Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

sábado, dezembro 10, 2016

Frederico Lourenço, Prémio Pessoa 2016
+
livros que comprei hoje na Festa dos Livros da Gulbenkian
+
The Wonder Of You
+
cogumelos everywhere


Cheguei agora da praia. São quase onze da noite. O mar estava negro e ruidoso e a lua, ainda em fase crescente, não tinha luz que chegasse para o iluminar. Mas não estava muito frio e é bom andar na praia à noite.

O dia não foi dos piores. Aliás, deslizou sem sobressaltos e coube dentro de horários razoáveis, que é como os dias de trabalho devem ser.


À hora de almoço ouvi que Frederico Lourenço tinha sido escolhido para receber o Prémio Pessoa 2016. Ouvi a sua reacção, desorientado com o telemóvel que agora não pára e, na véspera, surpreendido com o telefonema de Balsemão. Depois Balsemão, até a voz cada vez mais esfíngica, explicando a escolha. Ouvi a notícia sem grande emoção. Melhor: sem emoção. Não é que considere o prémio injusto. Não é isso. É mais que me deixa indiferente. Algumas das crónicas de Frederico Lourenço agradam-me. Escreve com graça e desenvoltura. É culto. Li com agrado O Lugar Supraceleste. Algumas poesias suas também são bonitas. Além disso, como pessoa, é simpático. 


Contudo, aquilo por que é mais louvado e que penso que esteve na base da atribuição do prémio é a sua faceta de tradutor do grego. Ora aqui é que a porca torce o rabo -- e, como já aqui o disse, inclino-me para que o problema seja meu. Conhecendo eu a Odisseia e a Ilíada apenas pela sua tradução, confesso que o que li não me fez ficar maravilhada. Não sei sequer explicar bem porquê. Dá-me ideia que há qualquer coisa de banal que eu não esperaria encontrar em tal obra. Histórias chatas e compridas, às quais falta aquela toada e aquele maravilhamento que a poesia que me agrada tem. Não sei se o mal é de origem, se já foi ao Homero que faltou rasgo, ou se foi o Frederico Lourenço que estava sem grande inspiração e sem ouvido para a música quando as traduziu. Mas se calhar está tudo bem e eu é que cheguei às obras com as expectativas muito altas. Não sei mesmo.

Agora a Bíblia. A mesma coisa. Parece que a escrita é técnica, parece que lhe falta harmonia. Pode ser da tradução ou pode ser dos autores primevos. Não faço ideia. E, já o referi e até me custa dizer isto pois cheira-me a que é disparate do grosso: tanta anotação, tanta referência desagrada-me. Não será culpa dele e provavelmente os estudiosos acharão que nisso está parte do mérito do livro. Não eu. Como escrevi no outro dia, ao procurar a Bíblia, procuro o silêncio, o despojamento absoluto. Ora, a cada linha, encontrar números e anotações é ruído que me faz perder o interesse na obra, é uma pessoa tropeçar a cada passo que dá, uma maçada.

Portanto, não digno que o prémio seja imerecido, digo apenas que não me diz muito.


+

Contente fiquei por passar pela Gulbenkian e dar com a Festa do Livro. Estava com pouco tempo mas a tentação sobrepôs-se ao resto. 


Trouxe apenas quatro livros mas estou muito contente não apenas pelas obras em si mas também pela enorme poupança.
Elogio do Inacabado -- Agustina Bessa-Luís 
Memórias -- Rómulo de Carvalho 
Gramática da Linguagem Portuguesa -- Fernão de Oliveira 
e não é livro mas é leitura: Al Berto -- Colóquio Letras
Apenas folheei ao de leve mas estou desejando poder tê-los nas mãos por mais tempo.

Do livro de Rómulo de Carvalho, que acabei agora de espreitar, transcrevo um soneto da irmã Noémia:

A velha baronesa de Almavia,
taful, garrida, loura, e bem falante,
fora outrora a donzela mais galante,
a mais ardente e ambicionada diva.

Agora, já caduca, mas lasciva,
amava um moço esbelto e, provocante,
confessou-lhe, numgesto petulante,
o seu amor com fala ardente e viva.

Sorriu com bonomia o novo Apolo,
e olhado, dessa dama, o ossudo colo,
responde, sem mostrar maior quezília:

- Cupido vos lançou a dura seta...
Senhora! Casarei com vossa neta,
Ficamos assim todos em família.


+

E, estando eu agora, na maior indolência, ouvindo sem qualquer interesse o Expresso da Meia-Noite e laureando por aqui e por ali, dei com um vídeo de The wonder of you do Elvis Presley com uma inesperada Kate Moss e (alô, alô Bob!) deu-me logo vontade de trazer par aqui.



+

E apeteceu-me intercalar aqui fotografias dos cogumelos que rebentam de todo o lado in heaven

Para que a coisa ficasse ainda mais alucinada, puxei-lhe pelas cores até quase ao ponto de saturação. Claro que não têm a ver com nada do que aqui está mas, para dizer a verdade, também nada tem a ver com nada e assim é que a mim me parece bem.  Problema meu. Provavelmente, culpa dos cogumelos.


____________

E, para já, é isto. 

E façam o favor de perdoarem a minha heresia: sei que o coro de apologistas de Frederico Lourenço vai ser uníssono e a minha voz dissonante pode soar a blasfémia. Mas se é o que eu penso, a que propósito ia eu dizer o contrário....?

Regressarei com um post sensação. Me aguardem.

......................

sexta-feira, dezembro 09, 2016

O sereno devenir in heaven




Esta quinta-feira deveria ser o Dia da Mãe. Durante anos pensei que dia 8 de Dezembro era dia feriado por ser Dia da Mãe. Isto antes de mercantilizarem o dia da mãe. Afinal é por ser dia da Imaculada Conceição -- fui agora confirmar.

Andei parte do dia a sentir que era sábado. Depois lembrei-me que não. Dia de Nossa Senhora. Lembrei-me das Anunciações da Maria Teresa Horta. O melhor livro do ano. Mais plausível a jovem Maria de Maria Teresa Horta que as outras histórias da catequese. Desliguei-me de vez dos ensinamentos católicos quando, aos oito anos, projectaram um filme lá na nossa escola. Era a história da perseguição brutal a Cristo, toda a violência que culminou na cruz. Depois a ressurreição. Lembro-me que pensei que nada daquilo tinha jeito, nem a história nem estarem a mostrar aquilo a nós, crianças pequenas.


Era uma escola particular, muito protegida. A catequese era quase uma actividade curricular. Íamos à catequese e eu detestava, tudo aquilo me passava ao lado. Não havia racionalidade nem beleza naquelas histórias. E a ideia do pecado sempre muito presente. E a confissão. Um absurdo. Eu, que tinha tanta facilidade em aprender, não fixava nada daquilo, nada daquilo me interessava. Lembro-me que às vezes a minha mãe me perguntava o que tinha aprendido e eu não fazia nem ideia. A algumas pessoas deve acontecer isso em relação à matemática ou à física. A mim era com a catequese.

E nem consigo lembrar-me de quem era a catequista. Nem me lembro se a catequista ia à escola ou se éramos nós que íamos à capela. Varreu-se-me tudo. Só me lembro que aquilo era, para mim, um castigo.

Fiz a primeira comunhão e a comunhão solene. Mas, no meu íntimo, sabia que aquilo era uma coisa que me era completamente alheia. 

Nunca gostei de ir à missa, nunca senti que pertencesse àquele mundo. Apenas me lembro, e com agrado, do cheiro a rosinhas de Maio por alturas da minha primeira comunhão ou, no ano antes, em que fui de anjinho na procissão.
Já o contei e até já tive vontade de mostrar: a fotografia em que estou assim de branco, vestido até aos pés, grandes asas, uma fita com flores brancas a segurar o cabelo comprido que ondulava ao sol e eu a rir, feliz, é talvez das minhas fotografias preferidas. 
Gostava do cheiro das flores e dos cânticos, a Capela do Bairro iluminada, toda florida, jarras com grandes ramos de gipsofilas e rosinhas brancas, o sol a entrar, coado pelos vitrais, e as pessoas a cantarem. Disso eu gostava.


Do resto não. Esqueci tudo. Nada sei de evangelhos, de histórias biblícas. Nada. A igreja católica, com os seus métodos, destruíu qualquer possibilidade de eu me alguma vez me tornar devota ou fiel. Na escola e, mais tarde, no liceu ou na universidade, o meu santo nunca cruzou com os santos de gente beata, sempre todos muito apertadinhos, muito cheios de nove horas, gente que sempre me pareceu sem rasgo, sem visão, sem condescendência ou generosidade.

Os anos foram passando e fui continuando a conhecer gente ligada à igreja. Muitos têm tentado puxar por mim, acham que tenho uma alma religiosa. Não sei se tenho, se não. Mas, se não consigo alinhar-me em nada, muito menos poderia alinhar-me numa coisa tão pessoal. Uma pessoa quando se filia num movimento desapessoa-se, perde liberdade e eu perder a minha liberdade é deixar de ser eu. 

Mas vem a isto a propósito de esta sexta feira ter sido feriado religioso, dia de Nossa Senhora mas, se bem percebo, não por ter sido uma corajosa mãe de um filho rebelde, que perdeu a vida por uma nobre causa, mas por, supostamente, ter engravidado por obra e graça. Se fosse pela verdade histórica eu talvez desse importância ao dia. Mas tirar a humanidade a Maria, fazê-la mãe virgem (talvez por se pretender associar o acto sexual a um acto reprovável), isso a mim não me diz nada. Mas, seja como for, é boa ideia ser dia feriado e eu não sou esquisita quanto aos motivos.


Hoje o dia, como já mostrei, foi passado in heaven. Dia tranquilíssimo, sem televisão, sem notícias. É certo que agora à noite estive a escolher as fotografias pré-selecionadas, uma a uma, a marcar quantas de cada para depois a dar a este, àquele e ao outro. Ao todo, as impressões ultrapassam as setecentas. Concordo: se calhar exagero mesmo. Mas, poderia escolher só uma dúzia, por exemplo, seleccionando apenas de entre as dos dois últimos meses? Se calhar, faria mais sentido. O problema é que não sei ser moderada.

Em algumas entrevistas de emprego, o entrevistador pergunta: qual o seu principal defeito? Geralmente, os candidatos, que já sabem que esta pergunta é um must a que dificilmente escaparão, já levam a resposta engatilhada. Dizem que é a teimosia pois sabem que, numa certa perspectiva, isso pode ser uma qualidade. Se eu entrevisto pessoas não pergunto nada disso, quero é perceber como é a pessoa, se é boa onda, se tem vida própria, se vai trabalhar bem em equipa. A última coisa que quero é um cromo, um obcecado, um chato.

Se a mim alguma vez me tivessem feito essa pergunta, eu seria sincera: que tenho muitos defeitos, todos difíceis de controlar e que um deles é ser imoderada. Certamente não seria seleccionada. Ou, com um bocado de sorte, o entrevistador perceberia que ser-se imoderada, também numa certa perspectiva, pode ter algumas vantagens. Agora ia escrever 'por exemplo' mas estaquei, não consigo lembrar-me de nenhuma. Mas tem vantagens, tenho a certeza que sim.


Bem.

Acho que, quando comecei a escrever isto, tinha alguma em mente. Mas pus-me para aqui a ouvir música, a divagar, e perdi o rumo à conversa.

Talvez quisesse apenas dizer que, depois de andar a passear pelo campo e a fotografar os cogumelos que rebentam por todo o lado e o orvalho e as belas cores de outono e o musgo no chão e a rocha húmida, negra, vim para casa. A salamandra a aquecer a casa, o cheiro bom do azinho, as cores quentes da casa. Quando cheguei levava uma echarpe de lã que a minha mãe me deu mas depois, com o calorzinho bom, tirei-a.

Continuei a ler A Gorda. Há uma humanidade sem filtros que nos aproxima da autora. Ao contrário de Elena Ferrante que esconde a identidade para que a obra seja independente de quem a escreve, Isabela Figueiredo coloca-se inteira nos livros que escreve.


É muito bom estar enovelada, aninhada, em paz, a ler, sentindo o tempo a correr devagar. O lento devir.


À noite, fomos comer um gelado. Gosto sempre de comer gelados mas, não sei porquê, ainda mais no tempo frio. Comi um cone de chocolate fondant. Soube-me muito bem. Ia à procura de chocolate negro com laranja mas não havia. Uma vez comi um gelado de uma fruta de que nunca tinha ouvido o nome e que me disseram ser umas laranjinhas pequeninas. Era mesmo bom. Nunca mais lá apanhei desse. Também nunca mais me consegui lembrar do nome.

E agora acho que está na hora de vos deixar em paz que isto vai longuíssimo. Parece-me que é noite de sábado mas, afinal, o dia que se segue é de trabalho. Felizmente é sexta-feira. E eu ando com uma vontade de passear... Saio do trabalho à noite, vejo as luzes da cidade, tendinhas a vender não sei o quê, movimento nas ruas, e só me apetece largar o carro e pôr-me a pé, misturada com quem passa, com quem não tem pressa de chegar a casa, e pôr-me a fotografar, eu feita turista acidental. Tomara poder tirar uns dias de férias e ir à descoberta de um lugar qualquer. Estou mesmo a precisar.

E já estava outra vez a divagar, credo. Peço desculpa por esta seca que vos dei. Só visto.

__________

As fotografias foram feitas in heaven
Lavinia Meijer interpreta Divenire de Ludovico Einaudi. 

_________


__________

Laranjas, as últimas folhas das árvores, o fogo reflectido na janela
-- e outras magias





Caminho muito devagar. Sob os meus pés o musgo, a caruma amolecida pela humidade. Nas árvores as últimas folhas. Ouços alguns bichos a fugirem mas não os vejo. Alguns pássaros levantam voo e ouço como batem as suas apressadas asas contra a folhagem. Depois o silêncio. O cheiro bom da terra. As cores quentes das folhas. A vida, o tempo, a magia do que se revela, se desvela, se entretece nos meus sentidos

A vida que nasce de velhos troncos caídos por terra. E silêncio. Os meus passos silenciosos. O  frágil orvalho sobre as delicadas folhas verdes que despontam por entre as outras, caídas.

As laranjas. Saudades de as colher e comer ainda frescas, a seiva frio da árvore a perfumar o seu sumo generoso. Aqui em casa o cheiro da madeira na salamandra, o reflexo do fogo na janela. Tarde boa, tranquila. A paz suave do outono.








__________

Tom Waits está comigo, in heaven, e canta Last Leaf on the Tree. 

____



...............................

Já volto com as cores da noitinha. Dentro de casa. As cores quentes do meu ninho.

.....

quinta-feira, dezembro 08, 2016

Um pato cor de laranja como a pessoa do ano, segundo a Time
- este é o fruto dos tempos




É irrelevante. Pelo menos para mim é. Este mundo não é o meu mundo. Se o país mais poderoso do mundo escolhe um parvalhão para o presidir, eu vou ali e já volto. A Time lá sabe. Aliás, é um facto. Num mundo mediatizado como este, uma figura como Trump, ao ser eleito presidente dos EUA, teria que figurar na capa da Time como a pessoa que mais destaque teve em 2016.



Logicamente, a Time não ia escolher Anas al-Basha, o rapaz de 24 anos que se vestia de palhaço para atenuar o sofrimento das crianças da zona dilacerada de Alepo. Que relevância para o mundo teve a breve existência de Anas que recusou sair da zona dos bombardeamentos e que, supostamente, sucumbiu durante um dos que ocorreu nos últimos dias? Nenhuma. 


O mundo é, cada vez mais, um lugar perigoso para pessoas como Anas ou para as crianças indefesas que ele tentava fazer rir.

Que, pessoa do ano, seja agora Trump -- tal como já foi Putin ou outros --, é-me indiferente. Este não é o meu mundo.


:::::::::::::::::::::::::::::

Como poderão ver abaixo, é um mundo pequeno, o meu, um mundo inofensivo, sem epopeias. um mundo com arvorezinhas com luzinhas, anjinhos -- um mundo protegido. 

::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Apeteceu-me pôr aqui a Time na voz do Tom Waits mas não tem nada a ver com a Time de que aqui se fala. Gosto de o ouvir. Gosto de estar a escrever e a ouvi-lo.

:::::

Cenas de Natal chez-moi


Mais depressa tivesse eu falado. Fui à Area comprar molduras e eis senão quando dou de caras com uma arvorezinha elegantezinha com luzinhas na ponta das hastezinhas. Foi logo. 

Cheguei agora a casa. Passa da meia noite. Já estive a pô-la num canto da pedra da lareira. Ainda não lhe abri os ramos. Nem sei se vou abrir. Acho que ocupa pouco espaço assim, corre menos risco de cair. Na fotografia parece amarela mas acho que é branca. Como tirei com as luzes acesas e com flash é capaz de estar com luzes mais quentes.


Como ontem falei das arvorezinhas que vão ficando de ano para ano e viram bibelots, ao passar por ali de máquina em riste, fotografei duas. Uma já perdeu parte da base e outra já perdeu também parte de qualquer coisa. Mas gosto delas. Podem não ter nada a ver ali mas é disso que eu gosto mais, do que não tem nada a ver. 

Agora, ao ver aqui a fotografia, vejo que deveria ter arrumado aquele potezinho que está com bolas e fitas douradas. Se soubesse que ia fotografar, teria dado um jeito. Assim, olha, paciência. Façam de conta que não reparam, que me sinto melhor assim.


Também me ocorreu mostrar o meu anjinho dourado que está ali sentado, como que a querer dar à perna. Não sei se está a pensar, se a mandar a maltinha cá de casa fazer menos barulho.


E, se fosse mais cedo, faria uma reportagem mais completa mas, assim, fico-me por aqui.

::::::::::::::::::::::::::::::::

E, para que  espírito natalício seja convincente, que entre uma cançaozinha de natal.

"Santa Baby" foi gravada originalmente por Eartha Kitt com Henri René e a sua orquestra em Nova Iorque, em 1953


::::::::::

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom feriado.

.....

quarta-feira, dezembro 07, 2016

O espírito natalício começa a aproximar-se de Um Jeito Manso





Ainda não fiz a árvore de Natal nem enfeitei a casa. A bem dizer, fazer isso maça-me um bocado. Prefiro ter arvorezinhas pequenas e luzes. As árvores mais bonitas dos outros anos acabaram por ficar. São bibelots que ganharam intemporalidade -- digamos assim. Claro que as más línguas podem achar que é preguiça, isto de as árvores de natal ficarem de uns natais para os outros. Quero cá saber.


E gosto de ter luzinhas. Gosto de, à noite, ter a sala grande às escuras e as luzinhas a piscarem pelos cantos.

Na casa de jantar, à volta do espelho gigante que está por cima do aparador, também costumamos pôr luzinhas. Fica um ambiente bonito.

E agora, se passo no Gato Preto ou na Area ou nessas lojas, dou por mim à procura de arvorezinhas que possam fazer de árvore de natal. O meu marido não. É mais normal que eu. Gosta de ter uma árvore de natal a sério com bolas e enfeites. Por isso, é ele que a faz. E, como as faz com carinho, ficam sempre bonitas.

Há bocado escrevi aquilo ali em baixo da dívida e depois caí num sono profundo. Tenho andado a levantar-me cedo e ando com muito trabalho.
E esta terça feira tive um número suplementar. Coisa que odeio. Mas andavam a moer-me, que há quanto tempo não ia, que tinha que ir e sei lá, e eu, sem saber há quanto tempo, mais de um ano de certeza, contrariada, lá fui. Não gosto, dói, a mama espalmada, prensada, parece que vão esmagar. No meio daquele desconforto e medo ainda me deu para pensar que ainda bem que não tenho implantes senão estava era com medo que o saco rebentasse e ainda me esguinchasse silicone pelos mamilos. Credo. Coisa horrível. Mamografia. Coisa do pior que há. E medo. Tenho sempre medo. 
Ainda agora, na família alargada, um caso. Vai correr bem, claro que vai. Mas o durante é penoso. Tudo penoso. Tudo.
Adiante. A seguir à mamografia, a ecografia mamária. Desagradável, uma pessoa indefesa, deitada de barriga para cima, em tronco nu, e o médico com aquela coisa a deslizar nas mamas, a carregar, a espreitar pelo monitor, a medir cada irregularidade, e uma pessoa ali, à mercê, à espera que descubram. E... se descobrem? 
Felizmente, tudo bem. Saio de lá sempre num alívio tal a achar que devia descansar e comemorar, ou ir dormir e depois ir de férias. Mas não, almocei a correr para mais uma voltinha, mais uma viagem. Mas, vá lá, consegui sair a horas decentes, sete e picos. Portanto deu para uma caminhada. Tudo somado, depois de jantar e do post, o corpo apagou-se.
Agora estou quase acordada. Devia ir dormir mas a vontade de prolongar os dias é mais forte do que eu. Também devia responder aos comentários, alguns atrasados (da Rita, da Rosa, da bea, do P., do Bob, de um anónimo que escreveu uma coisa bonita sobre a minha sensibilidade). Mas os dedos, a esta hora, já só sabem escrever aqui, assim, à deriva.

Portanto, ao acordar, incapaz de melhor, estive a ver coisas natalícias: entradas para o almoço do dia de natal e cenas decorativas que transmitam o espírito, para a casa também sorrir quando os meninos entrarem de rompante com abraços, beijinhos e, acto contínuo, correria e brincadeira.

Um ramo seco de árvore parece-me uma excelente ideia. Até o posso pintar de branco. Ou de dourado. E pendurar bolas ou bombons. Ou pinhas. E pinto as pinhas de branco ou prateado ou dourado. Acho que deve ficar bem. Também gosto daquelas árvores abstractas lá de cima, mas não sei como se fazem.

Das entradas, elegi os rolinhos de salmão com maçã e queijo. Receita fácil de fazer e certamente uma delícia.


:::::::::::::::::::::::::::::::::

Escrevo e tento abstrair-me que isto dos natais é um relógio que, se visto de um certo prisma, é cruel. Uma ampulheta. Parte das pessoas dos natais da minha memória já partiram. Uns para sempre, outros apenas porque a vida nos vai levando por caminhos diferentes. Os meus pais felizmente ainda cá estão já não vêm passar o natal connosco e, como na véspera e no dia é tamanha a ocupação que não há logística possível, acabam por passar o natal sozinhos e só lá vamos um dia ou dois depois. Custa-me isso. A minha mãe diz que não, que isso de ser dia de natal é apenas um preciosismo de calendário mas a mim custa-me porque sei que ela adoraria estar cá em casa com a família toda. Mas, enfim, é o que é. O meu pai já não pode sair e ela nem admite sair e deixá-lo em casa. Percebo-a muito bem.

How fragile we are.

Mas, se uns se foram, outros vão chegando, a família vai-se alargando, as gerações vão-se desdobrando. Antevemos na partida de outros o que será, um dia, a nossa e percebemos que, por muito que a partida sempre custe aos que ficam, logo, logo a vida continua.

How fragile we are.

E, portanto, que se viva bem enquanto se pode e se partilhem afectos e se abençoem os abraços que se podem dar e os sorrisos que se podem trocar.

E twinkle, twinkle little star
que luzinhas tremelicantes é o que está a dar 
e a mim me apetece versejar, 
que já cansa de tanto filosofar.


E, assim sendo, que comece o vídeo mais tocante desta saison.

English for beginners, pela melhor de todas as causas

Czego szukasz w Święta?


(Czasami brakuje słów, by wyrazić to, co najważniejsze. W takim przypadku trzeba się ich po prostu nauczyć.)



:::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Lá em cima Chris Botti, Sting, Yo-yo Ma e Dominic Miller interpretam Fragile

:::::::::::::::::::::::::::::::::::

Talvez agora não venha muito a propósito o post do Costa, do Marcelo e da dívida (apesar de que a época natalícia é do melhor que há para unir esforços). 
Mas, enfim, fica ao vosso critério.

_______

Renegociar a dívida
- um desafio à altura da inteligência de António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa




Vou ser lapaliciana: negociar significa dar e receber, ceder e obter. Negociar a dívida não é sinónimo de obter o seu perdão. Negociar a dívida, ainda que de forma incipiente e quase irrelevante, é o que tem vindo a ser feito. Mas não é suficiente.

É preciso encarar de frente a necessidade de renegociar a sério a dívida pública e acho que teríamos todos a ganhar se essa discussão fosse feita com maturidade e de forma desapaixonada. É preciso perceber que encarar este assunto de forma maniqueísta (ou mortaguiana) é um erro crasso. Não somos nós, os coitadinhos, versus os outros, os malvados. É que quem está do outro lado, na ponta final, não é forçosamente um abutre. Podem até ser reformados que, na sua boa fé, contam ter uma boa rentabilidade dos seus fundos de pensões.

Renegociar a dívida de um país não é, pois, coisa para meninas estridentes que -- como dizia, creio, o João Oliveira do PCP -- gostam de espalhar com as patas o que os outros andam a juntar com o bico. É, na verdade, trabalho de sapa, trabalho de fundo, trabalho de análise, trabalho de diplomacia, trabalho de gente adulta.

Com uma Europa descomandada e que facilmente se desengonçará ainda mais do que já está e com um presidente americano que se adivinha um poço de incertezas, com os chineses e os russos já com as hostes a caminho, é bom que quem tem olhinhos de ver perceba que está na hora de pôr os motores a aquecer porque os tempos que aí vêm têm tudo para ser tempos de mudança. António Costa e os seus pesos pesados e Marcelo Rebelo de Sousa terão uma oportunidade única para abrir uma brecha no rançoso status quo europeu e mostrar que há outra forma de estar na democracia. Às vezes basta um bater de asas de borboleta ou um cravo na ponta de uma baioneta.

Os países têm vindo a ser abanados pelos ventos de descontentamento que sopram um pouco por todo o lado. O povo, essa insondável mole humana, tem vindo a mostrar que não quer mais os xaropes que lhe têm vindo a enfiar goela abaixo. Votam à esquerda ou à direita desde que lhe cheire a mudança: pode ser um populista, um palhaço ou um pato. Tudo menos alguém que personifique 'os de sempre'. Pasto fácil para o populismo, este é o terreno que, quem tenha dois dedos de testa e que saiba ver ao longe. tem para pisar e do qual pode tirar vantagem.

Renegociar a dívida*, restituir a dignidade e a racionalidade à economia, voltar a colocar o humanismo no centro da política, apostar no europeismo como motor de coesão e desenvolvimento -- estes são alguns dos passos que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa deveriam começar a equacionar (com discrição, com sabedoria, com determinação). Inteligência e tacto político não lhes falta. Empatia entre eles e capacidade para estabelecer empatia com os outros também não. Talvez esteja, pois, na hora de começarem a trabalhar a sério -- de olhos postos no futuro.


...................

Brendel interpreta Schubert, Op. 90/3
Fotografias da National Geographic

.....................

* E calma, isto é o que eu penso numa lógica absolutamente racional, desprovida de simpatias partidárias (até porque a questão da dívida tem sido bandeira do BE e do PCP, partidos sobre os quais não se pode dizer que eu morra de amores por eles)

____

terça-feira, dezembro 06, 2016

Sugestões para presentes de Natal
- a quem possa interessar


Perguntam-me o que quero eu para o Natal. Não consigo responder. Não quero nada. Bens materiais não chamam por mim. Penso: colares, brincos, perfumes, blusinhas, echarpes, bolsinhas. Gosto de tudo isso. Mas já tenho que me chegue. Puxo pela cabeça. Não me ocorre nada.

Estando agora por aqui a preguiçar, pus-me a percorrer alguns sites. Aparecem sugestões de natal. Contudo, o que desperta a minha atenção não é o que eles recomendam mas a envolvente.

Mostro. Aqui abaixo, sugere-se a oferta de livros de fotografia mas, para ilustrar, usam a imagem de uma livraria, da Les Arpenteurs. E, ao vê-la, o que me ocorre é que podia ganhar de presente uma casa com uma sala gigante ou com um sótão amplo e todas as paredes cobertas de estantes e tudo organizado e tudo à larga para caberem sempre mais livros em cada prateleira.


E até podia ter uma salamandra a meio. E uma mesa gigante para eu não conseguir enchê-la completamente de livros. E um sofá macio para eu poder reclinar-me a ler, sentindo o sono a chegar devagar.

Agrada-me a ideia. Mas há mais. 

Contudo, se estiverem de acordo, vamos com o Smile da Lisa Lovbrand. Condiz com o meu estado de espírito. Nem tanto pela interpretação mas, mais,  pelo vídeo que acho bonito.


Mas, então, falava eu de uma biblioteca imensa. Gostava muito. Sonho com uma casa onde caibam todas as estantes que possam acolher, à larga e bem visíveis, todos os meus livros.

E gostava que junto com essa casa -- com uma biblioteca muito ampla -- viessem também diseurs a la carte. Eu punha a água a ferver para fazer chá, punha o pão a torrar para ficar um cheiro bom a pão quente, dispunha queijos, compotas, frutos secos, ginjinha de óbidos, chocolates, e um dia queria alguém que me viesse dizer poesia em francês, outra vez o Cumberbatch a ler-me uma carta de amor em inglês. Em alemão duvido que quisesse. Mas em espanhol sim. E italiano, certamente. Até em grego. E o Pedro Lamares a dizer poesia portuguesa. Como a casa seria grande, convidaria os meus leitores. Todos. Teria camas de balouço suspensas do tecto, almofadas espalhadas pelo chão, cadeiras baixinhas e bancos altos e que cada um se acomodasse a seu gosto.

Mas também vi a sugestão de um espelho. No entanto, o que me seduziu foi o quarto no seu conjunto e a perspectiva de me deitar assim a ler. Gosto de ler deitada de pernas levantadas, assim mesmo como abaixo se vê. Talvez com uma almofada debaixo da cabeça.


Dos espelhos também gosto. Gosto de espelhos. Reflectem a luz. Criam ilusões. Gosto de camas largas, macias, lençóis frescos e bons ao tacto, almofadas boas, cobertas leves, suaves na pele.

A tal casa com uma biblioteca gigante podia ter um quarto assim. Com uma janela grande a dar para um jardim. E nesse jardim devia haver uma árvore grande cheia de pássaros. E três laranjeiras para, quando floridas, inundarem o quarto com o seu perfume fresco. E a janela teria umas cortinas de um tecido muito fino para esvoaçar ao vento, porque a janela estaria sempre aberta.

E vi, num desses sites por onde andei a flanar, este recorte aqui abaixo e pensei que, na casa, poderia haver um recanto onde me sentaria a bordar. E teria uma arca com bocados de tecido e linhas de muitas cores e pedras e lantejoulas para poder inventar bordados de pássaros, de borboletas, de ocasos e nascentes, de mares e montanhas, de figuras inventadas, de paisagens nunca vistas. Ou simplesmente flores cor de rosa com o olhinho cheio de pérolas rosadas.


E depois vi a Olivia Palermo a chegar ao desfile da Schiaparelli e pensei que eu me vestiria assim da cabeça aos pés, incluindo os óculos. Gosto, gosto, gosto. Claro que se tivesse uma toilette assim teria que perder uns três ou quatro quilos mas teria motivação mais do que suficiente para isso.


Mas reparando bem, a blusa é muito subida. Melhor se tivesse decote, talvez decote em bico. Mas as calças, os padrões de tudo, os bordados do casaco. Une petite merveille. E se eu pudesse bordar um tecido de lã e depois alguém pudesse transformá-lo num casaco ou numa capa -- ah o que eu gostaria disso. 

E agora pensei que também gostava de outra coisa: de ter onde usar um chapéu assim como este, lindo, lindo. Dior. Dioríssimo.


Claro que não me maquilharia como a modelo que aqui o usa. Nem me pentearia assim. Não. Usaria cabelo solto, maquilhagem leve. E um vestido simples neste tom, de seda macia. Por cima uma capa preta, esvoaçante. Saltos altos. 

Não é o chapéu que eu desejo, reparem. O que desejo é ter a oportunidade de usar um chapéu assim. Sempre gostei muito de chapéus. Mas onde usar uma orquídea lilás entrelaçada no cabelo? Não estou a ver.

Claro que se eu tivesse uma casa com uma biblioteca gigante onde pudesse receber todos os meus leitores, os receberia condignamente, certamente com um chapéu maravilhoso como este ou com um casaco bordado por mim, como o da Olivia Palermo.

E só mais uma coisa. Um pormenor. Un petit rien. Lá em casa. no corredor largo que me levaria da biblioteca para o quarto, gostava de ter pinturas que ilustrassem o silêncio. O silêncio da luz. O silêncio do mar. Como esta pintura de Hai Ja Bang, por exemplo.


E é isto. 

Acho que não é pedir muito.

...................................................................................................

E recomendo vivamente que não desçam ao post abaixo. 

Depois não digam que não avisei.

..................................................

O Paulo Macedo vale cada euro dos muitos que vai ganhar na Caixa? - Sim, sim...
E o Marques Mendes tem razão quando diz que Passos Coelho está encurralado em Lisboa? - É indiferente.
E o Marcelo Rebelo de Sousa ama de paixão a Geringonça ou tem um ódio indisfarçavel a Passos Coelho? - As duas, as duas...
E a Maria Schneider afinal conhecia a cena, só não sabia que o Marlon Brando ia usar manteiga? - Irrelevante.
E a Luciana Abreu, já não aguentando a mãe, correu com ela de casa mas continua a dar-lhe dinheiro e carro? - Ui. Tema interessante.


(Em actualização)


E eu interrogo-me quais destas questões são mais estimulantes para o comum dos portugueses. 

E interrogo-me também se, perdendo os portugueses -- de todos os extractos sociais -- tanto tempo com assuntos desta natureza, não estamos a deixar que o nosso cérebro encolha para dimensões preocupantes.

Dúvidas que me assaltam de vez em quando.

_____

Volto aqui para, enquanto tento manter-me com atenção à entrevista de António Costa na RTP1, vos mostrar um videozinho que faz boa companhia e me dá uma vontadinha danada de dançar:


A lição de salsa.

E que viva Cuba!


NB: Não sou accionista da Casa Chanel 
(... mas, já aqui o confessei, não me importava nada de ser)

____

Agora já acabou a entrevista do António Costa. Passei, sem querer, pela RTP 3 e já lá está o José Manuel Fernandes. Rapidamente vou saltar daqui pois tenho medo que aquela doença dele, dos neurónios andarem às arrecuas e acabarem sempre aos trambolhões, uns enrodilhados nos outros, ainda se pegue (mesmo através da televisão). Foge. Não arrisco. Sei lá. Às tantas aquilo é mais pegajoso que zika e uma pessoa ainda acaba com o cérebro do tamanho do dele. Ná. Todos os cuidados são poucos. Olha a Garrido, tadinha, também já meio tolhidinha das ideias. Não sei quem é que lá está mais. A Ana Lourenço capaz de estar com uma grelha metálida debaixo do cabelo, uma coisa tipo Gaiola de Faraday adaptada à circunstância (prevenir de apanhar o mal de cabeça do Fernandes).


Ui. Acabei de ver: também lá está o David Dinis... Também todo contagiado. 

Drama.

Um Ensaio sobre a Cegueira revisitado. Quem se aproxima do José Manuel Fernandes fica atrofiado das ideias e rapidamente contagia também os outros. 


De fugir, meus amigos, de fugir...

____

segunda-feira, dezembro 05, 2016

'Ai minha Senhora Maria do Céu...'
- devia eu dizer face à empreitada em que passei a maior parte do meu dia



O menino põe-se a cantar e canta numa língua desconhecida. Parece que canta em grego. Põe emoção na voz, fecha os olhos. Toca guitarra enquanto canta sentado. De vez em quando, engrossa a voz, há tragédia naquelas suas palavras cantadas, requebra e inflecte-a, eleva-a, depois baixa-a. Não sabemos que história está ele a cantar. Quando se levanta, abre um pouco as pernas, põe a cabeça levemente para trás, abre os braços caídos ao longo do corpo, todo ele drama, a voz prolongada preperando-se para o trágico grande final. Aplaudimos. Ele agradece.

Por vontade dele, continuava. Mas os pais levam-no, está na hora de ir para casa, dizem-lhe.

Antes, tinhamos estado sentados no chão a jogar uma espécie de jogo da glória. Ele ri-se, tenta fazer batota e ri-se sempre mesmo quando descoberto, goza como um perdido quando a mim me saem menos pontos no dado, diz que sou lenta, ri. Pelo meio, chega-se a mim, abraça-me, deixa que eu lhe dê uns xi-corações ternos e apertados que hão-de dar-me alento ao coração até ao último dos meus dias. Quando exclamo por qualquer jogada surpreendente, exclama também e diz: 'Ai minha Senhora Maria do Céu!'. Presumo que queira dizer 'ai minha nossa senhora do céu'. Depois cansa-se de jogar, fico apenas eu a jogar com a irmã.  Vai, então, buscar um pequeno escadote de madeira, senta-se a cima e começa a relatar o jogo e relata-o com exaltação, gritando nas vitórias, quase imitando o relato de um jogo de futebol.

O meu filho diz: 'isto na internet tornava-se viral'. Fossemos nós amigos da exposição pública com rosto e assinatura e é certo que se tornaria, sim.


Se alguns de vós me acompanham aqui há muito tempo, lembrar-se-ão de eu referir que este menino ainda bebé-bebé já chilreava que dava gosto. No meio da maior confusão, os outros a brincarem e a falarem e rirem alto e bom som, ele continuava a trinar, quase num despique com os outros três. Começou a falar cedíssimo, tudo muito bem explicado, um vocabulário e uma dicção espantosas. Depois a veia artística. No judo, trata a sisuda instrutora por todas as variantes do nome, levando-a a rir mesmo sem querer. Meigo, meigo, alegre, divertido, um humorista, um comediante. Assim é o pimentinha mais novo, o que tem quatro anos.

Daqui por uns anos se verá se esta sua tendência natural se mantém. É engraçado constatar como cada um traz, dentro de si, de forma tão espontânea, os dons que guiarão a sua existência.

_______


Estive, salvo o bocado em que os tive cá em casa, desde depois de almoço até à hora de jantar -- e jantei tarde -- a sujeitar-me à tortura a que todos os anos, por esta altura, me submeto: escolher fotografias para oferecer pelo natal. Ofereço-as porque acho que, quem as recebe, talvez goste de ter, em papel, fotografias ou de si próprio ou de momentos que vivemos juntos ou dos que lhes são queridos. Dizem-me que são as únicas fotografias que têm em papel. Por vezes, emolduro algumas e é assim que as ofereço. E não é que não goste de rever momentos tão engraçados, ver como as crianças crescem. Nas festas de anos e natal, juntamente com os meus quatro há, pelo menos, outros tantos. Olho algumas fotografias e só se vê miudagem. Aquilo de que se diz 'uma casa cheia'.

Mas, tantas fotografias eu tiro, que isto me obriga a ver milhares e milhares delas. Chego a um ponto em que já estou esgotada. O meu marido acha que eu sigo métodos anacrónicos. Explico-lhe que não. Diz que exagero em tudo, até nisto. Mas se não passo os olhos por todas as pastas onde escrevi que estão os meninos, qual o critério de escolha? Assim, vejo uma a uma e vou copiando as que me parecem melhores para a pasta Fotos para o Natal 2016. Há pouco, exausta, cheguei ao fim. Contei-as. Passam as quatrocentas.


Agora ainda terei que fazer um novo desbaste. Depos segue-se outro pincel. Uma a uma, decidir a quem a dou: à minha mãe, à minha filha, ao meu filho, ao irmão mais novo da minha nora, ao irmão mais velho da minha nora, aos sogros do meu filho, a este, àquele, àqueloutra, para mim, etc, etc. Geralmente fico com uma de cada. Então, num papel, uma a uma, escrevo quantas. Sempre um exagero, de facto. Uma fortuna, também.

Depois, passar para uma pen. Depois ir à Fnac. Uma a uma, naquelas centenas, mandar imprimir, escrever a quantidade. O meu marido, ao lado, a dizer 'um exagero, sempre a mesma coisa, um exagero'

Depois ir buscar. Uma sacada. A seguir, outro frete. Dos valentes. Uma a uma, ver para quem é. Fazer montes, uma para este, outro para aquela, outro e outro e outro... e uma montanha para mim.

____________


Tirando isto, também passeei pela beira do rio, fotografei gatos, gaivotas, guinchos, gaivotas, portas pintadas, paredes de pedra trespassadas de raízes, paredes outonais cobertas de vinha virgem. O prazer habitual. Depois almoçámos em casa (pescada fresca cozida acompanhada de batata doce, feijão verde, ovo). E o meu marido pintou uma parede que estava precisada. E fiz uma máquina de roupa e sopa e arrumei o que havia a arrumar. Era para ter colado uma peça que se partiu ao limpar o pó mas ainda não foi desta. E li um bocado da Gorda. Escrita escorreita.

Esta segunda-feira, começo o dia com uma reunião e vou ter uma semana muito cheia e que tem tudo para ser stressante. No entanto, a esta distância, encaro os dias que aí vêm com um distanciamento muito estranho (passe a redundância), parece que não é nada que me diga respeito. Quando os estiver a viver, logo me enervo -- e isto, claro, se for mesmo caso disso.

Entretanto, estou a ver um filme engraçado com a Meryl Streep e o Tommy Lee Jones sobre a forma como alguns casamentos se desconjuntam -- e não é preciso esperar que se passsem os cinquenta anos para que isso aconteça. Chama-se Terapia a Dois e acredito que vê-lo seja útil para alguns casais. Um casamento, seja ele de papel passado ou não, seja ele consumado ou apenas desejado, tem que ser alimentado. Se não houver cumplicidade, partilha de interesses, generosidade, malícia, simpatia, gentileza e etc e tal e sempre tudo passado à prática, não se vai a lado nenhum. Não é preciso esgotarem a paciência um do outro com inquisições por tudo e por nada, muito menos deve ser instalado de vigilância de um sobre o outro. Basta acreditarem que estão melhor juntos do que separados, basta quererem que o outro se sinta bem, basta que saiam das zonas de conforto as vezes que forem necessárias para que, em conjunto, encontrem novos e sempre melhores caminhos. Por aí.

________

E pronto. Já chega. Não são horas para me pôr para aqui numa de consultório sentimental até porque sou uma prática, falta-me a teoria para ser uma professora como deve ser. Se me permitem, vou pregar para outra freguesia.

______

As fotografias foram feitas na manhã deste domingo.


_____

O encantamento da poesia segundo Ferreira Gullar



Sua poesia mudou. Sua vida mudou. Mas era assim que tinha que ser, pois a desarmonia sempre foi o seu alvo: “Eu não tenho projeto, eu nunca tive projeto”, dizia ele. Agia por impulso permanente de mudar. Revolucionário de si mesmo, sem pudores, mudava de opinião, e talvez corroborasse com Paulo Francis, mesmo em um período de sua trajetória na qual os dois pudessem estar diametralmente opostos, seguindo a máxima do jornalista (também outrora de esquerda): “Toda pessoa inteligente é contraditória. Só gente burra que nunca se contradiz”.

Gullar mudou, mas sem jamais deixar de ser Gullar, poeta que dava peso e medida a cada palavra desmedida de sua poesia, comprometida com a informação de um sentimento ou estado de espírito, mesmo quando parecia não estar.

(...) Gullar, na sua fragilidade física — era mais baixo e magro do que parecia aos que o conheceram somente pela televisão — era glutão como poucos se o assunto era o conhecimento. Sua biblioteca, que transformava sua casa, e especialmente sua sala, em um ambiente belamente claustrofóbico, misturava-se aos quadros e esculturas. Presentes que ganhou de tantos artistas sobre os quais escreveu e a respeito dos quais se calou, mas amou profundamente. Lá havia também sua gatinha, presente da cantora Adriana Calcanhoto, mais um mimo de artista, e mais uma coisa viva que lhe rendeu um poema, no qual se refere à cor dos olhos da gatinha: “olhos azuis safira”, muito mais dignos de interesse do seu sujeito lírico do que os mistérios do mundo, ante os quais se rendia, deles nem querendo saber: a vida presente, os homens presentes, o tempo presente.

[in A poesia morreu de Carlos Augusta Silva na Revista Bula]


Com raras exceções
os minerais não têm cheiro

quando cristais
nos ferem 
quando azougue
nos fogem 
e nada há em nós que a eles se pareça
(...)
Rígidos em sua cor 
os minerais são apenas 
extensão e silêncio. 
Nunca se acenderá neles
– em sua massa quase eterna –
um cheiro de tangerina.

Como esse que vaza 
agora na sala
vindo de uma pequena esfera 
de sumo e gomos 
e não se decifra nela 
inda que a dilacere 
e me respingue
o rosto e me lambuze os dedos 
feito uma fêmea.
(...) 
E não obstante
se digo – tangerina
não digo a sua fresca alvorada

que é todo um sistema
entranhado nas fibras
na seiva
em que destila
o carbono
e a luz da manhã

(durante séculos
no ponto do universo
onde chove 
uma linha azul de vida abriu-se em folhas
e te gerou
tangerina
mandarina
laranja da China
para
esta tarde
exalares teu cheiro
em minha modesta residência)
(...)
não de plantas e frutas
não dessa
fruta
que dilacero 
e que solta 
na sala (no século)
seu cheiro
seu grito
sua
notícia matinal.
(...)

O cheiro das tangerinas, Ferreira Gullar (10 de Setembro, 1930 –  4 de Dezembro, 2016)


Ferreira Gullar, poeta, crítico de arte e ensaísta, ilustra o nascimento da poesia a partir de uma situação pessoal. Da experiência repetida, surge um encantamento, revela-se uma nova visão sobre algo já conhecido. Abre-se um novo mundo até então nunca vivido: “É isso que faz o encantamento da poesia, porque o resto é tudo previsto.” Conferencista do Fronteiras do Pensamento 2015.

Ferreira Gullar explica como nasceu um de seus principais e mais autobiográficos trabalhos, “Traduzir-se”: “Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo”. 

_____

(Fotografias feitas na manhã deste domingo que começou bem chuvoso.
Na primeira, o cor de rosa é uma ponta da minha esvoaçante écharpe)

___

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma semana feliz.

Saúde, sorte e amor para todos.

___

domingo, dezembro 04, 2016

Escolhas possíveis, impossíveis





Nunca li ou vi o Harry Potter. Não li ou vi a Guerra dos Tronos. Não li os contos da Condessa de Ségur. Há muito tempo que não leio nada da Isabel Allende. Nunca li nenhum livro da Margarida Rebelo Pinto ou do Valter Hugo Mãe. Não aprecio banda desenhada. 

Nunca entrei num Starbucks. Não tenho Facebook ou Instagram. Não tenho conta de Linkedin. Não conheço os blogues mais vistos do país. Não sou seguidora-inscrita de nenhum blogue.

Não tenho ídolos. Se tivesse que escolher o político português da actualidade que mais admiro ficaria bloqueada. Admiro medianamente um ou outro mas nada que me faça ser sua cega apoiante. Ando um bocado espantada com o Marcelo, lá isso ando, mas calma aí. Internacional, nem vou por aí. Talvez o Obama; mas são tantos os actos reprováveis que os Estados Unidos patrocinaram que preferiria não ter que escolhê-lo. Nem a ele nem a qualquer outro. Simpatizo com o Papa Francisco. Não sei se é um líder extraordinário mas é uma lufada de ar fresco a atravessar a igreja católica. Mas não sei se não estou a esquecer-me de alguém mais devedor de admiração.


Se tivesse que dizer qual a música da minha vida não saberia o que responder. Nenhuma das que muito gosto, e são tantas, é mais importante que as outras. Por exemplo, se quisesse escolher a banda sonora deste post, obrigar-me-ia a descobrir uma música que nunca antes tivesse ouvido. All the world is green na voz que me risca a pele e aquece a alma Tom Waits. Por exemplo.

Se tivesse que escolher um pintor, um só, baixaria os olhos, fingiria que não tinha ouvido o pedido. E, se quisesse agora escolher imagens para aqui colocar, apetecer-me-ia ir à procura de pintores japoneses, por mim desconhecidos. Tikashi Fukushima, Seiho Takeuchi, Geun-Taek Yoo, Katayama Bokuyo, Reiji Hiramatsu, Sadamasa Motonaga. Por exemplo.

Se tivesse que dizer qual a cena de cinema da minha vida não poderia confessá-la.

Se tivesse que escolher um actor, um só, não seria capaz de cometer tamanha injustiça perante os restantes de que também tanto gosto. Nem actrizes. Tantas. Porquê só uma?

Se tivesse que dizer qual o livro da minha vida, não seria capaz de dizer. Se, por caridade, me fosse permitido escolher dez, ficava na mesma. Se tivesse que escolher entre poesia e prosa não conseguiria. Claro que não.

Se tivesse que dizer qual a viagem que, até hoje, mais me marcou, não conseguiria dizer. Se tivesse que escolher a viagem dos meus sonhos também não saberia dizer.

Se tivesse que escolher o blog que mais gosto de ler, teria que escolher mais do que um. Vários. E até poderiam ser da mesma pessoa. Ou não, sabe-se lá. Tantos tão bons. Mas, pronto, se obrigada a escolher, talvez uns três ou quatro. Uma meia dúzia, vá.

Se tivesse que dizer qual a minha estação preferida, para ser honesta, teria que responder que as quatro. O devir do tempo na natureza. A magia da existência.

Se tivesse que escolher entre peixe e carne teria que me abster porque gosto de peixe e de carne. E de fruta. E de queijo. E de mel com nozes. Ou pinhões. E de ostras com o mar dentro delas. E de batatas cozidas fumegantes, temperadas com azeite. E de pão. De tanta coisa.

Se tivesse que escolher a minha cor, de imediato responderia que o encarnado. O cor de sangue, o cor de vinho, o cor de mantos rubros, o cor de céu ardente no anoitecer de verão. O rouge. Mas que também o azul. O claro, o límpido, o alegre, o profundo. E o azul escuro-veludo macio como uma carícia roubada ao cair da noite. E o amarelo de todos os tons. Vibrante, mel, luminoso, luz indecente. E o verde. Verde aguarela, verde molhado, verde macio, verde cristalino. O verde de todas as cores. E o branco. E o branco cheio de luz. E o castanho dourado de todas as cores de todas as folhas de outono, de todas essas folhas amorosamente recolhidas para que um dia.

E se tivesse que escolher um animal, eu escolhia a gaivota. A gaivota a voar lá no alto, no vento. E o cavalo. E a águia. Qualquer animal de pêlo macio e olhos perigosos. O tigre azul, por exemplo. Mas sei lá.

E, se tivesse que escolher uma flor, eu diria que é impossível escolher uma flor. Uma flor são todas as flores. Mas, se tivesse mesmo que, então o lírio do campo. E o amor-perfeito. E o brinco de princesa. E a orquídea. E o delicado e perfumado rosmaninho. Ou o alfazema. E, claro, a rosa. De preferência a rosa eterna. A rosa eterna, amor. De Paracelso.


Se eu tivesse que escolher um sonho, eu fecharia os olhos e imaginaria não uma mas mil, mil sonhos transparentes e macios. Voar, passear por florestas íntimas e infinitas, aspirar a maresia e ver o mar, caminhar no aconchego de um braço dado, de um abraço, ou descobrir uma casa imensa, cheia de livros, relíquias, memórias, ou estar sentada num jardim a ouvir poesia, talvez numa língua desconhecida, talvez dita por uma voz desconhecida. Tantos sonhos bons. Porquê só um?

E se tivesse que escolher um jardim por onde passear, devagar, descobrindo os recantos, sentindo a beleza do tempo a passar devagar, eu não saberia escolher. Árvores com sombras macias e pássaros endiabrados, lagos que reflectem o céu e a copa das árores e por onde deslizam patos coloridos, cisnes majestosos, caminhos por entre pequenos riachos, sombras aconchegantes, relva estendida ao sol, risos de crianças, quietudes misteriosas, gatos intrigados, vultos, lembranças de outros dias. Qualquer jardim, de preferência um daqueles onde a lua gosta de mergulhar.


Ou um deus. Qual? Nenhum. Ou qualquer um. Com mil olhos, mil braços, mil asas, falando mil línguas, transportando mil augúrios, deixando mil vestígios, contendo mil poderes. Ou invisível, misturado com as águas que jorram de fendas na montanha, escondido nas palavras nascidas de mãos abençoadas ou malditas.

Não.

Escolher não. Não teria capacidade para escolher. Nem um deus, nem um sonho, nem uma cor. Nem nada. Porquê escolher? Nem tentaria. Acho absurdo escolher uma coisa quando não é caso para pódios e onde muitos amores cabem. 

Ou melhor.

Não sou de ficar sem responder. Responderia. Responderia, sim. Mas não estaria certa de que estivesse a fazer a melhor escolha. Também não me preocuparia com isso. É que tenho mil gostos, mil desvergonhas, mil tentações de provocar, mil vontades de descobrir, mil mundos por habitar. E gosto de sentir o olhar deleitado perante todas as mil cores e o coração inundado por mil afectos e de ter as mãos cheias de mil sonhos, mil acordes, mil palavras .


_______