Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, maio 26, 2018

Quem vê caras não adivinha corpos


Gosto tanto de música, quando ando no carro estou sempre a ouvir música, sempre que posso ouço música e, no entanto, nunca fui de gostar de cantar. É como escrever poesia: acho que não tenho jeito, não faço. Nem tento. 

E espanto-me com as pessoas que, tendo enquanto falam, uma voz normal, quando cantam apresentam um inesperado vozeirão. A gente interroga-se: mas de onde vem isto? Olha-se a cara da pessoa, ouve-se a conversinha em voz fininha e suave e, depois, alto e pára o baile.

Ou isso ou dançar. Gosto de dançar, gosto muito. Mas danço sem perder o controlo, sem me tranfigurar. Gostava de, dançando, me tornar outra. Mas isso nunca aconteceu.

Conheço uma mulher (ia a dizer uma mulher jovem mas, pensando bem, deve ter perto de quarenta e, portanto, apesar do arzinho juvenil, já deve poder ser encaixada na categoria das da idade média). É bonita e, em acréscimo, super elegante, super distinta. Apenas veste griffe e tudo nela respira 'pinta'. Profissionalmente é competente, compenetrada. 

Quando fala em público, não pode passar despercebida: e não é só a beleza, a elegância, o bom gosto na forma como se apresenta. É também a contenção, a segurança, um certo recato. Impõe alguma distância, respeito.

Nos tempos livres, toda ela é literatura. Devora leitura. Ama livros. Manda vi-los de todo o lado. E consta que escreve como uma princesa. Diversas vezes ouço amigos comuns comentarem os seus escritos no facebook. Uma vez mostraram-me. Fiquei admirada. Culta, feminista, engajada. Não lhe imaginava essa veia. 

Mas ponham-na, à noite, numa pista de dança. Vira outra. Fica selvagem, sem contenção, sem freio. Irreconhecível, impúdica, desbragada. No outro dia. Um amigo chegando perto. Abraçando-a, ela toda entregue ao louco prazer da dança, abraçada a ele, toda ela corpo, liberdade.

Eu olhava-a e, apesar de ser sempre assim, quase a irreconhecia. Um amigo comum dizia dela: vira outra, uma transformação espantosa, não se imagina. Não se inibe de nada. Fotografei-a, uma vez, quando estava numa daquelas loucas performances. Viu que eu a fotografava mas foi como se não me visse. 

Quando saímos, o meu amigo disse-lhe: isso é que foi, hein...? fica outra, mesmo.

Mas, nessa altura, já ela era outra, de novo. Mal sorriu e nada disse. Pareceu, até, incomodada com a conversa. E nunca, nas nossas conversas, o tema da sua veia de dançarina veio à baila. 

E eu lembrei-me disso agora ao ver os vídeos abaixo. Quem, vendo aquele rapaz a cantar, poderia adivinhar a forma como dança?

Jakub Józef Orliński




sexta-feira, maio 25, 2018

Ronaldinho Gaúcho e as suas duas mulheres.
Donald e Kim, dois malucos arrufados.
Bruno e o leiteiro que foi mandado para junto de todos os outros


Isto para dizer que, não percebendo eu nada de futebol, os avalio, sobretudo pelo aspecto. Bem sei que não devia dizer isto. Como dizia a outra senhora, já não tenho idade nem posição social para dizer coisas destas. Mas como eu me movo numa escala temporal às avessas, quanto mais anos dizem que tenho mais eu me sinto livre e solta como um passarinho. 
Ou deveria dizer passarinha? Tanto faz. Passarinho ou passarinha aqui, no contexto, são metáforas e as metáforas são como os anjos, não têm sexo. 
Por isso, digo o que me apetece.

Portanto, o aspecto dos futebolistas. Melhor dizendo: o look

E eu sou niquenta, já se sabe. Não gosto de qualquer coisa. Aquilo de deixa lá ver o que é que ela tem no caixote do lixo, teria graça no meu. 

Cristiano Ronaldo pela certa. Não queria nem dado. Só se fosse para me lavar o carro. Diz que ele gosta de carros e diz que eu nunca lavo o meu. Portanto, era uma verdadeira união estratégica, uma relação baseado no interesse. O Rui Patrício talvez fosse elegível, tem ar de ter garra. Talvez o quisesse para me ajudar na poda (note-se: de vez em quando adiro ao acordo ortográfico e deixo cair o h)

Bem. 

Não sou de fixar nomes. Se agora quiser dar mais uns exemplos já não sei, nada mais me ocorre. Parece que os jogadores agora são todos estrangeiros ou estrangeirados. Claro que do Bruno Alves não me esqueço. Tem lugar cativo. Esse podia escolher a função: cozinheiro, jardineiro, cabeleireiro. Não quero saber que seja sarrafeiro. Tem ar de ser dotado no futebol e não só. Capaz de dar até um belo deputado. Ou o Zidane. Podre de sexy. Esse não iria parar ao meu caixote do lixo que eu haveria de lhe dar serventia. 

Mas agora o Ronaldinho Gaúcho? Por quem sois. Com aqueles dentinhos? Ná. Desculpem mas não dá. E, no entanto, com aquele arzinho de bom menino, ele parte os pratos é todos. Duas mulheres. Diz que vai casar com as duas. Casamento na base da simbologia. Da simbologia ou simbolismo? Na volta, do simbolismo. Coisa simbólica. De faz de conta. Bigamia de facto (o de jure que se dane). Dá para acreditar? Quem diria? O safadinho. Sempre de barretinho e dentinho ao léu e, afinal, todo descaradão, todo dado ao desfrute, todo feito Otelo. 

E foi esta notícia que alegrou o meu dia cinzento e todo ele carregado de compliances, consentimentos, privacidades e violações. Dia mais toldado, mais sem graça. Os da administração pública nem aí, rgpd não é coisa que os rale, e uma pessoa nisto, cheia de trabalhos e o escafandro.

Enfim. É o que é. Nada a fazer. 

Mas, dizia eu, esta notícia do Ronaldinho alegrou o meu dia. Quem diria? Aquelezinho ali? Uma mulher em cada braço, uma de cada lado da cama. Lindo. O pior é se ele, com aqueles dentinhos, resolve brincar com elas na base da dentadinha.

Mas pronto, adiante.

Aquilo de não dar para entender as macacadas do Trump e do Kim gordo a mim não me assiste. Lembrar-se-ão que não consegui alinhar no foguetório com os votos que trocaram, todos peace and love, beijinho na boca, iupi. Não acreditei. Ná. Aqueles ali só atinam se forem tratados com muito comprimido para chanfrados de alto risco. Ora aqui, neste santificado espaço, não há cá pão para malucos. Portanto, que já haja ou que já não haja cimeira ou que aquilo do nuclear tão depressa esteja acabado como à beira de se esgadanharem uns aos outros, a mim não me dá pica. Vira o disco e toca o mesmo: vai de volta, vai de volta. 

Já aquilo do Bruno de Carvalho a escaqueirar o Sporting é tema que me interessa. É literário aquilo, é ficção da boa. Aquele aspecto meio ganzado, meio transtornado, aquela voz arrastada, aquelas respostas provocadoras de quem já não as mede: é um filme.

Claro que, pensando bem, aquilo lá no Sporting parece que são escolhidos a dedo. São mais os malucos ou incapazes que por lá têm passado do que gente capaz ou, vá, séria e boa da cabeça.

Só me ocorre que alguém deveria fazer-lhes o mesmo que a senhora aqui de baixo. 


E não digam que por aqui não se aprende nada. Aprende-se e é muito. Só boas ideias. Esta de se arranjar um quartinho nos fundos lá na Academia de Alcochete para ir enfiando lá dentro, um a um, presidentes estarolas que fosse preciso pôr com dono parece-me de génio. A kind of museuzinho dos tesourinhos deprimentes feito com ex-presidentes do clube. Parece-me ideia inteligente, daquelas que um tal barreto que, não por acaso, enfia todos os barretes que lhe estendem costuma ter. If you know what I mean. 

quinta-feira, maio 24, 2018

Bruno de Carvalho está em directo a mostrar que não está bom da cabeça.
Não me admirava nada que entrassem uns quantos a enfiar-lhe uma camisa de forças


O meu marido não quer ver. Acha degradante. Não quer assistir à miséria que ali está. Eu quero ver. Não sei porquê mas quero. Sempre senti curiosidade em perceber os confins, os labirintos e os alçapões da mente humana. Gostava de ter sido psiquiatra mas não consegui coragem para estudar medicina, ver mortos e tudo isso que sempre me assustou. Depois queria ser psicóloga mas não havia muitos cursos e parece que não eram reconhecidos, acho. Portanto, fiz a agulha e fui numa direcção completamente inesperada.


Mas, adiante que isso não vem ao acaso.


Não sei o que revelaria um exame neurológico, um tac, uma ressonância, uma coisa assim à cabeça deste marau que ali está com cara de doido varrido. Mas forçosamente revelaria que há ali muitos bocadinhos de miolos feitos num oito. Fusíveis fundidos, neurónios empecilhados, buracos negros, ratoeitas, janelas partidas, portas arrombadas. Um desastre, em suma..

E ao lado dele tem um senhor com um ar meio enfiado, meio de fuínha. Havia dantes uns desenhos animados em que um pássaro era igual ao senhor que ali está a fazer figura de corpo presente.

Interrogo-me: como é que alguma vez alguma pessoa inteligente conseguiu deixar-se enganar por um maluco destes? Ou o futebol tem mesmo o condão de dar um nó cego nos neurónios e nas sinapses de qualquer adepto?

Já agora, Leitor (que deve ficar azul quando eu escrevo barbaridades que envolvem a mente como, por exemplo, aquilo que hoje escrevi) enviou-me os Estatutos do Sporting. Partilho convosco.

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Esta cegada que se está a viver no Sporting, cá para mim, só vai ter fim quando ele for preso e, também cá para mim, só ainda o não deve ter sido porque o Super-Judge Alex deve andar com mais do que fazer. Mas pronto, isto não deve ficar nos autos porque não tem qualquer fundamento, é apenas uma intuição cá minha. Bem intuição é como quem diz porque acho que toda a gente pensa como eu uma vez que me parece provável que muitos indícios vão ter até ele.

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E sai um bailinho mandado para animar

No inferno estarei em boa companhia

[The death south]


Casamento real - o que eles disseram.
Não um... mas... dois vídeos reveladores.

[Uuuupsss... talvez não tenha sido bem aquilo...]


Há aquela pancada de, nos treinos ou nos intervalos dos jogos de futebol, a maltosa falar com uma mão à frente da boca para os jornalistas ou gente mais esperta que os repórteres desportivos não conseguirem descobrir o que estão a dizer.

Não sei se os deputados também não fazem isto. Provavelmente fazem. Como dizem coisas muito interessantes, quer uns quer outros, mas são modestos, não querem que a gente lhes conheça as elevações.

Ou isso ou são paranóicos. Ou convencidos. Ou, simplesmente, meio parvos.

Whatever. 

Por mim, podem eles estar descansados: não apenas não acerto uma como me estou nas tintas para o que dizem. Até porque, ao longe, não vejo bem. Quando tenho reuniões em salas grandes, se calha algum colega que esteja do lado de lá da mesa, em especial se está longe, pôr-se a falar comigo por mímica, pondo-se, discretamente, a dizer qualquer coisa através de movimentos labiais, fico toda atrapalhada: primeiro, não distingo, com precisão, as ditas labiaduras; segundo, começa a dar-me vontade de rir. 

Mas vontade de rir mesmo, são estas duas cenas que aqui abaixo: descobrir palavras cuja labiagem bate certo e, na verdade, ser tudo completamente ao lado.

William, Harry, Meghan, o Bispo, a Maestrina, as reacções da realeza... uma graça a pretensa reconstrução do que disseram ou cantaram durante o real casório. 

Casamento real - Uma leitura labial errada




ou


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E, finalmente, eis as duas fofésimas e simpatiquérrimas manas catatuas

(mas tadinhas, isto foi noutra festarola, não nesta)


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As fotografias aqui apresentadas, todas elas, também são, obviamente, uma paródia.

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quarta-feira, maio 23, 2018

A atenção comovida, o espaço cuidadoso, o alarme fascinado





Por vezes sinto uma compulsiva necessidade de tomar decisões erradas. Propositadamente. Como se precisasse de seguir um caminho já prevendo que não leva a lado algum. Contudo um péssimo rumo pode dar ir dar a um excelente resultado. A vida a tremer, a hesitar entre as mãos nervosas. Perder-me para me poder encontrar perdido. É lindo. É raro, mas acontece. A dor ainda é um sinal seguro de que estamos vivos, o resto menos.


Gosto de ti assim, quando não projectas as tuas ansiedades como dardos lançados para o coração e para os rins de gente que passa por ti e não imagina quem és. Guardei algumas dessas setas, que fui arrancando do meu corpo, dentro de uma caixa que nunca abri nem voltei a fechar. Como fiz então para guardar a seguinte? Não será hoje que te vou revelar os segredos das caixas que têm as mulheres onde guardam aquilo de que tu, e os outros, desconhecem o valor. Faço-te apenas notar que a relação de uma mulher com uma caixa é essencialmente diversa da relação que um homem pode ter com uma caixa.


De fotografia nada sei, a não ser a inquietante proposta dessa coisa mítica: parar o tempo num pequeno espaço e garantir-lhe uma ambição de eternidade. Mas quem pode garantir não ser ficção o cinetismo da realidade? É dentro de nós que as imagens correm. Mas o caçador chega ao mundo de fora e diz: Pára! -- e tudo pára. Temos um movimento visual escolhido pela atenção comovida, o espaço cuidadoso, o alarme fascinado. Na película impressionada fica a conjunção do sujeito com o objecto, síntese de um lapso da 'história', acabado de nascer e já votado às várias mortes das coisas todas.


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Quem canta I'm a a fool to want you é a extraordinária Angelina Jordan (que, não me canso de dizer, tem agora 12 anos)

Quem aparece nas fotografias é a não menos fantástica Gisele Bündchen. 

Os dois primeiros excertos pertencem ao mesmo livro do qual ontem transcrevi um little bocadinho.

O último é de Herberto Helder e pertence a 'em minúsculas'

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Júlio Pomar, o homem que sempre gostou de riscos



Conheci o seu trabalho quando recebi uma vez, de presente, uma edição encadernada a pele verde, um livro grande, muito bonito, com umas extraordinárias ilustrações de Júlio Pomar. Foi fascínio á primeira vista.


Depois, encantei-me com as suas pinturas de Graça Lobo. Humor e sensualidade em cores fortes. Ela a falar dele, qualquer coisa de apaixonante. Ela a fazer-se de indignada, aqueles sorrisos bem humorados: 'Cuidado... nem todos os cus eram meus... quer dizer, alguns eram mas aqueles assim mais... com pilinhas... esses não eram meus... ou ménages à trois... cuidado... esses não eram meus'.

E aquela dos falos, ele a rir, divertido, contando do marchand a perguntar para outro: 'Olha lá, tu eras capaz de ter um c... na casa de jantar?'

Depois os bichos. Depois as touradas.

E tudo. Uma tal liberdade, uma tal joie de vivre.

Uma vez fui a uma festa muito bonita. Havia o lançamento de um livro especial e ele era um dos convidados. Muita gente presa às suas palavras. Conversa boa a dele, toda rolando risos e irreverências entre as palavras, ironia, graça.

Não há muito tempo andei pelo seu Atelier-Museu e disso aqui dei conta.

Muitas vezes o trouxe aqui e, certamente, muitas mais hei-de trazer, assim me mantenha eu por aqui. 


Como sempre, saí muito tarde e, como sempre, nada sabia do que se tinha passado à superfície da terra. Foi a minha mãe que, mal me atendeu e, em resposta à minha pergunta habitual ('Então? Tudo bem?'), me disse logo 'Olha, morreu o Júlio Pomar'. Como se fosse um amigo. E eu senti um baque. 'Ah... mas de quê? Estava doente?'. A minha mãe disse: 'Tinha 92 anos. Estava no hospital'. Depois pensei que era irrelevante. Saber a causa da morte para quê? Pena é ter deixado de existir um pintor tão extraordinário. Havia ele, há a Graça Morais, há a Paula Rego. Grandes vivos poucos mais há. Muito poucos. Alguns estão ainda a fazer-se, outros nunca serão nada mais senão o seu efémero nome. Júlio Pomar é enorme, eterno.

Li há não muito um livro sobre ele, uma espécie de entrevista. Luminoso. Gosto de ler as palavras dos pintores. Quando verdadeiros artistas, os pintores são geralmente pessoas modernas. Júlio Pomar foi um moderno. 


Este documentário é imperdível. Gostei muito quando o vi pela primeira vez e gostei muito de agora o rever. Não, acho que agora ainda gostei mais pois revi algumas pessoas de quem já sentia saudades. Gostava muito que o vissem também.

Júlio Pomar -- O risco



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terça-feira, maio 22, 2018

Nesta distância doce e cruel





Já ontem o grande Almada o decretou e eu, porque ele o disse e porque tem tudo para ser verdade, acreditei. Acreditei e disso poderia até fazer profissão de fé. Mas nestas coisas sabido é que bem prega Frei Tomás. Trabalhei como uma besta de carga e isso só pode ser porque sou uma burra encartada. A inteligência pode não ser grada mas, para saber que sou burra, chega.

Ao fim da tarde, que, por acaso, era quase noite, já estava a sentir-me desidratada, com a tensão baixa, à beira da descompensação. E, estava eu a tentar chegar inteira ao fim da reunião, eis que espreita alguém a perguntar-me se amanhã lá estava, a sina já lida para o dia seguinte, e, mal consegui safar-me dali e me preparava para despachar uma meia dúzia de mails para dar de frosques, eis que me aparece um que tinha estado à minha espera e, quando consegui descacar mais aquele abacaxi, tinha outra muito preoupada com uma coisa para me dizer, mais uma emboscada na qual não tive paciência para me enfiar. Saí de lá quase foragida, tentando raspar-me incógnita.


Já de manhã tinha avisado que não me dissessem mais nada porque já não conseguia assimilar mais chatices.

Passo-me quando me dizem que não me maçam com miudezas, que me poupam, que apenas me trazem aquilo que não conseguem resolver. E eu a pensar: 'Poças, pá, deviam era fazer o contrário, poupar-me a sério, resolverem todos os berbicachos e trazerem-me só as frioleiras'. Mas não, ninguém me poupa.

Olho para os meus próximos meses e é de susto. Não sei que convergência astral é esta: tudo a mudar ao mesmo tempo, mil coisas para fazer e todas em simultâneo. Não tenho ideia de ter vivido tamanha sobreposição de coisas deste calibre. Não as escolho, nada disto foi minha opção. Penso que terá a ver com o fim da crise, com a economia a despontar à força toda, como se tudo tivesse estado estancado e agora, como um dique que se rebenta, sai tudo ao mesmo tempo, com urgência, com uma força que atropela o descanso a que eu já deveria ter direito. Penso e digo o que antes nunca tinha dito ou pensado: 'não sei se vou aguentar'. Mas ninguém me leva a sério. Acham que aguento. No fundo, conhecem-me: sabem que sou burra. Burra de carga.

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Bem.

Talvez isto seja mesmo uma espécie de diário. Escrevo estas coisas porque,  chegada aqui a esta hora, parece que sinto necessidade de despejar este meu cansaço. O cansaço saindo através de palavras, fico leve, pronta para outra, com vontade de esvoaçar, de dançar, de nadar. 


É verdade, esqueci-me de contar. Uma manhã como a que foi e uma tarde como a que ia ser, não tive alternativa: fui a correr à livraria. Andar entre os livros leva-me deste mundo para fora.
Se calhar deveria antes escrever: leva-me para fora deste mundo. Mas não faz mal, fica como está, acho que vai dar ao mesmo. 
E o bom é que, quando ali entro, não vou à procura de nada. Melhor: vou na disposição de não querer nada a menos que tenha que ser.

E aconteceu: teve que ser.

Um é de um autor cujo blog que
-- apesar de esparsoso (eu sei, sei, Senhor Linguagista, esparsoso não existe mas, se gosto de pisar o risco em tantas coisas, não haveria de pisar também aqui e estender a mão para apanhar, do lado de lá, uma palavra ainda não inventada, porquê? Ora essa, Senhor Guardião [das Palavras Inventadas) -- 
eu sigo e que integra a minha galeria de fantásticos Frescos & Bons.

O outro livro é daquele ganda maluco que, vá lá eu saber porquê, não me canso de ouvir e ler. Uma encadernação linda, um bom tamanho, uma paginação das boas. Só espero que o Henrique, mui ilustre livreiro e sabedor como nenhum outro da nobre arte de bem fazer livros, quando for a dar os seus globos de ouro (ou os nobeis* ou oscares ou whatever) repare nele e o premeie, que bem merece ir directo para o pódio.
[* sei que deveria ter escrito: os nobel. Mas não me apeteceu.]
Trancrevo um pouco e não digo qual é porque não gosto de deixar spoilezinhos por aqui. Fica o mistério para os entendidos desvendarem.
Com os olhos e as mãos te faço meu. Se tu agora fizeres o mesmo, com os olhos cerrados saberás quem sou. Com as minhas palavras faz-me ser, constantemente te rogo. Escreve as minhas lágrimas. Com elas faremos um rio, numa margem estás tu, na outra estou eu. Escreve a minha dor mais funda. Não ficarás salvo -- quem quer ficar salvo neste mundo não te merece -- mas não passarás em vão. tudo está no procurar, pouco no encontrar. Verifica a pergunta antes de tentar a resposta. Sê quem és. Escreve-te como eu me escrevo, nesta distância doce e cruel.

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As duas primeiras fotografias a preto e branco podem ser vistas até finais de Agosto em Paris na exposição Chaillot, mémoire de la danse 

Para fazer pendant, lá em cima Stacey Kent interpreta Que reste-t-il de nos amours

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A geração que vive enfiada em casa


Por acaso, não posso dar testemunho directo de situações como as que no vídeo se referem. Não apenas eu sou o oposto -- não consigo estar fechada em casa, não consigo estar fechada em ginásios, não sou de angústias existencialistas  (na verdade, sou completamente galinha do campo ou cabrita montanhesa ou bicho do mar ou coisa que o valha) -- como, se me reportar à vida dos meus filhos e família mais próxima, o que vejo é vontade de conviver e de curtir o ar livre. Claro que conheço algumas pessoas que são capazes de passar um fim de semana inteiro sem sair de casa a ver séries ou filmes mas, assim de repente, só estou a ver duas. Mas, claro, pode ser mera coincidência.

Quanto às alergias, a ideia que tenho é que, pelo menos pelas minhas bandas, também as há menos ou com menor severidade. Mas talvez seja porque a prevenção ou os tratamentos são mais eficazes.

Aquilo a que assisto -- e isso, sim, já me parece francamente preocupante -- é a dependência das redes sociais com o que isso tem de estupidificação, de isolamento e de negação dos grandes prazeres da observação da natureza ou dos outros.

Mas, enfim, não sou socióloga nem antropóloga nem investigadora de fenómenos relacionados com o que aqui se designa por Indoor Generation. Se calhar, esta é mesmo a nova realidade.



segunda-feira, maio 21, 2018

Porque lavorare stanca, abrandemos.
Fiquemo-nos pelas ligeirezas e pelas pseudo-profundidades.

Faça o teste:
É masculino/a? É feminino/a? Ou... está a meio caminho...?





Estive a passar fotografias para o computador e revi, com este meu encantamento que, racionalmente, chego a pensar que é quase pueril, aquelas múltiplas camadas de muitos verdes, aquelas súbitas flores encarnadas, a luz irrompendo por entre a folhagem, as cores que me trazem a memória dos perfumes quentes do campo ao meio dia.


Penso muitas vezes: será que podia mesmo passar in heaven o resto da minha vida, todos os dias, no meio das árvores, como um bicho, progressivamente melhor adaptada às estações, capaz de andar à chuva, ao sol, ao vento, capaz de distinguir os sinais da natureza, de identificar os sons e os calores, de subir descalça as barreiras de pedra, de comer os frutos e as folhas, de ser aceite pelos outros animais?

Não sei. Penso que teria sempre que intercalar com uma ida até ao mar ou até às margens dos rios, até às livrarias, até às ruas cheias de gente. Depois mergulharia de novo nos acolhedores e perfumados verdes, passando as minhas mãos agradecidas pelas flores, pelos troncos das árvores, pela terra.


Tinha pensado escolher algumas para aqui as ter, imagens capturadas momentos antes do céu enegrecer e soltar rasgadas chispas pelos céus. Talvez a das flores que nascem, rosadas, solares e elegantes, por entre as folhas secas. Ou as que, mais à frente, à sombra, nascem subtis e azuladas entre folhas verdes. Ou outras.


Mas a indolência tomou conta de mim. Apeteceu-me sentir uma ventoinha fazendo fresco na minha direcção. Liguei-a. Estou bem assim. Entre o meio sono, a meia consciência e a meia preguiça -- que, bem sei, juntas ultrapassam a unidade e está certo pois é como se um véu de macieza me envolvesse e, de certa forma, me moldasse, já fazendo parte de mim -- pus-me a ler um dos livros que agora aqui me acompanha. O acaso guia as minhas mãos que abrem o livro ao acaso e que, a cada vez, me traz uma mensagem que vejo como dirigida a mim.

Transcrevo um pouco:
Lavorare Stanca é o título de um livro. Significa trabalhar cansa.
Mestre José de Almada Negreiros costumava colocar-se nessa convicção de um modo um pouco mais agressivo. Dizia ele que "quem trabalha como uma besta não passa, evidentemente, de uma besta". (...)
O povo meteu num provérbio esta paz de consciência e de corpo: "Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo."
O que a população deveria arrojar, em vez de tantos gestos, de tantas obras (que depois se obriga a desarrojar) seria ficar quieta, olhando à volta, ou em frente, que ainda cansa menos. Veria inumeráveis espectáculos que, com tanto entusiasmo trabalhador, lhe passam fora e longe. Veria as estações do ano, por exemplo.(...)

Pois. Tenho pela frente uma semana durante a qual não vou ver as estações do ano e durante a qual trabalharei como uma besta. Chegarei ao fim dos dias exausta, com a sensação de me ter gasto toda em urgências à toa e de nada restar dentro de mim. Talvez, com sorte, sobrem algumas exangues palavras que jogarei ao vento e que, com sorte, se enlaçarão noutras palavras.

Mas isso é durante a semana. Agora, apesar de já ser segunda-feira, ainda me sinto em fim-de-semana. Por isso, vou, uma vez mais, laurear por aí, procurar pequenos nadas que façam prolongar um pouco mais a sensação de descanso e despreocupação.


De novo, o Youtube tem um teste de personalidade para me entreter. Desta vez vai descobrir se sou mais masculina que feminina, se mais feminina que masclina ou se estou in between.

Penso, antes de o fazer: sou mulher da cabeça aos pés. Mas a verdade é que me sinto muito bem entre homens. Quase prefiro estar entre homens do que entre mulheres. No outro dia fui visitar uma empresa. Só homens na reunião e na visita às instalações. Depois fomos almoçar: só homens e eu. Não me senti nem um pouco deslocada. Outro dia, uma reunião, uma larga maioria de homens. No fim, diz o meu congénere alemão: uma surpresa ter do outro lado uma mulher, nestas empresas e nestas funções é muito raro encontrar-se uma mulher. Bem o sei. Mas, nestas situações, o género não é coisa que me ocorra. Sinto-me em casa. Dirigir reuniões, mesmo que complicadas, mesmo que só com homens, não me deixa desconfortável. Por isso, será que tenho um lado masculino que se traveste de mulher?



Então, vamos lá fazer o teste. Escolher decorações, maneiras de fazer a mala antes de viagens, escolher filmes, escolher reacções, escolher cores.  Convém não perder muito tempo, é responder à primeira. Não esquecer que isto não é nem pretende ser rocket science. Quanto muito, caso não se saiba a que eles se referem ou não se conheça o significado de algumas palavras, alguma pesquisa lateral mas, de resto, fazer na boa. Eu fi-lo sempre a abrir, na base do whatever -- que é das melhores bases que há (logo a seguir à decimal).

Depois de terem feito o vosso teste, já vos digo o que me deu.

Atenção: é preciso tomar notas e fazer uma continha no fim. Eu usei o excel mas, para quem não esteja à vontade, um papelinho e um lápis, serve bem.



Pronto. Espero que não tenham tido uma revelação que vos convide a sairem do armário.

Pois bem. No meu caso deu uma coisa que, na volta, se calhar até era expectável. Meio, meio. O que, segundo a explicação, vivo no melhor dos mundos, significando isso que, no trabalho, sou focada e racional como os homens costumam ser e, no resto, apaixono-me e faço coisas espontâneas a toda a hora o que, segundo quem o diz, deve ser coisa de mulher.


E eu o que concluo é que quem elaborou o teste e escreveu as conclusões está mas é cheio de preconceitos e de teias de aranha no sótão. Coisa mais parva e machista, credo. 
Ora vejam bem:
If your masculine and feminine halves take turns driving you, you’ve got the best of both worlds. You can keep your head straight and follow strict logic at work, then fall in love and do something spontaneous the next day.
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O excerto lá em cima é do livro 'em minúsculas' de Herberto Helder.

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E queiram continuar a descer caso queiram saber as vantagens e desvantagens de se dormir nu 

Dormir nu



Uma vez perguntaram a Marilyn Monroe o que ela usava para dormir e ela respondeu que usava Chanel Nº 5. Não se sabe, com exactidão, quando foi essa primeira vez mas o picante da coisa despertou tanta atenção que a pergunta se tornou recorrente e, claro, a Chanel aproveitou, e bem, a preferência.


Eu costumo dizer que uso menos do que ela pois tenho por hábito usar Chanel Nº 5 apenas de manhã.

Apenas se está muito frio uso uma tshirt. De resto, não gosto de dormir vestida. Também gosto de dormir com a janela aberta. E gosto de sentir pouca roupa em cima de mim. Sentir o lençol fresco sobre o corpo é, para mim, uma sensação muito agradável. Como o meu marido é mais friorento que eu, e como também dorme sem roupa, põe uma manta dobrada do lado dele e, como geralmente vai mais cedo que eu para a cama, adormece com o vidro fechado. E eu, como vou sempre a dormir para a cama, nem dou por isso. Mas se calha acordar a meio da noite, vou logo abrir a janela. Gosto de sentir o ar fresco directamente sobre a pele.


Já antes aqui tinha escrito isto e a minha filha não achou bem, como se eu estivesse a revelar um segredo que deveria ser mantido como tal. Mas não acho que isto tenha alguma coisa de especial. Há quem goste de dormir de pijama e há quem não consiga dormir de pijama. Eu pertenço a este segundo grupo.

No entanto, tenho-os. Pijamas ou camisas de dormir. Só que não uso. Uma vez, há milhares de anos, tive uma amigdalite mesmo a sério e um febrão de tal ordem que, coisa rara e nunca vista, fiquei de cama. O meu marido resolveu que o melhor seria chamar um médico. Achei bem pois estava incapaz de me levantar mas o pior foi arranjar com que me vestir. Na altura, tenho ideia que vesti uma camisa de dormir curta, branca, de alças, com bordados, que a minha mãe me tinha comprado para a noite núpcias. Por isso, depois dessa situação, passei sempre a ter uma farpela adequada a uma qualquer circunstância de crise.

Mas isto para enquadrar o vídeo que aqui agora partilho.


Depois das minhas lidas domésticas e dos meus telefonemas do dia, vim aqui para o sofá pintar as unhas e ler enquanto o meu marido sofria no outro sofá. Sofreu até ao fim e partilhou a tristeza dos adeptos que estavam no Jamor, dos jogadores e do Jesus (e até eu me emocionei com as lágrimas do Rui Patrício). Agora está aqui a ver o rescaldo, completamente desconsolado e, de vez em quanto, insulta o Bruno de Carvalho.

E eu, entretanto, fui ver as novidades que o YouTube tinha hoje para mim. Muita coisa interessante. E uma delas é este vídeo no qual se explanam os prós e os contras de se dormir nu. Não está traduzido mas a dicção é boa e tem legendas de acompanhamento. Espero que todos os que aqui me acompanham consigam perceber. Como não sofro de alergias, não tenho tendência para me constipar nem sofro de ansiedade (especialmente porque não corro riscos de me entrar alguém inesperado pela cama adentro), fico-me pelas vantagens que são muitas e boas.



12 coisas que deve saber caso goste de dormir nu



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domingo, maio 20, 2018

Ai flores, ai flores do meu heaven, sabedes porque cresceis tanto?






Portanto, acabámos por chegar aqui, in heaven, já bem ao finzinho da tarde. Já nem abri as portadas, daí a nada estava a anoitecer. Só abri as de dentro, de vidro, para arejar. E, de máquina fotográfica ao peito, fui logo laurear.

Estava um fim de dia todo ele doçura. Uma luz dourada, suave, os pássaros cantando, as flores despontando por todo o lado, tantas, de todas as cores, perfeitas, lindas, perfumadas. 


E as árvores assombrosamente altas. Muitas, no sítio onde as podámos, têm agora tufos de rebentos.


Olho-os com encantamento porque estou a testemunhar a força imbatível da natureza, não se rendendo, reinventando-se.

O meu marido não: diz que, ao ver aquilo, pensa que mais vale desitir, que nunca vamos conseguir domar aquela força.

Compreendo-o. Muitas vezes penso o mesmo. Mas não o verbalizo porque parece que tenho medo que a terra me ouça e nunca mais faça de conta que está a deixar alindar-se às minhas mãos. É um dos casos em que prefiro iludir-me.


Como sempre, quando chegamos já fora de horas e os pássaros estão convencidos de que não aparecerá alguém para os perturbar, quando passo ouço a agitação que se forma no meio da folhagem até que se libertam, arreliados por terem sido incomodados com a minha presença. Hoje, de dentro da azinheira grande, até penas eu vi caírem quando umas rolas esvoaçaram de lá de dentro. 

E, no entanto, vou silenciosa, andando devagar enquanto olho o prodigioso crescimento dos arbustos e das árvores desde a semana anterior. Como é que desta terra pedregosa sai tanta vida? Espanto-me. Não me canso de me espantar.

Olho o rosmaninho, os oregãos que já estão a ficar grandes, o tojo que o meu marido cortou e que já está a rebentar de novo, verdinho, arrebitado, o alecrim que está viçoso, enorme. Apanho um ramo de alecrim para o jantar.


Os arbustos de madressilva estão enormes, carregados de flores. Trepam pelas aroeiras, enfeitam-nas, perfumam-nas. Ocorre-me a palavra luxuriante mas talvez sejam inocentes demais para esta adjectivação que associo a alguma sofisticação na exuberância e estas florzinhas são tão bonitas e simples que mais parecem ser próprias para um idilíco paraíso do que para uma selva tropical. 

Depois, vim para casa. O meu marido continuou lá fora, nas suas lidas. Gosta quase tanto de cá estar quanto eu. Ou, na volta, tanto quanto eu mas, como é pouco expansivo na exibição das suas emoções, não o demonstra de forma tão expansiva quanto eu.


Em dias assim trago para fazer para o jantar uma coisa simples, que se faz rapidamente e que se come sempre bem: lombos de salmão congelados. Claro que, apesar de virem num saco térmico, já estavam descongelados.

Para acompanhar só cá tinha batatas, das normais e das doces. Se, na vila, o pequeno supermercado estivesse aberto quando por lá passámos, teria comprado tomate para fazer arroz de peixe ou, então, salmão em tomatada para acompanhar com arroz branco. Mas claro que já não havia onde comprar nada. Portanto, um jantar mais minimalista.

Liguei o forno. Quando quente, coloquei um pequeno tabuleiro com azeite no fundo, uns raminhos de alecrim, os dois lombos com um pouco de sal, mais alecrim e reguei-os a azeite. Ao colocar o tabuleiro, reduzi a temperatura para 160º. Entretanto, pus algumas batatas a cozer. Quando estavam já a amolecer, tirei-as do tacho e coloquei-as no tabuleiro, ao lado do salmão. Rebolei-as no azeite e no alecrim. Depois, para dar um ar da minha graça, pus um pouco de vinagre de Modena por cima. Voltou tudo ao forno para alourar e uniformizar sabores.

Acompanhámos com alface. Estes ares saudáveis abrem-nos o apetite.

As nêsperas já estão amarelinhas mas ainda precisam de ganhar mais doçura. Como sempre, já começou o despique com os pássaros. As mais doces já eles lá andaram a debicar. Sempre isto. 


Amanhã vou à horta buscar morangos. Cá de cima, vi que já lá estão encarnadinhos. Por entre os ramos das couves que se puseram gigantes e floridas, lá estão eles.

Os figos ainda estão muito no início, só lá para o Verão estarão carnudos e doces. As uvas ainda são apenas uns pontinhos minúsculos e verdes agrupados em cachos. Ainda falta até que estejam roxas e doces. 

As transformações da natureza maravilham-me. São metamorfoses mágicas. Milagres. Nestes milagres eu acredito: vejo-os, cheiro-os, como-os.


Só os figos da figueira brava estão desenvolvidos. Não são figos a sério. Por dentro nada têm que comer. Caem cedo. Mas a figueira está perto da casa e no verão dá uma sombra fresca, boa e cheirosa. 

Não quero cortá-la. O vizinho assusta-nos, diz que esta árvore é traiçoeira, deita raízes que se infiltram dentro de casa, que vêm agarrar-se aos canos. Diz que podem levantar o chão de uma casa. Sei que é verdade. Quando fizémos obras na cozinha, havia uma teia de raízes entre a parede e o armário e, de facto, tinham vindo enlear-se na canalização. O meu marido, que tem sentido prático, já disse que, se calhar, o melhor é mesmo cortá-la. Eu não quero nem ouvir falar nisso, prefiro arriscar. A árvore é magnífica e a sua sombra -- que me traz os cheiros do Algarve, de quando eu era pequena e ia ficar nas terras da minha avó, onde se secavam figos, amêndoas e aflarrobas -- é preciosa. 


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E, por agora, é isto. Mas, antes de me ir, deixem que partilhe convosco o vídeo abaixo. Ouçam a voz deste jovem, vejam a sua emocionante actuação, vejam como o seu sonho se trasforma numa assombrosa realidade. 

Gruffydd Wyn interpreta Nessun Dorma 


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E, caso tenham agora chegado aqui e ainda não tenham estado na praia comigo, queiram descer, talvez até para colherem algumas das florzinhas que lá crescem no areal.

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Ai flores, ai flores da bela praia, sabedes porque é que eu tanto peco?






Então vá, não há muito para contar, mas conto. Fomos à praia. Boa. Uma maresia perfumada e um ar bem temperado. Muita gente no areal, alguns corajosos na água, muita gente a surfar as tranquilas ondas.

Ainda não estreei o fato de banho. Ficámo-nos pelo passeio à beira-mar. Fotografo, encanto-me, contemplo. Como habitualmente o meu marido arrelia-se. No outro dia falei nisto e a L., leitora simpática com muita coisa em comum comigo, escreveu-me e disse dele: 'É um santo'. Não é. Felizmente não é. E tenho como comprová-lo. Conto. Estava eu, extasiada perante a perfeição das florzinhas que despontam na areia, e ele: 'Nao dá. Não consigo andar assim. Para que é que estás sempre a parar, pá?!' e eu, desvalorizando a sua arrelia, ironizei 'To capture the beauty of life' e vai ele, alma insensível perante a beleza da vida, ripostou: 'The beauty of life, os tomates'. 

Ora, não vejo que um santo fale assim. Um santo entoaria uma canção celestial louvando the beauty of life em vez de desviar a conversa para um fruto com tão dúbias conotações.


Mas lá continuámos, caminhando ao sol, eu aspirando aquele oxigénio limpo e azul, ele protestando e chamando por mim.

Depois juntámo-nos à minha filha e aos meninos, grandes, grandes, sem medo da água fria, felizes da vida, brincalhões, sempre cheios de sentido de humor e de fome.

O lanche foi em casa dos meus pais. 
Tinha umas calças minhas e uma blusinha de um tempo em que, não sei como, cabia lá dentro. Agora, apesar de estar mais leve do que há uns idos, já assimilei que não mais voltarei a ter corpinho número trinta e oito e, portanto, levei-as para a minha filha. Gostou mas as calças estão-lhe bem nas ancas e nas pernas mas largas na cintura. É uma beldade elegante, a minha filha, com cinturinha fina. Ficaram lá, para a minha mãe apertar que, para além de outros dotes, tem este de costurar às mil maravilhas.

Mas, como dizia, os meninos são uns lobos. O mais novo, quando abriu a porta da casa de jantar, veio a correr alertar-me: 'Há menos comida do que nas outras vezes...!'. A minha mãe sossegou-o: 'Estão ainda coisas na cozinha e no frigorífico'. O menino e o mano respiraram de alívio.

E eu acrescentei: 'Mas hoje também somos menos'. De facto, do lado do meu filho havia casamento, um casamento também muito mediático -- mas, claro, mediático à nossa escala. Entretanto, já me enviaram fotografias dos noivos, da noiva com o seu belo sorriso e um bouquet mesmo bonito, outra com o meu mais crescido, cinco anos, dançando com a noiva, e um vídeo da minha linda menina dançando freneticamente, e fotografias de convidados super mediáticos. Mas não posso revelar aqui nada porque cumpro religiosamente com todos os preceitos do RGPD.


Mas, então, comeram que nem uns lambões: fofinhas com queijo e fiambre, crepes com chocolate e morangos, bolo de agrião coberto de chocolate (novidade a partir de receita que a fisioterapeuta que lá vai a casa tratar do meu pai deu à minha mãe), palitos de bolacha crocante.

Eu tentei moderar a gula mas acabei por ceder. São as muitas excepções que, sem querer, vou abrindo que não me deixam voltar ao 38. Mas vida sem a gente ceder às tentações tem alguma graça? Eu acho que não. Nasci para pecar.