lhe o telefone e ele diz, tirando o som: ‘agora não, não tenho paciência para a aturar’. E não a atende.

No entanto, já aconteceu irmos de carro, tocar o telefone do carro, ele não conhecer o número, atender e sair-lhe ela. Então, não tem como não dizer nada e eu, em silêncio, vou de gosto a ouvir a conversa.

Tem uma voz bonita. Dir-se-ia que é a voz de uma mulher bem jovem. Contudo, deve andar pelos cinquenta. Tem uma conversa escorreita, elegante e, com frequência, utiliza palavras ou expressões com um certo grau de sofisticação.

Na última vez foi como vou tentar descrever.

Começa por perguntar ao primo: 'Olha lá, tu ligaste-me, não foi?', dando a entender, pela entoação, que está a responder a uma chamada dele. Ele diz que não. Ela reconfirma, como se duvidasse da resposta dele. Ele volta a confirmar: não lhe ligou. Então, ela passa à frente e começa a contar-lhe peripécias. 

‘Então não queres tu lá saber o que me aconteceu com a Lita...?' Ele permanece em silêncio. Ela retoma: 'Imagina tu que, no outro dia, me apareceu lá em casa a querer que…’ e relata coisas que a mim me parecem normais mas que ela conta como se de coisas improváveis se tratassem. No fim o primo, diz: ‘E então…?’.

Ela mostra-se escandalizada: ‘E então…? Mas então tu não estás a ver onde é que ela queria chegar…’?’. O meu amigo responde secamente ‘Não’. Ela então começa a contar, em tom de denúncia, uma série de tentativas que a Lita já fez. E eu, ouvindo-a, não consigo perceber se a Lita, que depois do telefonema venho a  saber que é outra prima, anda a pretender extorquir-lhe informações, favores, dinheiro ou outra coisa. 

No fim remata: ‘Já pensei apresentar queixa na polícia’. O primo abana a cabeça, ar de quem já estava mesmo à espera desse desfecho. Depois diz-lhe: ‘Acho que não é caso para isso’. A prima escandaliza-se: ‘Não?! Não?! Depois não venham dizer que não avisei’ O primo fica calado. Ela continua: ‘Mais. Não sei se cheguei a contar. No outro dia, tocou o telefone já passava das dez da noite. Vi logo. Perguntaram por outro nome. Disse que ali não morava ninguém com esse nome. Disseram que era engano. Sim, sim. É para me intimidar. Percebo-a bem. Mas a mim não me engana ela. A vocês engana mas a mim não.’ O meu amigo encolhe os ombros. Depois encerra a conversa: ‘Pronto. Então tudo bem. Vai dando notícias’. Pelo tom, vê-se que ela percebe que ele está a despachá-la. Responde com ar contrariado ‘Quando quiseres, liga’.

Furioso, comenta: ‘Já trocou outra vez de telemóvel. Agora dá-lhe para isto’. Eu digo: ‘Tem uma voz bonita e parece normal’. Ele diz: ‘Sim, sim... normalíssima… Mas tem razão: quem a vê não a leva presa, e é bonita, faz lembrar aquela da Anatomy de Grey. Quer saber a última? No outro dia, de madrugada, ligam-me da polícia. Apanhei um susto, pensei logo no meu filho. Não, tinham-na levado para a esquadra. Então o que era? Tinha ido outra vez à casa onde morava com os pais, na Ajuda. Uma casa que parece um museu, não imagina, óleos enormes, valiosos, móveis antigos, uma biblioteca extraordinária. Tudo fechado, sem ser limpo há meses. Volta e meia vai lá. Quando lhe sugeri que não fosse lá durante uns tempos, que eu ia, que mandava limpar a casa, respondeu-me ‘Nem penses. O que tu queres sei eu.’. Nunca mais lhe disse nada. Quer ir, vá. Mas então que vê bichos, que a atacam, que ouve barulhos, que há gente lá dentro. E, vai daí, vai buscar uma vassoura e anda à vassourada nas coisas, a gritar, a bater nas paredes com a vassoura, a atirar coisas. Faço ideia o chinfrim às tantas da noite. Os vizinhos começaram por tocar à campainha e, como ninguém lhes abriu a porta e o barulho continuou, acabaram por chamar a polícia. A muito custo lá abriu a porta aos polícias que também não perceberam o que se passava. E foi ela que lhes disse que o melhor era chamarem-me que eu explicaria tudo e que o melhor era ir com eles e a explicação ser dada na polícia. Chego lá, estava ela na conversa com os polícias, uma conversa muito articulada, a contar a história da vida do pai, pessoa ilustre e conhecida, e dos problemas que tem tido, toda a gente a querer espoliá-la, ela coitada a ser vítima de toda a espécie de intimidações, de chantagens, e ela sozinha na vida a ter que resistir a tanta malfeitoria. Os polícias já condoídos e a olharem-me de lado, como se eu fosse um dos suspeitos. Levanto-me de madrugada para me ver no meio duma esquadra, quase a insinuarem que eu é que teria andado lá por casa a assustá-la ou como se tivesse pago a alguém para a apavorar. Como se fosse eu que andasse a tramar aquilo para lhe ficar com a casa. Imagine. Uma situação, digo-lhe. No fim, os polícias perguntam-lhe se tem para onde ir e ela, ar de vítima, dá a entender que deveria ir comigo mas que a minha mulher é que não a aceita. Com certeza que não a aceita, mas nem ela nem eu. Só que a questão não é essa. A questão é que ela é maluca e tem é que ser internada e não andar por aí a arranjar problemas. Agora se ela não acha que está doente e não vai ao médico, como é que a gente lida com isto…? Faz ideia? Eu não faço...’

E eu, ouvindo o seu monólogo e vendo o seu desagrado e a sua inquietação com a situação, fiquei também ser saber como se age numa situação destas.

Perguntei: ‘E não tem mais família, alguém que a ajude?’. 

Ele esclareceu que não. Filha única, estava agora sozinha. De família, tinha apenas aquela outra prima e ele. É ainda professora mas arranja problemas constantes na escola secundária onde lecciona. Diz ele: 'Imagino o que é aquilo a dar aulas ou a lidar com as regras da escola, imagino.'. No entanto, ela não reconhece que tem problemas. Não pensa em reformar-se e, se calhar, mesmo que pensasse não o conseguiria. Pelo que a outra prima lhe conta -- porque essa tenta, apesar de tudo, não a deixar desamparada -- o meu amigo diz que ela não limpa a casa, não se alimenta convenientemente, não se percebe se trata das contas bancárias ou do que quer que seja e reage pessimamente se alguém tenta ajudá-la pois pensa que o fazem interesseiramente. No entanto, diz ele, é bonita, parece muito mais jovem e, por incrível que possa parecer, diz ele, mantém o ar de mulher tratada e elegante. Pior, acrescenta ele: disfarça muito bem. Perante outras pessoas, mais depressa as convence que alguns outros andam com depressões ou são psicopatas do que deixa transparecer o que ali vai. E, no entanto, é uma desgraça que ali está. E conclui: ‘Não vai acabar bem…’

E eu fico sem saber o que dizer.

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